{"id":43139,"date":"2018-04-25T00:05:59","date_gmt":"2018-04-25T03:05:59","guid":{"rendered":"http:\/\/voltemosaoevangelho.com\/blog\/?p=43139"},"modified":"2018-04-25T12:02:40","modified_gmt":"2018-04-25T15:02:40","slug":"agostinho-e-a-santissima-trindade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/voltemosaoevangelho.com\/blog\/2018\/04\/agostinho-e-a-santissima-trindade\/","title":{"rendered":"Agostinho e a Sant\u00edssima Trindade"},"content":{"rendered":"<div class=\"wpb-content-wrapper\"><p>[vc_row][vc_column][vc_column_text]Estimulados pelos escritos de Karl Barth, o te\u00f3logo que mais explorou o mist\u00e9rio trinit\u00e1rio no s\u00e9culo xx,<sup>1<\/sup>\u00a0v\u00e1rias obras importantes sobre a doutrina da Trindade foram escritas. Nas duas d\u00e9cadas finais do s\u00e9culo xx Karl Rahner, J\u00fcrgen Moltmann, Leonardo Boff, Wolfhart Pannenberg, Colin Gunton e Millard Erickson, buscaram refletir e reaplicar a doutrina trinit\u00e1ria, produzindo um grande n\u00famero de estudos dogm\u00e1ticos, b\u00edblicos e hist\u00f3ricos.<sup>2<\/sup>\u00a0O alvo deste ensaio \u00e9 expor a compreens\u00e3o da doutrina trinitariana como formulada por Agostinho de Hipona, que produziu uma obra seminal sobre este tema,\u00a0<em>A Trindade<\/em>, com a qual todos estes escritores interagem.<\/p>\n<p><em>Agostinho e<\/em>\u00a0<em>A Trindade<\/em><\/p>\n<p>Foi Agostinho quem deu \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o ocidental a sua express\u00e3o madura e final acerca da Trindade. N\u00e3o obstante ser Agostinho mais conhecido atrav\u00e9s de obras como as\u00a0<em>Confiss\u00f5es<\/em>\u00a0(sua autobiografia, publicada em 400) ou\u00a0<em>A Cidade de Deus<\/em>\u00a0(publicada em 426), provavelmente sua obra prima \u00e9 o tratado conhecido por\u00a0<em>A Trindade<\/em>, que ele demorou dezesseis anos para redigir \u2013 entre 400 e 416. Esta obra est\u00e1 dividida em duas partes, bem distintas. A primeira, com uma \u00eanfase b\u00edblica, vai do livro I ao VII. \u00c9 a se\u00e7\u00e3o teol\u00f3gica propriamente dita. A segunda parte, do livro VIII ao XV apresenta um car\u00e1ter especulativo psicol\u00f3gico e filos\u00f3fico, no g\u00eanero anal\u00f3gico. Conforme suas palavras: \u201cSendo ainda muito jovem, iniciei a elabora\u00e7\u00e3o destes meus livros sobre a Trindade, que \u00e9 o Deus sumo e verdadeiro. Agora, entrado em anos, trago-os a p\u00fablico\u201d.<sup>3<\/sup>\u00a0De fato,\u00a0<em>A Trindade<\/em>\u00a0\u00e9 a obra de sua maturidade.<\/p>\n<p>Agostinho pressup\u00f4s como uma verdade b\u00edblica que existe um s\u00f3 Deus que \u00e9 Trindade, e que o Pai, o Filho e o Esp\u00edrito Santo s\u00e3o simultaneamente distintos e co-essenciais, numericamente um quanto \u00e0 subst\u00e2ncia:<\/p>\n<p>O Pai, o Filho e o Esp\u00edrito Santo, isto \u00e9, a pr\u00f3pria Trindade, una e suprema realidade, \u00e9 a \u00fanica Coisa a ser fru\u00edda [<em>una quaedam summa res<\/em>], bem comum de todos. Se \u00e9 que pode ser chamada Coisa e n\u00e3o, de prefer\u00eancia, a causa de todas as coisas \u2013 se tamb\u00e9m puder ser chamada causa. N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil encontrar um nome que possa convir a tanta grandeza e servir para denominar de maneira adequada a Trindade. A n\u00e3o ser que se diga que \u00e9 um s\u00f3 Deus, de quem, por quem e para quem existem todas as coisas (Rm 11,36). Assim, o Pai, o Filho e o Esp\u00edrito Santo s\u00e3o, cada um deles, Deus. E os tr\u00eas s\u00e3o um s\u00f3 Deus. Para si pr\u00f3prio, cada um deles \u00e9 subst\u00e2ncia completa e, os tr\u00eas juntos, uma s\u00f3 subst\u00e2ncia. O Pai n\u00e3o \u00e9 o Filho, nem o Esp\u00edrito Santo. O Filho n\u00e3o \u00e9 o Pai, nem o Esp\u00edrito Santo. E o Esp\u00edrito Santo n\u00e3o \u00e9 o Pai nem o Filho. O Pai \u00e9 s\u00f3 Pai, o Filho unicamente Filho, e o Esp\u00edrito Santo unicamente Esp\u00edrito Santo. Os tr\u00eas possuem a mesma eternidade, a mesma imutabilidade, a mesma majestade, o mesmo poder. No Pai est\u00e1 a unidade, no Filho a igualdade e no Esp\u00edrito Santo a harmonia entre a unidade e a igualdade. Esses tr\u00eas atributos todos s\u00e3o um s\u00f3, por causa do Pai, todos s\u00e3o iguais por causa do Filho e todos s\u00e3o conexos por causa do Esp\u00edrito Santo.<sup>4<\/sup><\/p>\n<p>Em nenhum lugar Agostinho tentou demonstrar biblicamente estas afirma\u00e7\u00f5es. \u201cTrata-se de um dado da revela\u00e7\u00e3o que, para ele, as Escrituras proclamam quase a cada p\u00e1gina, e que a \u2018f\u00e9 cat\u00f3lica\u2019 (<em>fides catholica<\/em>) transmite aos fi\u00e9is\u201d.5\u00a0Em seu entendimento, Deus \u00e9 incompreens\u00edvel, mas n\u00e3o incognosc\u00edvel, havendo duas vias de conhecimento de Deus: a via da elimina\u00e7\u00e3o, ou nega\u00e7\u00e3o (<em>apof\u00e1tica<\/em>), que consiste em suprimir de Deus todos os defeitos das criaturas, e a emin\u00eancia (<em>cataf\u00e1tica<\/em>), que consiste em atribuir a Deus, elevando-as ao infinito, todas as perfei\u00e7\u00f5es: \u201cTodo aquele que refletir sobre Deus desse modo, embora n\u00e3o chegue a conhecer plenamente o que ele \u00e9, contudo \u2013 enquanto pode \u2013 como homem piedoso, evitar\u00e1 pensar dele, o que ele n\u00e3o \u00e9\u201d.<sup>6<\/sup><\/p>\n<p>Como delineia J. N. D. Kelly, seu \u201cimenso esfor\u00e7o teol\u00f3gico \u00e9 uma tentativa de compreens\u00e3o, sendo esse o exemplo supremo de seu princ\u00edpio de que a f\u00e9 deve preceder a compreens\u00e3o (<em>praecedit fides, sequitur intellectus<\/em>)\u201d.<\/p>\n<p>A f\u00e9 busca, o entendimento encontra; por isso diz o profeta:\u00a0<em>Se n\u00e3o crerdes, n\u00e3o entendereis<\/em>\u00a0(Is 7.9). Doutro lado, o entendimento prossegue buscando aquele que a f\u00e9 encontrou, pois,\u00a0<em>Deus olha do c\u00e9u para os filhos dos homens<\/em>, como \u00e9 cantado no salmo sagrado:\u00a0<em>para ver se algu\u00e9m que tenha intelig\u00eancia e busque a Deus\u00a0<\/em>(Sl 13.2). Logo, \u00e9 para isto que o homem deve ser inteligente: para buscar a Deus.