{"id":56462,"date":"2020-12-15T15:14:48","date_gmt":"2020-12-15T18:14:48","guid":{"rendered":"https:\/\/voltemosaoevangelho.com\/blog\/?p=56462"},"modified":"2020-12-15T15:14:48","modified_gmt":"2020-12-15T18:14:48","slug":"celebrando-o-natal-com-santo-agostinho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/voltemosaoevangelho.com\/blog\/2020\/12\/celebrando-o-natal-com-santo-agostinho\/","title":{"rendered":"Celebrando o Natal com Santo Agostinho"},"content":{"rendered":"<div class=\"wpb-content-wrapper\"><p>[vc_row][vc_column][vc_column_text]Devido a cria\u00e7\u00e3o que recebi em casa, nunca fui afei\u00e7oado a ter uma festa de anivers\u00e1rio. Se n\u00e3o me falha a mem\u00f3ria, ganhei uma grande festa aos cinco anos de idade e mais uma ou duas, no m\u00e1ximo, nos anos seguintes. L\u00e1 em casa eu aprendi com a minha m\u00e3e que festa n\u00e3o precisa ter hora marcada; \u00e9 todo dia ou sempre que a gente quisesse celebrar alguma coisa, seja o nosso anivers\u00e1rio ou demais epis\u00f3dios felizes da vida.<\/p>\n<p>Essa filosofia tinha suas vantagens e desvantagens. Era bom, por um lado, porque eu n\u00e3o precisava esperar meu anivers\u00e1rio, natal ou qualquer outro dia especial para ganhar presentes. A desvantagem era que nossas celebra\u00e7\u00f5es n\u00e3o tinham prepara\u00e7\u00e3o; era tudo muito instant\u00e2neo e feito quase que no improviso \u2013 embora tamb\u00e9m n\u00e3o desse muito trabalho!<\/p>\n<p>As coisas mudaram drasticamente, entretanto, depois que casei. Minha esposa, diferente da minha dign\u00edssima m\u00e3e, \u00e9 obcecada por festas de anivers\u00e1rio e coisas do tipo. Desde ent\u00e3o, e meio que por compuls\u00e3o, nunca tivemos um anivers\u00e1rio sem festa, bolo, presentes, decora\u00e7\u00f5es e nem mesmo uma p\u00e1scoa, natal e celebra\u00e7\u00f5es dessa magnitude sem alguma prepara\u00e7\u00e3o, enfeites, casa cheia, muita comida \u2013 e obviamente, muito trabalho e lou\u00e7a para lavar depois!<\/p>\n<p>Como voc\u00ea deve ter cogitado, eu convivo bem entre esses dois mundos: aquele da espontaneidade improvisada e outro da prepara\u00e7\u00e3o meticulosa. Mas, afinal, o que isso tem a ver com Natal e \u2013 voc\u00ea pode estar se perguntando \u2013 com Santo Agostinho no t\u00edtulo do artigo?<\/p>\n<p>Deixe-me explicar. Viver nessa encruzilhada cultural de ser filho e marido de mulheres diferentes me trouxe \u00e0 luz que o natal \u00e9 justamente o encontro do improviso com a prepara\u00e7\u00e3o, da gl\u00f3ria com o banal. Por um lado, o Filho de Deus se encarnou e decidiu nascer junto aos animais num lugar sem prest\u00edgio nenhum, por outro, \u00e9 o advento mais esperado por toda a humanidade de tal forma que s\u00e1bios do oriente (magos, se preferir) deixaram tudo numa jornada longa extenuante para encontrar o rei dos reis. Se quiser mais um contraste, o natal \u00e9 o paradoxo perfeito de um Deus glorioso que usa fraldas. O salvador do mundo \u00e9 o \u201cDeus menino\u201d, nosso Senhor Jesus. \u00c9 o rei deitado na manjedoura, a eternidade invadindo o tempo, a gl\u00f3ria se revestindo do p\u00f3 da terra.