{"id":38737,"date":"2017-05-29T00:05:41","date_gmt":"2017-05-29T03:05:41","guid":{"rendered":"http:\/\/voltemosaoevangelho.com\/blog\/?p=38737"},"modified":"2017-05-26T15:06:11","modified_gmt":"2017-05-26T18:06:11","slug":"o-seculo-xv-e-reforma-protestante","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/voltemosaoevangelho.com\/blog\/2017\/05\/o-seculo-xv-e-reforma-protestante\/","title":{"rendered":"O s\u00e9culo XV e a Reforma Protestante"},"content":{"rendered":"<div class=\"wpb-content-wrapper\"><p>[vc_row][vc_column][vc_column_text]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O s\u00e9culo XV \u00e9 mais conhecido como a era do Renascimento, que de muitas maneiras lan\u00e7ou sementes que floresceriam na Reforma do s\u00e9culo XVI. Esse aspecto da hist\u00f3ria foi bem capturado no s\u00e9culo XVI, com o dito: \u201cErasmo [pr\u00edncipe dos escritores da Renascen\u00e7a] p\u00f4s o ovo e Lutero o chocou\u201d.<\/p>\n<h2 style=\"text-align: justify;\"><strong>Definindo o Renascimento<\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Renascen\u00e7a (\u201crenascimento\u201d) n\u00e3o foi primariamente um fen\u00f4meno religioso, embora tivesse elementos religiosos. Na verdade, \u00e9 dif\u00edcil definir exatamente o que foi o Renascimento; sua caracter\u00edstica variou de uma terra para outra, e at\u00e9 de um indiv\u00edduo para outro. Talvez o mais pr\u00f3ximo que podemos chegar ao cora\u00e7\u00e3o da Renascen\u00e7a \u00e9 dizer que ela estava focada em recuperar a antiga cultura \u201ccl\u00e1ssica\u201d, grega e romana, para a gera\u00e7\u00e3o da \u00e9poca. A Renascen\u00e7a envolveu um renascimento das formas cl\u00e1ssicas de pensamento, express\u00e3o e a\u00e7\u00e3o na gram\u00e1tica, ret\u00f3rica, poesia, hist\u00f3ria e filosofia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os pensadores renascentistas viam essas coisas como os poderes que transformaram a mat\u00e9ria-prima da natureza humana na refinada perfei\u00e7\u00e3o da pessoa culta. Eles colocaram uma \u00eanfase especial nos seres humanos como comunicadores; a express\u00e3o efetiva dos pensamentos e valores na escrita, orat\u00f3ria, m\u00fasica e arte visual foram centrais para a vis\u00e3o do Renascimento.<\/p>\n<h2 style=\"text-align: justify;\"><strong>Humanismo crist\u00e3o<\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">No s\u00e9culo XIX, o pensador alem\u00e3o F.J. Niethammer cunhou o termo <em>humanismo<\/em> para resumir essa concep\u00e7\u00e3o renascentista da cultura e da vida. N\u00e3o devemos confundi-lo com a filosofia do humanismo secular, que \u00e9 anticrist\u00e3. A maioria dos humanistas da Renascen\u00e7a eram humanistas crist\u00e3os. Seu compromisso com a cultura humana era geralmente parte de sua cosmovis\u00e3o crist\u00e3, que via um significado e valor dado por Deus na vida presente, bem como na vida futura.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os humanistas renascentistas olharam para tr\u00e1s, para a civiliza\u00e7\u00e3o da Gr\u00e9cia e da Roma antiga, como a era de ouro da cultura humana. Essa era de ouro, eles criam, tinha que renascer no presente se a humanidade deveria cumprir o seu potencial. Crescendo a partir dessa perspectiva, o Renascimento presenciou um novo otimismo sobre as possibilidades da realiza\u00e7\u00e3o humana na arte, m\u00fasica, literatura, educa\u00e7\u00e3o, ci\u00eancia e governo. Isso trouxe consigo uma rea\u00e7\u00e3o contra o ideal mon\u00e1stico medieval de pobreza, ascetismo e contempla\u00e7\u00e3o em favor