{"id":15778,"date":"2014-03-21T00:03:09","date_gmt":"2014-03-21T03:03:09","guid":{"rendered":"http:\/\/voltemosaoevangelho.com\/blog\/?p=15778"},"modified":"2018-07-30T18:21:36","modified_gmt":"2018-07-30T21:21:36","slug":"quem-foi-agostinho-de-hipona-quais-foram-suas-contribuicoes-para-o-cristianismo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/voltemosaoevangelho.com\/blog\/2014\/03\/quem-foi-agostinho-de-hipona-quais-foram-suas-contribuicoes-para-o-cristianismo\/","title":{"rendered":"Quem foi Agostinho de Hipona? Quais foram suas contribui\u00e7\u00f5es para o cristianismo?"},"content":{"rendered":"<div class=\"wpb-content-wrapper\"><p>[vc_row][vc_column][vc_column_text]Uma das grandes belezas e seguran\u00e7as da teologia b\u00edblica, hist\u00f3rica e ortodoxa \u00e9 que falta-lhe originalidade. A boa teologia \u00e9 derivada da Palavra de Deus nas Escrituras, a qual tem sua origem atrav\u00e9s da inspira\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito Santo. A teologia que honra a Deus \u00e9 aquela que submete-se \u00e0 autoproclamada autoridade das Escrituras e que, portanto, mant\u00e9m-se no limite daquilo que foi revelado por Deus e ensinado pelos profetas e ap\u00f3stolos. Nesse sentido \u00e9 que a teologia n\u00e3o \u00e9 e nem deve ser original e \u00e9 por isso que, desde o fechamento do c\u00e2non, a ortodoxia crist\u00e3 atravessa os s\u00e9culos, as culturas e os poderes deste mundo conta com uma impressionante unidade e coer\u00eancia em suas doutrinas mais basilares e importantes. Seus grandes dogmas s\u00e3o derivados da B\u00edblia.<\/p>\n<p>Isso n\u00e3o quer dizer, todavia, que a teologia n\u00e3o deva buscar profundidade e desenvolvimento. Em grande medida, o produto teol\u00f3gico que temos hoje\u00a0 \u00e0 nossa disposi\u00e7\u00e3o, \u00e9 fruto do labor criativo, zeloso e meticuloso empreendido por estudiosos da Palavra de Deus, ao longo da hist\u00f3ria. Ent\u00e3o, se por um lado, no n\u00facleo do que a f\u00e9 crist\u00e3 afirma hoje, do que a igreja crist\u00e3 cr\u00ea, est\u00e3o aquelas doutrinas que foram cridas e ensinadas desde os ap\u00f3stolos, por outro, os s\u00e9culos de hist\u00f3ria crist\u00e3 serviram para o desenvolvimento, aprofundamento, refinamento e apura\u00e7\u00e3o dessas doutrinas. N\u00e3o h\u00e1 grandes novidades, mas houveram grandes progress\u00f5es.<\/p>\n<h2>Agostinho, garimpeiro de Deus<\/h2>\n<p>Um desses homens de Deus, dotado de uma mente criativa e intenso desejo de cavar mais profundamente na Palavra de Deus e que ajudou a pavimentar o caminho das grandes progress\u00f5es do pensamento teol\u00f3gico foi o africano Agostinho de Tagaste (354-430), bispo de Hipona.<\/p>\n<p>Agostinho foi, provavelmente, o grande pensador crist\u00e3o da Idade M\u00e9dia. Por quase dois mil anos sua produ\u00e7\u00e3o teol\u00f3gica tem pautado os grandes debates do cristianismo e influenciado o pensamento e cultura do Ocidente. Do ponto de vista cat\u00f3lico, Joseph Aloisius Ratzinger ratifica essa impress\u00e3o, ao dizer: \u201cAgostinho deixou uma marca profunda na vida cultural do Ocidente e de todo o mundo. Sua influ\u00eancia \u00e9 vast\u00edssima. (&#8230;) Raramente uma civiliza\u00e7\u00e3o encontrou um esp\u00edrito t\u00e3o grande, com ideias e formas que alimentariam gera\u00e7\u00f5es vindouras.