<sup>7<\/sup><\/p>\n<p>Portanto, nesta obra, Agostinho, pressupondo a veracidade do testemunho b\u00edblico sobre o ensino acerca do Deus trino e baseando-se nas decis\u00f5es conciliares estabelecidas em Nic\u00e9ia e Constantinopla, construiu o primeiro tratado verdadeiramente sistem\u00e1tico da doutrina da Trindade.<\/p>\n<p>S\u00e3o cont\u00ednuas as ora\u00e7\u00f5es cheias de amor e confian\u00e7a que Agostinho dirige a Deus, no correr de sua tarefa de investigar o mist\u00e9rio da Trindade. E s\u00e3o um testemunho da depend\u00eancia e ardente s\u00faplica, t\u00e3o caracter\u00edsticas da ora\u00e7\u00e3o agostiniana. Constata-se assim estar toda obra teol\u00f3gica de Agostinho elaborada em clima de ora\u00e7\u00e3o. Nele est\u00e1 unido a\u00a0<em>sapientia<\/em>\u00a0(\u201ca sabedoria refere-se \u00e0 contempla\u00e7\u00e3o\u201d) e a\u00a0<em>scientia\u00a0<\/em>(\u201ca ci\u00eancia diz respeito \u00e0 a\u00e7\u00e3o\u201d), o esfor\u00e7o na busca de sabedoria espiritual.<sup>8<\/sup><\/p>\n<p><strong>1. A Sant\u00edssima Trindade<\/strong><\/p>\n<p>Seguiremos aqui os pontos b\u00e1sicos do resumo que J. N. D. Kelly fez da exposi\u00e7\u00e3o da doutrina trinit\u00e1ria em Agostinho.<sup>9<\/sup>\u00a0Esta \u00e9 inteiramente fundamentada nas Escrituras, por\u00e9m, em contraste com a tradi\u00e7\u00e3o oriental, que fez da pessoa do Pai o seu ponto de partida, Agostinho principia com a natureza divina em si mesma. \u00c9 esta simples e imut\u00e1vel natureza ou ess\u00eancia que \u00e9 Trindade.<sup>10<\/sup>\u00a0A unidade da Trindade \u00e9 assim claramente asseverada, eliminando-se rigorosamente \u201co arianismo e o subordinacionismo da sua doutrina da Trindade\u201d.<sup>11<\/sup>\u00a0Portanto, tudo o que \u00e9 afirmado de Deus \u00e9 afirmado igualmente de cada uma das tr\u00eas pessoas da deidade: \u201cO Deus \u00fanico e verdadeiro n\u00e3o \u00e9 somente o Pai, mas o Pai, o Filho e o Esp\u00edrito Santo\u201d.12<\/p>\n<p>Como Kelly nota, diversas consequ\u00eancias se seguem desta \u00eanfase na unidade da natureza divina. Primeiro, as pessoas da Trindade n\u00e3o s\u00e3o tr\u00eas indiv\u00edduos separados, antes \u201ccada uma das pessoas divinas \u00e9 id\u00eantica \u00e0s demais ou \u00e0 pr\u00f3pria subst\u00e2ncia divina\u201d, e deve-se afirmar \u201cque cada uma das pessoas habita nas outras ou \u00e9 inerente \u00e0s outras\u201d. Como Agostinho escreveu:<\/p>\n<p>Creia o homem no Pai, no Filho e no Esp\u00edrito Santo, como um s\u00f3 Deus, grande, onipotente, bom, justo, misericordioso, criador de todas as coisas vis\u00edveis e invis\u00edveis, e tudo o mais que dele se possa dizer digna e verdadeiramente, conforme a capacidade da intelig\u00eancia humana. E quando ouvir dizer que o Pai \u00e9 um s\u00f3 Deus, n\u00e3o separe o Filho e o Esp\u00edrito Santo, porque com ele s\u00e3o um s\u00f3 Deus. Quando ouvir dizer que o Filho \u00e9 um s\u00f3 Deus \u00e9 mister entender assim, mas sem separ\u00e1-lo do Pai e do Esp\u00edrito Santo. E de tal modo diga que existe uma s\u00f3 ess\u00eancia, e n\u00e3o considere a ess\u00eancia de um ser maior ou melhor do que a do outro e diferente em algum aspecto. Contudo, n\u00e3o pense que o Pai \u00e9 o Filho ou Esp\u00edrito Santo ou qualquer coisa que uma pessoa em separado diga rela\u00e7\u00e3o \u00e0s outras, como por exemplo, o termo \u2018Verbo\u2019 aplica-se somente ao Filho, e Dom afirma-se somente a respeito do Esp\u00edrito Santo.<sup>13<\/sup><\/p>\n<p>Segundo, \u201ctudo o que pertence \u00e0 natureza divina como tal\u201d deve, numa linguagem exata, \u201cser expresso no singular, j\u00e1 que esta natureza \u00e9 \u00fanica\u201d. Portanto, embora cada uma das tr\u00eas pessoas seja incriada, infinita, onipotente, eterna, n\u00e3o h\u00e1 tr\u00eas incriados, infinitos, onipotentes e eternos, mas apenas um.<\/p>\n<p>Os diferentes nomes aplicados a cada uma das tr\u00eas pessoas na Trindade, traduzem rela\u00e7\u00e3o rec\u00edproca, tais como: Pai e Filho, e o Dom de ambos, o Esp\u00edrito Santo. Com efeito, n\u00e3o se pode dizer que o Pai \u00e9 a Trindade, ou que o Filho \u00e9 a Trindade, nem o Dom ser a Trindade. O que \u00e9 dito, por\u00e9m, de cada um dos tr\u00eas em rela\u00e7\u00e3o a si mesmo, \u00e9 dito n\u00e3o no plural, mas no singular, pois referente a uma \u00fanica realidade: a pr\u00f3pria Trindade.<sup>14<\/sup><\/p>\n<p>Terceiro, \u201ca Trindade possui uma \u00fanica e indivis\u00edvel a\u00e7\u00e3o e uma \u00fanica vontade\u201d. Em outras palavras, sua opera\u00e7\u00e3o \u00e9 \u201cinsepar\u00e1vel\u201d,<sup>15<\/sup>\u00a0isto \u00e9, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 ordem contingente as tr\u00eas pessoas atuam como \u201cum \u00fanico princ\u00edpio (<em>unum principium<\/em>)\u201d<sup>16<\/sup>\u00a0e como as pessoas s\u00e3o insepar\u00e1veis, \u201cassim tamb\u00e9m operam inseparavelmente\u201d.<sup>17<\/sup>\u00a0Como exemplo disto, de acordo com Kelly, Agostinho argumenta que as teofanias, manifesta\u00e7\u00f5es de Deus registradas no Antigo Testamento, n\u00e3o devem ser consideradas como manifesta\u00e7\u00f5es exclusivamente do Filho. Algumas vezes as teofanias podem ser atribu\u00eddas ao Filho, ou ao Esp\u00edrito Santo, algumas vezes ao Pai, outras vezes a todas as tr\u00eas pessoas da deidade. Outras vezes ainda \u00e9 imposs\u00edvel decidir a qual das tr\u00eas pessoas atribui-las.