de uma vida ativa e produtiva no mundo. Um novo fasc\u00ednio pela pessoa individual e uma nova \u00eanfase na auto-express\u00e3o e autodesenvolvimento tamb\u00e9m apareceram. Estes, por sua vez, deram origem a um florescimento de pinturas e biografias n\u00e3o religiosas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Alguns humanistas do Renascimento simplesmente queriam restaurar o esp\u00edrito centrado no homem do paganismo cl\u00e1ssico. No entanto, os humanistas crist\u00e3os n\u00e3o limitaram a sua admira\u00e7\u00e3o aos escritores pag\u00e3os da era cl\u00e1ssica. Eles queriam voltar para todas as fontes da civiliza\u00e7\u00e3o da Europa Ocidental, tanto crist\u00e3 quanto pag\u00e3. Ent\u00e3o, eles buscaram novamente as riquezas do Novo Testamento grego e dos pais da igreja primitiva. Os per\u00edodos apost\u00f3lico e patr\u00edstico (dos pais da igreja), aos seus olhos, representavam uma era de ouro espiritual.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa busca humanista pelas fontes vivificantes da cultura, tanto pag\u00e3 quanto crist\u00e3, encontrou express\u00e3o na frase latina <em>ad fontes<\/em>, ou \u201cde volta \u00e0s fontes\u201d.<\/p>\n<h2 style=\"text-align: justify;\"><strong>A redescoberta do grego<\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">O poeta italiano Francesco Petrarca (1304-74) anunciou o avivamento do interesse na antiga cultura latina; n\u00f3s o consideramos em uma edi\u00e7\u00e3o anterior da <em>Tabletalk<\/em> sobre o s\u00e9culo quatorze (julho de 2014). Logo houve uma paralela renova\u00e7\u00e3o do entusiasmo pela cultura grega antiga. Isso surgiu na cidade do norte da It\u00e1lia, Floren\u00e7a, especialmente atrav\u00e9s de alguns estudiosos gregos que fugiram do Imp\u00e9rio Bizantino e se estabeleceram em Floren\u00e7a. Biz\u00e2ncio foi o \u00faltimo remanescente do Imp\u00e9rio Romano Oriental de fala grega, terminalmente amea\u00e7ado no s\u00e9culo quinze pelo Imp\u00e9rio Isl\u00e2mico em expans\u00e3o dos Turcos Otomanos. Por fim, Biz\u00e2ncio foi extinto em 1453, quando sua capital, Constantinopla, caiu diante dos Otomanos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esses estudiosos gregos exilados do oriente trouxeram consigo preciosos manuscritos gregos e um conhecimento v\u00edvido da l\u00edngua grega. O mais destacado foi Manuel Chrysoloras (C. 1355-1415), que lecionou na Universidade de Floren\u00e7a, inspirando uma nova gera\u00e7\u00e3o de humanistas italianos. Gemisto Plet\u00e3o (C. 1355-1450) tamb\u00e9m foi importante, lecionando em Floren\u00e7a sobre a filosofia de Plat\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A popularidade dos estudos gregos em geral, e de Plat\u00e3o em particular, atingiu seu auge em 1462, na funda\u00e7\u00e3o da Academia Plat\u00f4nica de Floren\u00e7a, dedicada a discutir e propagar o platonismo. Plet\u00e3o imaginou a ideia da academia; seu diretor era Marsilio Ficino (1433-99), um padre cuja teologia era uma forte mistura de Cristianismo e neo-Platonismo. Ficino traduziu para o latim os escritos completos de Plat\u00e3o e dos neoplat\u00f4nicos, enquanto seus pr\u00f3prios tratados influentes argumentavam que a filosofia plat\u00f4nica era o parceiro divinamente inspirado da f\u00e9 crist\u00e3.