{"id":71849,"date":"2025-08-27T08:00:33","date_gmt":"2025-08-27T11:00:33","guid":{"rendered":"https:\/\/voltemosaoevangelho.com\/blog\/?p=71849"},"modified":"2025-08-13T17:19:22","modified_gmt":"2025-08-13T20:19:22","slug":"todo-conhecimento-de-deus-depende-de-sua-auto-revelacao-graciosa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/voltemosaoevangelho.com\/blog\/2025\/08\/todo-conhecimento-de-deus-depende-de-sua-auto-revelacao-graciosa\/","title":{"rendered":"Todo conhecimento de Deus depende de sua auto-revela\u00e7\u00e3o graciosa"},"content":{"rendered":"<div class=\"wpb-content-wrapper\"><p>[vc_row][vc_column][vc_btn title=&#8221;Artigo 1 da s\u00e9rie O Ser, as pessoas e as coisas: Um di\u00e1logo entre Teologia e Filosofia | clique aqui para ver os demais artigos desta s\u00e9rie&#8221; style=&#8221;classic&#8221; color=&#8221;white&#8221; size=&#8221;sm&#8221; align=&#8221;center&#8221; css=&#8221;&#8221; link=&#8221;url:https%3A%2F%2Fvoltemosaoevangelho.com%2Fblog%2Fserie%2Fo-ser-as-pessoas-e-as-coisas-um-dialogo-entre-teologia-e-filosofia&#8221;][\/vc_column][\/vc_row][vc_row][vc_column][vc_column_text css=&#8221;&#8221;]<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Nota do editor:<\/strong> Este \u00e9 o primeiro artigo da nova s\u00e9rie de Hermisten Maia \u2013 O Ser, as pessoas e as coisas: Um di\u00e1logo entre Teologia e Fisosofia. Neste primeiro artigo, Hermisten Maia diz que Deus n\u00e3o pode ser definido ou apreendido pela mente humana. Sua ess\u00eancia \u00e9 inesgot\u00e1vel, e qualquer tentativa de categoriz\u00e1-Lo incorre em reducionismo. Este artigo explora, \u00e0 luz da Escritura e da teologia reformada, por que todo verdadeiro conhecimento de Deus depende da Sua auto-revela\u00e7\u00e3o graciosa. A partir de vozes como Calvino, Bavinck, Sproul e outros, aprendemos que a fidelidade b\u00edblica exige rever\u00eancia, humildade e temor diante do Deus que se revela, mas permanece transcendente.<\/p>\n<hr \/>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 160px;\"><em>Deus n\u00e3o pode ser apreendido pela mente humana. \u00c9 mister que Ele se revele atrav\u00e9s de Sua Palavra; e \u00e9 \u00e0 medida que Ele desce at\u00e9 n\u00f3s que podemos, por sua vez, subir at\u00e9 os c\u00e9us. \u2013 Jo\u00e3o Calvino (1509-1564).<\/em><a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 160px;\"><em>Nenhuma perfei\u00e7\u00e3o expressa plenamente o ser de Deus<\/em> \u2013\u00a0 Herman Bavinck (1854-1921).<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a> <em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 160px;\"><em>Se nos recusarmos a honrar a Deus como Deus, toda nossa vis\u00e3o sobre a vida e o mundo torna-se distorcida<\/em>. \u2013\u00a0 R.C. Sproul (1939-2017).<a href=\"#_ftn3\" name=\"_ftnref3\">[3]<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 160px;\"><em>O anti-intelectualismo encontrado na igreja representa uma calamidade, principalmente \u00e0 luz do fato de que os crist\u00e3os deste lado do c\u00e9u s\u00e3o o povo de um Livro e, portanto, s\u00e3o inevitavelmente pensadores<\/em>. \u2013 David Mathis.<a href=\"#_ftn4\" name=\"_ftnref4\">[4]<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 160px;\"><em>Nunca se pode ter moral verdadeira sem absolutos. N\u00f3s podemos cham\u00e1-la de moral, mas sempre termina com \u201ceu gosto\u201d, ou contrato social, nenhum dos quais \u00e9 a moral. (&#8230;) E n\u00e3o tendo nenhum absoluto, o homem moderno n\u00e3o tem categorias. N\u00e3o se podem ter respostas verdadeiras sem categorias, e estes homens n\u00e3o podem ter outras categorias, al\u00e9m das pragm\u00e1ticas e tecnol\u00f3gicas<\/em>. \u2013 Francis A. Schaeffer (1912-1984).