Estudo e silêncio: Recomendações a alguns jovens pastores midiáticos

Sim, o título deste texto é uma referência direta ao livro de Helmut Thielicke.

Em seu opúsculo chamado Recomendações aos jovens teólogos e pastores, Thielicke é enfático:

É um erro colocar à frente da igreja para ensinar alguém que acaba de entrar nesse estágio [recém ingressado no seminário]. Ele já passou da fase da inocência que, como todo jovem, deve ter vivido. Mas ainda não atingiu aquela maturidade em que será capaz de absorver em sua própria vida e reproduzir com a vitalidade de uma fé pessoal as coisas que compreende intelectualmente e que lhe são acessíveis pela reflexão. Precisamos ter paciência e esperar. Por essas razões, não permito sermões de jovens teólogos do primeiro semestre, embrulhados em suas togas como em fraldas. É preciso saber ficar calado. No período em que a voz está mudando não se canta, e nesse período formativo na vida do estudante de teologia ele também não prega. (p. 27)

Apesar de Thielicke falar sobre os dois temas deste texto, quais sejam, som e silêncio, ele ataca um problema longe de ser o mais premente na realidade atual brasileira. Infelizmente, a igreja brasileira não sofre principalmente por causa de jovens teólogos que começaram a estudar teologia e, deslumbrados, querem simplesmente arrotar conhecimento. Isso seria o que R. C. Sproul chamou de fase da jaula, referindo-se especificamente à realidade dos calvinistas.

Nosso problema é inverso: temos alguns jovens pastores com considerável exposição nas redes sociais que dificilmente podem ser chamados de teólogos.

Eu até acredito na sinceridade de alguns desses pastores. Acredito mesmo que eles amem Jesus e queiram servi-lo da forma que entendem ser a mais correta. Porém, eles têm cometido alguns erros imperdoáveis no que falam e/ou ensinam aos membros de suas igrejas e, devido à exposição na Internet, também a seus seguidores virtuais.

Este texto não é para registrar conselhos a esses jovens pastores. Eu mesmo sou jovem e não os conheço pessoalmente. Quem sou eu para aconselhá-los? O conselheiro precisa conhecer o aconselhado para ter uma adequada percepção do contexto de vida da pessoa. O que posso fazer é indicar recomendações, dicas. Percepções simples capazes de auxiliá-los no aperfeiçoamento tão necessário à caminhada cristã.

Aqui cabe uma ressalva: não faço as recomendações como quem está por cima, impassível de erros. Pelo contrário, todos nós somos falhos, caídos, depravados. Mas existem erros que podem ser evitados. De minha parte, esforço-me por me lembrar destas recomendações sempre que possível para que eu mesmo não venha me condenar no que reprovo (entendeu a referência?).

Seguem, então, duas recomendações sobre estudo e silêncio.

Esses pastores estudaram teologia? Foi um estudo formal ou autodidata? Alguém os mentoreou? Eles saberiam dizer a qual corrente teológica estão mais ligados? Poderiam mencionar outras correntes? Faço essas perguntas porque tenho a impressão de que eles são pessoas que se comunicam bem, sabem utilizar as redes sociais, mas não tiveram uma preparação prévia, o conteúdo de suas falas não é apenas herético, é raso.

Não é de hoje que existem hereges. A bem da verdade, Paulo já combatia heresias no primeiro século. Mas sabe qual a diferença entre esses jovens pastores brasileiros de hoje e Marcião, Ário e cia? As refutações às heresias dos antigos renderam densos trabalhos de reflexão teológica, importantíssimos para a construção e fortalecimento da sã doutrina. Alguns gigantes da história da igreja, como Agostinho, Lutero e Calvino, dedicaram-se bastante ao combate de heresias. Algumas delas quase convincentes de tão sofisticadas em suas elaborações. As heresias eram tão desafiadoras que a igreja precisou se reunir pelo que conhecemos como concílios ecumênicos para afastar vários ensinamentos tortuosos. Houve esforço para combater muitas heresias perigosas.

Entretanto, as heresias que vejo serem ditas por alguns jovens pastores brasileiros são simplesmente repetições de heresias muito antigas, porém, simplificadas, rasas, ingênuas. O que surge como oposição a essas manifestações heréticas não são refutações profundas, são basicamente memes, gracejos, até bazófias. Recorrentemente, vejo pessoas sem nenhuma formação teológica perguntando nas redes sociais: “esse moço frequentou a escola bíblica dominical?”.

Sabe, não precisa ser assim. É urgente uma parada para reflexão e estudo. É urgente, especificamente, estudar (mais) teologia. Quando uso a palavra teologia, refiro-me ao “estudo sistemático da revelação especial de Deus registrada nas Escrituras, tendo por finalidade glorificar a Deus por meio do conhecimento da sua Palavra e da obediência a ela” (Hermisten Maia, Fundamentos da teologia reformada, 2007, p. 8). Entre tantos benefícios, o estudo traz prudência. Se mesmo depois de estudar a prudência não chegar, fica o alerta de Paul Washer, mais ou menos assim: se você pensar algo que ninguém nunca pensou acerca do evangelho, suspeite estar errado. Existem muitas pessoas brilhantes estudando esses assuntos há uns dois mil anos, pode acreditar, a chance de você inovar sem errar é pequena.

