{"id":54182,"date":"2020-07-01T16:55:46","date_gmt":"2020-07-01T19:55:46","guid":{"rendered":"https:\/\/voltemosaoevangelho.com\/blog\/?p=54182"},"modified":"2020-07-01T16:55:46","modified_gmt":"2020-07-01T19:55:46","slug":"o-pensamento-grego-e-a-igreja-crista-parte-7","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/voltemosaoevangelho.com\/blog\/2020\/07\/o-pensamento-grego-e-a-igreja-crista-parte-7\/","title":{"rendered":"O pensamento grego e a igreja crist\u00e3 (Parte 7)"},"content":{"rendered":"<div class=\"wpb-content-wrapper\"><p>[vc_row][vc_column][vc_btn title=&#8221;S\u00e9rie &#8220; O pensamento grego e a igreja crist\u00e3&#8220; | Clique para ler os outros artigos&#8221; size=&#8221;sm&#8221; align=&#8221;center&#8221; button_block=&#8221;true&#8221; link=&#8221;url:https%3A%2F%2Ffiel.in%2F3aJBHzG|||&#8221;][vc_column_text]<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: left;\">Ainda uma vez, antes de prosseguir\u00a0e deitar o olhar para diante,\u00a0ergo, na minha soledade, as m\u00e3os\u00a0para ti, em quem me refugio,\u00a0a quem no mais fundo do cora\u00e7\u00e3o\u00a0consagrei solenemente altares,\u00a0para que em todos os tempos\u00a0n\u00e3o cesse de chamar-me a tua voz.\u00a0Depois se acende, gravada profundamente,\u00a0a palavra: ao Deus desconhecido!\u00a0A ele perten\u00e7o, ainda que entre a turba dos malfeitores\u00a0eu tenha at\u00e9 agora permanecido.\u00a0A ele perten\u00e7o, embora sinta os la\u00e7os\u00a0que, em meio ao combate, me puxam para baixo\u00a0e que, embora eu tente subtrair-me,\u00a0me arrastam para o seu servi\u00e7o.\u00a0Quero conhecer-te, \u00f3 Desconhecido\u00a0que penetras at\u00e9 o centro de minha alma,\u00a0que atravessas minha vida como uma tormenta,\u00a0incompreens\u00edvel, aparentado comigo.\u00a0Desejo conhecer-te, e, inclusive, servir-te. \u2014F. Nietzsche (1844-1900).<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a><\/p>\n<\/blockquote>\n<h2>Os deuses e seus filhos na hist\u00f3ria<\/h2>\n<p>Na Antiguidade n\u00e3o era raro ou anormal, um homem ser chamado de \u201cfilho de deus\u201d. O mundo estava cheio de homens considerados divinos, semideuses e her\u00f3is nascidos de \u201ccasamentos\u201d dos deuses com os mortais. Tais homens se diziam filhos de deus e, por isso, eram em alguns casos, at\u00e9 mesmo adorados, como manifesta\u00e7\u00f5es da divindade. Mesmo o Novo Testamento apresenta alguns ind\u00edcios deste costume entre os pag\u00e3os (At 8.9-11; 12.21,22; 14.11,12; 28.6).<\/p>\n<p>O epis\u00f3dio narrado por Lucas em Atos 14.8-18 ilustra bem a cren\u00e7a do povo. E, neste caso, h\u00e1 algo peculiar: J\u00fapiter e Merc\u00fario, os quais foram identificados pelo povo como sendo Barnab\u00e9 e Paulo, respectivamente (At 14.12), eram associados \u00e0 regi\u00e3o pela literatura latina.<\/p>\n<p>Ov\u00eddio (42 a.C.-18 d.C.), em sua obra principal, <em>Metamorfoses<\/em>, narra que o pobre casal, Filemon e B\u00e1ucis, hospedou em sua humilde casa, J\u00fapiter e Hermes (= Merc\u00fario), que vieram \u00e0 sua cidade disfar\u00e7ados de mortais \u00e0 procura de uma hospedagem, e que n\u00e3o conseguiram pousada em nenhuma das mil casas da regi\u00e3o, exceto na do casal. Filemon e B\u00e1ucis, por este ato de hospitalidade, conta-nos Ov\u00eddio, foram recompensados sendo poupados do dil\u00favio que destruiu as casas de seus vizinhos n\u00e3o hospitaleiros, tendo, inclusive, num ato simult\u00e2neo a sua pequena casa transformada num templo e, a pedido receberam a incumb\u00eancia de serem sacerdotes e guardi\u00f5es do santu\u00e1rio de J\u00fapiter e, conforme solicitaram, Filemon e B\u00e1ucis, morreram juntos.