{"id":20705,"date":"2014-10-31T10:58:50","date_gmt":"2014-10-31T12:58:50","guid":{"rendered":"http:\/\/voltemosaoevangelho.com\/blog\/?p=20705"},"modified":"2017-03-22T18:27:35","modified_gmt":"2017-03-22T21:27:35","slug":"historia-da-reforma-protestante","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/voltemosaoevangelho.com\/blog\/2014\/10\/historia-da-reforma-protestante\/","title":{"rendered":"Hist\u00f3ria da Reforma Protestante"},"content":{"rendered":"<div class=\"wpb-content-wrapper\"><p>[vc_row][vc_column width=&#8221;1\/1&#8243;][vc_column_text]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Reforma Protestante do s\u00e9culo\u00a0XVI foi um fen\u00f4meno variado e complexo, que incluiu fatores pol\u00edticos, sociais e intelectuais. Todavia, o seu elemento principal foi religioso, ou seja, a busca de um novo entendimento sobre a rela\u00e7\u00e3o entre Deus e os seres humanos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Neste artigo, Alderi Matos fornece um resumo hist\u00f3rico da Reforma\u00a0Protestante:<\/p>\n<p>[\/vc_column_text][vc_accordion collapsible=&#8221;yes&#8221; active_tab=&#8221;0&#8243;][vc_accordion_tab title=&#8221;1. Antecedentes \u2013 final da Idade M\u00e9dia&#8221;][vc_column_text]<\/p>\n<h2 style=\"text-align: justify;\">1. Antecedentes \u2013 final da Idade M\u00e9dia<\/h2>\n<h3 style=\"text-align: justify;\">1.1 Os Estados Nacionais<\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nos s\u00e9culos que antecederam a Reforma Protestante, a Igreja n\u00e3o vivia em um v\u00e1cuo, mas sim em um contexto pol\u00edtico e social mais amplo com o qual tinha m\u00faltiplas intera\u00e7\u00f5es. No final da Idade M\u00e9dia, houve o surgimento dos chamados \u201cestados nacionais\u201d, as modernas na\u00e7\u00f5es europ\u00e9ias, o que representou uma grande amea\u00e7a \u00e0s pretens\u00f5es do papado. Na Alemanha (Sacro Imp\u00e9rio Romano), Rudolf von Hapsburg foi eleito imperador em 1273. Em 1356, um documento conhecido como Bula de Ouro determinou que cada novo imperador seria escolhido por sete eleitores (quatro nobres e tr\u00eas arcebispos). Havia descentraliza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, isto \u00e9, o poder dos pr\u00edncipes limitava a autoridade do imperador, e forte tens\u00e3o entre a igreja e o estado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na Fran\u00e7a, houve o fortalecimento da monarquia com Filipe IV, o Belo (1285-1314). Esse rei enfrentou com \u00eaxito o poder da Igreja e dos papas e preparou a Fran\u00e7a para tornar-se o primeiro estado nacional moderno. Na Inglaterra, o parlamento reuniu-se pela primeira vez em 1295. Esse pa\u00eds teve um grande rei na pessoa de Eduardo I (\u20201307), que subjugou os nobres e enfrentou com \u00eaxito o papa na quest\u00e3o de impostos.<\/p>\n<h3 style=\"text-align: justify;\"><strong>1.2 O Decl\u00ednio do Papado<\/strong><\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">Este per\u00edodo come\u00e7a com o pontificado de Bonif\u00e1cioVIII (1294-1303), um papa arrogante e ambicioso que entrou em confronto direto com o rei Filipe IV acerca de impostos e da autoridade papal. Bonif\u00e1cio publicou tr\u00eas famosas bulas:\u00a0<em>Clericis Laicos<\/em>, na qual reclama que os leigos sempre foram hostis ao clero;\u00a0<em>Ausculta Fili\u00a0<\/em>(\u201cEscuta, filho\u201d), dirigida ao rei franc\u00eas,<em>\u00a0<\/em>e\u00a0<em>Unam Sanctam\u00a0<\/em>(1302), denominada \u201co canto do cisne do papado medieval\u201d. Irritado com as a\u00e7\u00f5es papais, Filipe enviou suas tropas, o papa foi preso e faleceu um m\u00eas ap\u00f3s ser libertado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Seguiu-se um per\u00edodo de crescente desmoraliza\u00e7\u00e3o do papado. Clemente V (1305-1314), um papa franc\u00eas, transferiu a C\u00faria, ou seja, a administra\u00e7\u00e3o da Igreja, para Avinh\u00e3o, ao sul da Fran\u00e7a, no que ficou conhecido como o \u201cCativeiro Babil\u00f4nico da Igreja\u201d (1309-1377). Em toda parte, cresceram as cr\u00edticas \u00e0s extravag\u00e2ncias e ao luxo da corte papal. Jo\u00e3o XXII (1316-1334) mostrou-se eficiente na cobran\u00e7a de taxas e d\u00edzimos para cobrir essas despesas. Finalmente, ocorreu o chamado \u201cGrande Cisma\u201d, em que houve dois e posteriormente tr\u00eas papas rivais em Roma, Avinh\u00e3o e Pisa (1378-1417). Diante dessa situa\u00e7\u00e3o constrangedora, surgiu em toda a Europa um clamor por \u201creformas na cabe\u00e7a e nos membros\u201d.<\/p>\n<h3 style=\"text-align: justify;\">1.3 O Movimento Conciliar<\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">Durante o \u201cGrande Cisma\u201d, cada papa considerou-se o \u00fanico leg\u00edtimo e excomungou o rival. Assim, houve a necessidade de um conc\u00edlio para resolver a crise. O Conc\u00edlio de Pisa (1409) elegeu um novo papa, mas os outros dois recusaram-se a serem depostos, resultando em tr\u00eas papas ao mesmo tempo. Jo\u00e3o XXIII, o segundo papa pisano, convocou o Conc\u00edlio de Constan\u00e7a (1414-1417), que dep\u00f4s os tr\u00eas papas, elegeu Martinho V como \u00fanico papa, decretou a supremacia dos conc\u00edlios sobre o papa e condenou os pr\u00e9-reformadores Jo\u00e3o Wycliff, Jo\u00e3o Hus e Jer\u00f4nimo de Praga. O Conc\u00edlio de Basil\u00e9ia (1431-1449) reafirmou a superioridade dos conc\u00edlios. Finalmente, o Conc\u00edlio de Ferrara-Floren\u00e7a (1438-1445) tentou a uni\u00e3o com a Igreja Ortodoxa (frustrada pela conquista de Constantinopla pelos turcos em 1453) e reafirmou a supremacia papal. Essa tentativa fracassada de tornar a Igreja mais democr\u00e1tica e govern\u00e1-la atrav\u00e9s de conc\u00edlios ficou conhecida como conciliarismo.<\/p>\n<h3 style=\"text-align: justify;\">1.4 Movimentos dissidentes<\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outro aspecto desse per\u00edodo de efervesc\u00eancia foi o surgimento de alguns movimentos dissidentes no sul da Fran\u00e7a que despertaram forte oposi\u00e7\u00e3o da Igreja Cat\u00f3lica. Um deles foi o dos c\u00e1taros (em grego = \u201cpuros\u201d) ou albigenses (da cidade de Albi), surgidos no s\u00e9culo 11. Caracterizavam-se por um sincretismo crist\u00e3o, gn\u00f3stico e manique\u00edsta, com um dualismo radical (espiritual x material) e extremo ascetismo. Foram condenados pelo 4\u00b0 Conc\u00edlio Lateranense em 1215 e mais tarde aniquilados por uma cruzada. Para combater esses e outros hereges, a Inquisi\u00e7\u00e3o foi oficializada em 1233.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outro movimento foi liderado por Pedro Valdo ou Valdes (\u2020 c.1205), de Li\u00e3o, cujos seguidores ficaram conhecidos como \u201chomens pobres de Li\u00e3o\u201d. Tinham um estilo de vida comunit\u00e1rio, ensinavam as Escrituras no vern\u00e1culo (enfatizando o Serm\u00e3o do Monte), incentivavam a prega\u00e7\u00e3o de leigos e de mulheres, negavam o purgat\u00f3rio. Condenados pelo Conc\u00edlio de Verona em 1184, foram muito perseguidos, refugiando-se em vales remotos e quase inacess\u00edveis dos alpes italianos. Mais tarde, abra\u00e7aram a Reforma Protestante, sendo assim uma das poucas Igrejas protestantes anteriores \u00e0 Reforma do S\u00e9culo 16.