\u201d<sup>1<\/sup>\u00a0A Reforma Protestante do s\u00e9culo XVI, fundamental ao avivamento da f\u00e9 e espiritualidade crist\u00e3, at\u00e9 ent\u00e3o adoecida mortalmente pelo desvio teol\u00f3gico, corrup\u00e7\u00e3o e misticismo, deve a Agostinho o cerne de suas principais proposi\u00e7\u00f5es, particularmente em quest\u00f5es como o pecado original, a gra\u00e7a de Deus, a salva\u00e7\u00e3o e a predestina\u00e7\u00e3o, al\u00e9m do exemplo de seu vigoroso minist\u00e9rio pastoral. O te\u00f3logo luterano Richard Balge, citando um colega, disse que: \u201cSe Agostinho de Hipona tivesse vivido no tempo da Reforma, ele teria se juntado a Martinho Lutero\u201d.<sup>2<\/sup>\u00a0O te\u00f3logo presbiteriano B. B. Warfield, por sua vez, disse que \u201co sistema de doutrina ensinado por Calvino \u00e9 somente o agostinianismo, conforme se v\u00ea em todos os demais reformadores. Pois, se a Reforma foi, do ponto de vista espiritual, um grande avivamento da religi\u00e3o, do ponto de vista teol\u00f3gico foi um grande reavivamento do agostinianismo\u201d.<sup>3<\/sup>\u00a0E o erudito batista Timothy George, ao falar da influ\u00eancia do pensamento agostiniano na Reforma, disse que \u201ca linha principal da Reforma Protestante pode ser vista como uma\u00a0<em>aguda agostinianiza\u00e7\u00e3o do cristianismo<\/em>.\u201d<sup>4<\/sup><\/p>\n<h2>Agostinho est\u00e1 do nosso lado<\/h2>\n<p>Os grandes representantes da Reforma do s\u00e9culo XVI, Martinho Lutero, Jo\u00e3o Calvino, Martin Bucer, Philip Melanchton e tantos outros, encontraram na vigorosa teologia agostiniana fundamento tanto para o rompimento com o\u00a0<em>status quo<\/em>\u00a0da igreja romana como para afirmar a unidade do pensamento genuinamente crist\u00e3o que remonta aos ensinos dos Pais da Igreja e dos Ap\u00f3stolos. \u00c0 guisa de ilustra\u00e7\u00e3o, vejamos como o pensamento de Agostinho foi de grande import\u00e2ncia para alguns dos reformadores mais destacados:<\/p>\n<p><em>Martinho Lutero<\/em>\u00a0era um monge agostiniano e derivou dessa escola o tutano de sua pr\u00f3pria teologia. A influ\u00eancia de Agostinho em Lutero, ali\u00e1s, parece haver perpassado todas as fases de sua vida como te\u00f3logo. No pref\u00e1cio da\u00a0<em>Theologia Germ\u00e2nica<\/em>, obra do s\u00e9culo XV redescoberta por Lutero e republicada por ele em 1516, ele reconhece o d\u00e9bito que tem com Agostinho, colocando seus escritos pr\u00f3ximos dos escritos da pr\u00f3pria Escritura. Em suas \u201cconversas de mesa\u201d, em 1532, Lutero disse: \u201cNo come\u00e7o de minha carreira, como professor de teologia, eu n\u00e3o simplesmente lia Agostinho, mas devorava suas obras com voracidade\u201d.