<\/p>\n<h2 style=\"text-align: justify;\"><strong>Lorenzo Valla<\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Foi tamb\u00e9m na It\u00e1lia renascentista que o avivamento do interesse na igreja primitiva floresceu pela primeira vez. Pessoas importantes aqui foram Ambrogio Traversari (1386-1439), um monge florentino e um dos pioneiros estudantes renascentistas do hebraico; Jo\u00e3o Bessarion (1403-72), um arcebispo bizantino que se tornou um cardeal da Igreja Romana; Leonardo Bruni (1370-1444), pol\u00edtico florentino, historiador e entusiasta de Plat\u00e3o; e, acima de todos eles, Lorenzo Valla (1406-57).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Valla era um natural de Roma que foi ordenado ao sacerd\u00f3cio em 1431 e, posteriormente, envolveu-se em uma vida de confer\u00eancias, estudos e escritos financiados pelo papa Nicolau V e pelo rei Afonso I de N\u00e1poles. Valla combinou um zelo pelo pai da igreja primitiva Agostinho, um estudo inovador do texto grego do Novo Testamento e uma atitude altamente cr\u00edtica a algumas antigas tradi\u00e7\u00f5es cat\u00f3licas romanas. Suas duas maiores obras foram <em>Sobre a Falsa e Infundada Cren\u00e7a a Respeito da Doa\u00e7\u00e3o de Constantino<\/em> (1440) e <em>Anota\u00e7\u00f5es sobre o Novo Testamento<\/em> (1505). Na primeira dessas obras, Valla exp\u00f4s como uma falsifica\u00e7\u00e3o a chamada doa\u00e7\u00e3o de Constantino, que os papas usaram durante setecentos anos para sustentar as suas exaltadas reivindica\u00e7\u00f5es pol\u00edticas. Valla argumentou que o papado deveria renunciar a todo o poder pol\u00edtico e se tornar uma institui\u00e7\u00e3o puramente espiritual. <em>Anota\u00e7\u00f5es sobre o Novo Testamento<\/em>, publicado por Erasmo em 1505, consistia numa compara\u00e7\u00e3o cr\u00edtica do Novo Testamento grego e da Vulgata, apontando os muitos erros desta \u00faltima.<\/p>\n<h2 style=\"text-align: justify;\"><strong>O renascimento na arte<\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Floren\u00e7a era o principal centro do Renascimento italiano, mas este raiou em outras cidades tamb\u00e9m, especialmente em Roma. A partir de meados do s\u00e9culo quinze, uma s\u00e9rie de \u201cpapas do Renascimento\u201d deu forte apoio financeiro \u00e0 causa humanista. O primeiro foi Nicolau V (1447-55), patrono de Valla, que em 1453 fundou a famosa Biblioteca do Vaticano, que logo se tornaria o lar da maior cole\u00e7\u00e3o de livros do mundo. Os papas do Renascimento fizeram de Roma o cora\u00e7\u00e3o vibrante do mundo art\u00edstico da It\u00e1lia, com m\u00fasica, pintura, escultura e arquitetura, todos ricamente apoiados pelo papado. Infelizmente, o zelo dos papas pelas artes n\u00e3o era geralmente acompanhado por um correspondente zelo pela santidade; a maioria deles viveu vidas escandalosamente imorais.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O Renascimento afetou particularmente as artes visuais. Na Idade M\u00e9dia, a maioria dos artistas havia se limitado a assuntos religiosos, mas artistas renascentistas pintaram paisagens, cenas da vida cotidiana e retratos individuais de pessoas que n\u00e3o eram santos ou reis. Eles tomaram grande cuidado para garantir que as pessoas que retratavam parecessem seres humanos reais em ambientes naturais. Os temas religiosos receberam o mesmo tratamento. Pela primeira vez, os artistas ilustraram cenas e personagens b\u00edblicos, incluindo o pr\u00f3prio Jesus, de uma maneira natural e realista.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os famosos pintores e escultores italianos do Renascimento inclu\u00edram Fra Angelico (c.1400-1455), Donatello (C. 1386-1466), Sandro Botticelli (c.1444-1510), Leonardo da Vinci (1452-1519), Rafael (1483-1520), Michelangelo (1475-1564), e Ticiano (1477-1576), todos os quais est\u00e3o entre os maiores artistas que j\u00e1 viveram.