<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a><\/p>\n<p>Esta lenda que j\u00e1 era bem conhecida nos tempos de Paulo e Barnab\u00e9, esclarece por que t\u00e3o prontamente o povo os identificou com tais divindades ap\u00f3s o milagre realizado por Deus por meio deles.<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a><\/p>\n<p>Al\u00e9m disso, a ideia de que as divindades assumissem temporariamente uma forma humana, j\u00e1 fazia parte da religiosidade do povo. Homero, o grande poeta grego, em sua <em>Odisseia<\/em>, escrita por volta do s\u00e9c. IX a.C., registrou: \u201cOs deuses tomam \u00e0s vezes a figura de estrangeiros, vindos de longes terras e, sob aspectos diversos, v\u00e3o de cidade em cidade, a fim de ficarem conhecendo quais os homens soberbos e quais os justos\u201d.<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a><\/p>\n<p>Em outra passagem, na mesma obra, Homero narra como a deusa Palas Atena, filha de Zeus (= J\u00fapiter), se aproximou em determinado momento, do seu protegido, Ulisses: \u201cDele se abeirou Atena, sob o aspecto de um adolescente pastor de ovelhas, gentil como s\u00e3o os filhos dos pr\u00edncipes, os ombros recobertos de dupla e fina capa, trazendo nos p\u00e9s reluzentes sand\u00e1lias e na m\u00e3o um cajado\u201d.<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a><\/p>\n<p>Ulisses, no di\u00e1logo que se sucede ap\u00f3s a identifica\u00e7\u00e3o da deusa, diz: \u201cDeusa, quando te aproximas de um mortal, muito dificilmente este te reconhecer\u00e1, por h\u00e1bil que seja, porque tomas todos os aspectos\u201d.<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a><\/p>\n<p>O fato \u00e9 que na Antiguidade a hist\u00f3ria estava repleta de interven\u00e7\u00f5es divinas e, de certa forma o povo era governado pela divindade, visto que, especialmente no Oriente, o rei era tido como filho de algum deus.<\/p>\n<p>No Egito, o monarca reinante era considerado divino, sendo concebido como uma gera\u00e7\u00e3o f\u00edsica do deus supremo, chamado R\u00e9; o rei era uma esp\u00e9cie de epifania (manifesta\u00e7\u00e3o) do pr\u00f3prio deus. Na Ar\u00e1bia, o rei era adorado como se fosse deus. Para os sumerianos, babil\u00f4nios e \u00e1rabes, o rei era visto como filho adotivo de um ou de v\u00e1rios deuses.<\/p>\n<p>Os colonizadores gregos em suas conquistas chefiados por Filipe da Maced\u00f4nia (c. 382-336 a.C.) e posteriormente por seu filho, Alexandre o Grande (356-324 a.C.), assimilaram tais ideias mesclando-as com a sua mitologia tradicional,<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[7]<\/a> que por si s\u00f3 j\u00e1 era bastante complexa. Dentro deste sincretismo religioso, encontramos o imperador romano, sendo chamado de <em>Divi Filius<\/em>; os gregos criam que muitos homens descendiam fisicamente dos deuses; a ascend\u00eancia divina \u00e9 que determinava a exist\u00eancia dos reis, fil\u00f3sofos, sacerdotes e justos.