<sup>5<\/sup>\u00a0No pref\u00e1cio de seus\u00a0<em>Escritos Latinos<\/em>, de 1545 \u2013 um ano antes de sua morte \u2013 Lutero faz refer\u00eancia \u00e0 obra\u00a0<em>O Esp\u00edrito e a letra<\/em>, de Agostinho, e diz que h\u00e1 muitas semelhan\u00e7as em seu entendimento sobre a justi\u00e7a de Deus. Seu companheiro e colega reformador, o te\u00f3logo Philip Melancthon, via Lutero, no contexto da Reforma, como uma \u201cvoz intercambi\u00e1vel com a de Agostinho; uma voz que renovava o ensino primitivo da igreja\u201d.<sup>6<\/sup><\/p>\n<p>Com\u00a0<em>Jo\u00e3o Calvino<\/em>\u00a0n\u00e3o foi diferente. A influ\u00eancia da teologia agostiniana tamb\u00e9m \u00e9 bem evidente em toda sua carreira teol\u00f3gica.<sup>7<\/sup>Ele mesmo disse que \u201cficaria feliz em confessar toda sua f\u00e9 pelas palavras de Agostinho\u201d<sup>8<\/sup>\u00a0e ainda fez uma famosa afirma\u00e7\u00e3o de aprova\u00e7\u00e3o, ao dizer:\u00a0<em>Augustinus totus noster est,\u00a0<\/em>isto \u00e9, que \u201cAgostinho est\u00e1 do nosso lado\u201d. O historiador Justo Gonzalez lembra que na principal obra de Calvino, as\u00a0<em>Institutas<\/em>, \u201cse manifesta um conhecimento profundo, n\u00e3o s\u00f3 das Escrituras, mas tamb\u00e9m de antigos escritores crist\u00e3os, particularmente Agostinho\u201d.<sup>9<\/sup>\u00a0Na \u00faltima edi\u00e7\u00e3o das\u00a0<em>Institutas<\/em>, de 1559, encontram-se mais de 400 cita\u00e7\u00f5es de textos de Agostinho. Calvino confiava mais na teologia de Agostinho do que em sua exegese, como se v\u00ea em v\u00e1rios de seus coment\u00e1rios b\u00edblicos, particularmente seu coment\u00e1rio em Romanos, no qual ele critica a abordagem aleg\u00f3rica que muitas vezes Agostinha emprestava ao texto, mas, o fato \u00e9 que esse eminente pai da igreja \u00e9 uma grande fonte de inspira\u00e7\u00e3o e influ\u00eancia da produ\u00e7\u00e3o teol\u00f3gica e pastoral de Calvino.<\/p>\n<p><em>Martin Bucer<\/em>, o reformador de Estrasburgo que teve papel vital na busca de unidade entre os demais reformadores, tamb\u00e9m apoiou-se em Agostinho para desenvolver muito de seu pensamento teol\u00f3gico. Num certo ponto, ele disse que tem \u201cgrande reverencia por Agostinho\u201d.<sup>10<\/sup>\u00a0Em sua obra,\u00a0<em>Florilegium Patristicum<\/em>, na qual re\u00fane cita\u00e7\u00f5es dos Pais da Igreja, encontram-se v\u00e1rias referencias \u00e0s obras e pensamento de Agostinho. Tamb\u00e9m em sua obra sobre teologia pastoral,\u00a0<em>Sobre o Verdadeiro Cuidado das Almas<\/em>, Bucer faz muitas refer\u00eancias ao trabalho pastoral e \u00e0 teologia de Agostinho. Em seu coment\u00e1rio \u00e0 ep\u00edstola de Paulo em Romanos, de 1536, Bucer faz um grande esfor\u00e7o para aliar-se a Agostinho no tratamento que este faz dos textos do Antigo e Novo Testamento e at\u00e9 mesmo em suas no\u00e7\u00f5es sobre a justifica\u00e7\u00e3o (declarada e transmitida). Ainda que Bucer estivesse pronto para discordar de Agostinho quando necess\u00e1rio, o fato \u00e9 que ele viu em Agostinho uma voz de conson\u00e2ncia com o corpo da reforma e alinhou-se \u00e0 essa voz em algumas \u00e1reas vitais.