<\/p>\n<h2 style=\"text-align: justify;\"><strong>A revolu\u00e7\u00e3o da imprensa<\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">A partir das \u00faltimas d\u00e9cadas do s\u00e9culo quinze, o Renascimento invadiu o restante da Europa. Uma das principais raz\u00f5es pelas quais os ideais humanistas se espalharam t\u00e3o eficazmente do seu cora\u00e7\u00e3o italiano foi a inven\u00e7\u00e3o da impress\u00e3o por tipo m\u00f3vel. Em cerca de 1450, Johannes Gutenberg (1395-1468) de Mainz, Alemanha, criou a primeira imprensa europeia, e o primeiro livro que ele imprimiu foi a B\u00edblia. Em 1500, mais de duas centenas de prensas estavam funcionando em toda a Europa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o podemos exagerar a revolu\u00e7\u00e3o cultural que isso causou. Passaram-se os dias em que os escribas precisavam copiar livros \u00e0 m\u00e3o. Pela primeira vez, um editor poderia fazer milhares de c\u00f3pias de um livro f\u00e1cil e rapidamente e, em seguida, coloc\u00e1-las em grande circula\u00e7\u00e3o. Isso significava que as ideias poderiam se espalhar mais velozmente; tamb\u00e9m significava que a alfabetiza\u00e7\u00e3o se tornou mais valorizada.<\/p>\n<h2 style=\"text-align: justify;\"><strong>O Renascimento alem\u00e3o<\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Al\u00e9m da It\u00e1lia, a regi\u00e3o da Europa onde o Renascimento teve o impacto mais profundo foi a Alemanha. Ali, o Renascimento foi mais plenamente crist\u00e3o do que na It\u00e1lia. Os humanistas alem\u00e3es criaram uma \u00edntima alian\u00e7a entre os elementos pag\u00e3os e crist\u00e3os da cultura cl\u00e1ssica. De seus elementos pag\u00e3os, eles derivaram modelos de estilo liter\u00e1rio, filosofia plat\u00f4nica e ideais de cidadania pol\u00edtica. De seus elementos crist\u00e3os, formaram um conceito de espiritualidade crist\u00e3 que enfatizou o estudo do Novo Testamento, uma f\u00e9 simples centrada em Cristo, o valor persistente dos pais da igreja primitiva e a import\u00e2ncia de servir a Deus no mundo em vez de se retirar em um mosteiro.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Os humanistas alem\u00e3es desenvolveram essas quest\u00f5es em antagonismo consciente com a teologia \u201cescol\u00e1stica\u201d ensinada nas universidades europeias na Idade M\u00e9dia. O escolasticismo, eles criam, era como uma distor\u00e7\u00e3o do evangelho, que seduzia as pessoas da simplicidade de Cristo para um deserto est\u00e9ril de argumentos abstratos. O Renascimento alem\u00e3o tamb\u00e9m se afastou da tend\u00eancia medieval de interpretar as Escrituras de maneira aleg\u00f3rica (procurando significados espirituais profundos e ocultos), colocando uma nova \u00eanfase na interpreta\u00e7\u00e3o \u201chist\u00f3rico-gramatical\u201d \u200b(entendendo as palavras e declara\u00e7\u00f5es da B\u00edblia principalmente em seu sentido comum e \u00f3bvio).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A partir dessa alian\u00e7a dos aspectos pag\u00e3os e crist\u00e3os da cultura cl\u00e1ssica, os humanistas alem\u00e3es formaram uma vis\u00e3o para a reforma da sociedade. Eles esperavam, atrav\u00e9s da educa\u00e7\u00e3o, purificar as mentes das pessoas da ignor\u00e2ncia e supersti\u00e7\u00e3o e form\u00e1-las como cidad\u00e3os crist\u00e3os piedosos e \u00fateis que glorificariam a Deus atrav\u00e9s dos seus v\u00e1rios dons aqui na terra como artistas, pol\u00edticos, professores, comerciantes, artes\u00e3os, donas de casa e assim por diante.