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Yago Martins – Graça e Conhecimento

“Crescei na graça e conhecimento de nosso Senhor e Salvador, Jesus Cristo.”
(II Pedro 3.18)

A bíblia manda que cresçamos em graça e em conhecimento (II Pe 3.18). Isso é mais que óbvio, já que até Jesus crescia nestes dois aspectos da vida cristã (Lc 2.52) e manifestou seu ministério com esses dois atributos bem visíveis (Jo 1.14). Sabendo disto, não quero falar sobre os benefícios de obedecer este mandamento, que são muitos. O que eu desejo falar neste artigo é sobre a medida de empenho que empregamos em cada um desses dois aspectos da vida cristã. Quero falar sobre a medida da Graça e a medida do Conhecimento que buscamos adquirir.

O que é muito prejudicial nos dias de hoje é que as pessoas não buscam crescer nestes dois atributos de uma maneira saudável e bem medida. O que mais acontece hoje é que as pessoas ou buscam exclusivamente a graça ou buscam exclusivamente o conhecimento. Poucos são os que buscam de um modo sóbrio desenvolver a graça e o conhecimento equivalentemente, sem focalizar excessivamente um ou o outro.

A Graça e o Conhecimento devem crescer sempre juntos. O desenvolvimento de um desses em detrimento do outro pode ser desastroso. Se, por algum motivo, um bom cristão passa a ignorar a graça de Deus (mesmo sem perceber) e começa a mergulhar em um estudo apenas intelectual das escrituras, por um tempo ele será edificado, mas com o passar dos dias, ele pensará que está crescendo em conhecimento, mas, na verdade, ele está apenas vivificando seu raciocínio carnal para interpretar a Palavra e Deus. Com isso, ele acabará se tornando um escravo da erudição. Na melhor das hipóteses, ele será servo de uma ortodoxia morta.

No outro lado, quando ele se entrega às manifestações da graça de Deus e ignora o estudo teológico das escrituras, por um tempo curto ele estará atuando de acordo com o poder de Deus, mas, rapidamente, perderá o guiar do Espírito Santo manifesto através da Palavra de Deus. Achando que está crescendo na Graça, estará crescendo na sua própria emoção e em manifestações anti-bíblicas.

Temos que analisar nossas vidas e ver se estamos realmente de acordo com a Palavra de Deus. Precisamos nos examinar para saber se estamos crescendo de um modo saudável na Graça e no Conhecimento do nosso Senhor Jesus. “Examine-se, pois, o homem a si mesmo.” (I Co 11:28).

Em relação ao conhecimento, o tempo que passamos orando antes de estudar as Escrituras nos mostra se a nossa confiança está em Deus ou na carne. Se oramos pouco para que Deus nos ilumine, isso mostra que confiamos no nosso próprio raciocínio e erudição para interpretar as escrituras, e com certeza nos tornaremos escravos de nossa própria mente carnal. Quando oramos profundamente a Deus suplicando que Ele nos dê o conhecimento e a interpretação correta de cada verso, isso mostra que confiamos em Deus para nos dar o conhecimento correto da sã doutrina. Isso é que representa um estudo teológico saudável. Como dizia Lutero: “Orar bem é a melhor parte dos estudos.[1]”

Outro ponto que mostra se somos escravizados pela teologia vã é quando nos tornamos como os doutores da Lei, os quais Cristo combateu vorazmente. Estudando, mas não praticando. Pregando, mas não vivendo. Atando fardos, mas sem levantá-los (Lc 11.45-52). Iguais àqueles que gritam “Senhor! Senhor!”, mas que praticam a iniquidade (Mt 7.21-23). Achando que conhece a Deus, mas vivendo uma mentira (I Jo 2.4). Esse ponto é muito importante e devemos ressaltá-lo bem.

Após nos lembrar que o reino de Deus não consiste em palavras, mas em virtude (Mt 23:3; I Co 4:20), John Bunyan, em O Peregrino[2], nos expõe a vida de um falso mestre chamado Loquaz:

“[Ele] Fala da oração, do arrependimento, da fé, do novo nascimento, mas nada disso sente; não faz mais do que falar. […] Não há ali [em sua casa] oração nem sinal algum de arrependimento do pecado. […] [Ele] é a própria nódoa, opróbrio e vergonha da religião, para todos os que o conhecem (Romanos 2:23-24).”