<\/p>\n<p>Tais cren\u00e7as proliferavam, assumindo particularidades em cada cidade e at\u00e9 mesmo em cada fam\u00edlia, crescendo ainda mais o n\u00famero de divindades, sendo somado a isto, um processo intenso de \u201ccanoniza\u00e7\u00e3o\u201d dos homens.<\/p>\n<p>O historiador Fustel de Coulanges (1830-1889), escreveu sobre este processo:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: left;\">Todo homem, tendo prestado algum grande servi\u00e7o \u00e0 cidade, desde aquele que fundara at\u00e9 outro que lhe conseguira alguma vit\u00f3ria ou aperfei\u00e7oara suas leis, tornava-se um deus para essa cidade. Nem sequer se torna necess\u00e1rio ter sido grande homem ou benfeitor; bastava haver impressionado vivamente a imagina\u00e7\u00e3o de seus contempor\u00e2neos e ter-se tornado alvo de tradi\u00e7\u00e3o popular, para qualquer pessoa se tornar her\u00f3i, isto \u00e9, um morto poderoso cuja prote\u00e7\u00e3o fosse desejada e cuja c\u00f3lera temida (&#8230;). Os mortos, fossem quais fossem, eram os guardas do pa\u00eds, sob condi\u00e7\u00e3o de se lhes prestar culto.<a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\">[8]<\/a><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Por isso que, por mais que recuemos na hist\u00f3ria, sempre acharemos no Oriente, povos, tribos e fam\u00edlias, que alegam serem provenientes de um ancestral divino.<a href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\">[9]<\/a><\/p>\n<p>Havia tamb\u00e9m, homens que eram considerados como que possuidores de habilidades divinas para realizarem milagres, sendo chamados de homens divinos. Existiam os c\u00edrculos dos \u201cespirituais\u201d que entendiam que uma pessoa podia tornar-se divina mediante o desenvolvimento do conhecimento de Deus. Em s\u00edntese, a ideia de filho de deus, refletia uma confus\u00e3o existente no conceito de divindade e humanidade, acarretando, geralmente, uma diminui\u00e7\u00e3o da ideia de deus e, tamb\u00e9m, por outro lado, uma eleva\u00e7\u00e3o do homem.<a href=\"#_ftn10\" name=\"_ftnref10\">[10]<\/a><\/p>\n<h2>O sentimento religioso e sua universalidade<\/h2>\n<p>Rousseau (1712-1778), em seu <em>Contrato Social, <\/em>afirma que \u201cnenhum povo j\u00e1 perdurou ou perdurar\u00e1 sem religi\u00e3o; se n\u00e3o tiver recebido uma cren\u00e7a religiosa, teria que cri\u00e1-la para n\u00e3o ser destru\u00eddo em pouco tempo\u201d.<a href=\"#_ftn11\" name=\"_ftnref11\">[11]<\/a> De fato, a Religi\u00e3o \u00e9 um fen\u00f4meno universal. A Antropologia, a Sociologia, a Filosofia, a Arqueologia e a Hist\u00f3ria, entre outras ci\u00eancias, t\u00eam demonstrado de forma convincente que a religi\u00e3o est\u00e1 presente em todas as culturas antigas e modernas. Por isso, podemos falar do homem como sendo um ser religioso.<a href=\"#_ftn12\" name=\"_ftnref12\">[12]<\/a><\/p>\n<p>O homem procura desesperadamente um significado para a sua vida, tentando encontrar um equil\u00edbrio entre os seus extremos existenciais: a vida e a morte, o ser e o nada, a ordem e o caos. Dentro desta perspectiva, o caminho religioso \u00e9 quase que invariavelmente seguido pelo homem na busca de significado para o seu existir.