<\/p>\n<h3 style=\"text-align: justify;\">1.5 Primeiros Movimentos de Reforma<\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nos s\u00e9culos 14 e 15, surgiram alguns movimentos espor\u00e1dicos de protesto contra certos ensinos e pr\u00e1ticas da Igreja Medieval. Um deles foi encabe\u00e7ado por Jo\u00e3o Wycliff (1325?-1384), um sacerdote e professor da Universidade de Oxford, na Inglaterra. Wycliff atacou as irregularidades do clero, as supersti\u00e7\u00f5es (rel\u00edquias, peregrina\u00e7\u00f5es, venera\u00e7\u00e3o dos santos), bem como a transubstancia\u00e7\u00e3o, o purgat\u00f3rio, as indulg\u00eancias, o celibato clerical e as pretens\u00f5es papais. Seus seguidores, conhecidos como os lolardos, tinham a B\u00edblia como norma de f\u00e9 que todos devem ler e interpretar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jo\u00e3o Hus (c.1372-1415), um sacerdote e professor da Universidade de Praga, na Bo\u00eamia, foi influenciado pelos escritos de Wycliff. Definia a igreja por uma vida semelhante \u00e0 de Cristo, e n\u00e3o pelos sacramentos. Dizia que todos os eleitos s\u00e3o membros da igreja e que o seu cabe\u00e7a \u00e9 Cristo, n\u00e3o o papa. Insistia na autoridade suprema das Escrituras. Hus foi condenado \u00e0 fogueira pelo Conc\u00edlio de Constan\u00e7a. Seus seguidores ficaram conhecidos como Irm\u00e3os Bo\u00eamios (1457) e foram muito perseguidos. Foram os precursores dos Irm\u00e3os Mor\u00e1vios, que veremos posteriormente, outro grupo protestante cujas ra\u00edzes s\u00e3o anteriores \u00e0 Reforma do s\u00e9culo 16. Outro indiv\u00edduo inclu\u00eddo entre os pr\u00e9-reformadores \u00e9 Jer\u00f4nimo Savonarola (1452-1498), um frade dominicano de Floren\u00e7a, na It\u00e1lia, que pregou contra a imoralidade na sociedade e na Igreja, inclusive no papado. Governou a cidade por algum tempo, mas finalmente foi excomungado e enforcado como herege.<\/p>\n<h3 style=\"text-align: justify;\">1.6 Movimentos Devocionais<\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">Al\u00e9m dos movimentos que romperam com a Igreja, houve outros que permaneceram na mesma por se concentrarem na vida devocional, sem cr\u00edticas aos dogmas cat\u00f3licos. Um deles foi o misticismo, bastante forte na Inglaterra, Holanda e especialmente na Alemanha (Reno). Os principais m\u00edsticos dessa \u00e9poca foram Meister Eckhart (\u20201327); Tauler (\u20201361) e os \u201cAmigos de Deus\u201d, Henrique Suso (\u20201366) e mais tarde o c\u00e9lebre te\u00f3logo e l\u00edder eclesi\u00e1stico Nicolau de Cusa (1401-1464). O misticismo dava \u00eanfase \u00e0 uni\u00e3o com Deus, ao amor, \u00e0 humildade e \u00e0 caridade, e produziu uma bel\u00edssima literatura devocional.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outro importante movimento foi a Devo\u00e7\u00e3o Moderna, que se manteve forte durante todo o s\u00e9culo 15. Suas \u00eanfases reca\u00edam sobre a espiritualidade, a leitura da B\u00edblia, a medita\u00e7\u00e3o e a ora\u00e7\u00e3o. Tamb\u00e9m valorizava a educa\u00e7\u00e3o, criando \u00f3timas escolas. Foi um movimento leigo, para ambos os sexos, e tamb\u00e9m exerceu grande influ\u00eancia sobre os reformadores protestantes. Os participantes eram conhecidos como Irm\u00e3os da Vida Comum. A obra mais importante e popular produzida por esse movimento foi o bel\u00edssimo livreto devocional\u00a0<em>A Imita\u00e7\u00e3o de Cristo\u00a0<\/em>(1418), escrito por Thomas \u00e0 Kempis.<\/p>\n<h3 style=\"text-align: justify;\">1.7 Os humanistas b\u00edblicos<\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">O interesse pelas obras da Antiguidade levou ao estudo da B\u00edblia nas l\u00ednguas originais pelos chamados humanistas b\u00edblicos. Os principais deles foram o italiano Lorenzo Valla (\u20201457), estudioso do Novo Testamento; o ingl\u00eas John Colet (\u20201519), estudioso das ep\u00edstolas paulinas; o alem\u00e3o Johannes Reuchlin (\u20201522), not\u00e1vel hebra\u00edsta; o franc\u00eas Lef\u00e8vre D\u2019\u00c9taples (\u20201536), tradutor do Novo Testamento; e o holand\u00eas Erasmo de Roterd\u00e3 (1466?-1536), \u201co pr\u00edncipe dos humanistas\u201d, que publicou uma edi\u00e7\u00e3o cr\u00edtica do Novo Testamento grego com uma tradu\u00e7\u00e3o latina, talvez a obra mais importante publicada no s\u00e9culo 16, que serviu de base para as tradu\u00e7\u00f5es de Lutero, Tyndale e Lef\u00e8vre e muito influenciou os reformadores protestantes. Esse retorno \u00e0s Escrituras muito contribuiu para a Reforma do S\u00e9culo 16.<\/p>\n<h3 style=\"text-align: justify;\">1.8 Situa\u00e7\u00e3o Geral<\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">O final da Idade M\u00e9dia foi marcado por muitas convuls\u00f5es pol\u00edticas, sociais e religiosas. Entre as pol\u00edticas destacou-se a Guerra dos Cem Anos (1337-1453), entre a Inglaterra e a Fran\u00e7a, na qual tornou-se famosa a hero\u00edna Joana D\u2019Arc. Houve tamb\u00e9m muitas revoltas camponesas, o decl\u00ednio do feudalismo, a expans\u00e3o das cidades e o surgimento do capitalismo. No aspecto social, havia fomes peri\u00f3dicas e o terr\u00edvel flagelo da peste bub\u00f4nica ou peste negra (1348). As guerras, epidemias e outros males produziam morte, devasta\u00e7\u00e3o e desordem, ou seja, a ruptura da vida social e pessoal. O sentimento dominante era de inseguran\u00e7a, ansiedade, melancolia e pessimismo. Isso era ilustrado pela \u201cdan\u00e7a da morte\u201d, gravuras que se viam em toda parte com um esqueleto dan\u00e7ante.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Na \u00e1rea religiosa, houve a eros\u00e3o do ideal da cristandade ou \u201ccorpus christianum\u201d, a sociedade coesa sob a lideran\u00e7a da igreja e dos papas. A religiosidade era merit\u00f3ria, com missas pelos mortos, cren\u00e7a no purgat\u00f3rio e invoca\u00e7\u00e3o dos santos e Maria. Ao mesmo tempo, havia grande ressentimento contra a igreja por causa dos abusos praticados e do desvio dos seus prop\u00f3sitos. Isso \u00e9 ilustrado pela situa\u00e7\u00e3o do papado no final do s\u00e9culo 15 e in\u00edcio do s\u00e9culo 16. Os chamados papas do renascimento foram mais estadistas e patronos das artes e da cultura do que pastores do seu rebanho. A institui\u00e7\u00e3o papal continuou em decl\u00ednio, com muitas lutas pol\u00edticas, simonia, nepotismo, falta de lideran\u00e7a espiritual, aumento de gastos e novos impostos eclesi\u00e1sticos. Como papa Alexandre VI (1492-1503), o espanhol Rodrigo Borja foi um generoso promotor das artes e da carreira dos seus filhos C\u00e9sar e Lucr\u00e9cia; J\u00falio II (1503-1513) foi um papa guerreiro, comandando pessoalmente o seu ex\u00e9rcito; Le\u00e3o X (1513-1521), o papa contempor\u00e2neo de Lutero, teria dito quando foi eleito: \u201cAgora que Deus nos deu o papado, vamos desfrut\u00e1-lo\u201d.