<\/p>\n<p>Para minha surpresa, lendo os Serm\u00f5es natalinos de Santo Agostinho, como disciplina de prepara\u00e7\u00e3o para o advento, me deparei com o mesmo paradoxo. Na verdade, Agostinho d\u00e1 uma aula de como reagirmos em deslumbramento diante da humildade-gloriosa da encarna\u00e7\u00e3o do Filho de Deus. O bispo de Hipona escreve:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: left;\">\u201cAquele por quem todas as coisas foram feitas foi feito uma de todas essas as coisas. O Filho de Deus pelo Pai sem m\u00e3e tornou-se o Filho do homem por uma m\u00e3e sem pai. A Palavra que \u00e9 Deus antes de todos os tempos se tornou carne no tempo determinado. O criador do sol foi feito sob o sol. Aquele que enche o mundo jaz em uma manjedoura, grande na forma de Deus, mas min\u00fasculo na forma de servo; isto foi de tal forma que nem Sua grandeza foi diminu\u00edda por Sua pequenez, nem Sua pequenez foi superada por Sua grandeza.\u201d (St. Agostinho, Serm\u00e3o 187)<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a><\/p>\n<\/blockquote>\n<p>A cita\u00e7\u00e3o acima \u00e9 s\u00f3 um exemplo dos in\u00fameros paradoxos que constituem o significado do natal na vis\u00e3o de Agostinho. Outro paradoxo dif\u00edcil de compreender \u00e9 o de que, devido \u00e0 pandemia, n\u00e3o celebrarei o nascimento do Senhor com a minha congrega\u00e7\u00e3o pela primeira vez desde a minha convers\u00e3o. Provavelmente voc\u00ea tamb\u00e9m n\u00e3o poder\u00e1 estar na sua igreja local e celebrar o anivers\u00e1rio do Senhor Jesus como de costume. O que fazer, ent\u00e3o? Que tal viajarmos no tempo, para o quarto s\u00e9culo da era crist\u00e3, e sermos guiados pela instrumentalidade agostiniana a respeito da mensagem do natal? Seria uma experi\u00eancia interessante.<\/p>\n<p>Eu fiz essa viagem e deixo aqui algumas de minhas impress\u00f5es do que aprendi sobre o natal com Agostinho. Em primeiro lugar, o natal \u00e9 um convite para o deslumbramento. Como Agostinho registra em outro de seus serm\u00f5es, \u201cNatal \u00e9 o anivers\u00e1rio do Senhor. \u00c9 quando a sabedoria de Deus se apresentou a n\u00f3s como uma crian\u00e7a, e a Palavra de Deus sem palavras expressou a carne como sua voz.\u201d (St. Agostinho, Serm\u00e3o 185). Se corretamente compreendido, o natal deve provocar em n\u00f3s um deslumbramento diante do amor de Deus. Ele veio n\u00e3o por sua pr\u00f3pria causa, nem porque devia e muito menos coagido; o que \u201cmoveu\u201d Deus foi sua pr\u00f3pria liberdade e gra\u00e7a:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: left;\">\u201cRegozijemo-nos, ent\u00e3o, nesta gra\u00e7a&#8230; pois que maior gra\u00e7a poderia Deus ter feito nascer sobre n\u00f3s do que fazer seu Filho unig\u00eanito se tornar o filho do homem, para que um filho do homem pudesse por sua vez se tornar um filho de Deus? Pergunte se isso foi merecido; pergunte por sua raz\u00e3o, por sua justificativa, e veja se voc\u00ea encontrar\u00e1 alguma outra resposta al\u00e9m da pura gra\u00e7a.\u201d (St. Agostinho, Serm\u00e3o 185).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>\u00c9 tempo, ent\u00e3o, de pausar a nossa correria e refletir que o Grande se tornou pequeno e o atemporal nasceu no tempo e espa\u00e7o. Isso nos leva a refletir que a vida n\u00e3o \u00e9 uma causa perdida ou uma multid\u00e3o de hist\u00f3rias sem um prop\u00f3sito unificador. N\u00e3o, a vida debaixo do sol \u00e9 sobre o Criador descendo at\u00e9 n\u00f3s e nos encontrando debaixo do sol. A vida \u00e9 sobre um encontro de Deus com os homens. Natal \u00e9 isso: \u00e9 Jesus nos ensinando que nosso fim supremo na exist\u00eancia \u00e9 glorificarmos e nos alegrarmos em Deus por toda a eternidade.