<\/p>\n<p>A experi\u00eancia religiosa \u00e9 universal, assumindo caracter\u00edsticas pessoais e, ao mesmo tempo universais. Do mesmo modo que minha experi\u00eancia \u00e9 particular e pessoal, ela tem em si os mesmos ingredientes da experi\u00eancia do outro: todos desejam o mesmo equil\u00edbrio, ainda que n\u00e3o pelos mesmos caminhos e com nomes diferentes. A religi\u00e3o \u00e9 um apan\u00e1gio do ser humano.<\/p>\n<p>O etn\u00f3logo Malinowski (1884-1942), inicia o seu livro <em>Magia, Ci\u00eancia e Religi\u00e3o<\/em>, com esta afirma\u00e7\u00e3o: \u201cN\u00e3o existem povos, por mais primitivos que sejam, sem religi\u00e3o nem magia\u201d.<a href=\"#_ftn13\" name=\"_ftnref13\">[13]<\/a><\/p>\n<p>Na Antiguidade, C\u00edcero (106-43 a.C.), Plutarco, *** escritor e fil\u00f3sofo grego (50-125 A.D) e outros, constataram este fato. C\u00edcero observou que n\u00e3o h\u00e1 povo t\u00e3o b\u00e1rbaro, n\u00e3o h\u00e1 gente t\u00e3o brutal e selvagem, que n\u00e3o tenha em si a convic\u00e7\u00e3o de que h\u00e1 Deus.<a href=\"#_ftn14\" name=\"_ftnref14\">[14]<\/a><\/p>\n<p>Em frase atribu\u00edda \u00e0 Plutarco,<a href=\"#_ftn15\" name=\"_ftnref15\">[15]<\/a> encontramos uma descri\u00e7\u00e3o desse fen\u00f4meno:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: left;\">Podereis encontrar uma cidade sem muralhas, sem edif\u00edcios, sem gin\u00e1sios, sem leis, sem uso de moedas como dinheiro, sem cultura das letras. Mas um povo sem Deus, sem ora\u00e7\u00e3o, sem juramentos, sem ritos religiosos, sem sacrif\u00edcios, tal nunca se viu.<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Calvino (1509-1564) acentua em lugares diferentes:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: left;\">A apar\u00eancia do c\u00e9u e da terra compele at\u00e9 mesmo os \u00edmpios a reconhecerem que algum criador existe. (&#8230;) Certamente que a religi\u00e3o nem sempre teria florescido entre todos os povos, se porventura as mentes humanas n\u00e3o se persuadissem de que Deus \u00e9 o Criador do mundo.<a href=\"#_ftn16\" name=\"_ftnref16\">[16]<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Portanto, at\u00e9 os pr\u00f3prios \u00edmpios s\u00e3o para exemplo de que vige sempre na alma de todos os homens alguma no\u00e7\u00e3o de Deus\u201d.<a href=\"#_ftn17\" name=\"_ftnref17\">[17]<\/a><\/p>\n<p>&nbsp;<\/p><\/blockquote>\n<h2>A palavra religi\u00e3o<\/h2>\n<p>Mas, o que significa religi\u00e3o? Ainda que n\u00e3o possamos responder \u00e0 quest\u00e3o apenas pela simples explica\u00e7\u00e3o da palavra, acreditamos que esta pode fornecer-nos algumas pistas. A palavra \u201creligi\u00e3o\u201d \u00e9 de origem incerta. C\u00edcero (106-43 a.C.), associa a palavra ao verbo latino <em>\u201crelegere\u201d <\/em>(reler, ler com cuidado).<a href=\"#_ftn18\" name=\"_ftnref18\">[18]<\/a> C\u00edcero, assim explicou:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: left;\">Aqueles que cumpriam cuidadosamente com todos os atos do culto divino e por assim dizer os reliam atentamente foram chamados de religiosos de relegere, como elegantes de eligere, diligentes de diligere, e inteligentes de intellegere; de fato, nota-se em todas estas palavras o mesmo valor de legere que est\u00e1 presente em religi\u00e3o.