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Estagnação Intelectual – Você ama a Deus com toda a sua mente? (3)

você ama a Deus com toda a sua mente?

Na primeira postagem vimos sobre como o verdadeiro saber está ligado ao amor, algo que John Piper defende em seu livro “Pense” . Já na segundadesmistificar alguns conceitos errados sobre o conhecimento, principalmente a noção de que teologia é algo frio e reservado para debates de seminários. Afinal, “teologia é o estudo da natureza de Deus – quem ele é e como ele pensa e age” – e por isso ela “é importante porque, se temos uma teologia errada, toda a nossa vida será errada”. Logo, “todos somos teólogos. A questão é se o que sabemos a respeito de Deus é verdadeiro”. Como nos alerta Joshua Harris em “Cave Mais Fundo”.

Tendo, então, tomado as devidas precauções, passemos agora para o problema: o anti-intelectualismo.

Devo ser franco com vocês: o maior perigo que ameaça o cristianismo evangélico norte-americano [e o brasileiro] é o perigo do anti-intelectualismo. A mente, em suas dimensões mais amplas e profundas, não está sendo levada suficientemente a sério. A nutrição intelectual não pode acontecer separadamente de uma profunda imersão, por vários anos, na história do pensamento e do espírito. As pessoas que estão com pressa de sair da universidade e de começar a ganhar dinheiro, ou de servir a igreja, ou de pregar o evangelho, não fazem a menor ideia do imensurável valor de gastar anos de prazer conversando com as maiores mentes e espíritos do passado, amadurecendo, aperfeiçoando e ampliando os seus poderes de pensamento. O resultado é que a arena do pensamento criativo está vazia e plenamente entregue ao inimigo. (Charles Malik, “The Other Side of Evangelism”, Christianity Today, Novembro, 1980, p. 41)

OK, talvez não seja “o” maior perigo. Mas certamente é um dos. No Brasil, o “anti-intelectualismo” ou a “estagnação intelectual” tem raízes na própria falta de educação geral, quanto em uma visão errônea de piedade, que diz que ser intelectual e ser cheio do Espírito são coisas opostas. Isso é claramente desmistificado quando vemos a vida de Paulo: altamente piedoso, altamente missionário, altamente cheio do Espírito e altamente intelectual. Suas cartas que o digam.

O historiador e teólogo David Wells chamou nossa geração atual de pastores de “os novos obstáculos”, porque abandonaram o papel tradicional de pastor como um proclamador da verdade para a sua congregação, e substituíram-no por um novo modelo gerencial que enfatiza as habilidades de liderança, marketing e administração.

Mas para reforçar a defesa de que pensar profundamente sobre Deus e viver profundamente cheio do Espírito, chamamos o testemunho de John Wesley, um dos avivalistas mais conhecidos. A questão não é se concordamos com tudo o que Wesley diz abaixo (ou em sua vida), mas sobre nos livramos da noção de que alguém pode buscar ser cheio do Espírito, sem que isso envolva sua mente.

Em um capítulo intitulado “Estagnação Intelectual”, William Lane Craig, autor de “Apologética para Questões Difíceis da Vida“, citou o conhecido avivalista John Wesley. Ele disse que em 1756, Wesley apresentou “An Adress to the Clergy” [Discurso ao Clero - John Wesley, Works, Vol. 6 , pg 217-231], textos que os futuros pastores de nosso tempo deveriam ler como parte de seu treinamento. Ao discutir o tipo de habilidades que um pastor deveria ter, Wesley distinguiu entre “dons naturais” e “habilidades adquiridas”. É extremamente instrutivo ponderar as habilidades que Wesley considerava que um ministro deveria adquirir:

1) Como alguém que se esforça para explicar a Escritura a outras pessoas, tenho o conhecimento necessário para que ela possa ser luz nos caminhos das pessoas?… Estou familiarizado com as várias partes da Escritura; com todas as partes do Antigo Testamento e do Novo Testamento? Ao ouvir qualquer texto, conheço o seu contexto e os seus paralelos?… Conheço a construção gramatical dos quatro evangelhos, de Atos, das epístolas; tenho domínio sobre o sentido espiritual (bem como o literal) do que leio?…Conheço as objeções que judeus, deístas, papistas, socinianos e todos os outros sectários fazem às passagens das Escrituras, ou a partir delas?… Estou preparado para oferecer respostas satisfatórias a cada uma dessas objeções?