<\/p>\n<p>Em segundo lugar, tenho aprendido com Agostinho que natal \u00e9 um tempo de acordar do nosso sono espiritual. O bispo escreve: \u201cPara o benef\u00edcio de quem tal sublimidade veio com tanta humildade? Certamente n\u00e3o para ele mesmo, mas totalmente para n\u00f3s. Acorde, humanidade, pois o seu Deus se fez homem!\u201d Ele continua:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: left;\">\u201cDesperta, humanidade! Para o seu bem, Deus se tornou homem. Desperta, tu que dormes, levanta-te dentre os mortos, e Cristo te iluminar\u00e1. Repito: por voc\u00ea, Deus se fez homem. Voc\u00ea teria sofrido a morte eterna, se ele n\u00e3o tivesse nascido a tempo. Voc\u00ea nunca teria sido libertado da carne pecaminosa, se ele n\u00e3o tivesse assumido a semelhan\u00e7a da carne pecaminosa. Voc\u00ea teria sofrido infelicidade eterna, n\u00e3o fosse por essa miseric\u00f3rdia. Voc\u00ea nunca teria voltado \u00e0 vida, se ele n\u00e3o tivesse compartilhado sua morte. Voc\u00ea teria se perdido se ele n\u00e3o tivesse se apressado em ajud\u00e1-lo. Voc\u00ea teria morrido, se ele n\u00e3o tivesse vindo.\u201d (St. Agostinho, Serm\u00e3o 185).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>Que mensagem poderosa! Natal \u00e9 tempo de acordamos de um sono que, a menos que despertemos em f\u00e9, nos mata lentamente. Somente Cristo tem o poder de abrir as janelas do nosso quarto e invadir nossas trevas com sua luz. \u00c9 a luz que ofusca e machuca os olhos, mas a \u00fanica que nos permite abrir os olhos e ver pela primeira vez. Natal \u00e9 isso: Jesus vindo ao nosso encontro para nos despertar de um sono mortal.<\/p>\n<p>Em terceiro lugar, os serm\u00f5es natalinos de Agostinho t\u00eam me ajudado a entender a pedagogia divina, isto \u00e9, como Deus faz quest\u00e3o de se revelar a n\u00f3s da forma mais vis\u00edvel e tang\u00edvel poss\u00edvel. Podemos chamar isso de \u201cpedagogia da encarna\u00e7\u00e3o\u201d, o \u201cvem e v\u00ea\u201d de Filipe a Natanael (Jo\u00e3o 1.46), ou como diz o ap\u00f3stolo Jo\u00e3o: \u201co que ouvimos, o que vimos com os nossos olhos, o que contemplamos e as nossas m\u00e3os apalparam a respeito da Palavra da Vida.\u201d (1 Jo\u00e3o 1.1). O natal \u00e9 a mensagem da encarna\u00e7\u00e3o, do toque, da vis\u00e3o, do Deus conosco. Por isso, \u00e9 a mensagem mais poderosa do mundo. \u00c9 o testemunho de que Deus venceu a nossa resist\u00eancia contra ele n\u00e3o apenas por palavras ou feitos extraordin\u00e1rios \u2013 por meio destes tamb\u00e9m \u2013 mas especificamente por meio de sua presen\u00e7a entre n\u00f3s. Agostinho troveja: \u201cDeus se tornou um ser humano, para que em uma pessoa voc\u00ea pudesse ter algo para ver e algo em que acreditar\u201d. (St. Agostinho, Serm\u00e3o 126). Em outro serm\u00e3o ele diz:<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: left;\">\u201cEle nos amou tanto que, por nossa causa, foi feito homem no tempo, por meio de Quem todos os tempos foram feitos; estava no mundo h\u00e1 menos anos do que Seus servos, embora mais velho do que o pr\u00f3prio mundo em Sua eternidade; foi feito homem Quem fez o homem; foi criado de uma m\u00e3e, a quem Ele criou; foi carregado pelas m\u00e3os que Ele formou; amamentou nos seios que Ele havia enchido; gritou na manjedoura na inf\u00e2ncia sem palavras, Ele, a Palavra sem a qual toda eloqu\u00eancia humana \u00e9 muda. (St. Agostinho, Serm\u00e3o 188).