<sup>18<\/sup><\/p>\n<p>A dificuldade que esta teoria sugere \u00e9 que ela parece ignorar os diversos pap\u00e9is das tr\u00eas pessoas. A isto Agostinho responde que, embora seja verdade que o Filho, embora distinto do Pai, nasceu, sofreu e ressuscitou, \u201c\u00e9 igualmente verdade que o Pai cooperou com o Filho\u201d na realiza\u00e7\u00e3o da encarna\u00e7\u00e3o, paix\u00e3o e ressurrei\u00e7\u00e3o. Era conveniente para o Filho, entretanto, \u201cem virtude de sua rela\u00e7\u00e3o com o Pai, manifestar-se e fazer-se vis\u00edvel\u201d.<sup>19<\/sup>\u00a0Logo, j\u00e1 que cada uma das pessoas possui a natureza divina de uma maneira particular, \u00e9 apropriado \u201catribuir a cada uma delas, na opera\u00e7\u00e3o externa da Divindade, o papel que lhe \u00e9 pr\u00f3prio em virtude de Sua origem\u201d.<sup>20<\/sup><\/p>\n<p><strong>2. A distin\u00e7\u00e3o das pessoas<\/strong><\/p>\n<p>Segundo Agostinho, a distin\u00e7\u00e3o das pessoas se fundamenta nas \u201csuas rela\u00e7\u00f5es m\u00fatuas dentro da Divindade\u201d. Embora consideradas enquanto subst\u00e2ncia divina, as pessoas sejam id\u00eanticas, o Pai se distingue enquanto Pai por gerar o Filho, e o Filho se distingue enquanto Filho por ser gerado.<\/p>\n<p>Com respeito \u00e0s rela\u00e7\u00f5es m\u00fatuas na Trindade, se aquele que gerou \u00e9 principio do gerado, o Pai \u00e9 principio em referencia ao Filho, porque o gerou. Entretanto n\u00e3o \u00e9 uma investiga\u00e7\u00e3o de pouca import\u00e2ncia inquirir se o Pai \u00e9 tamb\u00e9m principio com rela\u00e7\u00e3o ao Esp\u00edrito Santo, pois est\u00e1 escrito:\u00a0<em>procede do Pai<\/em>. Se assim for, \u00e9 principio n\u00e3o somente do que gera ou faz (o Filho), mas tamb\u00e9m da pessoa que ele d\u00e1 (o Esp\u00edrito). Isso lan\u00e7aria uma poss\u00edvel luz sobre a quest\u00e3o que a muitos preocupa, sobre a possibilidade de dizer-se que o Esp\u00edrito Santo tamb\u00e9m seja Filho, j\u00e1 que sai do Pai, como se l\u00ea no Evangelho (Jo 15.26). Saiu do Pai, sim, mas n\u00e3o como nascido, mas como Dom, e por isso, n\u00e3o se pode dizer filho, j\u00e1 que n\u00e3o nasceu como o Unig\u00eanito e nem foi criado como n\u00f3s, que nascemos para a ado\u00e7\u00e3o filial pela gra\u00e7a de Deus.<sup>21<\/sup><\/p>\n<p>O Esp\u00edrito Santo, semelhantemente, distingue-se do Pai e do Filho enquanto \u201coutorgado\u201d por eles, sendo o \u201cdom comum\u201d (<em>donum<\/em>) de ambos, \u201cuma esp\u00e9cie de comunh\u00e3o de Pai e Filho (<em>quaedam patris et filii communiio<\/em>), ou, ent\u00e3o, o amor que, juntos, Eles derramam em nossos cora\u00e7\u00f5es\u201d.<sup>22<\/sup>\u00a0Surge ent\u00e3o a quest\u00e3o: \u201co que s\u00e3o, na verdade, os tr\u00eas\u201d? Agostinho reconhece que tradicionalmente eles s\u00e3o designados como pessoas, mas ele fica descontente com o termo. Provavelmente a express\u00e3o lhe trazia a conota\u00e7\u00e3o de indiv\u00edduos separados. Mas ele consente em usar a express\u00e3o, por causa da necessidade de afirmar a distin\u00e7\u00e3o dos tr\u00eas contra o modalismo, e com um profundo sentido da inadequa\u00e7\u00e3o da linguagem humana.<sup>23<\/sup>Sua teoria positiva, original e muito importante para a hist\u00f3ria subseq\u00fcente da doutrina da Trindade no ocidente, foi a de que \u201cos tr\u00eas s\u00e3o rela\u00e7\u00f5es reais ou subsistentes\u201d. Em outras palavras, toda distin\u00e7\u00e3o nas pessoas divinas consiste numa rela\u00e7\u00e3o subsistente, m\u00fatua, entre elas.<\/p>\n<p>O motivo que levou Agostinho a esta coloca\u00e7\u00e3o foi o dilema colocado pelos arianos.<sup>24<\/sup>\u00a0Estes, baseando-se no esquema aristot\u00e9lico das categorias, afirmaram que as distin\u00e7\u00f5es na Divindade, se elas existissem, teriam que \u201cser classificadas sob a categoria de subst\u00e2ncia ou de acaso\u201d.<sup>25<\/sup>\u00a0Na categoria do acaso n\u00e3o poderia s\u00ea-lo, porque em Deus n\u00e3o h\u00e1 nada acidental; se o fossem, por\u00e9m, na categoria da subst\u00e2ncia, ent\u00e3o a conclus\u00e3o seria que existem tr\u00eas deuses.<\/p>\n<p>Agostinho nega ambas as alternativas, explicando que a categoria da rela\u00e7\u00e3o \u00e9 uma alternativa poss\u00edvel. Os tr\u00eas, ele passa a afirmar, s\u00e3o rela\u00e7\u00f5es t\u00e3o reais e eternas como o \u201cgerar, ser gerado e proceder (ou ser outorgado)\u201d, que fundamentam as rela\u00e7\u00f5es dentro da Divindade.<\/p>\n<p>N\u00e3o h\u00e1, pois, sen\u00e3o um bem simples e, conseq\u00fcentemente, sen\u00e3o um bem imut\u00e1vel \u2013 Deus. E este bem criou todos os bens que, n\u00e3o sendo simples, s\u00e3o, portanto, mut\u00e1veis. Digo, precisamente, criou, isto \u00e9, fez, e n\u00e3o gerou. \u00c9 que o que \u00e9 gerado de um ser simples \u00e9 simples como ele e \u00e9 o mesmo que aquele que o gerou. A estes dois seres chamamos Pai e Filho e um e outro com o seu Santo Esp\u00edrito s\u00e3o um s\u00f3 Deus. A este Esp\u00edrito do Pai e do Filho se chama nas Sagradas Escrituras Esp\u00edrito Santo por uma esp\u00e9cie de apropria\u00e7\u00e3o deste nome. \u00c9, porem, distinto do Pai e do Filho, pois n\u00e3o \u00e9 nem o Pai nem o Filho. Disse que \u00e9\u00a0<em>distinto<\/em>\u00a0mas n\u00e3o \u00e9\u00a0<em>outra coisa<\/em>, porque tamb\u00e9m Ele \u00e9 igualmente simples, igualmente imut\u00e1vel e co-eterno. E esta Trindade \u00e9 um s\u00f3 Deus e n\u00e3o deixa de ser simples por ser Trindade. (&#8230;) \u00c9 por isso que se chama simples a natureza que nada tem que possa perder; ou \u00e9 simples a natureza em que\u00a0<em>aquele que tem<\/em>\u00a0se identifica com\u00a0<em>aquilo que tem<\/em>. [Portanto] chama-se simples as perfei\u00e7\u00f5es que, por excel\u00eancia e na verdade, constituem a natureza divina: porque nelas n\u00e3o \u00e9 a subst\u00e2ncia uma coisa e a qualidade outra coisa.\u00a0<sup>26<\/sup><\/p>\n<p>O Pai, o Filho e o Esp\u00edrito Santo s\u00e3o assim rela\u00e7\u00f5es, \u201cno sentido de que tudo aquilo que cada um \u00e9, Ele \u00e9 em rela\u00e7\u00e3o a um dEles ou a ambos\u201d.