<\/p>\n<p>O per\u00edodo p\u00f3s reforma tamb\u00e9m valeu-se do pensamento de Agostinho \u2013 seja diretamente, ou indiretamente pela influ\u00eancia dos pr\u00f3prios reformadores. Tamb\u00e9m as gera\u00e7\u00f5es sucessivas, todas elas t\u00eam sido, como notou Ratzinger, alimentadas pelas ideias e pensamentos deste gigante da f\u00e9. Ele \u00e9 provavelmente o mais qualificado representante da igreja primitiva e permanece como uma das mentes mais importantes da hist\u00f3ria da f\u00e9 crist\u00e3.<\/p>\n<h2>As Confiss\u00f5es<\/h2>\n<p>De tudo quanto Agostinho produziu, destaco aquela que muito provavelmente foi a sua principal obra:\u00a0<em>As Confiss\u00f5es<\/em>. Trata-se de sua autobiografia, escrita em treze livros no curso de tr\u00eas anos,\u00a0 entre os anos de 397 e 400. H\u00e1 muito que se poderia falar sobre\u00a0<em>As Confiss\u00f5es<\/em>e seus benef\u00edcios e virtudes. Eruditos e literatas, tanto da filosofia como da teologia, certamente j\u00e1 t\u00eam empreendido o papel de analisar as muitas riquezas dessa obra e extrair o sumo de seu rico conte\u00fado. Aqui queremos oferecer apenas um pequeno vislumbre dessa que permanece como uma das mais importantes obras liter\u00e1rias de todos os tempos.<\/p>\n<p>Nela Agostinho empreende uma profunda investiga\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria alma, da sua f\u00e9 e de sua sincera busca por Deus. Ele abre seu cora\u00e7\u00e3o e, numa conversa dirigida a Deus, confessa seus pecados, dramas, ang\u00fastias d\u2019alma, frustra\u00e7\u00f5es e tamb\u00e9m sua luta pela verdade e sua luta com o pr\u00f3prio Deus.<\/p>\n<p>Vemos, por exemplo, em\u00a0<em>As<\/em>\u00a0<em>Confiss\u00f5es<\/em>, uma verdadeira luta da mente e a sublime busca pela verdade, a qual Agostinho reconhece haver encontrado somente quando Jesus o encontrou:<\/p>\n<div>\n<p>Foi ent\u00e3o que tuas perfei\u00e7\u00f5es invis\u00edveis se manifestaram \u00e0 minha intelig\u00eancia por meio de tuas obras. Mas n\u00e3o pude fixar nelas meu olhar; minha fraqueza se recobrou, e voltei a meus h\u00e1bitos, n\u00e3o levando comigo sen\u00e3o uma lembran\u00e7a amorosa e, por assim dizer, o desejo do perfume do alimento saboroso que eu ainda n\u00e3o podia comer<sup>11<\/sup>.<\/p>\n<p>Buscava um meio que me desse for\u00e7a necess\u00e1ria para gozar de ti, e n\u00e3o a encontrei enquanto n\u00e3o me abracei ao Mediador entre Deus e os homens, o homem Cristo Jesus, que est\u00e1 sobre todas as coisas, Deus bendito por todos os s\u00e9culos, que chama e diz: Eu sou o caminho, a verdade e a vida.<sup>12<\/sup><\/p>\n<\/div>\n<p>Tamb\u00e9m vemos a luta da carne, a qual ele chama de luta com a lux\u00faria: \u201cAdmirava-me de j\u00e1 vos ter amor e de n\u00e3o amar um fantasma em vez de V\u00f3s. Era arrebatado para v\u00f3s pela vossa beleza, e logo arrancado de v\u00f3s pelo meu peso. Este peso eram os h\u00e1bitos da lux\u00faria\u201d.<sup>13<\/sup>\u00a0Sua luta contra as tenta\u00e7\u00f5es sexuais ainda \u00e9 exemplificada pela famosa ora\u00e7\u00e3o: \u201cSenhor, d\u00e1-me a castidade e a contin\u00eancia, mas ainda n\u00e3o\u201d.<sup>14<\/sup>\u00a0Todavia, \u00e9 preciso registrar, muitas vezes a culpa de Agostinho por conta de sua concupisc\u00eancia tem levado muitos a acusarem-no de ter sido prom\u00edscuo. Mas talvez essa conclus\u00e3o seja injusta, pois ele mesmo registra somente um caso amoroso, com uma concubina, m\u00e3e de seu filho Adeodato, mulher a quem muito amou, embora nunca tenha se casado com ela.