<a href=\"#_ftn5\" name=\"_ftnref5\">[5]<\/a><\/p>\n<h2 style=\"text-align: justify;\">Introdu\u00e7\u00e3o<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">O j\u00e1 falecido, piedoso e respeitado te\u00f3logo Saucy (1930\u20132015), ao esclarecer por que n\u00e3o podemos apresentar uma \u201cdefini\u00e7\u00e3o rigorosa da ideia de Deus\u201d, lan\u00e7a luz sobre o conceito de defini\u00e7\u00e3o: \u201cDefinir, que significa limitar, envolve a inclus\u00e3o do objeto dentro de certa classe ou proposi\u00e7\u00e3o universal conhecida e a indica\u00e7\u00e3o dos seus aspectos distintivos comparados com outros objetos daquela mesma classe.\u201d<a href=\"#_ftn6\" name=\"_ftnref6\">[6]<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Agostinho (354-430), de forma iluminadora, trata da necessidade da defini\u00e7\u00e3o:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 160px;\">A ci\u00eancia da defini\u00e7\u00e3o, da divis\u00e3o e da classifica\u00e7\u00e3o, ainda que seja empregada muitas vezes para coisas falsas, n\u00e3o \u00e9 por si s\u00f3 falsa; nem foi institu\u00edda pelos homens, mas descoberta pela pr\u00f3pria raz\u00e3o das coisas.<a href=\"#_ftn7\" name=\"_ftnref7\">[7]<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Algo fundamental para a compreens\u00e3o \u2212 e eventual solu\u00e7\u00e3o \u2212 de um problema \u00e9 possuir uma defini\u00e7\u00e3o clara e precisa sobre ele. Definir \u00e9 delimitar. Uma defini\u00e7\u00e3o apropriada nos permite enxergar o objeto como ele de fato \u00e9.<a href=\"#_ftn8\" name=\"_ftnref8\">[8]<\/a> \u00a0A conceitua\u00e7\u00e3o de Espinosa (1632\u20131677) \u00e9-nos orientadora: \u201cA verdadeira defini\u00e7\u00e3o de cada coisa n\u00e3o envolve nem exprime sen\u00e3o a natureza da coisa definida.\u201d<a href=\"#_ftn9\" name=\"_ftnref9\">[9]<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Em uma entrevista concedida em 1991, Thomas Kuhn (1922\u20131996), ao lamentar o uso excessivo e inadequado da express\u00e3o \u201cparadigma\u201d \u2212 central em sua obra <em>A Estrutura das Revolu\u00e7\u00f5es Cient\u00edficas<\/em> \u2212 admite que no livro n\u00e3o definira \u201cparadigma\u201d t\u00e3o rigorosamente como deveria\u201d.<a href=\"#_ftn10\" name=\"_ftnref10\">[10]<\/a> Segundo ele, essa imprecis\u00e3o contribuiu para a multiplicidade de interpreta\u00e7\u00f5es e aplica\u00e7\u00f5es indevidas do termo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao se buscar uma defini\u00e7\u00e3o, o princ\u00edpio que deve orient\u00e1-la \u00e9 o de privilegiar a <em>ess\u00eancia<\/em>, e n\u00e3o os <em>acidentes<\/em>, que s\u00e3o geralmente ef\u00eameros e n\u00e3o revelam as qualidades intr\u00ednsecas do ser.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O historiador Huizinga (1872-1945) oferece-nos um valioso crit\u00e9rio nesse sentido:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 160px;\">Uma boa defini\u00e7\u00e3o deve ser concisa, ou seja, expor o conceito que se trata de definir com toda precis\u00e3o e de um modo completo, no menor n\u00famero de palavras. A defini\u00e7\u00e3o descreve o significado de uma determinada palavra, usada para designar um determinado fen\u00f4meno. Na defini\u00e7\u00e3o deve ficar inscrito, inclu\u00eddo o fen\u00f4meno em sua totalidade. Se permanecem fora dela partes essenciais do fen\u00f4meno, a defini\u00e7\u00e3o n\u00e3o \u00e9 boa. Por outro lado, uma defini\u00e7\u00e3o n\u00e3o precisa entrar em detalhes.<a href=\"#_ftn11\" name=\"_ftnref11\">[11]<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se Arist\u00f3teles (384\u2013322 a.C.) estiver correto \u2212 como creio que esteja \u2212 ao afirmar que \u201cuma defini\u00e7\u00e3o \u00e9 uma frase que significa a ess\u00eancia de uma coisa\u201d,<a href=\"#_ftn12\" name=\"_ftnref12\">[12]<\/a> ent\u00e3o, de fato, n\u00e3o podemos definir Deus. Ele \u00e9, como veremos mais adiante, pura ess\u00eancia, sem qualquer acidente; e sua ess\u00eancia \u00e9 inesgot\u00e1vel, n\u00e3o apenas no aspecto fenomenol\u00f3gico, mas tamb\u00e9m em sua pr\u00f3pria realidade ontol\u00f3gica (no que \u00e9 em si).