<sup>27<\/sup><\/p>\n<p><strong>3. A process\u00e3o do Esp\u00edrito Santo<\/strong><\/p>\n<p>Agostinho tamb\u00e9m procurou explicar o que \u00e9 a process\u00e3o do Esp\u00edrito Santo, ou \u201cem que ela difere da gera\u00e7\u00e3o do Filho\u201d.<sup>28<\/sup>\u00a0Ele considerou como certo que o Esp\u00edrito Santo \u00e9 o amor m\u00fatuo do Pai e do Filho (<em>communem qua invicem se diligunt pater et filius caritatem<\/em>), o amor comum pelo qual o Pai e o Filho se amam mutuamente.<sup>29<\/sup>\u00a0Assim, Agostinho afirma que \u201co Esp\u00edrito Santo n\u00e3o \u00e9 o Pai nem o Filho, mas somente o Esp\u00edrito Santo do Pai e do Filho, igual ao Pai e ao Filho e pertencente \u00e0 unidade da Trindade\u201d.<sup>30<\/sup>\u00a0Desta maneira, em rela\u00e7\u00e3o ao Esp\u00edrito Santo, o Pai e o Filho formam um \u00fanico princ\u00edpio, o que \u00e9 inevit\u00e1vel, \u201cpois a rela\u00e7\u00e3o de ambos\u201d para com o Esp\u00edrito Santo \u201c\u00e9 id\u00eantica e onde n\u00e3o h\u00e1 diferen\u00e7a de rela\u00e7\u00e3o, a opera\u00e7\u00e3o dEles \u00e9 insepar\u00e1vel\u201d. Agostinho, portanto, ensinou a doutrina da dupla process\u00e3o do Esp\u00edrito Santo do Pai e do Filho (<em>filioque<\/em>).<sup>31<\/sup><\/p>\n<p>Ent\u00e3o, de acordo com Agostinho, o Pai \u00e9 autor da process\u00e3o do Esp\u00edrito Santo porque Ele gerou o Filho, e ao ger\u00e1-lo tornou-o tamb\u00e9m fonte a partir do qual o Esp\u00edrito procede e j\u00e1 que tudo o que o Filho tem, o tem do Pai, do Pai tem tamb\u00e9m que dEle proceda o Esp\u00edrito Santo. Daqui, por\u00e9m, n\u00e3o se deve concluir, ele nos adverte, que o Esp\u00edrito Santo tenha duas fontes ou princ\u00edpios.<sup>32<\/sup>\u00a0Pelo contr\u00e1rio, \u201ca a\u00e7\u00e3o do Pai e do Filho\u201d na process\u00e3o do Esp\u00edrito \u201c\u00e9 comum, assim como \u00e9 a a\u00e7\u00e3o de todas as tr\u00eas pessoas na cria\u00e7\u00e3o\u201d. Al\u00e9m disso, n\u00e3o obstante a dupla process\u00e3o, o Pai permanece \u201ca fonte primordial\u201d, na medida em que \u00e9 dEle que deriva a capacidade do Esp\u00edrito Santo de proceder do Filho.<sup>33<\/sup><\/p>\n<p>Entenda tamb\u00e9m que, assim como o Pai tem a vida em si mesmo, para que dele proceda o Esp\u00edrito Santo, assim deu ao Filho para que dele tamb\u00e9m proceda o mesmo Esp\u00edrito Santo; o qual procedeu de ambos, fora do tempo. E pelo fato de dizer-se que o Esp\u00edrito Santo procede do Pai, deve-se entender que o Filho recebe-o do Pai, e ent\u00e3o, o Esp\u00edrito Santo procede tamb\u00e9m do Filho. Pois o que o Filho tem, recebe-o do Pai, e assim recebe do Pai para que dele proceda, o mesmo Esp\u00edrito Santo.<sup>34<\/sup><\/p>\n<p>Portanto, o Esp\u00edrito Santo \u00e9 algo comum ao Pai e ao Filho. \u201cO Pai \u00e9 apenas o Pai do Filho, e o Filho apenas o Filho do Pai; o Esp\u00edrito, entretanto, \u00e9 o Esp\u00edrito tanto do Pai como do Filho, unindo-os em um v\u00ednculo de amor\u201d. Portanto, o Esp\u00edrito Santo \u00e9 o \u201celo que une, por um lado, o Pai e o Filho, e, por outro lado, Deus e os crist\u00e3os. O Esp\u00edrito \u00e9 um dom, dado por Deus, o qual une os crist\u00e3os a Deus e aos demais crist\u00e3os. O Esp\u00edrito Santo forma os elos de uni\u00e3o entre os crist\u00e3os, dos quais depende fundamentalmente a unidade da igreja. A igreja \u00e9 o \u2018templo do Esp\u00edrito Santo\u2019, e em seu interior o Esp\u00edrito Santo habita. O mesmo Esp\u00edrito que une o Pai e o Filho, tornando-os um, tamb\u00e9m une os crist\u00e3os em uma s\u00f3 igreja\u201d.<sup>35<\/sup><\/p>\n<p><strong>4. A formula\u00e7\u00e3o das \u201canalogias psicol\u00f3gicas\u201d<\/strong><\/p>\n<p>De acordo com J. N. D. Kelly, \u201co uso de analogias tiradas da estrutura da alma humana\u201d, ainda que afirmada timidamente, \u00e9, provavelmente, \u201ca contribui\u00e7\u00e3o mais original de Agostinho \u00e0 teologia trinit\u00e1ria\u201d.<sup>36<\/sup>\u00a0A fun\u00e7\u00e3o destas analogias n\u00e3o \u00e9 demonstrar que Deus \u00e9 Trindade, j\u00e1 afirmada nas Escrituras, mas aprofundar nosso entendimento do mist\u00e9rio da absoluta unidade e tamb\u00e9m da distin\u00e7\u00e3o real dos tr\u00eas. No sentido estrito, de acordo com Agostinho, h\u00e1 vest\u00edgios da Trindade em todo o lugar, porque as criaturas, na medida em que existem, \u201cexistem por participar das id\u00e9ias de Deus; portanto, tudo deve refletir\u201d, embora de forma t\u00eanue, a Trindade que as criou.<sup>37<\/sup><\/p>\n<p>Para buscar a verdadeira imagem da Trindade, entretanto, o homem deve olhar primeiramente dentro de si, porque as Escrituras representa Deus dizendo: \u201cFa\u00e7amos [isto \u00e9, os tr\u00eas] o homem \u00e0\u00a0<em>nossa\u00a0<\/em>imagem e \u00e0\u00a0<em>nossa\u00a0<\/em>semelhan\u00e7a\u201d. Portanto, mesmo o homem exterior, isto \u00e9, o homem considerado em sua natureza sens\u00edvel, fornece \u201cuma certa figura da Trindade\u201d (<em>quandam trinitatis effigiem<\/em>).<sup>38<\/sup>\u00a0De acordo com Kelly, \u201co processo de percep\u00e7\u00e3o, por exemplo, revela tr\u00eas elementos distintos que s\u00e3o ao mesmo tempo intimamente ligados, dos quais o primeiro, em certo sentido, gera o segundo, enquanto que o terceiro mant\u00e9m aos outros dois unidos\u201d.<sup>39<\/sup>\u00a0Por exemplo, o objeto externo (<em>res quam vivemus<\/em>, a coisa que vemos), a representa\u00e7\u00e3o sens\u00edvel da mente (<em>visio<\/em>), e a inten\u00e7\u00e3o ou ato de focalizar a mente (<em>intentio; voluntas; intentio voluntatis<\/em>, a inten\u00e7\u00e3o da vontade). Quando o objeto externo \u00e9 removido temos uma segunda trindade, que lhe \u00e9 superior, pois \u00e9 localizada inteiramente dentro da mente.<sup>40<\/sup>\u00a0Neste sentido, Agostinho fala da impress\u00e3o da mem\u00f3ria (<em>memoria<\/em>), a imagem interna da mem\u00f3ria (<em>visio interna<\/em>), e a inten\u00e7\u00e3o ou disposi\u00e7\u00e3o da vontade\u00a0 (<em>voluntas<\/em>).