<\/p>\n<p>[\/vc_column_text][\/vc_accordion_tab][vc_accordion_tab title=&#8221;2. A Reforma Protestante \u2013 1\u00aa Parte&#8221;][vc_column_text]<\/p>\n<h2 style=\"text-align: justify;\">2. A Reforma Protestante\u00a0 \u2013 1\u00aa Parte<\/h2>\n<h3 style=\"text-align: justify;\"><strong> 2.1 O contexto social e religioso<\/strong><\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">Vimos, no final da se\u00e7\u00e3o anterior, alguns elementos que caracterizavam a sociedade europ\u00e9ia \u00e0s v\u00e9speras da Reforma. Havia muita viol\u00eancia, baixa expectativa de vida, profundos contrastes socioecon\u00f4micos e um crescente sentimento nacionalista. Havia tamb\u00e9m muita insatisfa\u00e7\u00e3o, tanto dos governantes como do povo, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 Igreja, principalmente ao alto clero e a Roma. Na \u00e1rea espiritual, havia inseguran\u00e7a e ansiedade acerca da salva\u00e7\u00e3o em virtude de uma religiosidade baseada em obras, tamb\u00e9m chamada de religiosidade cont\u00e1bil ou \u201cmatem\u00e1tica da salva\u00e7\u00e3o\u201d (d\u00e9bitos = pecados; cr\u00e9ditos = boas obras).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Foi bastante inusitado o epis\u00f3dio mais imediato que desencadeou o protesto de Lutero. Desde meados do s\u00e9culo 14, cada novo l\u00edder do Sacro Imp\u00e9rio Romano era escolhido por um col\u00e9gio eleitoral composto de quatro pr\u00edncipes e tr\u00eas arcebispos. Em 1517, quando houve a elei\u00e7\u00e3o de um novo imperador, um dos tr\u00eas arcebispados eleitorais (o de Mainz ou Mog\u00fancia) estava vago. Uma das fam\u00edlias nobres que participavam desse processo, os Hohenzollern, resolveu tomar para si esse cargo e assim ter mais um voto no col\u00e9gio eleitoral. Um jovem da fam\u00edlia, Alberto, foi escolhido para ser o novo arcebispo, mas havia dois problemas: ele era leigo e n\u00e3o tinha a idade m\u00ednima exigida pela lei can\u00f4nica para exercer esse of\u00edcio. O primeiro problema foi sanado com a sua r\u00e1pida ordena\u00e7\u00e3o ao sacerd\u00f3cio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quanto ao impedimento da idade, era necess\u00e1ria uma autoriza\u00e7\u00e3o especial do papa, o que levou a um neg\u00f3cio altamente vantajoso para ambas as partes. A fam\u00edlia nobre comprou a autoriza\u00e7\u00e3o do papa Le\u00e3o X mediante um empr\u00e9stimo feito junto aos banqueiros Fugger, de Augsburgo. Ao mesmo tempo, o papa autorizou o novo arcebispo Alberto de Brandemburgo a fazer uma venda especial de indulg\u00eancias, dividindo os rendimentos da seguinte maneira: parte serviria para o pagamento do empr\u00e9stimo feito pela fam\u00edlia e a outra parte iria para as obras da Catedral de S\u00e3o Pedro, em Roma. E assim foi feito. T\u00e3o logo foi instalado no seu cargo, Alberto encarregou o dominicano Jo\u00e3o Tetzel de fazer a venda das indulg\u00eancias (o perd\u00e3o das penas temporais do pecado). Quando Tetzel aproximou-se de Wittenberg, Lutero resolveu pronunciar-se sobre o assunto.<\/p>\n<h3 style=\"text-align: justify;\">2.2 Martinho Lutero (1483-1546)<\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">Martinho Lutero nasceu em 1483 na pequena cidade de Eisleben, na Tur\u00edngia, em um lar muito religioso. Seu pai trabalhava nas minas e a fam\u00edlia tinha uma vida confort\u00e1vel. Inicialmente, o jovem pretendeu seguir a carreira jur\u00eddica, mas em 1505 defrontou-se com a morte em uma tempestade e resolveu abra\u00e7ar a vida religiosa. Ingressou no mosteiro agostiniano de Erfurt, onde se dedicou a uma intensa busca da salva\u00e7\u00e3o. Em 1512, tornou-se professor da Universidade de Wittenberg, onde passou a ministrar cursos sobre v\u00e1rios livros da B\u00edblia, como G\u00e1latas e Romanos. Isso lhe deu um novo entendimento acerca da \u201cjusti\u00e7a de Deus\u201d: ela n\u00e3o era simplesmente uma express\u00e3o da severidade de Deus, mas do seu amor que justifica o pecador mediante a f\u00e9 em Jesus Cristo (Rom 1.17).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No dia 31 de outubro de 1517, diante da venda das indulg\u00eancias por Jo\u00e3o Tetzel, Lutero afixou \u00e0 porta da igreja de Wittenberg as suas\u00a0<em>Noventa e Cinco Teses<\/em>, a maneira usual de convidar-se uma comunidade acad\u00eamica para debater algum assunto. Logo, uma c\u00f3pia das teses chegou \u00e0s m\u00e3os do arcebispo, que as enviou a Roma. No ano seguinte, Lutero foi convocado para ir a Roma a fim de responder \u00e0 acusa\u00e7\u00e3o de heresia. Recusando-se a ir, foi entrevistado pelo cardeal Cajetano e manteve as suas posi\u00e7\u00f5es. Em 1519, Lutero participou de um debate em Leipzig com o dominicano Jo\u00e3o Eck, no qual defendeu o pr\u00e9-reformador Jo\u00e3o Hus e afirmou que os conc\u00edlios e os papas podiam errar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 1520, a bula papal\u00a0<em>Exsurge Domine<\/em>\u00a0(= \u201cLevanta-te, Senhor\u201d) deu-lhe sessenta dias para retratar-se ou ser excomungado. Os estudantes e professores da universidade queimaram a bula e um exemplar da lei can\u00f4nica em pra\u00e7a p\u00fablica. Nesse mesmo ano, Lutero escreveu v\u00e1rias obras importantes, especialmente tr\u00eas:\u00a0<em>\u00c0 Nobreza Crist\u00e3 da Na\u00e7\u00e3o Alem\u00e3<\/em>,\u00a0<em>O Cativeiro Babil\u00f4nico da Igreja<\/em>\u00a0e\u00a0<em>A Liberdade do Crist\u00e3o<\/em>. Isso lhe deu notoriedade imediata em toda a Europa e aumentou a sua popularidade na Alemanha. No in\u00edcio de 1521, foi publicada a bula de excomunh\u00e3o,\u00a0<em>Decet Pontificem Romanum<\/em>. Nesse ano, Lutero compareceu a uma reuni\u00e3o do parlamento, a Dieta de Worms, onde reafirmou as suas id\u00e9ias. Foi promulgado contra ele o Edito de Worms, que o levou a refugiar-se no castelo de Wartburgo, sob a prote\u00e7\u00e3o do pr\u00edncipe-eleitor da Sax\u00f4nia, Frederico, o S\u00e1bio. Ali, Lutero come\u00e7ou a produzir uma obra-prima da literatura alem\u00e3, a sua tradu\u00e7\u00e3o das Escrituras.<\/p>\n<h3 style=\"text-align: justify;\">2.3 A Reforma na Alemanha<\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">A partir de ent\u00e3o, a reforma luterana difundiu-se rapidamente no Sacro Imp\u00e9rio, sendo abra\u00e7ada por v\u00e1rios principados alem\u00e3es. Isso levou a dificuldades crescentes com os principados cat\u00f3licos, com o novo imperador Carlos V (1519-1556) e com o parlamento (Dieta). Na Dieta de 1526, houve uma atitude de toler\u00e2ncia para com os luteranos, mas em 1529 a\u00a0<em>Dieta de Spira<\/em>\u00a0reverteu essa pol\u00edtica conciliadora. Diante disso, os l\u00edderes luteranos fizeram um protesto formal que deu origem ao nome hist\u00f3rico \u201cprotestantes\u201d. No ano seguinte, o auxiliar e eventual sucessor de Lutero, Filipe Melanchton (1497-1560), apresentou ao imperador Carlos V a\u00a0<em>Confiss\u00e3o de Augsburgo<\/em>, um importante documento que definia em 21 artigos a doutrina luterana e indicava sete erros que Lutero via na Igreja Cat\u00f3lica Romana.