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O fen\u00f4meno n\u00e3o esgota a ess\u00eancia e, nesse caso espec\u00edfico, o fen\u00f4meno \u00e9 grandioso, enquanto nossa percep\u00e7\u00e3o se revela limitad\u00edssima \u2212 mesmo diante dele. Como bem expressa J\u00f3: <em>\u201cEis que isto s\u00e3o apenas as orlas dos seus caminhos; e qu\u00e3o pouco \u00e9 o que dele ouvimos!\u201d<\/em> (J\u00f3 26.14).<\/p>\n<h2 style=\"text-align: justify;\"><a name=\"_Toc517104901\"><\/a>Deus se acomoda \u00e0 nossa linguagem<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Considerando a dist\u00e2ncia qualitativa entre Deus e o homem, Calvino (1509\u20131564) sustenta que Deus, em sua gra\u00e7a, se acomoda \u00e0 nossa compreens\u00e3o, adaptando-se de forma condescendente \u00e0 nossa limita\u00e7\u00e3o.<a href=\"#_ftn13\" name=\"_ftnref13\">[13]<\/a> Empregando suas pr\u00f3prias palavras, Calvino afirma que Deus, ao revelar-se, \u201cse acomodava<a href=\"#_ftn14\" name=\"_ftnref14\">[14]<\/a> \u00e0 nossa capacidade\u201d,<a href=\"#_ftn15\" name=\"_ftnref15\">[15]<\/a> \u201cbalbuciando\u201d sua Palavra a n\u00f3s como as amas fazem com as crian\u00e7as.<a href=\"#_ftn16\" name=\"_ftnref16\">[16]<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Deus se vale de analogias, recorrendo \u00e0 met\u00e1foras \u2212 comparando-se a um le\u00e3o, ao urso e ao homem \u2013, visando ser entendido por n\u00f3s.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quando o Senhor \u00e0s vezes se compara a um le\u00e3o, a um urso, a um homem, ou a outros objetos, isto nada tem a ver com imagens, como imaginam os papistas, sen\u00e3o que, por meio de tais met\u00e1foras, ou a benignidade e merc\u00ea de Deus, ou sua ira e desprazer, e outras coisas da mesma natureza se expressam. Pois Deus n\u00e3o pode revelar-se a n\u00f3s de qualquer outra maneira sen\u00e3o por meio de uma compara\u00e7\u00e3o com coisas que conhecemos.<a href=\"#_ftn17\" name=\"_ftnref17\">[17]<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Essa imagem \u00e9 profundamente comovente: o Deus infinito, transcendente e santo abaixa-se voluntariamente para comunicar-se conosco em termos que possamos compreender \u2212 n\u00e3o diminuindo sua gl\u00f3ria, mas ajustando sua revela\u00e7\u00e3o \u00e0 nossa fragilidade. \u00c9 o gesto de um Pai que fala a linguagem dos filhos, sem perder, no caso de Deus, a majestade de sua verdade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Portanto, Deus n\u00e3o pode ser definido nem comparado.<a href=\"#_ftn18\" name=\"_ftnref18\">[18]<\/a> As compara\u00e7\u00f5es b\u00edblicas s\u00e3o formas humanas, concedidas pelo pr\u00f3prio Deus Criador, com o prop\u00f3sito de nos proporcionar um conhecimento adequado \u2212 ainda que limitado \u2212 de sua natureza.<a href=\"#_ftn19\" name=\"_ftnref19\">[19]<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nossas analogias, por mais bem-intencionadas que sejam, podem tornar-se extremamente perigosas, pois est\u00e3o sujeitas a erros, distor\u00e7\u00f5es e ao esvaziamento da plenitude daquilo que foi revelado. Parece-me um princ\u00edpio seguro atermo-nos \u00e0s figuras que o pr\u00f3prio Senhor utilizou em sua Palavra, e mesmo essas devem ser interpretadas dentro do prop\u00f3sito estrito que Ele estabeleceu.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Fora disso, \u00e9 trilhar um caminho escorregadio e arriscado \u2212 movido, muitas vezes, por imaturidade espiritual ou por uma vaidade leviana que presume dizer mais do que Deus disse.<a href=\"#_ftn20\" name=\"_ftnref20\">[20]<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A Escritura afirma com clareza que Deus \u00e9 incompar\u00e1vel e insond\u00e1vel. N\u00e3o h\u00e1 par\u00e2metro que possa medi-lo, nem mente que possa perscrutar plenamente os seus caminhos. Ao reconhecer essa realidade, n\u00e3o estamos promovendo um irracionalismo il\u00f3gico, mas sim afirmando que, diante da revela\u00e7\u00e3o fidedigna do Deus pessoal e racional, aprendemos que Ele transcende nossas categorias sem, contudo, contradiz\u00ea-las.