<\/p>\n<p>Para a imagem real, entretanto, da Trindade, devemos olhar no homem interior, ou alma. Ao comentar a pergunta do Salmo, \u201cpor que est\u00e1s triste, \u00f3 minha alma? E por que me perturbas?\u201d, ele escreveu: \u201cEntendemos, ent\u00e3o, que temos algo onde se encontra a imagem de Deus, a saber, a mente, a raz\u00e3o. A mente invocava a luz de Deus e a verdade de Deus. Com ela entendemos o que \u00e9 justo e o que \u00e9 injusto, discernimos o verdadeiro do falso&#8230; Nosso intelecto, por conseguinte, fala a nossa alma\u201d.<sup>41<\/sup><\/p>\n<p>Como Kelly afirma, frequentemente tem sido dito que a principal analogia trinit\u00e1ria do\u00a0<em>A Trinitate<\/em>\u00a0\u00e9 a do amante (<em>amans<\/em>), do objeto amado (<em>id<\/em>\u00a0<em>quod amatur<\/em>) e do amor que os une (<em>amor<\/em>).<sup>42<\/sup>\u00a0Por\u00e9m a discuss\u00e3o de Agostinho desta trindade \u00e9 bastante curta, e \u00e9 apenas \u201cuma transi\u00e7\u00e3o\u201d para aquela que ele considera sua mais importante analogia, a da \u201catividade da mente enquanto dirigida para si mesma ou, melhor ainda, para Deus\u201d.<\/p>\n<p>Quem poder\u00e1 compreender a Trindade onipotente? E quem n\u00e3o fala dela, ainda que n\u00e3o a compreenda? \u00c9 rara a pessoa que, ao falar da Sant\u00edssima Trindade, saiba o que diz. Discute-se, debate-se, mas ningu\u00e9m \u00e9 capaz de contemplar essa vis\u00e3o, sem paz interior. Quisera meditassem os homens sobre tr\u00eas coisas que tem dentro de si mesmos, as tr\u00eas bem diferentes da Trindade. Indico-as, para que se exercitem, e assim experimentem e sintam qu\u00e3o longe est\u00e3o desse mist\u00e9rio. Aludo \u00e0 exist\u00eancia, ao conhecimento e \u00e0 vontade. De fato existo, conhe\u00e7o e quero. Existo, sabendo e querendo; sei que existo e quero; quero existir e conhecer. Repare, quem puder, como \u00e9 insepar\u00e1vel a vida nessas tr\u00eas faculdades: uma s\u00f3 vida, uma s\u00f3 intelig\u00eancia, uma s\u00f3 ess\u00eancia. Como s\u00e3o insepar\u00e1veis os objetos dessa distin\u00e7\u00e3o. Distin\u00e7\u00e3o, no entanto, que existe! Cada um est\u00e1 diante de si mesmo. Estude-se, veja e responda-me. Contudo, mesmo que reflita e me responda, n\u00e3o julgue ter compreendido a ess\u00eancia deste Ser imut\u00e1vel que est\u00e1 acima de todas as criaturas, o Ser que imutavelmente existe, imutavelmente sabe e imutavelmente quer. Ser\u00e1 porventura gra\u00e7as a essas tr\u00eas faculdades que h\u00e1 em Deus a Trindade, ou essa tr\u00edplice faculdade existe em cada uma das tr\u00eas pessoas, de modo a serem tr\u00eas em cada uma? Ou ambas as coisas se realizam de modo admir\u00e1vel, numa simplicidade m\u00faltipla, sendo a Trindade o seu pr\u00f3prio fim infinito, pela qual existe, se conhece e se basta imutavelmente, na grande abund\u00e2ncia de sua Unidade? Quem poderia exprimir facilmente esse conceito? Quem teria palavras para o exprimir? Quem, de algum modo, ousaria pronunciar-se temerariamente a esse respeito?<sup>43<\/sup><\/p>\n<p>Esta \u00faltima analogia fascinou Agostinho por toda a sua vida, as trindades resultantes sendo: a) a mente (<em>mens<\/em>), seu conhecimento de si mesma (<em>notitia<\/em>) e seu amor de si mesma (<em>amor<\/em>);<sup>44<\/sup>\u00a0b) a mem\u00f3ria (<em>memoria<\/em>), ou, mais propriamente, \u201co conhecimento latente que a mente tem de si mesma\u201d; o entendimento (<em>intelligentia<\/em>), isto \u00e9, \u201csua apreens\u00e3o de si mesma \u00e0 luz das raz\u00f5es eternas\u201d; e a vontade (<em>voluntas<\/em>), ou amor de si mesma, \u201cpela qual este processo de autoconhecimento \u00e9 posto em atividade\u201d;<sup>45<\/sup>\u00a0c) a mente, enquanto lembrando, conhecendo e amando ao pr\u00f3prio Deus.<sup>46<\/sup>\u00a0\u201c\u00c9, contudo, a \u00faltima das tr\u00eas analogias que Agostinho considera a mais satisfat\u00f3ria\u201d. Agostinho considera que somente quando a mente focalizou a si mesma com todas as suas pot\u00eancias de lembran\u00e7a, entendimento e amor em seu Deus \u00e9 que a Sua imagem que ela traz em si, corrompida como est\u00e1 pelo pecado, pode ser plenamente restaurada.<\/p>\n<p>Embora se demorando nestas analogias, Agostinho n\u00e3o tem ilus\u00f5es quanto \u00e0s suas imensas limita\u00e7\u00f5es. Primeiro, \u201ca imagem de Deus na mente do homem \u00e9, de qualquer maneira, uma imagem remota e imperfeita\u201d. Segundo, \u201cembora a natureza racional do homem exiba as trindades acima mencionadas, (&#8230;) elas representam faculdades ou atributos que o ser humano possui, enquanto que a natureza divina \u00e9 perfeitamente simples\u201d. Terceiro, a mem\u00f3ria, entendimento e vontade operam no homem separadamente, enquanto que as tr\u00eas pessoas divinas \u201cpertencem-se mutuamente e Sua a\u00e7\u00e3o \u00e9 perfeitamente una e indivis\u00edvel\u201d. Finalmente, em Deus os tr\u00eas membros da Trindade s\u00e3o pessoas, mas o mesmo n\u00e3o ocorre na mente humana. Parafraseado o pr\u00f3prio Agostinho, a imagem da Trindade se encontra numa pessoa, mas a suprema Trindade \u00e9 ela pr\u00f3pria tr\u00eas pessoas: o que \u00e9 um paradoxo, quando algu\u00e9m reflete que, n\u00e3o obstante isso, os tr\u00eas s\u00e3o mais inseparavelmente um do que a trindade da mente.