Não é essa a vida de muitos que dizem seguir a Cristo? Não é assim que se comportam muitos dos que até são chamados pastores? Como somos enganados quando achamos que Por conhecer as doutrinas bíblicas nós seremos redimidos no dia do Julgamento de Cristo. Bunyan continua:

“[…] Assim como o corpo sem a alma não é mais do que um cadáver, a alma da religião é a parte prática. “A religião, pura e sem mácula aos olhos de Deus e nosso Pai, consiste nisto: em visitar os órfãos e as viúvas nas suas aflições, e em se conservar cada um a si isento da corrupção desse século.” (Tiago 1:27). Loquaz não o entende assim; julga que o ouvir e o falar é que fazem o bom cristão; e assim traz enganada a sua própria alma. O ouvir não é mais do que semear a palavra, e o falar não é bastante para demonstrar que há fruto, realmente, no coração e na vida. E devemos estar bem seguros de que, no dia do juízo, serão todos julgados segundo os frutos que houverem produzido (Mateus 25:31-46). Não se lhes perguntará: Creste? Mas sim: Praticaste? E nesta conformidade será o julgamento. Por isso é o fim do mundo comparado à sega da seara (Mateus 13:18-23), E tu sabes perfeitamente que o segador não considera senão os frutos.”

É exatamente isso que deve tomar conta da nossa vivencia Cristã. Não apenas conhecer a sã doutrina, mas vivê-la! Que possamos ser como um animal limpo, como foi apresentado por Deus a Moisés (Lv 11; Dt 14) e é representado ainda por Bunyan:

“[…] [O animal limpo] é naquele que tem as unhas fendidas e que remói; uma só destas qualidades não basta para a classificação. A lebre remói mas é imunda, porque não tem unhas fendidas. Assim acontece com o Loquaz: remói, busca conhecimentos, rumina a palavra, mas não tem as unhas fendidas; não se aparta do caminho dos pecadores; mas, à semelhança da lebre, tem patas de cão ou de urso, portanto, imundo.

Já em relação à Graça de Deus, a nossa preocupação em analisar biblicamente cada experiência que temos com Deus nos mostra se somos escravos da emoção ou não. Quando conferimos cada manifestação, revelação ou profecia à luz da palavra, isso mostra que buscamos estar pautados pela palavra de Deus. Já quando vivemos experiências ou recebemos uma palavra revelada de Deus e não as colocamos sob a luz da Escritura, isso mostra que experiências são mais importantes que a sã doutrina, tal coisa nos fará escravos de momentos.

Quando isso acontece, nos casos mais graves, algumas pessoas passam a colocar a palavra num nível inferior ao das profecias e revelações. No lugar de analisar as experiências diante da bíblia, tentam interpretar a Palavra de Deus sujeitando-a às revelações. Isso foi o que deu início a muitas das seitas que existem hoje. Toda profecia, não importa de quem venha, quando não está de acordo com a Santa Palavra de Deus, é anátema (Gl 1.8).

Um fator que nos mostra se estamos crescendo igualmente na graça e no conhecimento de Deus é observado na nossa disciplina em relação à pregação. Pessoas que buscam unicamente o conhecimento são aquelas que estudam a palavra buscando, prioritariamente, algo para ministrar. Quem assim age é como um homem usando um balde para retirar de um rio a água da vida e, com esse balde cheio, joga dessa água nas pessoas. Esse homem mal pode perceber que, fazendo isto, ele está seco dessa água. E algum casos, achando que está indo no rio da água da vida, o homem pode estar tirando lama de um rio imundo e jogando nas pessoas sem se dar conta, pois não provou antes da água que dava.

Já quem busca a graça muito além do conhecimento age no extremo oposto. Quando tal homem vai ministrar a Palavra de Deus, pouco há de preocupação em relação à exposição bíblica em detrimento de uma ênfase doentia nos dons. Tal homem é alguém que sequer chega próximo do rio que possui águas vivas e espera que Deus faça fluir rios do seu interior.