<\/p>\n<p>Ele ainda conta como Deus o alcan\u00e7ou e salvou e como ele passou a perceber a m\u00e3o providente de Deus nas diversas fases de sua vida, al\u00e9m de ter uma no\u00e7\u00e3o mais plena e gozosa da beleza de Deus, depois de sua convers\u00e3o. As Confiss\u00f5es tamb\u00e9m s\u00e3o uma express\u00e3o de adora\u00e7\u00e3o e uma declara\u00e7\u00e3o de amor e devo\u00e7\u00e3o a Deus e nela ele exalta a Deus louvando-o pela cria\u00e7\u00e3o. Num certo ponto, ele confessa:<\/p>\n<div>\n<p>Tarde te amei, Beleza t\u00e3o antiga e t\u00e3o nova, tarde te amei! Eis que estavas dentro de mim, e eu l\u00e1 fora, a te procurar! Eu, disforme, me atirava \u00e0 beleza das formas que criaste. Estavas comigo, e eu n\u00e3o estava em ti. Retinham-me longe de ti aquilo que nem existiria se n\u00e3o existisse em ti. Tu me chamaste, gritaste por mim, e venceste minha surdez. Brilhaste, e teu esplendor afugentou minha cegueira. Exalaste teu perfume, respirei-o, e suspiro por ti. Eu te saboreei, e agora tenho fome e sede de ti. Tocaste-me, e o desejo de tua paz me inflama.<sup>15<\/sup><\/p>\n<\/div>\n<p>De tudo o mais, um aspecto muito sublime de suas\u00a0<em>Confiss\u00f5es<\/em>, que se alteia como um fator presente em toda narrativa, \u00e9 a no\u00e7\u00e3o de que \u00e9 Deus quem vem ao encontro do homem para alcan\u00e7\u00e1-lo e salv\u00e1-lo. Talvez a express\u00e3o que melhor exemplifica essa realidade na experi\u00eancia de Agostinho, seja a ora\u00e7\u00e3o que ele repete algumas vezes no curso de suas confiss\u00f5es: \u201cDai-me o que ordenais, e ordenai-me o que quiserdes\u201d (<em>Da Quod Iubes et Iube Quod Vis)<\/em>. Esta ora\u00e7\u00e3o causou arrepio no grande rival de Agostinho, Pel\u00e1gio, que via nela uma afronta ao livre arb\u00edtrio do homem, o qual, Pel\u00e1gio cria, nascia reto e tinha em si mesmo a capacidade de obedecer ou rejeitar a Deus. Mas Agostinho entendeu \u2013 e essa ora\u00e7\u00e3o assim o demonstra \u2013 que somente a gra\u00e7a de Deus e o poder do Esp\u00edrito, atuando no interior do homem, \u00e9 que pode lev\u00e1-lo ao pr\u00f3prio Deus. \u00c9 Deus quem d\u00e1 causa \u00e0 f\u00e9, ao amor, \u00e0 devo\u00e7\u00e3o e \u00e0 obedi\u00eancia e \u00e9 por isso que ele pede: concede-me o que ordenais, isto \u00e9, capacita-me, Senhor, para o que queres. Em outra obra sua, ele pergunta: \u201cQue nos ordena Deus em primeiro lugar, e com mais insist\u00eancia, sen\u00e3o que acreditemos nele? Ora, \u00e9 precisamente esta gra\u00e7a que ele nos concede\u201d.<sup>16<\/sup><\/p>\n<h2>Por que ler Agostinho?