<\/p>\n<h2 style=\"text-align: justify;\"><strong>A v\u00e9spera da Reforma<\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c0 medida que se aproximava o s\u00e9culo dezesseis, v\u00e1rias pessoas trabalhavam pela reforma do ensino crist\u00e3o e viviam na Europa. Muitos dos humanistas crist\u00e3os foram dedicados a esse prop\u00f3sito. Na Bo\u00eamia (atual Rep\u00fablica Tcheca), Jo\u00e3o Huss e os hussitas tornaram os ideais embrion\u00e1rios \u201cprotestantes\u201d do reformador ingl\u00eas John Wycliffe uma realidade nacional. Fora da Bo\u00eamia, outros anteciparam muitas das convic\u00e7\u00f5es da Reforma do s\u00e9culo dezesseis.<\/p>\n<h2 style=\"text-align: justify;\"><strong>Jo\u00e3o de Wesel (1400-1481)<\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jo\u00e3o de Wesel nasceu em Oberwesel, no Reno (oeste da Alemanha), lecionou na Universidade de Basileia, na Su\u00ed\u00e7a, e em 1463 foi nomeado pregador na Catedral de Worms, na Alemanha. Suas cr\u00edticas \u00e0 teologia medieval cat\u00f3lica romana eram muitas e ousadas. Jo\u00e3o ensinou que somente a Escritura era a fonte do ensinamento crist\u00e3o, e que papas e conc\u00edlios n\u00e3o deveriam ser seguidos se eles contradissessem as Escrituras. Ele definiu a igreja como todo o corpo de crentes, n\u00e3o a organiza\u00e7\u00e3o eclesi\u00e1stica liderada pelo papado. Ele tamb\u00e9m rejeitou a doutrina da transubstancia\u00e7\u00e3o, das indulg\u00eancias e do celibato obrigat\u00f3rio do clero.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As autoridades eclesi\u00e1sticas n\u00e3o conseguiram ficar caladas perante tais cr\u00edticas. Em 1479, a Inquisi\u00e7\u00e3o em Mainz colocou Jo\u00e3o em julgamento. Sua fragilidade (ele tinha setenta e nove anos) revelou-se desigual aos poderes persuasivos da Inquisi\u00e7\u00e3o, e ele concordou em se retratar de suas heresias em uma declara\u00e7\u00e3o p\u00fablica. As autoridades queimaram todos os seus escritos.<\/p>\n<h2 style=\"text-align: justify;\"><strong>Wessel Gansfort (1419-1489)<\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nascido em Groningen, na Holanda, Wessel Gansfort estudou em v\u00e1rias universidades antes de dar confer\u00eancias em Heidelberg e Paris. Ele foi um humanista pioneiro e um especialista em grego e hebraico. Em teologia, Gansfort foi inicialmente um disc\u00edpulo de Tom\u00e1s de Aquino, por\u00e9m mais tarde se voltou para Agostinho de Hipona como um guia mais seguro. Ele voltou para Groningen em cerca de 1474 para atuar como diretor espiritual no mosteiro Monte de Santa Agnes.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A prega\u00e7\u00e3o e o ensino de Gansfort atra\u00edram um amplo c\u00edrculo de admiradores. Como Jo\u00e3o de Wesel, ele fez profundas cr\u00edticas da doutrina cat\u00f3lica romana medieval. Ele negou a infalibilidade do papado e dos conc\u00edlios gerais da igreja. Ele definiu a igreja como toda a companhia dos crentes, n\u00e3o a organiza\u00e7\u00e3o liderada pelo papado. Ele aceitou o sacrif\u00edcio da missa, mas tamb\u00e9m sustentou que Cristo estava presente no p\u00e3o e no vinho apenas para os crentes. Como um firme agostiniano, ele sustentou a salva\u00e7\u00e3o pela gra\u00e7a soberana de Deus, rejeitou as indulg\u00eancias, e at\u00e9 mesmo ensinou uma doutrina da justifica\u00e7\u00e3o pela f\u00e9, embora fosse um pouco confusa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Gansfort foi mais privilegiado que Jo\u00e3o de Wesel em escapar da Inquisi\u00e7\u00e3o; ele morreu de modo pac\u00edfico. Nenhum dos escritos de Gansfort foi impresso at\u00e9 a Reforma, quando Lutero publicou uma edi\u00e7\u00e3o com um pref\u00e1cio admirador, escrito por si mesmo.