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os problemas pol\u00edtico-religiosos levaram a um per\u00edodo de guerras entre cat\u00f3licos e protestantes (1546-1555), que terminaram com um tratado, a Paz de Augsburgo. Esse tratado assegurou a legalidade do luteranismo mediante o princ\u00edpio \u201ccujus regio, eius religio\u201d, ou seja, a religi\u00e3o de um pr\u00edncipe seria automaticamente a religi\u00e3o oficial do seu territ\u00f3rio. O luteranismo tamb\u00e9m se difundiu em outras partes da Europa, principalmente nos pa\u00edses n\u00f3rdicos, surgindo igrejas nacionais luteranas na Su\u00e9cia (1527), Dinamarca (1537), Noruega (1539) e Isl\u00e2ndia (1554). Lutero e os demais reformadores defenderam alguns princ\u00edpios b\u00e1sicos que viriam a caracterizar as convic\u00e7\u00f5es e pr\u00e1ticas protestantes:\u00a0<em>sola Scriptura<\/em>,\u00a0<em>solo Christo<\/em>,\u00a0<em>sola gratia<\/em>,\u00a0<em>sola fides<\/em>,\u00a0<em>soli Deo gloria<\/em>. Outro princ\u00edpio aceito por todos foi o do<em>sacerd\u00f3cio universal dos fi\u00e9is<\/em>.<\/p>\n<h3 style=\"text-align: justify;\">2.4 Ulrico Zu\u00ednglio (1484-1531)<\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ulrico Zu\u00ednglio recebeu uma educa\u00e7\u00e3o esmerada, com forte influ\u00eancia humanista. Inicialmente, foi sacerdote em Glarus (1506) e em Einsiedeln (1516). Influenciado pelo Novo Testamento publicado por Erasmo de Roterd\u00e3, tornou-se um estudioso das Escrituras e um pregador b\u00edblico. Com isso, foi chamado para trabalhar na catedral de Zurique em 1518. Quatro anos mais tarde, surgiram as primeiras diverg\u00eancias com a doutrina cat\u00f3lica. Zu\u00ednglio defendeu o consumo de carne na quaresma e o casamento dos sacerdotes, alegando n\u00e3o serem essas coisas proibidas nas Escrituras. Ele prop\u00f4s o princ\u00edpio de que tudo devia ser julgado pela B\u00edblia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 1523, houve o primeiro debate p\u00fablico em Zurique e a cidade come\u00e7ou a tornar-se protestante. O reformador escreveu os\u00a0<em>Sessenta e Sete Artigos<\/em>\u00a0\u2013 a carta magna da reforma de Zurique \u2013 nos quais defendeu a salva\u00e7\u00e3o somente pela gra\u00e7a, a autoridade da Escritura e o sacerd\u00f3cio dos fi\u00e9is, bem como atacou o primado do papa e a missa. Esse movimento su\u00ed\u00e7o, conhecido como a \u201csegunda reforma\u201d, deu origem \u00e0s igrejas \u201creformadas\u201d, difundindo-se inicialmente na Su\u00ed\u00e7a alem\u00e3 e no sul da Alemanha. Em 1525, o Conselho Municipal de Zurique adotou o culto em lugar da missa e em geral promoveu mudan\u00e7as mais radicais do que as efetuadas por Lutero.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Como estava acontecendo na Alemanha, tamb\u00e9m na Su\u00ed\u00e7a houve guerras entre cat\u00f3licos e protestantes. Em 1529, travou-se a primeira batalha de Kappel. No mesmo ano, a<em>\u00a0Dieta de Spira<\/em>\u00a0mostrou aos protestantes a necessidade de uma alian\u00e7a contra os seus advers\u00e1rios. Para tanto, era necess\u00e1rio que resolvessem algumas diferen\u00e7as doutrin\u00e1rias. Isso levou ao\u00a0<em>Col\u00f3quio de Marburg<\/em>, convocado pelo pr\u00edncipe Filipe de Hesse. Luteranos e reformados concordaram sobre a maior parte das quest\u00f5es doutrin\u00e1rias, mas divergiram seriamente sobre o significado da Santa Ceia. Em 1531, Zu\u00ednglio morreu na segunda batalha de Kappel.<\/p>\n<h3 style=\"text-align: justify;\">2.5 Os Reformadores Radicais (Anabatistas)<\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">O terceiro movimento da Reforma Protestante surgiu na pr\u00f3pria cidade de Zurique. Em 1522, homens como Conrado Grebel e F\u00e9lix Mantz come\u00e7aram a reunir-se com amigos para estudar a B\u00edblia. Inicialmente, eles apoiaram a obra de Zu\u00ednglio, mas a partir de 1524 passaram a condenar tanto Zu\u00ednglio quanto as autoridades municipais, alegando que a sua obra de reforma n\u00e3o estava sendo profunda o suficiente. Por causa de sua insist\u00eancia no batismo de adultos, foram apelidados de \u201canabatistas\u201d, ou seja, rebatizadores, sendo tamb\u00e9m chamados de radicais, fan\u00e1ticos, entusiastas e outras designa\u00e7\u00f5es. Por causa de suas atividades de protesto, nas quais chegavam a interromper cultos e celebra\u00e7\u00f5es da ceia, os l\u00edderes anabatistas sofreram puni\u00e7\u00f5es de severidade crescente. Em 1526, Grebel morreu em uma epidemia, mas seu pai foi decapitado, Mantz foi afogado e outro l\u00edder, Jorge Blaurock, foi expulso da cidade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O movimento logo se difundiu nas vizinhas Alemanha e \u00c1ustria e em outras partes da Europa. Um importante l\u00edder em Estrasburgo foi Miguel Sattler (c.1490-1527), que presidiu a confer\u00eancia de Schleitheim (1527), na qual os anabatistas aprovaram a\u00a0<em>Confiss\u00e3o de F\u00e9 de Schleitheim<\/em>. Essa confiss\u00e3o definiu os princ\u00edpios anabatistas b\u00e1sicos: ideal de restaura\u00e7\u00e3o da igreja primitiva; igrejas vistas como congrega\u00e7\u00f5es volunt\u00e1rias separadas do Estado; batismo de adultos por imers\u00e3o; afastamento do mundo; fraternidade e igualdade; pacifismo; proibi\u00e7\u00e3o do porte de armas, cargos p\u00fablicos e juramentos. Os anabatistas foram os \u00fanicos protestantes do s\u00e9culo 16 a defenderem a completa separa\u00e7\u00e3o entre a igreja e o estado.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os anabatistas adquiriram uma reputa\u00e7\u00e3o negativa por causa de acontecimentos ocorridos na cidade de M\u00fcnster (1532-1535). Influenciados por Melchior Hoffman, que anunciou o fim do mundo e a destrui\u00e7\u00e3o dos \u00edmpios, alguns anabatistas implantaram uma teocracia intolerante naquela cidade alem\u00e3. Finalmente, foram todos mortos por um ex\u00e9rcito cat\u00f3lico. J\u00e1 na Holanda, o movimento teve um l\u00edder equilibrado e capaz na pessoa de\u00a0<em>Menno Simons<\/em>\u00a0(1496-1561), do qual vieram os menonitas. Outro l\u00edder de express\u00e3o foi Jacob Hutter (\u20201536), na Mor\u00e1via. Os menonitas e os huteritas viviam em col\u00f4nias, tendo tudo em comum (ver Atos 2.44; 4.32). Cruelmente perseguidos em toda a Europa, muitos deles eventualmente emigraram para a Am\u00e9rica do Norte.