<\/h2>\n<p>Em nossa breve tradi\u00e7\u00e3o protestante no Brasil, a rea\u00e7\u00e3o ao catolicismo romano tem, n\u00e3o raras vezes, rejeitado muito dos s\u00edmbolos, tradi\u00e7\u00e3o, produ\u00e7\u00e3o teol\u00f3gica, proponentes da f\u00e9 que s\u00e3o, normalmente, associados \u00e0 Roma. Assim, n\u00e3o \u00e9 incomum alguma desconfian\u00e7a do leitor mais desavisado, por\u00e9m sincero e zeloso, quando se fala no proveito que temos pela leitura e aprendizado com aqueles que estejam ligados \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o romana. Mas essa rea\u00e7\u00e3o muitas vezes \u00e9 exagerada e mais emocional do que justa. Muito do que \u00e9 rejeitado \u00e9 heran\u00e7a da cristandade, da f\u00e9 crist\u00e3 na hist\u00f3ria e de imenso proveito para os crist\u00e3os hoje. Far\u00edamos bem em, ao contr\u00e1rio dessa tend\u00eancia, resgatar e valorizar esse rico legado.<\/p>\n<p>Em Agostinho, particularmente, h\u00e1 muito que aprender \u2013 como fizeram tamb\u00e9m nossos pais reformadores e toda tradi\u00e7\u00e3o crist\u00e3 nesses \u00faltimos dezessete s\u00e9culos.<\/p>\n<p>E h\u00e1 muito o que ler de Agostinho. Dentre os Pais da Igreja, seus escritos s\u00e3o os mais abundantes. A hist\u00f3ria de sua vida e sua obra foram catalogados pelo cuidadoso trabalho de seu biografo e contempor\u00e2neo Poss\u00eddio, que escreveu a\u00a0<em>Vita Augustini<\/em>\u00a0e indexou nela o\u00a0<em>Indiculos<\/em>, que elencava e reproduzia suas principais obras. S\u00e3o centenas de homilias e cartas ainda preservadas e v\u00e1rias obras filos\u00f3ficas e teol\u00f3gicas que, conforme coloca Ratzinger, \u201cs\u00e3o de import\u00e2ncia fundamental, n\u00e3o s\u00f3 para o cristianismo, mas para a forma\u00e7\u00e3o de toda cultura ocidental\u201d.<sup>17<\/sup><\/p>\n<p>Em seus escritos, temos um tesouro de sabedoria que pode fazer muito bem ao povo de Deus, se lido com discernimento. \u00c9 claro que Agostinho teve os seus limites e cometeu seus equ\u00edvocos. Mas encontramos nele uma mente brilhante e um cora\u00e7\u00e3o radiante, que ardia por amor a Deus, como pouco se v\u00ea em nossos tempos. Temos nele um esfor\u00e7o diligente para submeter todas as coisas \u00e0 revela\u00e7\u00e3o. Suas\u00a0<em>Confiss\u00f5es<\/em>, ali\u00e1s, s\u00e3o a grande prova disso. Foi somente quando a Escritura falou que sua obstinada\u00a0 busca pela verdade cessou. A partir desse ponto, ele passa a ser um estudioso da verdade contida nas Escrituras. Conforme colocou Solano Portela, em uma conversa que tivemos sobre o bispo de Hipona, \u201cAgostinho cavou nas Escrituras em busca da verdade; a Reforma fez o mesmo; Calvino continuou cavando e olhando com mais clareza as Escrituras; n\u00f3s temos de fazer o mesmo. Igreja Reformada sempre se reformando \u00e9 isso\u201d.<\/p>\n<p>Em Agostinho, temos uma impressionante profundidade teol\u00f3gica, assertividade e firmeza doutrin\u00e1ria, intensa devo\u00e7\u00e3o a Deus, inquestion\u00e1vel respeito ao texto b\u00edblico e genu\u00edna preocupa\u00e7\u00e3o pastoral. Essas qualidades s\u00e3o um grande est\u00edmulo para o estudante de teologia, particularmente, mas tamb\u00e9m para todo crist\u00e3o sincero que busca agradar a Deus e viver neste mundo vil e cheio de perigos &#8211; especialmente diante dos muitos desafios enfrentados pela f\u00e9 crist\u00e3 de nossos tempos, em que os valores deste mundo s\u00e3o difusos, em que h\u00e1 uma crise de conte\u00fado e subst\u00e2ncia de f\u00e9 e onde os homens &#8211; e, surpreendentemente, at\u00e9 mesmo uma ala do cristianismo &#8211; suspeitam dos dogmas e afirma\u00e7\u00f5es da Palavra de Deus e da ortodoxia crist\u00e3. Em Agostinho temos a jun\u00e7\u00e3o de vida vigorosa e doutrina robusta. Isso faz dele um campe\u00e3o da f\u00e9.