<a href=\"#_ftn19\" name=\"_ftnref19\">[19]<\/a><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Deste modo, a religi\u00e3o seria o estudo diligente acompanhado da observ\u00e2ncia das coisas que pertencem aos deuses.<a href=\"#_ftn20\" name=\"_ftnref20\">[20]<\/a><\/p>\n<p>No entanto, a explica\u00e7\u00e3o mais famosa, relaciona a origem da palavra \u00e0 <em>\u201creligio\u201d <\/em>e <em>\u201creligare\u201d<\/em> (religar) trazendo a ideia embutida de <em>\u201creligar-se com Deus\u201d<\/em>. Essa explica\u00e7\u00e3o encontra-se em Lact\u00e2ncio (c. 240-c. 320) \u2013 <em>Divinae Institutiones, <\/em>(c. 304-313) e Agostinho (354-430) \u2013 <em>De Civitate Dei<\/em><a href=\"#_ftn21\" name=\"_ftnref21\">[21]<\/a> e <em>De Vera Religione<\/em>.<a href=\"#_ftn22\" name=\"_ftnref22\">[22]<\/a><\/p>\n<p>Lact\u00e2ncio que discorda da explica\u00e7\u00e3o de C\u00edcero, diz:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: left;\">N\u00f3s dissemos que o nome religi\u00e3o (<em>religionis<\/em>) \u00e9 derivado do v\u00ednculo de devo\u00e7\u00e3o, porque Deus ligou o homem a Ele, e o prende por devo\u00e7\u00e3o; porque n\u00f3s O temos que servir como um mestre, e ser-Lhe obediente como a um pai.<a href=\"#_ftn23\" name=\"_ftnref23\">[23]<\/a><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Agostinho, ap\u00f3s falar do que n\u00e3o devemos adorar, afirma: \u201cQue a nossa religi\u00e3o nos ligue, pois, ao Deus \u00fanico e onipotente\u201d.<a href=\"#_ftn24\" name=\"_ftnref24\">[24]<\/a><\/p>\n<p>Hobbes (1588-1679) em 1651, vai um pouco al\u00e9m, concluindo que a religi\u00e3o \u00e9 exclusividade do ser humano:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: left;\">Verificando que s\u00f3 no homem encontramos sinais, ou frutos da <em>religi\u00e3o<\/em>, n\u00e3o h\u00e1 motivo para duvidar que a semente da <em>religi\u00e3o<\/em><a href=\"#_ftn25\" name=\"_ftnref25\">[25]<\/a> se encontra tamb\u00e9m apenas no homem, e consiste em alguma qualidade peculiar, ou pelo menos em algum grau eminente dessa qualidade, que n\u00e3o se encontra em outras criaturas vivas.<a href=\"#_ftn26\" name=\"_ftnref26\">[26]<\/a><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>A religi\u00e3o al\u00e9m de inescap\u00e1vel,<a href=\"#_ftn27\" name=\"_ftnref27\">[27]<\/a> \u00e9 modeladora da cultura, sendo, portanto, uma quest\u00e3o de f\u00e9 e vida.<a href=\"#_ftn28\" name=\"_ftnref28\">[28]<\/a> O sentimento religioso est\u00e1 presente em nossas percep\u00e7\u00f5es e constru\u00e7\u00f5es, seja em que n\u00edvel for. O fen\u00f4meno religioso fundamenta-se no fato de que o homem foi criado \u00e0 imagem de Deus e, tamb\u00e9m, ao fato de que Deus se revelou sendo poss\u00edvel conhec\u00ea-lo.<a href=\"#_ftn29\" name=\"_ftnref29\">[29]<\/a> A religi\u00e3o come\u00e7a, em sua ess\u00eancia, em Deus, o Infinito-Pessoal, que se revela vindo ao nosso encontro.<a href=\"#_ftn30\" name=\"_ftnref30\">[30]<\/a><\/p>\n<hr \/>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a>F. Nietzsche, <em>Ao Deus Desconhecido.<\/em> Poesia escrita quando Nietzsche tinha menos de vinte anos. Citada por Georg Siegmund, <em>O Ate\u00edsmo Moderno: Hist\u00f3ria e Psican\u00e1lise,<\/em> S\u00e3o Paulo: Loyola, 1966<em>,<\/em> p. 264.