<\/p>\n<h3 style=\"text-align: justify;\">2.6 Jo\u00e3o Calvino (1509-1564)<\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jo\u00e3o Calvino nasceu em Noyon, no nordeste da Fran\u00e7a. Seu pai, G\u00e9rard Cauvin, era secret\u00e1rio do bispo e advogado da igreja naquela cidade; sua m\u00e3e Jeanne Lefranc, morreu quando ele ainda era uma crian\u00e7a. Ap\u00f3s os primeiros estudos em sua cidade, Calvino seguiu para Paris, onde estudou teologia e humanidades (1523-1528). A seguir, por determina\u00e7\u00e3o do pai, foi estudar direito nas cidades de Orl\u00e9ans e Bourges (1528-1531). Com a morte do pai, retornou a Paris e deu prosseguimento aos estudos human\u00edsticos, publicando sua primeira obra, um coment\u00e1rio do tratado de S\u00eaneca\u00a0<em>Sobre a Clem\u00eancia.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Calvino converteu-se provavelmente em 1533. No dia 1\u00ba de novembro daquele ano, seu amigo Nicholas Cop fez um discurso de posse na Universidade de Paris repleto de id\u00e9ias protestantes. Calvino foi considerado o co-autor do discurso e os dois amigos tiveram de fugir para salvar a vida. Calvino foi para a cidade de Angouleme, onde come\u00e7ou a escrever a sua obra mais importante,\u00a0<em>Institui\u00e7\u00e3o da Religi\u00e3o Crist\u00e3\u00a0<\/em>ou\u00a0<em>Institutas<\/em>, publicada em Basil\u00e9ia em 1536 (a \u00faltima edi\u00e7\u00e3o seria publicada somente em 1559). Ap\u00f3s voltar por breve tempo ao seu pa\u00eds, Calvino decidiu fixar-se na cidade protestante de Estrasburgo, onde atuava o reformador Martin Butzer (1491-1551). No caminho, ocorreu um epis\u00f3dio marcante. Impossibilitado de seguir diretamente para Estrasburgo por causa de guerra entre a Fran\u00e7a e a Alemanha, o futuro reformador fez um longo desvio, passando por Genebra, na Su\u00ed\u00e7a francesa. Essa cidade havia abra\u00e7ado o protestantismo reformado h\u00e1 apenas dois meses (maio de 1536), sob a lideran\u00e7a de Guilherme Farel (1489-1565). Este, sabendo que o autor das\u00a0<em>Institutas\u00a0<\/em>estava de passagem pela cidade, o \u201cconvenceu\u201d a permanecer ali e ajud\u00e1-lo.<\/p>\n<h3 style=\"text-align: justify;\">2.7 A Reforma em Genebra<\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">Logo, Calvino e Farel entraram em conflito com os magistrados de Genebra e dois anos depois foram expulsos. Calvino seguiu ent\u00e3o para Estrasburgo, onde passou os tr\u00eas anos mais felizes e produtivos da sua carreira (1538-1541). Naquela cidade, ele pastoreou uma igreja de refugiados franceses, casou-se com a vi\u00fava Idelette de Bure (\u20201549), lecionou na academia de Jo\u00e3o Sturm, participou de confer\u00eancias religiosas ao lado de Martin Butzer e publicou algumas obras importantes, entre elas a segunda edi\u00e7\u00e3o das\u00a0<em>Institutas\u00a0<\/em>e o\u00a0<em>Coment\u00e1rio de Romanos<\/em>, o primeiro dos muitos que escreveu.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Eventualmente, os magistrados de Genebra insistiram no seu retorno. Calvino aceitou com a condi\u00e7\u00e3o de que pudesse escrever a constitui\u00e7\u00e3o da Igreja Reformada de Genebra. Essa importante obra, as\u00a0<em>Ordenan\u00e7as Eclesi\u00e1sticas<\/em>, previa quatro categorias de oficiais: pastores, encarregados da prega\u00e7\u00e3o e dos sacramentos; doutores para o estudo e ensino da B\u00edblia; presb\u00edteros, com fun\u00e7\u00f5es disciplinares; e di\u00e1conos, encarregados da benefic\u00eancia. Os pastores e os doutores formavam a Companhia dos Pastores; os pastores e os presb\u00edteros integravam o Consist\u00f3rio, uma esp\u00e9cie de tribunal eclesi\u00e1stico. Calvino teve um relacionamento tenso com as autoridades municipais at\u00e9 1555. No final desse per\u00edodo, em 1553, o m\u00e9dico espanhol Miguel Serveto foi condenado e executado por heresia. Calvino teve uma participa\u00e7\u00e3o nesse epis\u00f3dio, lamentada por seus herdeiros, o que n\u00e3o anula a sua grande obra como reformador, escritor, te\u00f3logo e l\u00edder eclesi\u00e1stico. Em 1559, um ano especialmente significativo, o reformador tornou-se cidad\u00e3o de Genebra, fundou a sua Academia, embri\u00e3o da Universidade de Genebra, e publicou a \u00faltima edi\u00e7\u00e3o das\u00a0<em>Institutas<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A vis\u00e3o do reformador franc\u00eas era tornar Genebra uma cidade-crist\u00e3-modelo atrav\u00e9s da reorganiza\u00e7\u00e3o da Igreja, de um minist\u00e9rio bem preparado, de leis que expressassem uma \u00e9tica b\u00edblica e de um sistema educacional completo e gratuito. O resultado foi que Genebra tornou-se um grande centro do protestantismo, preparando l\u00edderes reformados para toda a Europa e abrigando centenas de refugiados. O calvinismo veio a ser o mais completo sistema teol\u00f3gico protestante, tendo por princ\u00edpio b\u00e1sico a soberania de Deus e suas implica\u00e7\u00f5es, soteriol\u00f3gicas e outras. Foi essa a origem das Igrejas reformadas (continente europeu) ou presbiterianas (Ilhas Brit\u00e2nicas). Os principais pa\u00edses em que se difundiu o movimento reformado foram, al\u00e9m da Su\u00ed\u00e7a e da Fran\u00e7a, o sul da Alemanha, a Holanda, a Hungria e a Esc\u00f3cia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Calvino tamb\u00e9m se notabilizou como um erudito b\u00edblico. Escreveu coment\u00e1rios sobre quase todo o Novo Testamento e os principais livros do Antigo Testamento. Seus serm\u00f5es e prele\u00e7\u00f5es tamb\u00e9m expuseram amplamente as Escrituras. Al\u00e9m disso, escreveu muitos op\u00fasculos, tratados e cartas. Mas a maior das suas obras s\u00e3o as\u00a0<em>Institutas<\/em>, nas quais ele exp\u00f4s todos os aspectos da doutrina crist\u00e3, apelando \u00e0s Escrituras e ao testemunho dos antigos pais da igreja. Em muitas de suas obras, se v\u00ea uma m\u00e3o que sustenta um cora\u00e7\u00e3o, e ao redor as palavras\u00a0<em>Cor meum tibi offero Domine, prompte et sincere\u00a0<\/em>(\u201cO meu cora\u00e7\u00e3o te ofere\u00e7o, \u00f3 Senhor, de modo pronto e sincero\u201d).<\/p>\n<h3 style=\"text-align: justify;\">2.8 Implica\u00e7\u00f5es Pr\u00e1ticas<\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os reformadores n\u00e3o estavam buscando inovar, mas restaurar antigas verdades b\u00edblicas que haviam sido esquecidas ou obscurecidas pelo tempo e pelas tradi\u00e7\u00f5es humanas. Sua maior contribui\u00e7\u00e3o foi chamar a aten\u00e7\u00e3o das pessoas para a import\u00e2ncia das Escrituras e seus grandes ensinos, especialmente no que diz respeito \u00e0 salva\u00e7\u00e3o e \u00e0 vida crist\u00e3. Para que as Igrejas Evang\u00e9licas atuais possam manter-se fi\u00e9is \u00e0 sua voca\u00e7\u00e3o, \u00e9 preciso que julguem tudo pelas Escrituras, acolhendo o que \u00e9 bom e lan\u00e7ando fora o que \u00e9 mau. Os reformadores nos mostraram que o crit\u00e9rio da verdade n\u00e3o s\u00e3o os ensinos humanos, nem a experi\u00eancia espiritual subjetiva, mas o Esp\u00edrito Santo falando na Palavra e pela Palavra.