<\/p>\n<h2 style=\"text-align: justify;\"><strong>Jer\u00f4nimo Savonarola (1452-1498)<\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Jer\u00f4nimo Savonarola era natural da cidade renascentista italiana de Ferrara; em 1474 ele se tornou um padre dominicano. Em 1491, foi nomeado prior de S\u00e3o Marcos, um mosteiro dominicano em Floren\u00e7a. Sua prega\u00e7\u00e3o era t\u00e3o popular que lhe dava poder quase completo sobre a cidade, especialmente depois que sua fam\u00edlia dominante, os M\u00e9dici, fugiu de uma invas\u00e3o francesa em 1494.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A popularidade de Savonarola n\u00e3o era porque seus serm\u00f5es lisonjeavam as pessoas; ningu\u00e9m denunciou o pecado ou alertou sobre o ju\u00edzo divino t\u00e3o severamente quanto ele. Suas reformas morais fizeram da cidade de Floren\u00e7a uma esp\u00e9cie de comunidade mon\u00e1stica. De modo not\u00e1vel, em 1496, os cidad\u00e3os de Floren\u00e7a queimaram em uma fogueira p\u00fablica (a \u201cfogueira das vaidades\u201d) toda a sua pornografia, cosm\u00e9ticos e coisas usadas para jogos de azar. Savonarola tamb\u00e9m realizou reformas pol\u00edticas de grande alcance, redigindo uma nova constitui\u00e7\u00e3o democr\u00e1tica para Floren\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 1495, uma briga feroz foi iniciada entre Savonarola e o papa Alexandre VI. Alexandre n\u00e3o se agradou da pretens\u00e3o de Savonarola de ser um mensageiro celestial de Cristo ou do envolvimento do frade na pol\u00edtica. (Alexandre tamb\u00e9m estava sob a influ\u00eancia dos M\u00e9dici, que queriam recuperar seu poder em Floren\u00e7a). Ele ordenou que Savonarola parasse de pregar. Savonarola se recusou a obedecer, denunciou Alexandre como servo de Satan\u00e1s e come\u00e7ou a pregar contra as corrup\u00e7\u00f5es da corte papal. Alexandre excomungou Savonarola em 1497. Savonarola apelou a um conc\u00edlio geral da igreja.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O papa finalmente ganhou sua batalha contra Savonarola, que foi queimado na fogueira em 23 de maio de 1498. Ele n\u00e3o era realmente um reformador teol\u00f3gico como Jo\u00e3o de Wesel ou Wessel Gansfort; ele ainda aceitava as doutrinas b\u00e1sicas do catolicismo romano medieval. Mesmo assim, Lutero e outros consideraram Savonarola como um precursor da Reforma por duas raz\u00f5es. Primeiro, Savonarola era um firme agostiniano em sua compreens\u00e3o da soberana gra\u00e7a de Deus. Segundo, ele desafiou o papado e pagou com sua vida.<\/p>\n<h2 style=\"text-align: justify;\"><strong>A via moderna<\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">A <em>devotio moderna<\/em> \u2014 a \u201cvia moderna para servir a Deus\u201d \u2014 era um movimento de piedade leiga (em grande parte) que se originou no final do s\u00e9culo quatorze na Holanda e floresceu no s\u00e9culo quinze. Foi marcado por um senso de proximidade pessoal de Deus para com o indiv\u00edduo e um foco da mente sobre a vida de Jesus e os seus sofrimentos, como registrados nos Evangelhos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O escrito mais influente que surgiu desse movimento foi <em>A imita\u00e7\u00e3o de Cristo<\/em>, de Tom\u00e1s de Kempis (1380-1471). Tom\u00e1s nasceu em Kempen, no noroeste da Alemanha. Em 1399, ingressou na comunidade Monte de St. Agnes, perto de Zwolle, na Holanda. Seu irm\u00e3o mais velho era o prior da comunidade. Tom\u00e1s estudou a B\u00edblia e os pais da igreja primitiva, pregou serm\u00f5es eloquentes e escreveu muitas obras sobre a vida espiritual, como <em>Ora\u00e7\u00f5es e Medita\u00e7\u00f5es Sobre a Vida de Cristo.