<sup>47<\/sup><\/p>\n<p>O fundamento para seguir esta religi\u00e3o [crist\u00e3] \u00e9 a hist\u00f3ria e a profecia. A\u00ed se descobre a disposi\u00e7\u00e3o da divina Provid\u00eancia, no tempo, em favor do g\u00eanero humano, para reforma-lo e restaura-lo, em vista da posse da vida eterna. Crendo nisso, a mente vai se purificando num modo de vida ajustado aos preceitos divinos. Isso a habilitar\u00e1 \u00e0 percep\u00e7\u00e3o das realidades espirituais. Essas realidades n\u00e3o s\u00e3o nem do passado, nem do futuro, mas s\u00e3o sempre id\u00eanticas a si mesmas, imunes de qualquer mudan\u00e7a temporal. Trata-se do mesmo e \u00fanico Deus Pai, Filho e Esp\u00edrito Santo. Conhecida essa Trindade \u2013 o quanto \u00e9 poss\u00edvel na vida presente \u2013 sem d\u00favida alguma a mente percebe que toda criatura intelectual, animal e corporal, recebe dessa mesma Trindade criadora: o\u00a0<em>ser<\/em>\u00a0para ser o que \u00e9; a sua\u00a0<em>forma<\/em>; e a dire\u00e7\u00e3o dentro da perfeita\u00a0<em>ordem<\/em>\u00a0universal. N\u00e3o se entenda por a\u00ed, por\u00e9m, que apenas parcela das criaturas \u00e9 feita pelo Pai, outra pelo Filho e outra ainda pelo Esp\u00edrito Santo. O certo \u00e9 que todas e cada uma das naturezas individuais recebe a cria\u00e7\u00e3o do Pai pelo Filho, no dom do Esp\u00edrito Santo. Visto que todas as coisas, subst\u00e2ncia, ess\u00eancia, natureza ou qualquer termo mais adequado, que se d\u00ea possui ao mesmo tempo estas tr\u00eas propriedades: \u00e9 algo\u00a0<em>\u00fanico<\/em>, distingue-se por sua\u00a0<em>forma<\/em>\u00a0das demais coisas, e est\u00e1 dentro da\u00a0<em>ordem<\/em>\u00a0universal.\u00a0<sup>48<\/sup><\/p>\n<p><strong>Conclus\u00e3o: louvor a Deus<\/strong><\/p>\n<p>Para encerrar, podemos resumir as contribui\u00e7\u00f5es de Agostinho \u00e0 doutrina trinitariana: (a) Na explica\u00e7\u00e3o da Trindade, ele concebe a natureza divina, antes das pessoas, separadamente. Sua formula da Trindade \u00e9: uma s\u00f3 natureza subsistindo em tr\u00eas pessoas. Ao contr\u00e1rio, a dos gregos era: tr\u00eas pessoas tendo uma mesma natureza. Em Agostinho, a divindade \u00fanica aparece logo. A igualdade das pessoas divinas tamb\u00e9m aparece com mais brilho. (b) Outro progresso da doutrina trinitariana de Agostinho \u00e9 a insist\u00eancia em fazer de todas as opera\u00e7\u00f5es\u00a0<em>ad extra<\/em>\u00a0a obra indistinta das tr\u00eas pessoas, isto \u00e9, as opera\u00e7\u00f5es exteriores s\u00e3o atribu\u00eddas ou apropriadas ao Pai, Filho e Esp\u00edrito Santo.<sup>49<\/sup>\u00a0(c) Enfim, Agostinho lan\u00e7ou os fundamentos da teoria psicol\u00f3gica das process\u00f5es, concernentes \u00e0 origem do Filho e \u00e0 do Esp\u00edrito Santo.<\/p>\n<p>Agostinho, juntamente com os maiores te\u00f3logos que lograram vislumbrar as dimens\u00f5es do mist\u00e9rio trinit\u00e1rio, costumavam terminar suas obras como ora\u00e7\u00f5es ardorosas, de louvor e agradecimento, sempre conscientes de suas limita\u00e7\u00f5es: \u201c\u00d3 minha f\u00e9, vai avante na tua confiss\u00e3o. Diz ao Senhor teu Deus: santo, santo, santo \u00e9 o Senhor meu Deus. Fomos batizados em teu nome, Pai, Filho e Esp\u00edrito Santo\u201d.<sup>50<\/sup>\u00a0O sil\u00eancio reverente da raz\u00e3o deixa o cora\u00e7\u00e3o extravasar sua admira\u00e7\u00e3o. Deus est\u00e1 envolto em mist\u00e9rio \u201cna luz inacess\u00edvel\u201d (1Tm 6.13-16):<\/p>\n<p>Portanto, quando chegarmos \u00e0 tua presen\u00e7a, cessar\u00e1 o muito que dissemos, mas muito nos ficar\u00e1 por dizer e tu permanecer\u00e1s s\u00f3, tudo em todos (1Cor 15.28), e ent\u00e3o eternamente cantaremos um s\u00f3 c\u00e2ntico, louvando-te em um s\u00f3 movimento, em ti estreitamente unidos. Senhor, \u00fanico Deus, Deus Trindade, tudo o que disse de ti nestes livros, de ti vem. Reconhe\u00e7am-no os teus, e se algo h\u00e1 de meu, perdoa-me e perdoem-me os teus. AM\u00c9M.<sup>51<\/sup><\/p>\n<p>Fonte: Revista F\u00e9 Para Hoje N.40 (Artigo 5).<\/p>\n<p>1\u00a0&#8211; Cf. especialmente\u00a0<em>Church Dogmatics<\/em>, I\/1 \u00a78-12 (Peabody, MA: Hendrickson, 2010), p. 295-489,\u00a0<em>Esbo\u00e7o de uma dogm\u00e1tica<\/em>\u00a0(S\u00e3o Paulo: Fonte Editorial, 2006), p. 53-58 e Geoffrey W. Bromiley,\u00a0<em>Introduction to the Theology of Karl Barth<\/em>\u00a0(Edinburgh: T&amp;T Clark, 2001), p. 13-21.<\/p>\n<p>2\u00a0&#8211; Para a bibliografia, cf. J. Scott Horrell, \u201cO Deus trino que se d\u00e1, a\u00a0<em>imago Dei<\/em>\u00a0e a natureza da igreja local\u201d,\u00a0<em>Vox Scripturae\u00a0<\/em>v. 6 \u2013 n. 2 (Dezembro 1996), p. 243-244. Cf. tamb\u00e9m J. Scott Horrell, \u201cUma cosmovis\u00e3o trinitariana\u201d,\u00a0<em>Vox Scripturae\u00a0<\/em>v. 4 \u2013 n. 1 (Mar\u00e7o de 1994), p. 55-77.<\/p>\n<p>3\u00a0&#8211; \u201cCarta 174\u201d dirigida ao bispo Aur\u00e9lio de Cartago, em 416.\u00a0<em>in<\/em>: Santo Agostinho,\u00a0<em>A Trindade<\/em><strong>\u00a0<\/strong>(S\u00e3o Paulo: Paulus, 1994), p. 19.<\/p>\n<p>4\u00a0&#8211; Santo Agostinho,\u00a0<em>A doutrina crist\u00e3<\/em>\u00a0(S\u00e3o Paulo: Paulus, 2002), 1.5, p. 46-47.<\/p>\n<p>5\u00a0&#8211; J. N. D. Kelly,\u00a0<em>Patr\u00edstica: origem e desenvolvimento das doutrinas centrais da f\u00e9 crist\u00e3<\/em>\u00a0(S\u00e3o Paulo: Vida Nova, 2009), p. 205. Cf.\u00a0<em>A Trindade<\/em>\u00a01-4, p. 23-189.<\/p>\n<p>6\u00a0&#8211;\u00a0<em>A Trindade<\/em>5.2, p. 193.<\/p>\n<p>7\u00a0&#8211;\u00a0<em>A Trindade<\/em>15.2, p. 480-481.<\/p>\n<p>8\u00a0&#8211; \u201cEis, a piedade \u00e9 sabedoria; e apartar-se do mal \u00e9 ci\u00eancia\u201d (J\u00f3 28.28). Esta oposi\u00e7\u00e3o corresponde \u00e0s duas fun\u00e7\u00f5es da raz\u00e3o: uma superior, pela qual a alma se dedica \u00e0 contempla\u00e7\u00e3o das realidades eternas; e outra inferior, pela qual a alma aplica-se ao conhecimento das realidades temporais.\u00a0<em>A Trindade<\/em>12.21b-23, p. 386-390.<\/p>\n<p>9\u00a0&#8211; Cf. J. N. D. Kelly,\u00a0<em>op. cit.<\/em>, p. 205-210. Cf. tamb\u00e9m Justo L. Gonz\u00e1lez,\u00a0<em>Uma hist\u00f3ria do pensamento crist\u00e3o. v. 1: do in\u00edcio at\u00e9 o Conc\u00edlio de Calced\u00f4nia<\/em>\u00a0(S\u00e3o Paulo: Cultura Crist\u00e3, 2004), p. 317-323.<\/p>\n<p>10\u00a0&#8211; Como diz J. N. D. Kelly,\u00a0<em>op. cit.