<\/p>\n<p>[\/vc_column_text][\/vc_accordion_tab][vc_accordion_tab title=&#8221;3. A Reforma Protestante \u2013 2\u00aa Parte&#8221;][vc_column_text]<\/p>\n<h2 style=\"text-align: justify;\">3. A Reforma Protestante\u00a0 \u2013 2\u00aa Parte<\/h2>\n<h3 style=\"text-align: justify;\">3.1 A Reforma na Inglaterra<\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">V\u00e1rios fatores contribu\u00edram para a introdu\u00e7\u00e3o da Reforma Protestante na Inglaterra: o anticlericalismo de uma grande parcela do povo e dos governantes, as id\u00e9ias do pr\u00e9-reformador Jo\u00e3o Wycliff, a penetra\u00e7\u00e3o de ensinos luteranos a partir de 1520, o Novo Testamento traduzido por William Tyndale (1525) e a atua\u00e7\u00e3o de refugiados que voltaram de Genebra. Todavia, quem deu o passo decisivo para que a Inglaterra come\u00e7asse a tornar-se protestante foi o rei Henrique VIII.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Henrique VIII (1491-1547) come\u00e7ou a reinar em 1509. Sendo muito cat\u00f3lico, em 1521 escreveu um folheto contra Lutero que lhe valeu o t\u00edtulo de \u201cdefensor da f\u00e9\u201d. Era casado com a princesa espanhola Catarina de Arag\u00e3o, vi\u00fava do seu irm\u00e3o, que n\u00e3o conseguiu dar-lhe um filho var\u00e3o, mas somente uma filha, Maria. Henrique pediu ao papa Clemente VII que anulasse o seu casamento com Catarina para que pudesse casar-se com Ana Bolena (Anne Boleyn), mas o papa n\u00e3o pode atend\u00ea-lo nesse desejo. Uma das principais raz\u00f5es foi o fato de que Catarina era tia do sacro imperador germ\u00e2nico Carlos V. Em 1533, Thomas Cranmer (1489-1556) foi nomeado arcebispo de Cantu\u00e1ria e poucos meses depois declarou nulo o casamento do rei. Em 1534, o parlamento aprovou o Ato de Supremacia, pelo qual a Igreja Cat\u00f3lica inglesa desvinculou-se de Roma e o rei foi declarado \u201cProtetor e \u00danico Chefe Supremo da Igreja da Inglaterra.\u201d O bispo John Fisher e o ex-chanceler Thomas More opuseram-se a essas medidas e foram executados (1535); os numerosos mosteiros do pa\u00eds foram extintos e suas propriedades confiscadas (1536-1539). Nos anos seguintes, Henrique ainda teria outras quatro esposas: Jane Seymour, Ana de Cleves, Catarina Howard e Catarina Parr.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Henrique morreu na f\u00e9 cat\u00f3lica e foi sucedido no trono por Eduardo VI (1547-1553), o filho que teve com Jane Seymour. Os tutores do jovem rei implantaram a Reforma na Inglaterra e puseram fim \u00e0s persegui\u00e7\u00f5es contra os protestantes. Foram aprovados dois importantes documentos escritos pelo arcebispo Cranmer, o\u00a0<em>Livro de Ora\u00e7\u00e3o Comum\u00a0<\/em>(1549; revisto em 1552) e os\u00a0<em>Quarenta e Dois Artigos\u00a0<\/em>(1553), uma s\u00edntese das teologias luterana e calvinista. Eduardo era doentio e morreu ainda jovem, sendo sucedido por sua irm\u00e3 Maria Tudor (1553-1558), conhecida como \u201ca sanguin\u00e1ria\u201d, filha de Catarina de Arag\u00e3o. Maria perseguiu os l\u00edderes protestantes e muitos foram levados \u00e0 fogueira. Os m\u00e1rtires mais famosos foram Hugh Latimer, Nicholas Ridley e Thomas Cranmer. Muitos outros, os chamados \u201cexilados marianos\u201d, foram para Genebra, Estrasburgo e outras cidades protestantes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com a morte de Maria, subiu ao trono sua meio-irm\u00e3 Elizabete I (1558-1603), filha de Ana Bolena, em cujo reinado a Inglaterra tornou-se definitivamente protestante. Em 1563, foi promulgado o Ato de Uniformidade, que aprovou os\u00a0<em>Trinta e Nove Artigos<\/em>. O resultado foi o<em>\u00a0<\/em>acordo anglicano, que reuniu elementos das principais teologias evang\u00e9licas, bem como tra\u00e7os cat\u00f3licos, especialmente na \u00e1rea da liturgia. Al\u00e9m dos anglicanos, havia outros grupos protestantes na Inglaterra, como os puritanos, presbiterianos e congregacionais. Os puritanos surgiram no reinado de Elizabete e foram assim chamados porque reivindicavam uma Igreja pura em sua doutrina, culto e forma de governo. Reprimidos na Inglaterra, muitos puritanos foram para a Am\u00e9rica do Norte, estabelecendo-se em Plymouth (1620) e Boston (1630), na Nova Inglaterra. Outro grupo protestante ingl\u00eas foram os batistas, surgidos a partir de 1607 sob a lideran\u00e7a de John Smyth e Thomas Helwys. Este fundou em 1612 a primeira igreja batista geral.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No s\u00e9culo 17, no contexto da guerra civil entre o rei Carlos I e um parlamento puritano, foi convocada a Assembl\u00e9ia de Westminster (1643-1649). Essa c\u00e9lebre assembl\u00e9ia elaborou uma s\u00e9rie de documentos calvinistas para a Igreja da Inglaterra, entre os quais a\u00a0<em>Confiss\u00e3o de F\u00e9\u00a0<\/em>e os\u00a0<em>Catecismos\u00a0<\/em>Maior e Breve, que se tornaram os principais s\u00edmbolos confessionais das Igrejas reformadas ou presbiterianas.<\/p>\n<h3 style=\"text-align: justify;\">3.2 A Reforma na Esc\u00f3cia<\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">O protestantismo come\u00e7ou a ser difundido na Esc\u00f3cia por homens como Patrick Hamilton e George Wishart, ambos martirizados. Todavia, o presbiterianismo foi introduzido gra\u00e7as aos esfor\u00e7os do reformador John Knox (\u20201572), um disc\u00edpulo de Calvino que, ap\u00f3s passar alguns anos em Genebra, retornou ao seu pa\u00eds em 1559. No ano seguinte, o parlamento escoc\u00eas criou a Igreja da Esc\u00f3cia (presbiteriana). Knox fez oposi\u00e7\u00e3o tenaz \u00e0 rainha cat\u00f3lica Maria Stuart (1542-1587), prima de Elizabete, que viveu na Fran\u00e7a (1548-1561) e voltou \u00e0 Esc\u00f3cia para tomar posse do trono. A aceita\u00e7\u00e3o do protestantismo ocorreu no contexto da luta pela independ\u00eancia do dom\u00ednio franc\u00eas. Alguns anos mais tarde, Maria Stuart teve de fugir e buscar ref\u00fagio na Inglaterra, onde foi executada por ordem de Elizabete em 1587.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Foi na Esc\u00f3cia que surgiu o conceito pol\u00edtico-religioso de \u201cpresbiterianismo\u201d. Os reis ingleses e escoceses sempre foram firmes defensores do episcopalismo, ou seja, de uma Igreja governada por bispos. A raz\u00e3o disso \u00e9 que, sendo os bispos nomeados pelos reis, a Igreja seria mais facilmente controlada pelo estado e serviria aos interesses do mesmo. \u00c0 luz das Escrituras, os presbiterianos insistiram em uma Igreja governada por oficiais eleitos pela comunidade, os presb\u00edteros, tornando assim a Igreja livre da tutela do Estado. Foi somente ap\u00f3s um longo e tumultuado processo que o presbiterianismo implantou-se definitivamente na Esc\u00f3cia.