<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O trabalho mais duradouro de Tom\u00e1s \u00e9 <em>A Imita\u00e7\u00e3o de Cristo<\/em>. Ele foi traduzido para mais idiomas do que qualquer outro livro crist\u00e3o, exceto a B\u00edblia. Enraizado em um profundo conhecimento das Escrituras e banhado na espiritualidade de Agostinho, a <em>Imita\u00e7\u00e3o<\/em> \u00e9 um manual sobre como viver uma vida crist\u00e3 aut\u00eantica. Ele \u00e9 simples, direto (dirigido a \u201cvoc\u00ea\u201d, o leitor) e regulado por dois grandes imperativos: (1) estabelecer o cora\u00e7\u00e3o em realidades eternas e (2) andar com Jesus em todos os aspectos da vida di\u00e1ria.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A obra-prima de Tom\u00e1s encontrou ampla aceita\u00e7\u00e3o entre os protestantes, apesar da forte \u00eanfase cat\u00f3lica romana medieval que a<em> Imita\u00e7\u00e3o<\/em> coloca na missa. Talvez a sua representa\u00e7\u00e3o intensamente pessoal da rela\u00e7\u00e3o do crente com Jesus tenha permitido transcender certos limites entre todos os que conhecem o Jesus de Tom\u00e1s, mesmo que n\u00e3o compartilhem as doutrinas cat\u00f3licas romanas de Tom\u00e1s.<\/p>\n<h2 style=\"text-align: justify;\"><strong>A mania de bruxas<\/strong><\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">A era do Renascimento estimulou uma busca sincera por piedade mais simples, racional e b\u00edblica. No entanto, estranhamente, o Renascimento tamb\u00e9m testemunhou o surgimento de uma mania que atravessaria toda a sociedade ocidental pelos pr\u00f3ximos 300 anos: a mania das bruxas. Terror e p\u00e2nico sobre a exist\u00eancia e as atividades de bruxas alcan\u00e7aram quase todos os n\u00edveis da sociedade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">As pessoas de hoje com frequ\u00eancia pensam que a cren\u00e7a na bruxaria era uma \u201csupersti\u00e7\u00e3o medieval\u201d. Isso est\u00e1 longe de ser o caso. A heresia, n\u00e3o a feiti\u00e7aria, era o grande temor do per\u00edodo medieval. Quando a Inquisi\u00e7\u00e3o foi fundada em 1215, n\u00e3o fez men\u00e7\u00e3o a bruxas. Foi somente no s\u00e9culo quinze que a bruxaria substituiu a heresia como o inimigo final.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Havia uma crescente inquieta\u00e7\u00e3o com as bruxas nos s\u00e9culos treze e quatorze, mas n\u00e3o foi at\u00e9 o s\u00e9culo quinze que a igreja come\u00e7ou a ver a feiti\u00e7aria como exigindo tratamento especial. Em 1370-1380, a Inquisi\u00e7\u00e3o decretou em uma s\u00e9rie de tratados que a feiti\u00e7aria deveria ser tratada com tanta severidade quanto a heresia. Essa foi a primeira gota. Cem anos depois, em 1484, o Papa Inoc\u00eancio VIII (1484-1492) publicou uma das mais famosas bulas papais, <em>Summis desiderantes<\/em>, que tornou a queima das bruxas uma pol\u00edtica cat\u00f3lica oficial. O gotejamento se tornou uma inunda\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em 1486, o livro mais influente j\u00e1 escrito sobre a feiti\u00e7aria surgiu: o <em>Malleus Maleficarum<\/em> (Martelo das bruxas), constantemente reimpresso ao longo dos s\u00e9culos dezesseis e dezessete. Os autores eram inquisidores do alto