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Pastores em silêncio: uma disciplina espiritual perdida

Eu passei a maior parte da minha vida adulta odiando o silêncio – mas não sabia disso. Foi um grande ponto cego. Eu desconsiderei meu desejo constante de estar com as pessoas simplesmente sendo extrovertido. Atribuí minha natureza faladora aos meus instintos relacionais intensos. Essas qualidades pareciam ajudar em minhas interações pastorais com as pessoas, então eu não pensava nisso. Não até que comecei minha própria jornada – através de aconselhamento – durante uma crise pessoal onde fui confrontado com essa decepção de longa data.

Meu conselheiro observou um comportamento em minha vida que passou despercebido pela maioria, mas tornou-se um sinal de preocupação para ele. Ele percebeu que eu fugia de estar sozinho. Ele também notou que eu ficava desconfortável com o silêncio e não sabia o que fazer com isso. Ele experimentou a forma como, muitas vezes eu dominava as conversas com minhas falas. Isso expôs minhas terríveis habilidades de ouvir, a qual o conselheiro foi sábio o suficiente para conectar com as questões do silêncio. Então ele começou a me pressionar nessa área e foi difícil. Na verdade, isso me levou a uma implosão da minha alma, mas começou um processo desesperadamente necessário de cura.

Foi através dessa jornada que aprendi que, se minhas emoções são a porta de entrada para minha alma, então é o silêncio que expõe a alma. Eu não estava pronto para enfrentar as coisas feias que haviam sido expostas. Mas Deus, em sua maravilhosa graça, encontrou-me de maneira doce e poderosa e iniciou um processo de cura que trouxe uma paz consistente à minha alma. Foi através do silêncio em um lugar quieto, meditando sobre a verdade, e em oração pedindo a ajuda do Senhor que eu experimentei este nível mais profundo da graça e presença de Deus em minha alma. É nesse mesmo lugar que todo pastor deve se expor e alcançar, com o poder da graça de Deus por nós, experimentar profundamente o seu amor e, como resultado, ter um longo ministério.

Este silêncio que estou defendendo na vida do pastor não é alguma forma de meditação secular, mas o silêncio bíblico e a solitude. Don Whitney a considera uma significativa disciplina espiritual da vida cristã. É uma quietude que nos permite crescer mais conscientes da atividade de nossa alma, como o Espírito Santo vive e trabalha em nós. É uma disciplina pela qual nós comungamos com Jesus, nos tornando mais conscientes de sua verdade e presença, e mais receptivos à sua infinita graça. O estudioso puritano Joel Beeke articula bem o tipo de meditação que promove essa experiência:

A meditação puritana envolve a mente com a verdade revelada de Deus para inflamar o coração com afeição para com Deus e transformar a vida em obediência. Thomas Hooker definiu assim: “A meditação é uma intenção séria da mente, através da qual chegamos a procurar a verdade e estabelecê-la efetivamente no coração.” A direção de nossas mentes revela o verdadeiro amor de nossos corações e, assim, Hooker disse que aquele que ama a Palavra de Deus medita sobre ela regularmente (Sl 119. 97). Portanto, a meditação Puritana não está repetindo um som, esvaziando a mente, ou imaginando visões físicas e sensações, mas um exercício concentrado de pensamento e fé sobre a Palavra de Deus.

Deus ordena que nos aquietemos e saibamos que ele é Deus (Sl 46.10). O salmista nos lembra que nossas almas devem permanecer em silêncio e esperar somente em Deus (Sl 62. 1-5). Jesus regularmente se retirava para um lugar solitário para orar e ficar quieto (Mc 1.35; Lc 5.16; Mt 14.13). O silêncio e a solitude são uma disciplina bíblica da vida cristã que todo cristão necessita. Pastores não são diferentes.

Este artigo procura não apenas chamar cada pastor à disciplina do silêncio e solitude regulares em sua vida, mas mostrar que isso é uma peça essencial para o cuidado da alma de um pastor. Primeiro, vamos considerar as razões do silêncio em nossa vida, e depois nos voltarmos para a prática de como começar a abraçá-la em meio a um ministério movimentado e ruidoso.

Razões para o silêncio

A maioria de nós pode concordar com algumas razões óbvias em relação ao silêncio, tais como: todos nós precisarmos de tranquilidade, tempo para estar concentrados, tempo a sós com Deus, tempo para orar e ler a palavra de Deus e menos distrações. No entanto, eu gostaria de mostrar quatro razões que são menos óbvias e conectá-las mais no sentido de o silêncio ser um catalisador para cuidar da alma de alguém.

