Decifrando a Desconstrução de Tiago Iorc

Desde o álbum Troco Likes, Tiago Iorc é constrangido com o assunto da internet. O álbum não possui uma canção com esse nome, mas possui Alexandria e Sol que faltava. Alexandria fala sobre a quantidade de conteúdo produzida no mundo online que é perdida nesse mar de informação. Há “gente demais com tempo demais, falando demais, alto demais”. Enquanto todos estão “brincando com fogo pela atenção”, nós perdemos a razão, já que “queimamos mil bibliotecas de Alexandria”. Ele diz que precisamos refazer o caminho sozinhos, olhando para o chão, tentando encontrar a paz que a gente perdeu.

Já em Sol que faltava, o que lhe constrange não é o tanto de informação perdida nem o mar de conteúdo que tira nossa paz, mas a busca pela formação de uma imagem. Ele pergunta quando foi a última vez que saímos sem ser notados, sem nos retocarmos constantemente no Instagram. O que era apenas uma vontade de se mostrar, lançou-nos em um mar de indiferença. Assim, não lembramos mais quando foi a última vez que nos escutamos, que nos silenciamos, que fotografamos os instantes apenas com os olhos.

O álbum Troco Likes, no entanto, pareceu apenas um ensaio. Na música Desconstrução, certamente a canção mais comentada do último álbum (Reconstrução, 2019), o constrangimento de Tiago Iorc com a internet e com a vida da imagem virtual chegou no seu ápice. Ele produz uma canção que mesmo para aqueles que não são seus fãs habituais não passa desapercebida, pois é certamente um avanço em tudo aquilo que ele tem a dizer sobre internet.

Com um fraseado sagaz e peculiar, Iorc fala de uma moça que se viu pela primeira vez na tela escura do celular, e que então “saiu de cena para poder entrar” neste mundo de mídia, aliviando sua timidez. Este é um jeito muito sutil e elegante de falar da negação da própria personalidade a fim de se entregar a uma persona completamente diferente nas redes. Para isso, ela “vestiu um ego que não lhe satisfez e dramatizou o vil da rotina como se fosse dádiva divina”.  A apresentação de rotinas comuns é dramatizada para parecer algo dadivoso, divino e interessante. Forçamos vidas que não temos para recebermos atenção. O resultado, porém, é apenas um tipo diferente de solidão.

A seguir, a moça se maquia e pinta de dor a sua palidez. Mulheres geralmente não gostam de serem vistas como pálidas, e as maquiagens cobrem a brancura da pele. Essa maquiagem, no entanto, é uma pintura de dor. Por isso, ela confia a sua primeira vez – talvez uma referência à virgindade sexual – no rastro de um pai que não a via. A ausência de um pai que lhe desse cuidado e carinho gerou nela necessidades que não foram satisfeitas na internet ou mesmo com alguém real. A mãe não compreendia o passatempo de prazeres vãos. A graça escapou das mãos, e ela volta para casa vazia.

Não foi suficiente se reproduzir no mundo virtual, diz a primeira estrofe. Não foi o suficiente entregar o próprio corpo, diz a segunda. A terceira estrofe então diz que a moça se abriu nos olhos do celular, tirou de cena toda timidez e alimentou as redes de nudez. Agora, não simplesmente mostra algo de sua vida e dramatiza a sua existência comum, mas fantasia o brio da rotina e faz do seu destino se mostrar inapropriadamente. O resultado não poderia ser diferente: ela se estilhaça em cacos virtuais.

O fim da estrofe é interessante, e diz: “Nas aparências, todos tão iguais, singularidades em ruína”. Singularidade é um termo para se referir à nossa autopercepção de quem somos. Sou diferente de você porque sou singular. Por outro lado, todos somos iguais no mundo de aparências da virtualidade. Tentamos nos estabelecer um sistema de papéis que coloca nossas próprias personalidades, interesses e desejos em ruína. Assim, a música repete o que foi dito na primeira estrofe. Ao tentarmos nos encaixar naquilo que dá mais retorno em likes e nos traz os elogios para afagar nosso coração, o preço é caro demais e pagamos com nossa própria singularidade.

Qual o resultado desta vida? A última estrofe parece retratar um suicídio. A ideia de “estilhaçar o corpo celular no escuro de sua palidez” tem duplo sentido, porque “corpo celular” pode significar tanto que o celular era seu corpo real e ela era aquilo que estava na internet, quanto pode falar do corpo de células de quem ela realmente é. Um corpo vivo, não o corpo do aparelho celular, mas que realmente tem vida.

Se ela “saiu de cena para se aliviar”, ela se matou ou apenas saiu das redes sociais? Se ela “vestiu o drama uma última vez”, isso não parece ser só um abandono da internet, mas ela parece ter vivido o último e derradeiro drama da morte. Liquidada em sua liquidez, viralizada no cio da ruína. Sendo só uma menina, ninguém notou sua depressão. Ninguém percebeu que por traz das fotos, vídeos e imagens havia uma criança deprimida seguindo um bando para garantir que alguém iria curti-la.

Nessa procura por validação e imagem no mundo virtual, o resultado é sempre o mesmo. Justamente aqui voltamos à Alexandria. Nós perdemos a paz nesse mar de informação. Se não voltarmos de cabeça baixa, olhando para o chão tentando encontrar aquilo que perdemos, também perderemos a última barreira que nos separa da loucura. Perderemos a nossa própria personalidade, e isso, certamente, é a nossa pior desconstrução. Dela, só Cristo pode nos salvar.

Por: Yago Martins. © Voltemos ao Evangelho. Website: voltemosaoevangelho.com. Todos os direitos reservados. Original: Decifrando a Desconstrução de Tiago Iorc.