<\/p>\n<h3 style=\"text-align: justify;\">3.3 A Reforma na Fran\u00e7a<\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">O movimento reformado franc\u00eas surgiu na d\u00e9cada de 1530. Inicialmente tolerante, o rei Francisco I (1515-1547) eventualmente mostrou-se hostil contra os reformados. Henrique II (1547-1559) foi ainda mais severo que o seu pai. Em 1559, reuniu-se o primeiro s\u00ednodo nacional da Igreja Reformada da Fran\u00e7a, que aprovou a\u00a0<em>Confiss\u00e3o Galicana<\/em>. Em 1561, havia duas mil congrega\u00e7\u00f5es reformadas no pa\u00eds, compostas de artes\u00e3os, comerciantes e at\u00e9 mesmo de algumas fam\u00edlias nobres, como os Bourbon e os Montmorency. Os reformados franceses, conhecidos como huguenotes, estavam concentrados principalmente no oeste e sudoeste do pa\u00eds, e recebiam decidido apoio de Genebra. Ao norte e leste estava a fac\u00e7\u00e3o ultracat\u00f3lica liderada pela poderosa fam\u00edlia Guise-Lorraine.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No reinado de Francisco II (1559-1560), os Guise controlaram o governo. Quando Carlos IX (1560-1574) tornou-se rei, sendo ainda menor, sua m\u00e3e Catarina de M\u00e9dici assumiu a reg\u00eancia, mostrando-se inicialmente tolerante para com os huguenotes. Tentando conciliar as duas fac\u00e7\u00f5es, ela promoveu um encontro de cat\u00f3licos e protestantes, o Col\u00f3quio de Poissy, em 1561. Com o fracasso desse encontro, houve um longo per\u00edodo de guerras religiosas (1562-1598), cujo epis\u00f3dio mais chocante foi o massacre do Dia de S\u00e3o Bartolomeu (24-08-1572). Centenas de huguenotes achavam-se em Paris para o casamento da filha de Catarina com o nobre protestante Henrique de Navarra. Na calada da noite, os huguenotes foram assassinados \u00e0 trai\u00e7\u00e3o enquanto dormiam, entre eles o seu principal l\u00edder, almirante Gaspard de Coligny. Nos dias seguintes, muitos milhares foram mortos no interior da Fran\u00e7a. Mais tarde, quando o nobre huguenote tornou-se rei, com o t\u00edtulo de Henrique IV, ele promulgou em favor dos seus correligion\u00e1rios o Edito de Nantes (1598), concedendo-lhes uma toler\u00e2ncia limitada. Esse edito seria revogado pelo rei Lu\u00eds XIV em 1685, dando in\u00edcio a um novo per\u00edodo de duras prova\u00e7\u00f5es para os reformados franceses.<\/p>\n<h3 style=\"text-align: justify;\">3.4 A Reforma nos Pa\u00edses Baixos<\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os Pa\u00edses Baixos eram parte do Sacro Imp\u00e9rio Germ\u00e2nico e depois ficaram sob o dom\u00ednio da Espanha. Durante o reinado do imperador Carlos V, surgiram naquela regi\u00e3o luteranos, anabatistas e principalmente calvinistas, por volta de 1540. Desde o in\u00edcio foram objeto de intensas persegui\u00e7\u00f5es, tendo a repress\u00e3o aumentado sob o rei Filipe II (1555) e o governador Duque de Alba (1567). A revolta contra a tirania espanhola foi liderada pelo alem\u00e3o Guilherme de Orange, grande defensor da plena liberdade religiosa, que seria assassinado em 1584. Eventualmente, os Pa\u00edses Baixos dividiram-se em tr\u00eas na\u00e7\u00f5es: B\u00e9lgica e Luxemburgo (cat\u00f3licas) e Holanda (protestante).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Igreja Reformada Holandesa foi organizada na d\u00e9cada de 1570. No in\u00edcio do s\u00e9culo 17, surgiu uma forte controv\u00e9rsia por causa das id\u00e9ias de Tiago Arm\u00ednio. O S\u00ednodo de Dort (1618-1619) rejeitou as id\u00e9ias de Arm\u00ednio e afirmou os chamados \u201ccinco pontos do calvinismo\u201d, cujas iniciais formam em ingl\u00eas a palavra \u201ctulip\u201d (tulipa): Deprava\u00e7\u00e3o total ( Total depravity), Elei\u00e7\u00e3o incondicional (Unconditional election), Expia\u00e7\u00e3o limitada (Limited atonement), Gra\u00e7a irresist\u00edvel (Irresistible Grace) e Perseveran\u00e7a dos santos (Perseverance of the saints).<\/p>\n<h3 style=\"text-align: justify;\">3.5 A Contra-Reforma<\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao analisarem as a\u00e7\u00f5es da Igreja Cat\u00f3lica Romana ap\u00f3s o surgimento do protestantismo, os historiadores falam em dois aspectos: Contra-Reforma e Reforma Cat\u00f3lica. O primeiro foi o esfor\u00e7o da Igreja Romana para reorganizar-se e lutar contra o protestantismo. Essa rea\u00e7\u00e3o ocorreu tanto no plano dogm\u00e1tico quanto pol\u00edtico-militar. J\u00e1 a Reforma Cat\u00f3lica revelou a preocupa\u00e7\u00e3o de corrigir certos problemas internos do catolicismo em resposta \u00e0s cr\u00edticas dos protestantes e de outros grupos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Foram v\u00e1rios os elementos dessa rea\u00e7\u00e3o. Na Espanha, houve not\u00e1veis manifesta\u00e7\u00f5es de uma rica espiritualidade m\u00edstica, cujos representantes mais destacados foram Teresa de \u00c1vila e Jo\u00e3o da Cruz. Al\u00e9m do misticismo espanhol, outro sinal da revitaliza\u00e7\u00e3o cat\u00f3lica foi o surgimento de v\u00e1rias ordens religiosas, das quais a mais importante foi a Sociedade de Jesus, fundada pelo espanhol In\u00e1cio de Loiola (1491-1556) e oficializada pelo papa em 1540. Al\u00e9m dos votos usuais de pobreza, castidade e obedi\u00eancia aos superiores, os jesu\u00edtas faziam um voto adicional de submiss\u00e3o incondicional ao papa. Seu objetivo era a expans\u00e3o e o fortalecimento da f\u00e9 cat\u00f3lica atrav\u00e9s de miss\u00f5es, educa\u00e7\u00e3o e combate \u00e0 heresia. Os jesu\u00edtas exerceram forte influ\u00eancia sobre governantes e contribu\u00edram decisivamente para a supress\u00e3o do protestantismo em v\u00e1rias regi\u00f5es da Europa, como a Espanha e a Pol\u00f4nia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O instrumento mais eficaz tanto da Contra-Reforma quanto da Reforma Cat\u00f3lica foi o Conc\u00edlio de Trento, que se reuniu em tr\u00eas s\u00e9ries de sess\u00f5es entre 1545 e 1563. Seus decretos rejeitaram explicitamente as doutrinas protestantes e oficializaram o tomismo (a teologia de Tom\u00e1s de Aquino), a Vulgata Latina e os livros denominados ap\u00f3crifos ou deuterocan\u00f4nicos. Outros instrumentos da Contra-Reforma foram o \u00cdndice de Livros Proibidos (<em>Index Librorum Prohibitorum<\/em>, 1559) e a Inquisi\u00e7\u00e3o, especialmente em suas vers\u00f5es espanhola e romana. Como express\u00e3o do dinamismo cat\u00f3lico nesse per\u00edodo, as ordens dos franciscanos, dominicanos e jesu\u00edtas realizaram uma grande obra mission\u00e1ria no Oriente e nas Am\u00e9ricas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">No territ\u00f3rio do Sacro Imp\u00e9rio, os conflitos entre cat\u00f3licos e protestantes continuaram por muitas d\u00e9cadas, atingindo o seu auge na tenebrosa Guerra dos Trinta Anos, que envolveu metade do continente europeu. Essa guerra terminou com a Paz de Westf\u00e1lia (1648), que fixou definitivamente as fronteiras pol\u00edtico-religiosas da Europa e marcou o final do per\u00edodo da Reforma.