1. O silêncio expõe a alma

Um mecanismo de defesa comum é usar ocupação e barulho para evitar a dor em nossas vidas. Pode ser dor não resolvida e ofensas do passado, ou pode ser um sofrimento atual. Independentemente disso, o ruído e a distração podem dar a ilusão de que esses sentimentos não existem ou que não tem força. O silêncio pode expor essa dor profunda e demonstrar sua presença inegável em nossas almas. É quando estamos quietos e silenciosos que nos tornamos mais conscientes de nossas emoções, das obcessões de mentes e da dor física que sentimos e que podem estar relacionadas ao estresse e à ansiedade.

2. O silêncio confronta as vozes

As vozes as quais me refiro são as mensagens que ouvimos sobre nós mesmos. Todos nós as temos.

Essas são as vozes daqueles que atravessam a nossa vida. São mensagens que o inimigo ama sussurrar aos nossos ouvidos. São as mensagens interpretativas daqueles que estão presentes em nossa vida. Quando essas vozes são duras, abusivas e mentem sobre nosso valor e identidade em Cristo, elas são desagradáveis e corremos delas. Essas vozes me atormentavam. Vozes abusivas do meu passado, mentiras do inimigo, e palavras dolorosas de crítica criaram essas mensagens de fracasso e autoaversão que eram especialmente altas quando eu estava sozinho. Então, eu fugia do silêncio para tentar escapar das vozes. Eu precisava de silêncio para confrontar essas vozes, para falar da poderosa verdade do evangelho contra as mentiras que ouvi e acreditei por tanto tempo. Martyn Lloyd-Jones abordou de forma notável essas vozes no contexto da depressão:

O problema principal em toda essa questão da depressão espiritual é, em certo sentido, que permitimos que o nosso eu nos fale ao invés de conversar com o nosso eu. Estou apenas tentando ser deliberadamente paradoxal? Longe disso. Essa é a essência da sabedoria nesse assunto. Você já percebeu que a maior parte de sua infelicidade na vida se deve ao fato de estar ouvindo a si mesmo em vez de falar consigo mesmo?

O silêncio nos permite confrontar a realidade de que, quando ouvimos a nós mesmos em vez de falarmos para nós mesmos e consequentemente dizer palavras duras e esmagadoras para nossas almas.

3. O silêncio nos ensina a ouvir

Foi uma descoberta problemática quando percebi que tinha sido pastor por tanto tempo e ainda assim permanecia um ouvinte pobre. Eu escutava, mas era para preparar uma resposta. Eu precisava aprender a ouvir sem precisar responder – apenas para ouvir e ter empatia. Ao começar a abraçar o silêncio, percebi que também estava aprendendo a ouvir. Comecei a ouvir ao meu redor sons que eu nunca havia notado antes. Me senti mais receptivo à mensagem da Palavra de Deus. É incrível o que acontece quando você não está preocupado em tentar descobrir o que dizer ou fazer logo em seguida. Somente ouvir.

4. O silêncio testa nossa necessidade de ruído

Eu pensava que simplesmente amava pessoas e atividades. Eu não tinha ideia de que “precisava” de barulho porque minha alma era atormentada no silêncio. Silêncio expõe a alma e pode testar o quanto dependemos do ruído para bloquear a dor de nossas vidas. Essa é uma das muitas razões pelas quais todos nós precisamos de períodos de tempo longe do nosso telefone, e-mail, mídia social e todos os dispositivos eletrônicos que criam a fonte constante de ruído nas nossas vidas. Os pastores não precisam fazer muito esforço para encontrar barulho e distração emsuas vidas. Mas o silêncio é outro assunto. Nós devemos lutar por isso. O silêncio nos desafia a enfrentar nossa dor e permitir que o evangelho penetre profundamente em nossas almas, onde encontramos a cura.  Mas como um pastor pode começar a abraçar o silêncio para cuidar de sua alma?

Abraçando o silêncio

Enquanto estava em um retiro de silêncio, encontrei essas palavras (abrace o silêncio) em uma sala dedicada ao silêncio e à solitude:

A regra do silêncio é considerada importante aqui, como um meio de garantir que não se desperdice essa preciosidade, mas exigindo um tempo de refrigério através da desaceleração e poucas conversas. As comunidades que respeitam o crescimento humano provavelmente precisam prever explicitamente a solitude, caso contrário, uma fonte potencial de enriquecimento é perdida.