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>E em outro lugar,<\/p>\n<blockquote>\n<p style=\"text-align: left;\">\u201cEle est\u00e1 em uma manjedoura, mas cont\u00e9m o mundo. Ele mama no peito, mas tamb\u00e9m alimenta os anjos. Ele est\u00e1 envolto em panos, mas nos veste com a imortalidade. Ele n\u00e3o encontrou lugar na pousada, mas fez para si um templo no cora\u00e7\u00e3o dos crentes.\u201d (St. Agostinho, Serm\u00e3o 190).<\/p>\n<\/blockquote>\n<p>\u00c9 por meio dessa pedagogia do encontro que o natal deve ser encarado por n\u00f3s como um momento para revigorar outros encontros: de Deus com os homens, entre os pr\u00f3prios homens e deles com a cria\u00e7\u00e3o. Jesus nos chama para tocarmos as feridas deste mundo doente e nos identificarmos com suas car\u00eancias assim como ele fez conosco. \u00c9 um desafio para redescobrimos nossa real humanidade. Ele nos chama para continuarmos aquilo que ele mesmo come\u00e7ou. Deus deseja que mundo veja sinalizado em n\u00f3s o que o mesmo mundo viu h\u00e1 dois mil e vinte anos atr\u00e1s em Jesus.<\/p>\n<p>N\u00e3o sei se voc\u00ea \u00e9 daqueles que se preparam para datas festivas como minha esposa ou gosta de improvisar uma celebra\u00e7\u00e3o sem data marcada como minha m\u00e3e. Seja l\u00e1 como for, o natal \u00e9 o encontro das duas coisas: o drama de reden\u00e7\u00e3o t\u00e3o esperado por toda a humanidade, mas que teve lugar na inusitada manjedoura. \u00c9 com esse tom paradoxal que Agostinho nos convida a experimentar e celebrar o natal: \u201cVamos ent\u00e3o celebrar com alegria a vinda de nossa salva\u00e7\u00e3o e reden\u00e7\u00e3o. Celebremos o dia festivo em que aquele que \u00e9 o grande e eterno dia passou do grande e infinito dia da eternidade para o nosso curto dia de tempo.\u201d (St. Agostinho, Serm\u00e3o 185).<\/p>\n<hr \/>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Para uma colet\u00e2nea de serm\u00f5es de Agostinho, veja: Augustine. <em>Sermons<\/em> (Vol. III\/4-6). Edited by John E. Rotelle (New Rochelle, NY: New City Press, 1993).[\/vc_column_text][\/vc_column][\/vc_row]<\/p>\n<\/div>","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Agostinho d\u00e1 uma aula de como reagirmos em deslumbramento diante da humildade-gloriosa da encarna\u00e7\u00e3o do Filho de Deus.<\/p>\n","protected":false},"author":790,"featured_media":56463,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"_jetpack_newsletter_access":"","_jetpack_dont_email_post_to_subs":false,"_jetpack_newsletter_tier_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paywalled_content":false,"_jetpack_feature_clip_id":0,"_jetpack_memberships_contains_paid_content":false,"footnotes":"","jetpack_publicize_message":"Agostinho d\u00e1 uma aula de como reagirmos em deslumbramento diante da humildade-gloriosa da encarna\u00e7\u00e3o do Filho de 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