escal\u00e3o, os frades dominicanos Heinrich Kramer e Jacob Sprenger. Aqui estava tudo o que qualquer pessoa desejaria saber sobre bruxas e como lidar com elas. Hist\u00f3rias sobre poderes ocultos que uma gera\u00e7\u00e3o anterior tinha descartado como del\u00edrios estranhos, agora eram abra\u00e7adas como fato horr\u00edvel e descritas em detalhes sombrios. Os leitores modernos precisar\u00e3o de um est\u00f4mago forte para ler o <em>Malleus Maleficarum<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Kramer e Sprenger foram particularmente severos com as mulheres: havia dez bruxas para cada homem, eles declaravam. O mau tempo, falhas nas colheitas, fome, secas, mortalidade infantil, esterilidade em meio aos seres humanos e animais de fazenda \u2014 as bruxas eram a causa de tudo isso, segundo se afirmava. A sociedade deveria extermin\u00e1-las para sua pr\u00f3pria seguran\u00e7a. Uma estimativa acad\u00eamica coloca o n\u00famero total de v\u00edtimas ao longo do per\u00edodo entre cinquenta mil e cem mil.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A mania de bruxas era t\u00e3o feroz nos pa\u00edses que aceitaram a Reforma quanto em terras cat\u00f3licas romanas. Na Genebra de Calvino, por exemplo, duas ou tr\u00eas mulheres eram executadas todos os anos por feiti\u00e7aria. Os epis\u00f3dios protestantes mais not\u00f3rios aconteceram na Inglaterra puritana e na Am\u00e9rica puritana. Durante a Guerra Civil Inglesa, o \u201c<em>Witchfinder General<\/em>\u201d [General Ca\u00e7ador de Bruxas] Matthew Hopkins superou todos os outros \u201cca\u00e7adores de bruxas\u201d em descobrir agentes de Satan\u00e1s. Por exemplo, no ver\u00e3o de 1645, vinte e nove mulheres foram indiciadas por bruxaria por Hopkins; dezenove foram executadas.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Am\u00e9rica puritana apresenta o epis\u00f3dio mais infame na aldeia de Sal\u00e9m, Massachusetts, em 1692. L\u00e1, vinte pessoas foram condenadas \u00e0 morte. Felizmente, alguns cl\u00e9rigos puritanos mantiveram a calma, e a cr\u00edtica franca de Increase Mather ajudou a levar o processo a um fim r\u00e1pido. Cinco anos depois, um dos ju\u00edzes de Sal\u00e9m, Samuel Sewall, confessou publicamente \u00e0 sua igreja como ele tinha sido iludido para participar de tal explos\u00e3o de histeria p\u00fablica. Sua confiss\u00e3o \u00e9 um dos mais emocionantes testemunhos do poder da mania de bruxas \u2014 n\u00e3o uma supersti\u00e7\u00e3o medieval, mas uma que floresceu no Renascimento e na Reforma.<\/p>\n<p>[\/vc_column_text][vc_message color=&#8221;alert-danger&#8221; message_box_style=&#8221;outline&#8221; style=&#8221;square&#8221; message_box_color=&#8221;alert-danger&#8221; icon_type=&#8221;pixelicons&#8221; el_class=&#8221;creditos_box&#8221; icon_pixelicons=&#8221;vc_pixel_icon vc_pixel_icon-explanation&#8221;]Por: Nicholas Needham.\u00a0\u00a9 Ligonier Ministries.Website: <a href=\"http:\/\/www.ligonier.org\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">ligonier.org<\/a>. Traduzido\u00a0com permiss\u00e3o. Fonte: <a href=\"http:\/\/fiel.in\/2ruGezs\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">The Fifteenth Century<\/a>.<\/p>\n<p>Original: O s\u00e9culo XV e a Reforma Protestante.\u00a0\u00a9 Minist\u00e9rio Fiel. Website:\u00a0<a href=\"http:\/\/www.ministeriofiel.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener noreferrer\">MinisterioFiel.com.br<\/a>. Todos os direitos reservados. Tradu\u00e7\u00e3o:Camila Rebeca Teixeira. 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