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[DEVOCIONAL] John Piper – Justificados, Mas Não Perdoados?

Justificados, Mas Não Perdoados?

A diferença entre a ira judicial e o desprazer paternal

Como podemos ser justificados pela fé e, apesar disso, precisarmos continuar confessando nossos pecados, todos os dias, para que sejamos perdoados? Por um lado, o Novo Testamento nos ensina que, quando cremos em Cristo, a nossa fé é atribuída como justiça (Romanos 4.3,5-6); a justiça de Deus é imputada a nós (Filipenses 3.9). Em Cristo, permanecemos diante de Deus como pessoas justas, e aceitas, sim, e “perdoadas”, conforme Paulo afirmou: “É assim também que Davi declara [em Salmos 32.1] ser bem-aventurado o homem a quem Deus atribui justiça, independentemente de obras: Bem-aventurados aqueles cujas iniqüidades são perdoadas, e cujos pecados são cobertos” (Romanos 4.6-7). Portanto, na mente de Paulo, a justificação envolve a realidade do perdão.

Contudo, por outro lado, o Novo Testamento também ensina que o nosso perdão contínuo depende da confissão de nossos pecados. “Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda injustiça” (1 João 1.9). Confessar os pecados é uma parte do andar na luz, que temos de praticar, a fim de que o sangue de Cristo continue a purificar-nos de nossos pecados — “Se, porém, andarmos na luz, como ele está na luz… e o sangue de Jesus, seu Filho, nos purifica de todo pecado” (1 João 1.7). E Jesus nos ensinou a orar diariamente: “Perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós temos perdoado aos nossos devedores” (Mateus 6.12).

Então, como devemos nos ver em relação a Deus? Todos os nossos pecados já estão perdoados ou são perdoados dia após dia, à medida que os confessamos? A justificação significa que todos os pecados — passados, presentes e futuros — estão perdoados no caso das pessoas justificadas? Há outra maneira de vermos os nossos pecados em relação a Deus? Ouçamos, primeiramente, o pastor e teólogo Thomas Watson, que viveu há 350 anos.

Quando percebi que Deus perdoa todos os meus pecados, entendi que isso se referia a pecados passados, uma vez que os pecados por vir são perdoados somente quando nos arrependemos deles. Na verdade, Deus já decretou o perdão desses pecados. E, quando Ele perdoa um pecado, perdoará, no devido tempo, todos os outros. Mas os pecados futuros não são realmente perdoados até que nos arrependamos deles. É absurdo pensar que o pecado é perdoado antes de ser cometido…

A opinião de que os pecados futuros, bem como os pecados passados, são perdoados remove e anula a intercessão de Cristo. Ele é um advogado que intercede em favor de pecados cotidianos (1 João 2.1). Mas, se o pecado é perdoado antes de ser cometido, existe alguma necessidade da intercessão diária de Cristo? Que necessidade tenho eu de um advogado, se o pecado é perdoado antes de ser cometido? Portanto, embora Deus perdoe, no caso do crente, os pecados passados, os pecados vindouros não são perdoados, enquanto não há arrependimento renovado (Body of Divinity,Grand Rapids: Baker Book House, 1979, p. 558).

Watson está correto? Depende. Sim, creio que podemos aceitar esse ponto de vista sobre o perdão, se tivermos em mente, com firmeza, o fato de que o preço, o fundamento e a garantia de todo o perdão (de pecados passados, presentes e futuros) foi a morte de Cristo, de uma vez por todas. A ambigüidade surge com a pergunta: quando obtemos o perdão para todos os pecados que cometeremos? Essa pergunta significa: quando o perdão foi comprado e garantido para nós? Ou significa: quando o perdão será aplicado a cada transgressão, de modo que remova o desagrado de Deus para com ela? A resposta à primeira pergunta poderia ser: na morte de Cristo. A resposta à segunda pergunta: na renovação de nosso arrependimento.

Isso levanta outra pergunta: Deus sente desprazer em relação a seus filhos justificados? Se isto é verdade, que tipo de desprazer é este? É o mesmo que Deus sente em relação aos pecados dos incrédulos? Como Deus vê os nossos pecados diários? Ele os vê como transgressão de sua vontade, que O entristece e O deixa irado. Contudo, essa tristeza e essa ira, embora motivadas por responsabilidade e culpa autênticas, não é a “ira judicial”, utilizando a expressão de Thomas Watson. “Embora o filho de Deus, após receber o perdão, possa incorrer no desprazer de seu Pai celestial, a ira judicial de Deus é removida. Ainda que Deus possa usar a vara, Ele já removeu a maldição. As correções podem sobrevir aos santos, mas não a destruição” (Body of Divinity, p. 556).

Deus também vê nossos pecados como “cobertos”, e não como “imputados”, por causa do sangue de Cristo (Romanos 4.7-8). Assim, de um modo paradoxal, Ele vê nossos pecados como portadores de culpa (que causam tristeza e ira) e, ao mesmo tempo, como pecados que já têm o perdão garantido (embora ainda não perdoados, no sentido da reação de Deus à confissão e da remoção do seu desprazer paternal). O que causa a distinção entre a ira judicial de Deus para com os pecados ainda não confessados dos incrédulos e o desprazer dEle para com os pecados não perdoados dos crentes? A diferença é que o crente está unido a Deus, em Cristo, mediante uma nova aliança. A promessa desta aliança é que Deus jamais deixará de fazer-nos o bem e jamais permitirá que O abandonemos, mas sempre nos trará à confissão e ao arrependimento. “Farei com eles aliança eterna, segundo a qual não deixarei de lhes fazer o bem; e porei o meu temor no seu coração, para que nunca se apartem de mim” (Jeremias 32.40).