2) Conheço grego e hebraico? De outra forma, como poderei (como faz todo ministro) não somente explicar os livros que estão escritos nessas línguas, mas também defendê-los contra todos os oponentes? Estou à mercê de cada pessoa que conhece, ou pelo menos pretende conhecer o original?…Entendo a linguagem do Novo Testamento? Tenho domínio sobre ela? Se não quantos anos gastei na escola? Quantos anos na universidade? E o que fiz durante esses anos todos? Não deveria ficar coberto de vergonha?

3) Conheço meu próprio ofício? Tenho considerado profundamente diante de Deus o meu próprio caráter?O que significa ser um embaixador de Cristo, um enviado do Rei dos céus?

4) Conheço o suficiente da história profana de modo a confirmar e ilustrar a sagrada? Estou familiarizado com os costumes antigos dos judeus e de outras nações mencionadas na Escritura? …Sou suficientemente (se não mais) versado em geografia, de modo a conhecer a situação e dar alguma explicação de todos os lugares consideráveis mencionados nela?

5) Conheço suficientemente as ciências? Fui capaz de penetrar em sua lógica? Se não, provavelmente não irei muito longe, a não ser tropeçar em seu umbral… ou, ao contrário, minha estúpida indolência e preguiça me fizeram crer naquilo que tolos e cavalheiros simplórios afirmam: “que a lógica não serve para nada?” – Ela é boa pelo menos…para fazer as pessoas falarem menos – ao lhes mostrar qual é, e qual não é, o ponto de uma discussão; e quão extremamente difícil é provar qualquer coisa. Conheço metafísica; se não conheço a profundidade dos eruditos – as sutilezas de Duns Scotus ou Tomás de Aquino – pelo menos sei os primeiros rudimentos, os princípios gerais dessa útil ciência? Fui capaz de conhecer o suficiente dela, de modo que isso clareie minha própria apreensão e classifique minhas ideias em categorias apropriadas; de modo que isso me capacite a ler, com fluência e prazer, além do proveito, as obras do Dr. Henry Moore, “A Busca da Verdadede – de Malenbranche”, “A Demonstração do Ser e dos Atributos de DEUS – do Dr. Clark?” Compreendo a filosofia natural? Tenho alguma bagagem de conhecimento matemático?… Se não avencei assim, se ainda sou um noviço, que é que eu tenho feito desde os tempos em que saí da escola?

6) Estou familiarizado com os Pais da Igreja, aqueles veneráveis homens que viverem aqueles tempos, aqueles primeiros dias? Li e reli os restos dourados de Clemente de Roma, de Inácio de Antioquia, Policarpo, dei uma lida, pelo menos rápida nos trabalhos de Justino Mártir, Tertuliano, Orígenes, Clemente de Alexandria e de Cipriano?

7) Tenho conhecimento adequado do mundo? Tenho estudado as pessoas (bem como os livros), e observado seus temperamentos, máximas e costumes?…esforço-me para não ser rude ou mal-educado…sou afável e cortês para com todas as pessoas? Se sou deficiente mesmo nas capacidades mais básicas, não deveria me arrepender frequentemente dessa falta? Quão frequentemente…tenho sido menos útil do que eu poderia ter sido!

É notável essa perspectiva de Wesley de como deve ser o pastor: Um cavalheiro, hábil nas Escrituras, conhecedor da história, da filosofia e da ciência do seu tempo. Quantos pastores graduados em nossos seminários se enquadrariam nesse modelo?

O historiador e teólogo David Wells chamou nossa geração atual de pastores de “os novos obstáculos”, porque abandonaram o papel tradicional de pastor como um proclamador da verdade para a sua congregação, e substituíram-no por um novo modelo gerencial que enfatiza as habilidades de liderança, marketing e administração.

Como resultado, a igreja tem produzido uma geração de cristãos para os quais a teologia e irrelevante e cujas vidas fora da igreja praticamente não difere em nada da dos ateus.

Wells queixa-se de que essa geração de pastores-gerentes, tem maltratado e despreparado a igreja, pois ela tem se tornado cada vez mais vulnerável a todas as seduções da modernidade, exatamente porque não ofereceram a alternativa, que é uma vida centrada em Deus e sua verdade.

 Extraído de William L. Craig – Apologética para Questões Difíceis da Vida, pg 25-26 – Vida Nova

Visto em: http://carlosbezerra77.blogspot.com/2011/09/estagnacao-intelectual.html

Você pode ler uma tradução do texto completo de Discurso ao Clero aqui.

