Botânica, jardins, um agricultor e a Teologia Bíblica

Estava em minha casa lendo a Bíblia e disse: Eureka! A Bíblia é um livro sobre botânica! Mas vou tentar explicar logo, porque você pode me achar uma pessoa estranha só pelo título.

No início, Deus plantou um jardim e um jardim é um lugar com árvores! Claro que sim! A história diz que, neste jardim, havia duas árvores importantes: a árvore da vida e a árvore do conhecimento do bem e do mal. O casal que o Senhor criara e pusera no jardim, comeu do fruto que Deus havia ordenado que não comessem. A consequência foi devastadora. Essa parte da história ficou conhecida, pelos teólogos, como Queda.

Por causa da desobediência os seres humanos morreram espiritualmente, foram afastados de Deus. Eles também se afastaram um do outro, ou seja, seu relacionamento já não era mais o mesmo. Também romperam relacionamento com o restante da natureza; por fim, os seres humanos romperam relações dentro de si mesmos. Não conseguimos nos controlar, pensamos uma coisa e fazemos outra, tentamos melhorar e pioramos cada dia mais. Fomos separados de nós mesmos.

Expulsos do jardim, o primeiro casal não podia mais se aproximar da árvore da vida. Essa árvore foi reservada para milênios depois.

Tempos depois, Noé, já após o diluvio, plantou várias árvores que foram mal usadas por ele. Plantou uma vinha e do seu fruto se embriagou (Gn 9.20, 21), por conta desse incidente, um dos filhos de Noé chamado Cam, viu a nudez de seu pai. Cam foi amaldiçoado junto com toda sua descendência (Gn 9.24-27).

Quando continuei lendo percebi que Deus constituiu um povo para si a partir de um homem chamado Abraão. Ele funcionou como uma espécie de semente para uma árvore enorme. A árvore apareceu em forma de um povo, os hebreus, mais tarde israelitas. E como “a Bíblia é um livro de botânica e sobre árvores”, ela mesma dá essas características a Israel.

Um salmista escreveu que Deus trouxe “uma vinha do Egito; lançaste fora os gentios, e a plantaste” (Sl 80.8). Este povo que saiu da semente chamada Abraão é retratado como uma árvore, como uma vinha plantada pelo próprio Deus. Deus a retirou de um lugar e replantou noutro lugar melhor.

Esta árvore deu muito trabalho ao bom dono da vinha. Ele pensou várias vezes em desistir de cuidar dela, de protege-la e de adubá-la. Por meio de um de seus ajudantes ele disse, de modo poeticamente frustrado:

O meu amado tem uma vinha num outeiro fértil. E cercou-a, e limpando-a das pedras, plantou-a de excelentes vides; e edificou no meio dela uma torre, e também construiu nela um lagar; e esperava que desse uvas boas, porém deu uvas bravas. Que mais se podia fazer à minha vinha, que eu lhe não tenha feito? (Is 5:1,2,4).

Depois de muitas tentavas de se lidar amorosamente com a árvore e tudo que ela significava, o dono da vinha cumpriu o que vinha prometendo. Quando o castigo estava no seu auge, o dono da vinha falou mais uma vez com um dos servos. “E agora está plantada no deserto, numa terra seca e sedenta” (Ez 19:13). A vinha estava num lugar desolado. Ela para nada mais prestava. Não deu os frutos esperados. Seu fim estava próximo.

Se o dono da vinha não tivesse um plano desde sempre para esta árvore que ele tanto amava, a Bíblia toda não faria nenhum sentido. Não haveria esperança nem para mim nem para você que está lendo. Junto das palavras de castigo, o dono dessa planta brava sempre dava sinais de esperança.

Realmente havia esperança para mim e para você. A planta foi cortada, parecia morta, mas sobrou um toco. Ele poderia ser invisível a todos os empregados da vinha, mas ele estava lá e o dono da vinha sabia. Ele havia preparado tudo. Em sua ira, ele cortou a planta, mas deixou algo que só ele podia ver.

Desconfiado, achei que se tratava de uma nova planta que brotou da anterior. Alguma parte da vinha brava estava se desenvolvendo. A despeito de ser uma fagulha de esperança, não era bela nem formosa; não chamava atenção, mas dessa vez vingaria.

Desde o início eu sabia que a planta era Israel, cuja semente havia sido Abraão. Mas e agora, quem era esta planta que estava subindo? Seria a mesma? Não faria sentido já que ela nunca rendeu nada de bom! Mas a semente, seria a mesma? Aí tive de concluir que, nesse caso, sim, afinal de contas, a raiz não fora arrancada, só a árvore havia sido cortada.

Meu curto raciocínio pensou noutro povo que iria surgir, mas não aconteceu isso. Quanto mais lia a Bíblia, mais via o mesmo povo, a mesma árvore, os mesmos pecados, o mesmo “tudo”. Aí fui sendo conduzido pelos servos do dono da vinha a uma nova realidade. E se apenas um galho da árvore fosse perfeito e rendesse o fruto esperado pelo dono da vinha?

Para o meu espanto, a resposta foi positiva. Essa plantinha que subiu de uma terra seca era aquele que representava toda a planta. Era bem menor. Tão simples que, qualquer um que o visse, não ligaria, na verdade, o desprezaria.

Ela poderia ser desprezada, mas seria abençoada mais que todas as outras plantas. Essa planta, verdadeira representante de todo o povo, nasceu e também começou a falar de plantas. Ele falou de grãos de mostarda que viram grandes árvores (Mt 13.31); discorreu sobre figueiras cujo dono se frustrou quando foi ver se havia fruto nela (Lc 13.6). Dessa planta verdadeira nasceu uma nova planta, dessa vez mais forte. Ela ainda tem fraquezas, mas tem a promessa que não será destruída. O Novo Testamento a chama de Igreja de Jesus. E o próprio Jesus disse que ele é a videira verdadeira, o Pai dele – de quem falamos tanto –, continua sendo o agricultor

Bem, eu e minha Bíblia continuamos juntos e, no final dela, descobri que a nova e perfeita planta, Jesus, tem muitos galhos que permanecerão nela para sempre: sua igreja. Quando estivermos para sempre com ele, lá estarão outras plantas, outras árvores. E a árvore do início da história também estará lá! Aquela árvore cujo fruto foi deixado de lado pelos nossos primeiros pais. A árvore da vida estará lá, no paraíso, no meio do jardim de Deus, como sempre esteve (Ap 2.7).

Por: Murilo Morais. © Voltemos ao Evangelho. Website: voltemosaoevangelho.com. Todos os direitos reservados. Original: Botânica, jardins, um agricultor e a Teologia Bíblica.