<\/em>, p. 205: Ele \u201cprefere \u2018ess\u00eancia\u2019 a \u2018subst\u00e2ncia\u2019, pois esta \u00faltima implica um sujeito com atributos, enquanto, para Agostinho, Deus \u00e9 id\u00eantico a Seus atributos\u201d:\u00a0<em>et haec trinitas unus est deus<\/em>\u00a0e\u00a0<em>trinitatem quae deus est<\/em>, cf. Santo Agostinho,\u00a0<em>A Cidade de Deus<\/em>\u00a0v. II [Livros IX a XV] (Lisboa: Funda\u00e7\u00e3o Calouste Gulbenkian, 1993), 11.10, p. 1011-1014. Para uma explica\u00e7\u00e3o dos termos-chave da doutrina trinitariana (principalmente \u201c<em>subst\u00e2ncia<\/em>\u00a0=\u00a0<em>natureza\u00a0<\/em>=\u00a0<em>ess\u00eancia<\/em>: uma \u00fanica\u201d e \u201c<em>hip\u00f3stase<\/em>\u00a0=\u00a0<em>subsist\u00eancia<\/em>\u00a0=\u00a0<em>pessoa<\/em>: tr\u00eas realmente distintas\u201d), cf. Leonardo Boff,\u00a0<em>A Trindade, a sociedade e a liberta\u00e7\u00e3o<\/em><strong>\u00a0<\/strong>(Petr\u00f3polis, Vozes: 1986), p. 111-126.<\/p>\n<p>11\u00a0&#8211; Henry Chadwick,\u00a0<em>A Igreja Primitiva<\/em>\u00a0(Lisboa: Ulisseia, 1967), p. 257. Cf. especialmente Millard J. Erickson,\u00a0<em>Who\u2019s Tampering with the Trinity? An Assessment of the Subordination Debate\u00a0<\/em>(Grand Rapids, MI: Kregel, 2009), p. 153-159. Este livro \u00e9 uma cr\u00edtica muito bem elaborada contra a no\u00e7\u00e3o da subordina\u00e7\u00e3o eterna do Filho ao Pai, que tem sido revivida em certos setores da igreja evang\u00e9lica norte-americana.<\/p>\n<p>12\u00a0&#8211;\u00a0<em>A Trindade<\/em>\u00a06.9, p. 227-229.<\/p>\n<p>13\u00a0&#8211;\u00a0<em>A Trindade<\/em>\u00a07.12, p. 256-257.<\/p>\n<p>14\u00a0&#8211;\u00a0<em>A Trindade<\/em>\u00a08.1, p. 259; cf. tamb\u00e9m 6.9, p. 227-229; 5.10-16, p. 203-213.<\/p>\n<p>15\u00a0&#8211;\u00a0<em>A Trindade<\/em>\u00a02.9, p. 78.<\/p>\n<p>16\u00a0&#8211;\u00a0<em>A Trindade<\/em>\u00a05.15, p. 208-210.<\/p>\n<p>17\u00a0&#8211;\u00a0<em>A Trindade<\/em>\u00a01.7, p. 31; 2.3, p. 71-73.<\/p>\n<p>18\u00a0&#8211;\u00a0<em>A Trindade<\/em>\u00a02.14-34, p. 85-110; 3.4-27, p. 114-143.<\/p>\n<p>19\u00a0&#8211;\u00a0<em>A Trindade<\/em>\u00a02.9, p. 78-80; 2.18, p. 90-91.<\/p>\n<p>20\u00a0&#8211; A teologia crist\u00e3 tem distinguido entre Trindade imanentee Trindade econ\u00f4mica. Trindade imanente \u00e9 a Trindade considerada em si mesma, em sua eternidade e comunh\u00e3o pericor\u00e9tica entre o Pai, o Filho e o Esp\u00edrito Santo. A Trindade econ\u00f4mica \u00e9 a Trindade enquanto se auto-revelou na hist\u00f3ria da humanidade e age em vista \u00e0 nossa participa\u00e7\u00e3o na comunh\u00e3o trinit\u00e1ria.\u00a0 Cf. Karl Rarhner, \u201cO Deus Trino, fundamento transcendente da hist\u00f3ria da salva\u00e7\u00e3o\u201d,\u00a0<em>in<\/em>: Johannes Feiner &amp; Magnus Loehrer,\u00a0<em>Mysterium Salutis; comp\u00eandio de dogm\u00e1tica hist\u00f3rico-salv\u00edfica\u00a0<\/em>\u2013 a hist\u00f3rica salv\u00edfica antes de Cristo II\/1 (Petr\u00f3polis: Vozes, 1972), p. 292-294, 342-344.<\/p>\n<p>21\u00a0&#8211;\u00a0<em>A Trindade<\/em>\u00a05.15, p. 208-209; 5.6, p. 196-197; 5.8 p. 199-201.<\/p>\n<p>22\u00a0&#8211;\u00a0<em>A Trindade<\/em>\u00a05.12, p. 204-206; 5.15-17, p. 208-213; 8.1, p. 259-260.<\/p>\n<p>23\u00a0&#8211; Como diz Jo\u00e3o Calvino, Agostinho \u201cem raz\u00e3o da pobreza da linguagem humana em mat\u00e9ria de t\u00e3o alto importe, esta palavra\u00a0<em>hip\u00f3stase\u00a0<\/em>havia sido for\u00e7ada pela necessidade, n\u00e3o para que se expressasse\u00a0<em>o\u00a0<\/em>que \u00e9, mas\u00a0<em>apenas\u00a0<\/em>para que n\u00e3o se passasse em sil\u00eancio o fato de que s\u00e3o tr\u00eas o Pai, o Filho e o Esp\u00edrito\u201d. Cf.\u00a0<em>As Institutas da Religi\u00e3o Crist\u00e3<\/em>\u00a0I.13.5, 18 (S\u00e3o Paulo: Cultura Crist\u00e3, 2006), p. 126, 146-147. Calvino parece se distanciar das analogias psicol\u00f3gicas, apesar de praticamente repetir a abordagem de Agostinho a respeito da Trindade.<\/p>\n<p>24\u00a0&#8211;\u00a0<em>A Trindade<\/em>\u00a05.4, p. 194.<\/p>\n<p>25\u00a0&#8211; Cf. J. N. D. Kelly,\u00a0<em>op. cit<\/em>. p. 12-13. Para Arist\u00f3teles, haviam dez categorias: subst\u00e2ncia (<em>ousia<\/em>\u00a0\u2013 no sentido de uma coisa), quantidade ou dimens\u00e3o (<em>quantitas<\/em>), qualidade (<em>qualitas<\/em>), rela\u00e7\u00e3o com alguma coisa (<em>relatio ad aliquid<\/em>), local (<em>locus<\/em>), tempo (<em>tempus<\/em>), posi\u00e7\u00e3o ou situa\u00e7\u00e3o (<em>situs<\/em>), habito ou exterior (<em>habitus<\/em>), a\u00e7\u00e3o (<em>actio<\/em>), paix\u00e3o ou a\u00e7\u00e3o sofrida (<em>passio<\/em>). Arist\u00f3teles acreditava que essas categorias representavam n\u00e3o apenas as maneiras de a mente pensar no mundo externo, mas tamb\u00e9m os modos em que as coisas existem objetivamente nesse mundo.<\/p>\n<p>26\u00a0&#8211;\u00a0<em>A Cidade de Deus<\/em>\u00a011.10, p. 1011-1012.<\/p>\n<p>27\u00a0&#8211;\u00a0<em>A Trindade\u00a0<\/em>5-7, p. 191-258; Cf. tamb\u00e9m Santo Agostinho,\u00a0<em>Coment\u00e1rio aos Salmos\u00a0<\/em>68 1.5 [<em>Enarrationes in psalmos<\/em>] Salmos 51-100 (S\u00e3o Paulo: Paulus, 1997), p. 435-437. Segundo J. N. D. Kelly,\u00a0<em>op. cit.<\/em>, p. 207: \u201cPara as pessoas da atualidade, menos versadas em filosofia t\u00e9cnica, soa estranho a no\u00e7\u00e3o de que as rela\u00e7\u00f5es (e.g. \u2018acima\u2019, \u2018\u00e0 direita de\u2019, \u2018maior\u2019) possuem uma subsist\u00eancia real, embora possam em geral concordar com sua objetividade, isto \u00e9, que tais rela\u00e7\u00f5es existem por si mesmas, independente do observador. Para Agostinho, essa era uma id\u00e9ia mais familiar, pois tanto Plotino quanto Porf\u00edrio haviam-na ensinado. Para ele, a vantagem era que, ao permitir que falasse significativamente sobre Deus num novo n\u00edvel de linguagem, ela fazia com que fosse poss\u00edvel afirmar ao mesmo tempo a unidade e a pluralidade da Divindade, sem cair num paradoxo\u201d.