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a>Veja-se: Ov\u00eddio, <em>As Metamorfoses,<\/em> Rio de Janeiro: Editora Tecnoprint, 1983, Livro VIII, p. 214-216.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref3\" name=\"_ftn3\">[3]<\/a>\u201cDuas inscri\u00e7\u00f5es e um altar de pedra foram encontrados perto de Listra, e eles indicam que Zeus e Hermes eram adorados juntos, como divindades padroeiras locais\u201d (John R.W. Stott, <em>A Mensagem de Atos: at\u00e9 os confins da terra,<\/em> S\u00e3o Paulo: ABU., 1994, (At 14.11-15a), p. 258).<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref4\" name=\"_ftn4\">[4]<\/a> Homero, <em>Odisseia,<\/em> S\u00e3o Paulo: Abril Cultural, 1979, XVII, p. 162.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a> Homero, <em>Odisseia,<\/em> XIII. p. 123.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> Homero, <em>Odisseia,<\/em> XIII. p. 125.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a>&#8220;A mitologia \u00e9 uma s\u00e9rie de mentiras. Mas estas mentiras foram, durante longos s\u00e9culos, motivos de cren\u00e7a. Tiveram, o valor de dogmas e realidade entre os gregos e latinos. Com esse t\u00edtulo, inspiraram os homens, sustentaram institui\u00e7\u00f5es respeit\u00e1veis, sugeriram aos artistas a ideia de numerosas cria\u00e7\u00f5es, entre as quais est\u00e3o grandes obras primas\u201d (P. Commelin, <em>Mitologia Greco-Romana,<\/em> Salvador: Aguiar &amp; Souza, 1957, p. 5) (H\u00e1 uma nova tradu\u00e7\u00e3o dessa obra, intitulada: <em>Mitologia Grega e Romana,<\/em> S\u00e3o Paulo: Martins Fontes, 1993).<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\">[8]<\/a> N.D. Fustel de Coulanges, <em>A Cidade Antiga,<\/em> S\u00e3o Paulo: Hemus, 1975, p. 117-118. O autor apresenta substancial documenta\u00e7\u00e3o que demostra as afirma\u00e7\u00f5es supra.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref9\" name=\"_ftn9\">[9]<\/a> Cf. J. Jeremias, <em>A Mensagem Central do Novo Testamento,<\/em> 2. ed. S\u00e3o Paulo: Paulinas, 1979, p. 11.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref10\" name=\"_ftn10\">[10]<\/a> Cf. C.H. Dodd, <em>A Interpreta\u00e7\u00e3o do Quarto Evangelho,<\/em> S\u00e3o Paulo: Paulinas, 1977, p. 335-336.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref11\" name=\"_ftn11\">[11]<\/a>J.J. Rousseau, <em>Sobre o Contrato Social (primeira vers\u00e3o)<\/em>: In: <em>Rousseau e as Rela\u00e7\u00f5es Internacionais, <\/em>S\u00e3o Paulo: Imprensa Oficial do Estado, 2003, III.1, p. 167. Esta vers\u00e3o esbo\u00e7ada, <em>Manuscrito de Genebra, <\/em>\u00e9 de 1761. Na vers\u00e3o definitiva, publicada em 1762, a quest\u00e3o da religi\u00e3o civil \u00e9 tratada no cap\u00edtulo IV. Veja-se: J.J. Rousseau, <em>O Contrato Social e outros escritos, <\/em>S\u00e3o Paulo: Cultrix, 1975, IV.8, p. 126-134.