<\/p>\n<p>Mais uma vez, Ratzinger oferece um \u00fatil\u00a0<em>insight<\/em>\u00a0sobre a obra de Agostinho:<\/p>\n<div>\n<p>Em seus escritos [Agostinho] o encontramos vivo. Quando leio os escritos de Santo Agostinho, n\u00e3o tenho a impress\u00e3o que se trata de um homem morto h\u00e1 mil e seiscentos anos, mas sinto-o como um homem de hoje: um amigo, um contempor\u00e2neo que me fala, que fala a n\u00f3s com sua f\u00e9 vigorosa e atual. Nele vemos a atualidade permanente de sua f\u00e9. F\u00e9 que vem de Cristo, Verbo Eterno encarnado, Filho de Deus e Filho do homem. E podemos ver que essa f\u00e9 n\u00e3o \u00e9 de ontem, mesmo tendo sido pregada ontem; \u00e9 sempre de hoje, porque Cristo \u00e9 realmente ontem, hoje e para sempre. Ele \u00e9 o caminho, a verdade e a vida. Assim nos encoraja Agostinho a confiarmos neste Cristo sempre vivo e encontrar nele o caminho da vida.<sup>18<\/sup><\/p>\n<\/div>\n<p>Que saibamos aproveitar a sinceridade da jornada de Agostinho de Hipona em busca da verdade, a criatividade de sua teologia, a beleza de sua devo\u00e7\u00e3o a Deus, o vigor de seu exemplo e testemunho, a firmeza de sua f\u00e9.<\/p>\n<p>\u2013<\/p>\n<p>Notas:<\/p>\n<p><em>1\u00a0&#8211; Bento XVI.\u00a0Os Padres da Igreja\u00a0(Campinas, SP: Eclesiae, 2012) p. 183-184<br \/>\n<\/em><em>2\u00a0&#8211; Richard D. Balge,\u00a0Martin Luther, Agostinian\u00a0(artigo publicado em http:\/\/www.wlsessays.net\/files\/BalgeAugustinian.pdf), acessado em novembro de 2013.<br \/>\n<\/em><em>3\u00a0&#8211; Benjamin Breckinridge Warfield,\u00a0John Calvin: the man and his work(The Methodist Review, Outubro de 1909).<br \/>\n<\/em><em>4\u00a0&#8211; Timothy George.\u00a0Teologia dos Reformadores\u00a0(S\u00e3o Paulo, SP: Edi\u00e7\u00f5es Vida Nova, 2004), p.76.<br \/>\n<\/em><em>5\u00a0&#8211; Martinho Lutero.\u00a0Luther Works, LI, xviii.<br \/>\n<\/em><em>6\u00a0&#8211; Peter Fraenkel,\u00a0Testimonia Patrum: The Function of the Patristic Argument in the Theology of Philip Melanchthon\u00a0(Genebra: Droz, 1961), p. 32.<br \/>\n<\/em><em>7\u00a0&#8211; Recomendo a leitura do artigo de S. J. Han:\u00a0An Investigation into Calvin\u2019s use of Augustine(http:\/\/www.ajol.info\/index.php\/actat\/article\/viewFile\/52214\/40840), Acessado em novembro de 2013.<br \/>\n<\/em><em>8\u00a0&#8211; Paul Helm.\u00a0Apud\u00a0em N. R. Needham,\u00a0The Triumph of Grace(London: Grace Publication, 2000), p.8<br \/>\n<\/em><em>9\u00a0&#8211; Justo Gonzalez,\u00a0A Era dos Reformadores\u00a0(S\u00e3o Paulo, SP: Edi\u00e7\u00f5es Vida Nova, 2004), p.112.<br \/>\n<\/em><em>10\u00a0&#8211; Basil Hall,\u00a0Martin Bucer: Reforming Church and Community, ed. D. F. Wright (Cambridge, UK: Cambridge Press, 1996), p. 150.<br \/>\n<\/em><em>11\u00a0&#8211; Agostinho,\u00a0Confiss\u00f5es\u00a0(S\u00e3o Paulo, SP: Editora Nova Cultural, 1999), p. 185.