Este compromisso da nova aliança foi comprado por Cristo para nós (Lucas 22.20) e aplicado por meio da fé, de modo que, embora incorramos no desprazer de Deus, nós, que somos justificados pela fé, nunca incorremos na ira judicial de dEle, por toda a eternidade. Em outras palavras, visto que o perdão de todos os nossos pecados foi comprado e garantido pela morte de Cristo, Deus está plenamente comprometido em trazer-nos de novo ao arrependimento e à confissão, tão freqüentemente quanto necessário, a fim que recebamos o perdão e o desfrutemos na remoção do seu desprazer paternal. Nosso Pai se compraz em restaurar-nos à sua satisfação, até que essas restaurações não sejam mais necessárias.


Devocional extraído do livro Provai e Vede, de John Piper.

Copyright: © Editora FIEL

Permissões: a postagem de trechos deste livro foi realizada com permissão da Editora Fiel. Se você deseja mais informações sobre permissões contate-os.

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  • ari filho

    Graças a Deus em Cristo que nos tem perdoaodo de nossos pecados passados,presentes e futuros mediante o arrependimento.É bom ser filho de Deus pela adoção do Seu Santo Espírito.

  • Thiago Azevedo

    Que palavras doces do Pr John
    é muito bom ler palavras sábias e verdadeiras.

    Deus os abençoe

  • Victor Renan

    Confesso que me esclareceu muita coisa esse texto, esse livro parece ser bom. :)

  • http://MENSEGEM Jose Eymard Jacintho

    Muito esclarecedor.

  • Carlos Vega

    Realmente esse texto é muito esclarecedor. Já ouvi pastores dizendo que devido a justificação, não ser necessário mais o arrependimento. Mas essa afirmação contraria o texto de 1Jo 1.9. Entendo que a justificação retira apenas a nossa culpa diante de Deus nos tornando “justos”; pois Deus não ouve pecadores (Jo 9.31).

  • vinimaceio

    Muito jóia a palavra do Pastor. Realmente o perdão está garantido, porém é mediante o arrependimento que o perdão se concretiza. Jesus deu a todos os que o receberam (Jo 1:12) tudo o que diz respeito a vida e a santidade. Os que não O recebem também não usufruem do perdão, nem da vida eterna. O arrependimento é produzido por Deus! É a benignidade dEle que nos conduz ao arrependimento (Rm 2:4). Quando alguém está arrependido (genuinamente) mostra que Deus está atuando em seu coração e lhe dando a bênção da obra redentora de Cristo. Quanto aos que foram salvos (genuinamentie), toda vez que pecarmos devemos nos arrepender, não continuando no pecado, e confessar. Assim o perdão se renova. Quem não tem arrepnedimento também não tem perdão! A obra de Cristo é justa! A graça de Cristo não é impura! Ninguém se engane pensando que uma vez perdoado, sempre será, mesmo sem arrependimento. Seria brincar com a graça de Cristo. Aqueles que foram salvos serão conduzidos novamente ao arrependimento. Aí então, não devemos resistir ao Espírito Santo. Devemos nos render e deixar Sua obra operar em nós.
    Agora, uma pergunta que vai além do que o amado Pastor falou. Onde fica o texto de Tiago 5:16 na vida prática da igreja atual. Cadê a prática de confessar uns aos outros os nossos pecados?

  • ivson

    cara muito bom mesmo,John PiPer é uma homen de Deus!

  • ivson

    cara muito bom mesmo,John PiPer é um homen de Deus!

  • http://about.me/jhonatareis Jhonata Reis

    “até que essas restaurações não sejam mais necessárias.”

    Essa é a parte que mais me tocou. Rsrs..

    Ótimo texto, e que os santos sobre a face da terra possam desfrutar cada dia mais, do perdão de Deus através de Jesus, sem rebeldia a fim de que Deus possa nos usar como vasos de honra e não de desonra.

    Abraços.

  • Uirinton

    Louvado seja Deus!

    Esse texto esclareceu a dúvida que tinha, faz mais ou menos uma semana que me pergunto como os meus pecados (passados, presentes e futuros) foram pagos totalmente por Cristo na cruz.

    ” Portanto, embora Deus perdoe, no caso do crente, os pecados passados, os pecados vindouros não são perdoados, enquanto não há arrependimento renovado “

  • Caio Pierre

    Excelente texto, assim como nos outros aritgos postados aqui, Thomas Watson fala com propriedade sobre este tema.
    Mas tenho uma dúvida. Se a condição, inserida no decreto de Deus, para o perdão dos nossos pecados que desagradam a Deus é o arrependimento (e creio firmemente que precisamos nos arrepender e continuar nos arrependendo), como lidamos com a questão dos pecados ocultos a nós mesmos(Sl. 19.12) por ignorância ou negligência?
    Como se arrepender de um pecado não consciente ou não confessado especificamente? O arrependimento pode ser genuíno quando nos arrependemos de forma geral por pecados inconscientes?

    • http://voltemosaoevangelho.com/vinipimentel/ Vini

      Piper encara a citação de Watson como restabelecimento de nosso relacionamento pessoal com o Pai. Para que a comunhão seja restaurada precisa haver arrependimento. Contudo, não deixamos de ser filhos, pois fomos adotados e perdoados legalmente de todos os pecados através da fé na obra expiatória de Cristo na cruz.
      Ou seja, legalmente, este pecado oculto já foi perdoado. E ao passo que o Espírito nos trazer a consciência devemos nos arrepender.

      Paz

      • Caio Pierre

        Obrigado pelo retorno Vini, agora compreendi.
        Que Deus continue abençoando este trabalho de vocês.

        Fraternalmente em Cristo.