Quando crescemos na graça e no conhecimento, buscamos tanto estudar profundamente as escrituras quanto orar e confiar em Deus. É quando agimos de um modo onde a plenitude de Deus pode estar operante em nós que mostramos se estamos ou não extremando um desses atributos e esquecendo o outro. É quando usamos nossa mente para entender a Palavra e oramos para que Deus opere nos corações. Como expôs Jonathan Edwards[3]:

Os Hipócritas […] são como Efraim na antiguidade, de quem Deus reclamou muito e disse: ‘Efraim é um bolo que não foi virado.’ (Os 7.8). Ou, como diríamos, meio cru.”

É exatamente isso que devemos evitar. Não podemos ser ‘queimados’ demais de um lado e ‘crus’ do outro. Devemos sempre buscar crescer mais e mais em cada uma dessas duas atuações cristãs. Não nego que sempre haverá irmãos com um ministério mais enfático em um ponto ou outro, mas isso não deve ser em níveis desproporcionais. Nunca alguém por ter um ministério que enfatiza a Graça e o Poder de Deus pode andar longe da Palavra. Nem alguém que é usado por Deus como Mestre nas escrituras pode viver sem ter uma real intimidade com a manifestação do Espírito Santo. Embora cada um expresse Cristo de uma forma que os outros não podem, contribuindo para o equilíbrio da expressão coletiva de Cristo, a expressão individual deve ser equilibrada também.

Cresçamos tanto na Graça quando no Conhecimento. Que nunca estejamos parados ou inertes, mas sempre buscando orar a Deus para que Ele possa multiplicar suas virtudes em nós. Como grita Vinicius M. Pimentel[4]:

“Tristes dias, o tempo em que os reformados precisam de renovo e os renovados precisam de reforma e eu, de ambos!”

Oro para que Deus possa tocar nos nossos corações para que cresçamos tanto na Graça quando no Conhecimento do nosso Senhor Jesus Cristo.

“Graça e paz vos sejam multiplicadas, pelo conhecimento de Deus, e de Jesus nosso Senhor” (II Pe 1.2)

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1 Citado por Orlando Boyer, no livro Heróis Da Fé, publicado no Brasil pela CPAD (Casa Publicadora das Assembléias de Deus).
2 O peregrino, Escrito por John Bunyan em 1678 (além de A Peregrina, em 1680), é uma obra que tem influenciado Cristãos do mundo todo. Você pode adquirir esse livro pelas editoras: Martin Claret, Mundo Cristão, Central Gospel.
3 Uma Fé mais Forte que as emoções, Escrito por Jonathan Edwards e Editado por James M. Houston. Publicado pela Editora Palavra.
4 Vinicius Musselman Pimentel, fundador do blog Voltemos ao Evangelho. Conheça mais em www.voltemosaoevangelho.com



Autor: Yago Martins, colaborador do Voltemos ao Evangelho
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17 Comentários
  1. Anonymous Diz

    Este texto me acordou, estava me transformando em um erudito, e infelizmente me tornando uma pessoa orgulhosa.
    Deus me perdoe das minhas iniquidade.
    Que a Tua graça seja abundante em minha vida, e que o conhecimento nao desfaleça.

    Obrigado pelo texto, fiquei com uma dúvida quanto ao autor, foi o Vinicius ou o Yago que escreveu o texto ?

    (Esta é minha primeira postagem, já acompanhava o blog há muito tempo, aproximadamente uns 6 meses. Já que não posso colaborar com as traduções, já coloquei o link do blog no meu orkut, e agora vou ajudar nos comentarios. Obrigado)

    Graça e Paz.

  2. Guilherme Diz

    Desculpe por postar anonimo, mas sou Guilherme Stetelle Martins, obrigado

  3. Biri Diz

    Valeu Deus por ter me alertado antes mesmo de me perder no conhecimento e me esquecer da graça!
    Valeu pessoal do voltemos ao evangelho!