Ainda que eu odiasse o silêncio, aos poucos percebi que precisava fazer “provisão explícita por solitude” em prol da minha alma. Como resultado, fui conduzido através de um processo de três etapas que me ajudou não apenas a perceber que eu precisava de silêncio, mas que me fez eventualmente ansiar por isso. Esse processo de três etapas consiste na prática diária, longos períodos de silêncio e retiros programados.

Primeiro, um pastor deve começar estabelecendo um breve período diário de silêncio. O salmista nos orienta a nos aquietarmos e saber que o Senhor é Deus (Sl 46.10). Objetivos pequenos, mas regulares, são a chave. Não subestime o valor de “cavar” cinco a dez minutos por dia em que você se senta em silêncio, sem tocar música, sem telefone tocando e sem pessoas falando. Basta sentar e se apropriar do silêncio. Esteja ciente da presença de Deus. Saiba que ele é Deus. Ore. Ouça o que está ao seu redor.

Em seguida, um pastor precisa encontrar tempo mais prolongado de silêncio. O salmista nos lembra que nossas almas devem entrar em silêncio e esperar somente em Deus (Sl 62. 1-5). Não pode ser uma espera apressada. É necessário algum tempo. Pode ser tanto uma hora por semana, quando você está longe de todo o barulho e das pessoas para ficar sozinho com Deus. Como um curto período diário de silêncio para ajudar a mantê-lo centrado para o dia, o tempo mais longo é o que eu acho mais repousante e restaurador para a minha alma. Isso geralmente acontece na minha vida nas manhãs de segunda-feira, quando saio para correr em uma trilha longe das pessoas. Depois da minha corrida, eu apenas sento-me exclusivamente com Deus, ciente de sua glória na Criação ao meu redor na floresta ou perto de uma lagoa. Eu permaneço quieto e sei que ele é Deus e eu não sou (Sl 46.10). E eu espero somente em Deus (Sl 62.1-5).

Finalmente, um pastor deve passar a programar um ou dois retiros silenciosos a cada ano. É aqui que você descobrirá como realmente se sente em relação ao silêncio. Eu fiz isso. Pode ser uma viagem noturna em algum lugar, mas não necessariamente. Tenho programado meus retiros em silêncio durante o dia em que sairei de manhã cedo e voltarei para jantar com minha família. Essa busca pelo silêncio leva o cuidado de sua alma a outro nível, pois expõe o quanto você precisa de barulho, pessoas, ocupação e distração. Um retiro de silêncio durante todo o dia irá expor muito, incluindo as coisas das quais você usa o ruído para fugir em sua vida. Meus retiros silenciosos tornaram-se um vislumbre de coisas escondidas em minha alma, das quais eu tento fugir executando as ocupações em minha vida. Todo pastor precisa de algo que o pressione em relação a essas coisas ocultas, fazendo com que ele seja confrontado com elas diante de Deus, e tempo para parar e receber sua graça e perdão.

Jesus nos libertou do poder do pecado, da vergonha e da morte e nos resgatou da ira de Deus que merecemos. É tudo pela graça por meio da fé. Nossa identidade está agora em Cristo e somos eternamente filhos adotados do verdaeiro Deus. Temos o Espírito Santo habitando em cada um de nós pela fé, tornando-nos mais parecidos com Jesus a cada dia. E, no entanto, muitos cristãos não conseguem sentir profundamente o poder da graça de Deus no evangelho. Isso inclui pastores. Foi assim comigo na maior parte do meu ministério e foi preciso uma conscientização da minha própria alma e de como ter acesso a ela para que a poderosa graça do evangelho se impregnasse naqueles lugares profundos e escuros.

O silêncio é uma ferramenta maravilhosa e um presente de Deus para trazer essa consciência. Só podemos pastorear nosso povo pelos lugares por onde passamos e vivenciamos pessoalmente. Abrace o silêncio como aquele bálsamo calmo e curador para a sua alma barulhenta e inquieta.

Por: Brian Croft. © Practical Shepherding, Inc. Website: practicalshepherding.com. Traduzido com permissão. Fonte: Pastors in Silence: A Lost Spiritual Discipline.

Original: Pastores em silêncio: uma disciplina espiritual perdida. © Voltemos ao Evangelho. Website: voltemosaoevangelho.com. Todos os direitos reservados. Tradução: Paulo Reiss Junior. Revisão: Filipe Castelo Branco.

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