<br \/>\n<\/em><em>12\u00a0&#8211; Ibidem, p. 192.<br \/>\n<\/em><em>13\u00a0&#8211; Ibidem, p. 190.<br \/>\n<\/em><em>14\u00a0&#8211; Ibidem, p. 214.<br \/>\n<\/em><em>15\u00a0&#8211; Ibidem, p. 285.<br \/>\n<\/em><em>16\u00a0&#8211; Agostinho.\u00a0Confiss\u00f5es. Nota de J. Oliveira Santos, apud,\u00a0De Bono Perseverantiae:\u00a0Quid vero nobis primitus et maxime Deus iubet, nisi ut credamus in Eum? Et hoc ergo ipse dat\u00a0(S\u00e3o Paulo, SP: Nova Cultural, 1999), p. 286.<br \/>\n<\/em><em>17\u00a0&#8211; Ratzinger,\u00a0Padres da Igreja, p. 201.<br \/>\n<\/em><em>18\u00a0&#8211; ibidem, p. 193.<\/em>[\/vc_column_text][vc_empty_space height=&#8221;30px&#8221;][vc_cta h2=&#8221;Agostinho de Hipona&#8221; h4=&#8221;Revista F\u00e9 Para Hoje, edi\u00e7\u00e3o N. 40&#8243;]<img data-recalc-dims=\"1\" loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-44442 alignleft\" src=\"https:\/\/i0.wp.com\/voltemosaoevangelho.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/fe-para-hoje-40.png?resize=200%2C300&#038;ssl=1\" alt=\"\" width=\"200\" height=\"300\" srcset=\"https:\/\/i0.wp.com\/voltemosaoevangelho.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/fe-para-hoje-40.png?resize=200%2C300&amp;ssl=1 200w, https:\/\/i0.wp.com\/voltemosaoevangelho.com\/blog\/wp-content\/uploads\/2014\/03\/fe-para-hoje-40.png?w=586&amp;ssl=1 586w\" sizes=\"auto, (max-width: 200px) 100vw, 200px\" \/><\/p>\n<p>No acervo online do Minist\u00e9rio Fiel voc\u00ea encontra, em cada edi\u00e7\u00e3o da revista F\u00e9 para Hoje, artigos escritos por v\u00e1rios autores sobre um tema espec\u00edfico. Dessa forma, o leitor poder\u00e1 enriquecer-se com os diferentes pontos de vista dos autores convidados.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a class=\"btn btn-default btn-lg\" style=\"color: #fff;\" href=\"http:\/\/fiel.in\/1oNmO1V\" target=\"_blank\">CONFIRA<\/a>[\/vc_cta][vc_message color=&#8221;alert-danger&#8221; message_box_style=&#8221;outline&#8221; style=&#8221;square&#8221; message_box_color=&#8221;alert-danger&#8221; icon_type=&#8221;pixelicons&#8221; el_class=&#8221;creditos_box&#8221; icon_pixelicons=&#8221;vc_pixel_icon vc_pixel_icon-explanation&#8221;]Por:\u00a0Tiago Santos.\u00a0\u00a9 Minist\u00e9rio Fiel. Website: <a href=\"http:\/\/www.ministeriofiel.com.br\/\">ministeriofiel.com.br<\/a>. Todos os direitos reservados.. Fonte: Agostinho de Hipona: quem foi e como contribuiu para o correto entendimento das doutrinas crist\u00e3s?<\/p>\n<p>Artigo retirado da Revista F\u00e9 Para Hoje, edi\u00e7\u00e3o N. 40.<\/p>\n<p>Original: <a href=\"https:\/\/voltemosaoevangelho.com\/blog\/2014\/03\/quem-foi-agostinho-de-hipona-quais-foram-suas-contribuicoes-para-o-cristianismo\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Quem foi Agostinho de Hipona? Quais foram suas contribui\u00e7\u00f5es para o cristianismo?<\/a> \u00a9 Voltemos ao Evangelho. Website:\u00a0<a href=\"https:\/\/voltemosaoevangelho.com\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">voltemosaoevangelho.com<\/a>. 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