<\/p>\n<h3 style=\"text-align: justify;\">3.6 Implica\u00e7\u00f5es Pr\u00e1ticas<\/h3>\n<p style=\"text-align: justify;\">A hist\u00f3ria da Reforma nem sempre \u00e9 agrad\u00e1vel e inspiradora. Por causa das profundas conex\u00f5es entre elementos religiosos e pol\u00edticos, esse per\u00edodo foi marcado por muita viol\u00eancia em nome da f\u00e9. Porque a religi\u00e3o \u00e9 uma coisa muito importante para as pessoas, as paix\u00f5es que desperta podem se tornar terrivelmente destrutivas. Os erros cometidos nessa \u00e1rea por diferentes grupos nos s\u00e9culos 16 e 17 nos servem de advert\u00eancia e de est\u00edmulo para a pr\u00e1tica da caridade crist\u00e3 e da toler\u00e2ncia, conforme o exemplo de Cristo. Podemos, sem abrir m\u00e3o de nossas convic\u00e7\u00f5es, respeitar os que pensam diferente de n\u00f3s.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao mesmo tempo, nos impressionamos com o hero\u00edsmo de tantos irm\u00e3os nossos da \u00e9poca da Reforma, que por causa de sua f\u00e9 enfrentaram muitas prova\u00e7\u00f5es e at\u00e9 mesmo mortes cru\u00e9is. O evangelho j\u00e1 n\u00e3o exige esse tipo de sacrif\u00edcio da maioria dos crist\u00e3os do Ocidente, mas isso n\u00e3o significa que estamos livres de grandes desafios. S\u00e3o outras as maneiras pelas quais a nossa f\u00e9 \u00e9 testada no tempo presente. Viver de acordo com os princ\u00edpios e os valores do Reino de Deus continua sendo uma prova dif\u00edcil, mas necess\u00e1ria, para todos os crist\u00e3os.<\/p>\n<p>[\/vc_column_text][\/vc_accordion_tab][vc_accordion_tab title=&#8221;4. Refer\u00eancias Bibliogr\u00e1ficas&#8221;][vc_column_text]<\/p>\n<h2>4. Refer\u00eancias Bibliogr\u00e1ficas<\/h2>\n<p>Como fontes para estudos e pesquisas complementares, sugerimos as seguintes obras, em portugu\u00eas:<\/p>\n<p>BETTENSON, Henry,\u00a0<em>Documentos da igreja crist\u00e3\u00a0<\/em>(S\u00e3o Paulo: ASTE, 1967); 3\u00aa ed. revista, corrigida e atualizada (S\u00e3o Paulo: ASTE\/Simp\u00f3sio, 1998). Uma \u00f3tima colet\u00e2nea de fontes prim\u00e1rias dos diferentes per\u00edodos da hist\u00f3ria da igreja.<\/p>\n<p>CAIRNS, Earle E.,\u00a0<em>O cristianismo atrav\u00e9s dos s\u00e9culos: uma hist\u00f3ria da igreja crist\u00e3\u00a0<\/em>(S\u00e3o Paulo: Vida Nova, 1988). Uma das melhores hist\u00f3rias da igreja em um s\u00f3 volume dispon\u00edveis em portugu\u00eas.<\/p>\n<p>CLOUSE, Robert G., PIERARD, Richard V. e YAMAUCHI, Edwin M.\u00a0<em>Dois reinos: a igreja e a cultura interagindo ao longo dos s\u00e9culos<\/em>. S\u00e3o Paulo: Cultura Crist\u00e3, 2003 (1993). Obra de grande envergadura, com quase 600 p. no texto principal. Narrativa rica e abrangente.<\/p>\n<p>DOWLEY, Tim, ed.,\u00a0<em>Atlas Vida Nova da B\u00edblia e da hist\u00f3ria do cristianismo\u00a0<\/em>(S\u00e3o Paulo: Vida Nova, 1997). Bel\u00edssima edi\u00e7\u00e3o em cores, com excepcional qualidade gr\u00e1fica. \u00datil tamb\u00e9m para o estudo da hist\u00f3ria b\u00edblica (Antigo e Novo Testamento).<\/p>\n<p>GONZ\u00c1LEZ, Justo L.,\u00a0<em>Uma hist\u00f3ria ilustrada do cristianismo<\/em>, 10 vols. (S\u00e3o Paulo: Vida Nova). Os dois volumes da edi\u00e7\u00e3o em ingl\u00eas foram transformados em dez pequenos volumes na edi\u00e7\u00e3o portuguesa. Agrad\u00e1vel de ler e, como diz o t\u00edtulo, fartamente ilustrada.<\/p>\n<p>MATOS, Alderi Souza de.,\u00a0<em>A caminhada crist\u00e3 na hist\u00f3ria<\/em>: a B\u00edblia, a igreja e a sociedade ontem e hoje (Vi\u00e7osa, MG: Ultimato, 2005). Colet\u00e2nea de textos breves sobre temas variados da hist\u00f3ria da igreja.<\/p>\n<p>NEILL, Stephen,\u00a0<em>Hist\u00f3ria das miss\u00f5es\u00a0<\/em>(S\u00e3o Paulo: Vida Nova, 1989). Uma das melhores abordagens de um aspecto espec\u00edfico da hist\u00f3ria da igreja. O autor foi mission\u00e1rio na \u00cdndia e na \u00c1frica.<\/p>\n<p>NICHOLS, Robert H.,\u00a0<em>Hist\u00f3ria da igreja crist\u00e3<\/em>, 11\u00aa ed. rev. (S\u00e3o Paulo: Editora Cultura Crist\u00e3, 2000). Obra mais modesta que as anteriores, mas \u00f3tima para quem est\u00e1 come\u00e7ando a estudar a hist\u00f3ria da igreja. O autor \u00e9 presbiteriano.<\/p>\n<p>NOLL, Mark A.,\u00a0<em>Momentos decisivos na hist\u00f3ria do cristianismo<\/em>, trad. Alderi S. Matos (S\u00e3o Paulo: Editora Cultura Crist\u00e3, 2000). Ao abordar doze eventos especialmente significativos, o autor acaba por incluir boa parte dos t\u00f3picos mais importantes da hist\u00f3ria da igreja. Cont\u00e9m um ap\u00eandice sobre o Brasil, escrito pelo tradutor.<\/p>\n<p>WALKER, W.,\u00a0<em>Hist\u00f3ria da igreja crist\u00e3<\/em>, 2 vols. (S\u00e3o Paulo: ASTE, 1967). Obra excelente, mas um tanto desatualizada. A edi\u00e7\u00e3o mais recente em ingl\u00eas, revista por tr\u00eas outros autores (Norris, Lotz e Handy) e lan\u00e7ada em 1985, ainda n\u00e3o foi publicada em portugu\u00eas.<\/p>\n<p>WALTON, Robert C.,\u00a0<em>Hist\u00f3ria da igreja em quadros\u00a0<\/em>(S\u00e3o Paulo: Editora Vida, 2000). As tabelas e esbo\u00e7os proporcionam um instrumento simples e agrad\u00e1vel para estudar a hist\u00f3ria da igreja.<\/p>\n<p>WILLIAMS, Terri,\u00a0<em>Cronologia da hist\u00f3ria eclesi\u00e1stica em gr\u00e1ficos e mapas\u00a0<\/em>(S\u00e3o Paulo: Vida Nova, 1993). Os \u00f3timos gr\u00e1ficos permitem visualizar facilmente alguns dos temas mais importantes da hist\u00f3ria da igreja.<\/p>\n<p>[\/vc_column_text][\/vc_accordion_tab][\/vc_accordion][vc_column width=&#8221;1\/1&#8243;][\/vc_column][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column width=&#8221;1\/1&#8243;]<div class=\"vc_empty_space\" style=\"line-height: 30px; height: 30px;\"><span class=\"vc_empty_space_inner\"><\/span><\/div>[\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column width=&#8221;1\/1&#8243;][vc_message color=&#8221;alert-danger&#8221; style=&#8221;square_outlined&#8221; el_class=&#8221;creditos_box&#8221;]<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\"><strong>Por:<\/strong>\u00a0Alderi Matos.\u00a0\u00a9 2011 &#8211; DTI &#8211; Divis\u00e3o de Tecnologia da Informa\u00e7\u00e3o<br \/>\nInstituto Presbiteriano Mackenzie. Original: <a href=\"http:\/\/fiel.in\/10ESfV4\" target=\"_blank\">A Reforma Protestante\u00a0do S\u00e9culo XVI<\/a>.<\/p>\n<p>[\/vc_message][\/vc_column][\/vc_row]<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Aprenda um pouco mais do que foi a Reforma Protestante com Alderi Matos.<\/p>\n","protected":false},"author":23,"featured_media":20710,"comment_status":"open","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_feature_clip_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"","jetpack_publicize_feature_enabled":true,"jetpack_social_post_already_shared":false,"jetpack_social_options":{"image_generator_settings":{"template":"highway","default_image_id":0,"font":"","enabled":false},"version":2},"jetpack_post_was_ever_published":false},"categories":[],"tags":[],"class_list":["post-20705","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","tema-calvinismo","tema-dia-da-reforma","tema-a-reformaavivamento"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v27.8 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