  • Pablo Guilherme

    Realmente, este texto é profundo e faz refletir muito sobre minha vida e o que eu tenho feito ou estou fazendo para o Senhor. Ter desejo de fazer a obra de Deus não significa necessariamente que eu possa estar preparado para tal ofício, mas concerteza se fomos chamados e vocacionados por Deus, temos que nos preparar, ou seja, adquirir conhecimento de Deus e uma vida de oração, só assim, teremos êxtio em proclamar as verdades insondáveis do Senhor.

  • Roberto Aprigio G. dos Santos

    Esse artigo nos mostra o quanto precisamos melhorar na nossa educação teologica. Deus quer homens de Deus, de coração quebrantado, vida santa e mente brilhante.

  • Carlos Ribeiro Jr.

    Seguindo a definição de teologia que foi dado, somos todos teólogos.
    Mas não acho que isso seja verdade, e se é, algo está errado, pois deveríamos ser um corpo com muitos membros.. não o vários braços, ou vários pés. Nem todos serão profundos conhecedores de várias coisas, inclusive hebraico e grego. Não estou falando que essas coisas não devam ser buscadas, pelo contrário, ouvir um verdadeiro mestre pregar é fora de série. O que quero dizer é que não são todos mestres…
    Dizer que alguém é profundamente instruído em teologia significa o mesmo que dizer que essa pessoa tem um relacionamento profundo com Deus. Estuda-Lo não quer dizer conhece-Lo.
    Só acho importante falar isso porque senão invertemos valores. Fica parecendo que ter profundo conhecimento racional é pré-requisito para ter vida com Deus.

    • http://voltemosaoevangelho.com/vinipimentel/ Vini

      Carlos, concordo com você. Mas já ressaltamos isso nas postagens anteriores.

    • André Paulista

      Amém

    • Francieli

      Acho que o texto foi perfeito para a atual igreja que somos! Aliás, educado demais para tanta estupides que temos visto dentro das igrejas. Deus nos esclareça cada dia mais.

  • Josué Rodrigues

    Infelizmente os “cristãos” modernos sabem mais de novelas e futebol do que sobre o conteúdo da Palavra de Deus…

  • Diego Leite

    Realmente o “anti-intelectualismo” é preocupante!!

  • ROBERTO CLERTON

    Olá,

    Para ser um pastor ou um pregador qualificado do Evangelho lhe são necessárias todas essas qualidades,os cristãos analfabetos devem manter-se de bocas fechadas;não devem falar de Cristo para ninguém.

    Sei que ter um bom conhecimento das Escrituras é fundamental.Mas como é possível para um pobre coitado que nunca frequentou uma escola,compreender a estrutura gramatical de um texto?

    • Wesley

      Olá Roberto.

      Discordo total e completamente de você. Poderia te mostrar uma pessoa que nunca leu se quer um versículo da Biblía, por ser analfabeta, mas prega a Cristo maravilhosamente e com uma fé incrívelmente linda! Melhor do que muitos teólogos.

      • ROBERTO CLERTON

        Olá,

        Então como você explica o texto acima?

        • Wesley

          Ele fala isso aos pastores, não a todos os cristãos.

        • Gustavo

          De fato, o evangelho é e não é simples. Por hora, tratarei da simplicidade, que consiste em apelar ao senso natural e eterno de justiça no homem. Não é necessário um profundo conhecimento dos vários pontos salientados no texto para chamar um pecador ao arrependimento. A mensagem é simples: Arrependei-vos, porque está próximo o reino dos céus (Mateus 3.2). Porém, o que se segue a conversão – tanto do nosso suposto pregador, como do convertido – é um mar, um oceano de conhecimento inerrante de Deus. É preciso, sim, estar entre os objetivos da vida do homem cristão o conhecer a Deus, e por consequência (quase silogística!), dominar as sutilezas teológicas, filosóficas, o trato da ciência, os rudimentos da lógica, etc. Não será difícil, afinal, nós temos a mente de Cristo.
          A vida com o Senhor Jesus é o maior e mais sublime aprendizado que jamais qualquer homem irá experimentar. Os apóstolos são um claro e irrefutável exemplo dessa conduta:
          Então eles, vendo a ousadia de Pedro e João, e informados de que eram homens sem letras e indoutos, maravilharam-se e reconheceram que eles haviam estado com Jesus (Atos 4.13).
          Ser convertido pelo Senhor significa, também, ser convertido de estúpido a sábio.
          Ps: Antes de sair em defesa dos pobres ignorantes que não dominam a estrutura gramatical de um texto, pontue direito essas frases, menino!

          • Gustavo

            Ai, trave no olho! Por ora* haha