Então, mais importante que ser inovador e impactante é fazer o básico corretamente. Sabe algo muito curioso acerca de Billy Graham, o maior pregador do século 20? Os sermões dele eram assaz básicos, meio feijão com arroz. Se você assistir aos vários vídeos disponíveis dele pregando para estádios lotados, verá que ele não falava nenhuma novidade estonteante (mas com muita eloquência, é verdade). Afinal, não precisa, pois a verdade que liberta e salva o pecador é antiga mesmo, ela estava estampada na cruz.

Nesse sentido, uma história didática envolvendo o próprio Billy Graham, talvez apócrifa, é a seguinte: depois de ser um pregador famoso, ele visitou a Inglaterra. No dia seguinte à sua pregação, alguns jornais anunciavam que sua mensagem estava atrasada cinquenta anos (sim, jornais repercutindo a visita de um pregador. Até mesmo no Brasil, o jornal O Estado de São Paulo registrou sua visita ao nosso país, em 1962, tamanho alcance de Billy Graham). Um jornalista, então, lhe perguntou o que ele pensava dessa avaliação. Sua resposta teria sido “acho uma pena, pois eu queria que minha mensagem estivesse atrasada dois mil anos, queria que ela estivesse estampada na cruz”.

Essa lição não é estimulante? O que ela nos ensina? Entre tantas lições possíveis, destaco o que me parece mais útil a alguns jovens pastores midiáticos brasileiros, a saber, não vale a pena ser descolado se o preço for afastar-se da cruz; é muito melhor soar careta e ser bíblico. Dá pra ser antenado e bíblico? Dá sim. Sabe um brasileiro que, penso, sabe ser bastante inovador, comunicativo, jovem e, ao mesmo tempo, bíblico? Pedro Dulci.

Pesquise sobre esse pastor. Ele é jovem como nós, sabe dialogar com a cultura, sabe utilizar as redes sociais, mas também é profundamente bíblico. Eu não preciso sequer ler o que ele escreve para recomendar, de tanto que confio. Uma diferença crucial entre alguns jovens pastores midiáticos brasileiros e Pedro Dulci é justamente o estudo. Pedro Dulci pode errar? Claro que pode. Mas te garanto que será difícil refutá-lo. Não estou dizendo que você precisa fazer dois ou três seminários e ser doutor em filosofia como ele (Dulci apela, eu sei). Estou dizendo que você precisa estudar. Acordar mais cedo e dormir mais tarde lendo, pesquisar, ler quem discorda de você, ter uma mente investigativa. De verdade, vários jovens pastores fariam muito bem em acompanhá-lo e, na medida do possível, imitá-lo. Aliás, Pedro Dulci tem um curso de teologia online chamado Invisible College. Pode ser um divisor de águas para muitas pessoas.

A referência à necessidade de mais tempo dedicado ao estudo me leva à segunda recomendação: silêncio. O que quero dizer com isso? Nosso tempo é muito barulhento. As redes sociais são muito agitadas. Nós estamos sempre conectados. Pedro Dulci compartilha com alguma frequência que aproveita os momentos de silêncio tarde da noite ou antes de todos acordarem para estudar. Mas dá para ir além e valorizar o silêncio pelo simples… silêncio.

Uma história bíblica cabe perfeitamente nesta dica. Ela está registrada em 2Reis 4.8–10. Diz o texto bíblico que uma mulher sunamita rica viu que o profeta Eliseu era um santo homem de Deus. Ela decidiu preparar para ele um aposento com uma cama, uma mesa, uma cadeira e uma lamparina.

Imagine esse aposento e perceba o silêncio no ambiente. Já ouvi mais de uma vez Ed René Kivitz (que, veja só, muitos consideram herege) se referir a esse texto para dizer que nós não conseguimos mais ficar na presença de Deus apenas com uma cama, uma mesa, uma cadeira e uma lamparina. A gente sempre precisa de algo mais, de uma música emocionante, de um texto/vídeo motivacional na Internet.

Apesar de não conhecer pessoalmente os jovens pregadores famosos da Internet, imagino suas vidas como sendo bem corridas (a minha também é). Dificilmente nós conseguimos parar e apreciar o silêncio. Ocorre que o livro Jesus é Senhor, de E. Stanley Jones, missionário muitos anos na Índia, é bem instrutivo quanto a esse assunto. Stanley Jones diz o seguinte sobre silêncio: “Disse um sábio: ‘Mantenha-se em silêncio por um dia e falarás com sabedoria para sempre’. O cristão precisa do silêncio e deve disciplinar-se na sua prática” (p. 13).

Que desafio, não? Exercitar o silêncio em meio a tantos barulhos. A quietude, o exercício da reflexão silenciosa, precisa fazer parte da vida cristã. No silêncio, podemos adquirir mais sabedoria para calar quando devemos calar, para estudar antes de falar, para, ao falar, sermos mais assertivos e precisos nas ideias que transmitimos.

O estudo e o silêncio, portanto, precisam ser mais valorizados. Mais que a quantidade de seguidores ou a qualidade da filmagem. É melhor alcançar apenas uma pessoa pregando fielmente a palavra de Deus do que alcançar multidões espalhando heresias.

Recordando Thielicke, é preciso saber ficar calado.

Por: João Guilherme. © Voltemos ao Evangelho. Website: voltemosaoevangelho.com. Todos os direitos reservados. Original: Estudo e silêncio: recomendações a alguns jovens pastores midiáticos.