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref12\" name=\"_ftn12\">[12]<\/a>\u201c\u00c9 uma verdade indiscut\u00edvel que o sentimento religioso \u00e9 conatural ao ser humano, pois n\u00e3o existe nenhuma sociedade primitiva ou civilizada, que n\u00e3o acredite em seres sobrenaturais ou que n\u00e3o pratique alguma forma de culto\u201d (Salvatore D\u2019Onofrio, <em>Metodologia do trabalho intelectual,<\/em> S\u00e3o Paulo: Atlas, 1999, p. 13). Geisler e Feinberg dizem que o \u201co homem \u00e9 incuravelmente religioso\u201d (Norman L. Geisler; Paul D. Feinberg, <em>Introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 filosofia: uma perspectiva crist\u00e3,<\/em> S\u00e3o Paulo: Vida Nova, 1983, p. 269, 278). Do mesmo modo: Ronald H. Nash, <em>Quest\u00f5es \u00faltimas da vida: uma introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 Filosofia, <\/em>S\u00e3o Paulo: Cultura Crist\u00e3, 2008, p. 19.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref13\" name=\"_ftn13\">[13]<\/a> Bronislaw Malinowski, <em>Magia, ci\u00eancia e religi\u00e3o,<\/em> Lisboa: Edi\u00e7\u00f5es Setenta, (s.d.), p. 19.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref14\" name=\"_ftn14\">[14]<\/a>Veja-se: Cicero, <em>The Nature of the Gods,<\/em> England: Penguin Books, 1972, I.17; II.4.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref15\" name=\"_ftn15\">[15]<\/a> Embora leia essa frase em cita\u00e7\u00f5es desde a minha mocidade, jamais localizei a fonte prim\u00e1ria.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref16\" name=\"_ftn16\">[16]<\/a> Jo\u00e3o Calvino, <em>Exposi\u00e7\u00e3o de Hebreus,<\/em> S\u00e3o Paulo: Paracletos, 1997, (Hb 11.3), p. 299. Em outro lugar: \u201c&#8230;. t\u00e3o belo \u00e9 seu arranjo [dos c\u00e9us], e t\u00e3o excelente sua estrutura, que todo seu arcabou\u00e7o \u00e9 declarado como o produto das <em>m\u00e3os de Deus<\/em>\u201d (Jo\u00e3o Calvino, <em>O Livro dos Salmos,<\/em> S\u00e3o Paulo: Parakletos, 2002, v. 3, (Sl 102.25), p. 585). Veja-se tamb\u00e9m: R.C. Sproul, <em>Somos todos te\u00f3logos: uma introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 Teologia Sistem\u00e1tica, <\/em>S\u00e3o Jos\u00e9 dos Campos, SP.: Fiel, 2017, p. 36-37.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref17\" name=\"_ftn17\">[17]<\/a> Jo\u00e3o Calvino, <em>As Institutas,<\/em> Campinas, SP.: Luz para o Caminho, 1985, I.3.2.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref18\" name=\"_ftn18\">[18]<\/a>Cicero, <em>The nature of the Gods, <\/em>II.72-74. p. 152-153.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref19\" name=\"_ftn19\">[19]<\/a>Cicero, <em>The nature of the Gods,<\/em> II.28.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref20\" name=\"_ftn20\">[20]<\/a>Cf. Religio: In: Richard A. Muller, <em>Dictionary of Latin and Greek theological terms,<\/em> Grand Rapids, Michigan: Baker Book House, \u00a9 1985, p. 262.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref21\" name=\"_ftn21\">[21]<\/a>Agostinho, <em>A Cidade de Deus,<\/em> 2. ed. Petr\u00f3polis, RJ.; S\u00e3o Paulo: Vozes; Federa\u00e7\u00e3o Agostiniana Brasileira, 1990, (parte I), X.3. p. 373. Veja-se tamb\u00e9m, <em>Ibidem.,<\/em> X.32. p. 410-414.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref22\" name=\"_ftn22\">[22]<\/a> Agostinho, <em>A Verdadeira Religi\u00e3o, <\/em>S\u00e3o Paulo: Paulinas, 1987.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref23\" name=\"_ftn23\">[23]<\/a>Lactantius, <em>The Divine Institutes,<\/em> IV.28. In: Alexander Roberts; James Donaldson, eds. <em>Ante-Nicene Fathers,<\/em> Peabody, Massachusetts: Hendrickson publishers, \u00a9 1994, v. 7, p. 131.