<\/p>\n<p>28\u00a0&#8211;\u00a0<em>A Trindade<\/em>\u00a015.46, p. 546-550.<\/p>\n<p>29\u00a0&#8211;\u00a0<em>A Trindade<\/em>\u00a015.27-37, p. 521-534. Em 7.6, p. 244, o Esp\u00edrito Santo \u00e9 referido como \u201csuma caridade, la\u00e7o que une um ao outro [o Pai ao Filho], e nos submete a eles\u201d (<em>summa charitas, utrumque coniungens, nosque subiungens<\/em>).<\/p>\n<p>30\u00a0&#8211;\u00a0<em>A Trindade<\/em>\u00a01.7, p. 31.<\/p>\n<p>31\u00a0&#8211; Para o papel de Agostinho na controv\u00e9rsia\u00a0<em>filioque<\/em>, cf. Alister E. McGrath,\u00a0<em>Teologia sistem\u00e1tica, hist\u00f3rica e filos\u00f3fica<\/em>\u00a0(S\u00e3o Paulo: Shedd, 2005), p. 395-398.<\/p>\n<p>32\u00a0&#8211;\u00a0<em>A Trindade<\/em>\u00a05.15, p. 208-210.<\/p>\n<p>33\u00a0&#8211; O que a teologia oriental (ortodoxa) nem sempre considerou \u00e9 que os latinos, inclusive Agostinho, sempre conceberam o Pai como a fonte (<em>Fons Trinitatis<\/em>) ou origem especial (<em>origo principalis<\/em>) na Trindade. O Esp\u00edrito Santo, como afirma Agostinho, procede do Pai\u00a0<em>principaliter<\/em>; procede do Pai e do Filho\u00a0<em>communiter<\/em>, por causa do dom que o Pai d\u00e1 ao Filho. A maioria dos ortodoxos poderia aceitar tal formula\u00e7\u00e3o, mas, at\u00e9 que um conc\u00edlio ecum\u00eanico agisse, tal id\u00e9ia continuaria sendo mero \u201censino teol\u00f3gico\u201d (<em>theologoumena<\/em>). Cf.\u00a0<em>A Trindade<\/em>\u00a015.50, p. 553-555.<\/p>\n<p>34\u00a0&#8211;\u00a0<em>A Trindade<\/em>15.47, p. 549.<\/p>\n<p>35\u00a0&#8211; Alister E. McGrath,\u00a0<em>op. cit.<\/em>, p. 367-368.<\/p>\n<p>36\u00a0&#8211; Henry Chadwick,\u00a0<em>op. cit.<\/em>, p. 257. Cf. Millard Erickson,\u00a0<em>Introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 teologia sistem\u00e1tica<\/em><strong>\u00a0<\/strong>(S\u00e3o Paulo: Vida Nova, 2012), p. 138: \u201cA maior contribui\u00e7\u00e3o de Agostinho para a compreens\u00e3o da Trindade s\u00e3o suas analogias extra\u00eddas do campo da personalidade humana. Ele argumentou que, se a humanidade \u00e9 feita \u00e0 imagem de Deus, que \u00e9 tri\u00fano, \u00e9 razo\u00e1vel esperar encontrar, numa an\u00e1lise da natureza humana, um reflexo, mesmo que t\u00eanue, da triunidade de Deus.\u201d<\/p>\n<p>37\u00a0&#8211; Santo Agostinho,\u00a0<em>A verdadeira religi\u00e3o<\/em>\u00a013 (S\u00e3o Paulo: Paulus, 2002), p. 39-40.<\/p>\n<p>38\u00a0&#8211;\u00a0<em>A Trindade<\/em>\u00a011.1, p. 335-336.<\/p>\n<p>39\u00a0&#8211;\u00a0<em>A Trindade<\/em>\u00a011.2-5, p. 337-342.<\/p>\n<p>40\u00a0&#8211;\u00a0<em>A Trindade<\/em>\u00a011.6, p. 343-345.<\/p>\n<p>41\u00a0&#8211; Santo Agostinho,\u00a0<em>Coment\u00e1rio aos Salmos\u00a0<\/em>42.6 [<em>Enarrationes in psalmos<\/em>]; Salmos 1-50 (S\u00e3o Paulo: Paulus, 1997), p. 718-719.<\/p>\n<p>42\u00a0&#8211;\u00a0<em>A Trindade<\/em>\u00a08.12-9.2, p. 260-289 e\u00a0<em>A Cidade de Deus<\/em>\u00a0v. II, 11.26. \u00c9 interessante notar que na concep\u00e7\u00e3o barthiana-anselmiana a f\u00e9 \u00e9\u00a0<em>amans<\/em>, o entendimento da f\u00e9 \u00e9\u00a0<em>id<\/em>\u00a0<em>quod<\/em>\u00a0<em>amatur<\/em>\u00a0e a teologia \u00e9\u00a0<em>amor<\/em>. Cf. Karl Barth,\u00a0<em>F\u00e9 em busca de compreens\u00e3o<\/em><strong>\u00a0<\/strong>(S\u00e3o Paulo: Fonte Editorial, 2006), p. 14. Cf. tamb\u00e9m Anselmo de Cantu\u00e1ria,\u00a0<em>Monol<\/em>. 67 e\u00a0<em>passim<\/em>.<\/p>\n<p>43\u00a0&#8211; Santo Agostinho,\u00a0<em>Confiss\u00f5es<\/em>\u00a013.11 (S\u00e3o Paulo: Paulus, 1997), p. 412-413.<\/p>\n<p>44\u00a0&#8211;\u00a0<em>A Trindade<\/em>\u00a09.2-8, p. 287-296.<\/p>\n<p>45\u00a0&#8211;\u00a0<em>A Trindade<\/em>\u00a010.17-19, p. 330-334.<\/p>\n<p>46\u00a0&#8211;\u00a0<em>A Trindade<\/em>\u00a014.11-15.28, p. 453-557.<\/p>\n<p>47\u00a0&#8211; Para as cr\u00edticas que s\u00e3o feitas a esta an\u00e1lise, cf. Alister E. McGrath,\u00a0<em>op. cit.<\/em>, p. 386-388.<\/p>\n<p>48\u00a0&#8211;\u00a0<em>A verdadeira religi\u00e3o<\/em>\u00a013, p. 48;\u00a0<em>A Trindade<\/em>15.43, p. 541-543.<\/p>\n<p>49\u00a0&#8211; As a\u00e7\u00f5es\u00a0<em>ad extra<\/em>\u00a0s\u00e3o as que a Trindade opera para fora do c\u00edrculo trinit\u00e1rio, como a cria\u00e7\u00e3o do universo, a revela\u00e7\u00e3o, a salva\u00e7\u00e3o. As a\u00e7\u00f5es\u00a0<em>ad intra<\/em>\u00a0s\u00e3o as a\u00e7\u00f5es intratrinit\u00e1rias, dentro do c\u00edrculo trinit\u00e1rio, como a gera\u00e7\u00e3o do Filho e a espira\u00e7\u00e3o do Esp\u00edrito Santo pelo Pai e o Filho.<\/p>\n<p>50\u00a0&#8211;\u00a0<em>Confiss\u00f5es<\/em>\u00a013.12, p. 413.<\/p>\n<p>51\u00a0&#8211;\u00a0<em>A Trindade<\/em>, 15.28, p. 557.[\/vc_column_text][vc_message color=&#8221;alert-danger&#8221; message_box_style=&#8221;outline&#8221; style=&#8221;square&#8221; message_box_color=&#8221;alert-danger&#8221; icon_type=&#8221;pixelicons&#8221; el_class=&#8221;creditos_box&#8221; icon_pixelicons=&#8221;vc_pixel_icon vc_pixel_icon-explanation&#8221;]Por:\u00a0Franklin Ferreira.\u00a0\u00a9 Minist\u00e9rio Fiel. Website: <a href=\"http:\/\/ministeriofiel.com.br\/\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">ministeriofiel.com.br<\/a>. Todos os direitos reservados. Fonte: <a href=\"http:\/\/www.ministeriofiel.com.br\/artigos\/detalhes\/666\/Agostinho_e_a_Santissima_Trindade\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Agostinho e a Sant\u00edssima Trindade<\/a>.<\/p>\n<p>[\/vc_message][\/vc_column][\/vc_row]<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Franklin Ferreira: Agostinho pressup\u00f4s como uma verdade b\u00edblica que existe um s\u00f3 Deus que \u00e9 Trindade, e que o Pai, o Filho e o Esp\u00edrito Santo s\u00e3o simultaneamente distintos e co-essenciais, numericamente um quanto \u00e0 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