  4. Jorge Fernandes Isah Diz

    Vinícus,

    muito boa postagem. Realmente o Cristianismo bíblico não é apenas teoria mas prática. Como você apontou bem, a doutrina somente se mostrará eficiente se ela render frutos para a glória de Deus. Portanto, o Cristianismo bíblico é para ser vivido, ser testemunhado. Isso não quer dizer que a doutrina deve ser posta de lado, pois, sem a correta compreensão dos princípios escriturísticos, o nosso testemunho e viver serão falsos, representando esterilidade, não produzindo frutos igualmente.

    Grande abraço!

    Cristo o abençoe!

  5. Mateus Monedeiro Diz

    Olá,

    Eu tenho baixado muitos vídeos aqui do VE. E alguns tenho passado para DVD. Porém, a mensagem do Paul Washer, 10 acusações, está em 13 partes. Entre uma parte e outra tem os dados do site e da parte da pregação. Gostaria de saber se eu tenho liberdade de cortar esses dados entre as partes, por uma questão de continuidade, e deixar as apresentações e autoria da fonte na primeira e última parte.

    Grato,

    Mateus

  6. (-V-) Diz

    Guilherme,
    O autor é o Yago, amado irmão e colaborador do VE.

    Mateus,
    Sim, você pode. Logo iremos disponibilizar um DVD do PW com 3 pregações completas dele.

    Abraços,
    Vini

  7. Mateus Monedeiro Diz

    Obrigado pelo esclarecimento irmão. Estou ansioso pela chegada desse DVD ao site.

    Abraços

  8. Cleiton Diz

    Glorias ao Santo Senhor!!!

    ótimo texto, abençoado. Foi muito util pra mim!
    Eu estava me aprofundando em conhecimento e esquecendo-me da Graça!
    Parabéns!
    Glória à Deus!

  9. Gianne N. das Almas Diz

    Excelente artigo, a melhor explanação sobre o assunto que já li…
    Realmente coloca de uma forma clara, para que todos entendam, muito impotante para mim. É comum nós nos atermos em determinadas "disciplinas" cristãs e esquecermos de outras, ou não nos dedicarmos com o mesmo entusiasmo, o que nos faz "crescer" de maneira desproporcional e, muitas vezes, não crescer…
    Muito bom mesmo! Parabéns ao autor, e ao blog, que tem me ajudado grandemente!

  10. Anonymous Diz

    Texto muito bom que enfatiza aquilo que muitos reformadores piedosos como Calvino, Lutero, John Knox, e outros sempre enfatizaram: Orare et Laburate ( Oração e Trabalho ou Graça(oração) e conhecimento(muito trabalho nas escrituras, reverenciando-a como ela mereçe por ser a palavra de Deus).

    Esse texto falou muito comigo.

    Só a Deus a glória.

  11. Pedro Diz

    Esse texto pode ser copiado no word e depois ser impresso?

    Muito bom esse texto, pois concordo com que o anônimo logo aqui acima disse.

  12. (-V-) Diz

    Pedro,

    Sim.

    Paz

  13. americo santos Diz

    Irmão Vini! Deus abençõe ricamente seu ministério. Gostaria que muitos fundamentalistas e petencostais lêem-se este artigo, e quem sabe assim,
    chegassem a esse equilíbrio tão maravilhoso e santo, que se faz tão necessário nas nossas vidas de cristão, pois até a justiça de Deus não é o extremo da direita ou da esquerda, mas a retidão do equilíbrio divino.

  14. info.iran86 Diz

    A elucidação é brilhante! Alguns teólogos deveriam tomar conhecimento disso também!

    Que a constância e o equilíbrio em buscar o conhecimento e praticar a palavra permaneçam em nossas vidas enquanto vivermos!

    Graça e Paz!

  15. Francisco Neto Diz

    Excelente! Parabéns pessoal.

    A paz pra vcs.

  16. Eliton Thomas Olimpyo Diz

    é muito bom quando optamos em buscar a Deus com equilibrio e serenidade não com exageiro em determinada partes para que possamos sintonizar a boa e perfeita vontade de Deus, parabéns Yago Martins. colaborador de voltemos ao evangelho.

  17. Marcos Antonio Duzi Diz

    maravilhosos ensinamentos

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