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref24\" name=\"_ftn24\">[24]<\/a> Santo Agostinho, <em>A verdadeira religi\u00e3o,<\/em> S\u00e3o Paulo: Paulinas, 1987, 55. p. 145.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref25\" name=\"_ftn25\">[25]<\/a>Express\u00e3o j\u00e1 utilizada por Calvino (Ver: <em>As Institutas,<\/em> I.5.1).<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref26\" name=\"_ftn26\">[26]<\/a>Thomas Hobbes, <em>Leviat\u00e3,<\/em> S\u00e3o Paulo: Abril Cultural, (Os Pensadores, v. 14), 1974, p. 69.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref27\" name=\"_ftn27\">[27]<\/a> \u201cNenhum homem pode escapar dessa determina\u00e7\u00e3o religiosa da vida, j\u00e1 que Deus \u00e9 inevit\u00e1vel\u201d (Henry R. Van Til, <em>O conceito calvinista de cultura, <\/em>S\u00e3o Paulo: Cultura Crist\u00e3, 2010, p. 42).<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref28\" name=\"_ftn28\">[28]<\/a> \u201cA humanidade, tomada como um todo, tem sido, ao longo dos tempos, supranaturalista at\u00e9 o mais profundo de seu ser. Os homens n\u00e3o t\u00eam sido capazes de se satisfazer com as coisas do mundo em seus pensamentos nem em suas vidas; eles sempre supuseram um para\u00edso acima da terra e uma ordem maior e mais sagrada de poderes invis\u00edveis e ben\u00e7\u00e3os por tr\u00e1s daquilo que \u00e9 vis\u00edvel. (&#8230;) A religi\u00e3o tem sido a fonte de toda civiliza\u00e7\u00e3o, a base de toda forma de vida ordenada na fam\u00edlia, Estado e sociedade\u201d (Herman Bavinck, <em>Filosofia da Revela\u00e7\u00e3o, <\/em>Bras\u00edlia, DF.: Monergismo, 2019, p. 51).<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref29\" name=\"_ftn29\">[29]<\/a> Veja-se: Herman Bavinck, <em>Dogm\u00e1tica Reformada: Proleg\u00f4mena, <\/em>S\u00e3o Paulo: Cultura Crist\u00e3, 2012, v. 1, p. 302.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref30\" name=\"_ftn30\">[30]<\/a> \u201cUm dos ensinamentos basilares do cristianismo \u00e9 que Deus decidiu vir aonde estamos. Em vez de esperar que o encontremos, ele vem at\u00e9 n\u00f3s. H\u00e1 quem pense que a religi\u00e3o \u00e9 como subir uma escada para encontrar Deus. Contudo, o cristianismo afirma que Deus resolveu descer aquela escada para nos encontrar e depois nos levar para casa exultantes\u201d (Alister McGrath, <em>O Deus desconhecido, <\/em>S\u00e3o Paulo: Loyola, 2001, p. 58).[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row]<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A religi\u00e3o al\u00e9m de inescap\u00e1vel, \u00e9 modeladora da cultura, sendo, portanto, uma quest\u00e3o de f\u00e9 e vida. 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Leciona em diversos Semin\u00e1rios ininterruptamente desde 1980. Tem experi\u00eancia na \u00e1rea de Teologia Sistem\u00e1tica, lecionando h\u00e1 40 anos, e Hist\u00f3ria da Reforma Protestante, atuando principalmente nos seguintes temas: Jo\u00e3o Calvino e Teologia Reformada e Cosmovis\u00e3o Reformada. Faz parte de diversos Conselhos Editoriais de Revistas de Teologia e de Ci\u00eancias da Religi\u00e3o. Tem 40 livros escritos e mais de 1.500 artigos publicados. Leciona em diversas Institui\u00e7\u00f5es de Ensino Superior no Brasil. 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