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A racionalidade b\u00edblica consiste em reconhecer que a nossa raz\u00e3o \u2212 embora tenha paralelos com a de Deus, visto que fomos criados \u00e0 sua imagem \u2212 \u00e9 limitada em seu alcance e em sua capacidade de s\u00edntese. Deus \u00e9 maior do que podemos compreender, mas n\u00e3o \u00e9 incoerente ou arbitr\u00e1rio.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Importa destacar que a revela\u00e7\u00e3o divina n\u00e3o \u00e9 um faz-de-conta. A nossa raz\u00e3o n\u00e3o \u00e9 um mero \u201ccaf\u00e9 com leite\u201d, relegada \u00e0s quest\u00f5es terrenas enquanto Deus habita uma esfera totalmente distinta, regida por uma l\u00f3gica inacess\u00edvel. \u00a0Pelo contr\u00e1rio, a revela\u00e7\u00e3o b\u00edblica \u00e9 intelig\u00edvel, confi\u00e1vel e dirigida a seres pensantes, chamados \u00e0 responsabilidade diante do Deus que se comunica.<a href=\"#_ftn21\" name=\"_ftnref21\">[21]<\/a><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Compreender essa rela\u00e7\u00e3o entre transcend\u00eancia e revela\u00e7\u00e3o \u00e9 essencial para o desenvolvimento do nosso tema \u2212 e, mais ainda, para a nossa sobreviv\u00eancia como criaturas racionais, vocacionadas \u00e0 verdade e \u00e0 comunh\u00e3o com o Criador.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">N\u00e3o h\u00e1 com que ou com quem comparar Deus. Ele est\u00e1 muito al\u00e9m de nossas refer\u00eancias. A sua grandeza \u00e9 inexamin\u00e1vel e indecifr\u00e1vel. N\u00e3o temos par\u00e2metros para decifr\u00e1-la ainda que de forma aproximada.<a href=\"#_ftn22\" name=\"_ftnref22\">[22]<\/a> Assim se expressaram os salmistas:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 160px;\"><em><u>Grande<\/u><\/em> (gadol) <em>\u00e9 o SENHOR e mui digno de ser louvado; a sua <u>grandeza<\/u><\/em> (gedullah) <em>\u00e9 <u>insond\u00e1vel<\/u> <\/em>(ayin <em>cheqer<\/em>). (Sl 145.3).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 160px;\"><em>\u00d3 SENHOR, Deus dos Ex\u00e9rcitos, quem \u00e9 poderoso como tu \u00e9s, SENHOR, com a tua fidelidade ao redor de ti?!<\/em> (Sl 89.8).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 160px;\"><em>Com efeito, eu sei que o SENHOR \u00e9 grande e que o nosso Deus est\u00e1 acima de todos os deuses. <\/em>(Sl 135.5).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 160px;\"><em>Todos os meus ossos dir\u00e3o: SENHOR, quem contigo se assemelha?<\/em> (Sl 35.10).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 160px;\"><em>\u201cOra, a tua justi\u00e7a, \u00f3 Deus, se eleva at\u00e9 aos c\u00e9us. Grandes coisas tens feito, \u00f3 Deus; quem \u00e9 semelhante a ti?\u201d<\/em> (Sl 71.19).<\/p>\n<h2 style=\"text-align: justify;\">Tenta\u00e7\u00e3o de esquadrinhar Deus<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Considerando o que disse Salom\u00e3o \u2013 <em>\u201cA gl\u00f3ria de Deus \u00e9 encobrir as coisas, mas a gl\u00f3ria dos reis \u00e9 <u>esquadrinh\u00e1<\/u>-las <\/em>(chaqar) (= sondar, investigar, pesquisar) (Pv 25.2) \u2013, devemos nos precaver de uma tenta\u00e7\u00e3o na qual podemos incorrer; especular sobre o ser de Deus e seus atos. No entanto, temos aqui uma tens\u00e3o saud\u00e1vel: Deus oculta, e o homem investiga. A investiga\u00e7\u00e3o \u00e9 leg\u00edtima \u2212 \u00e9 parte da voca\u00e7\u00e3o humana dada por Deus. No entanto, h\u00e1 uma linha t\u00eanue entre <em>sondar com rever\u00eancia<\/em> e <em>especular com presun\u00e7\u00e3o<\/em>.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">O profeta Isa\u00edas nos lembra que o entendimento de Deus \u00e9 inescrut\u00e1vel \u2212 \u00a0n\u00e3o por falta de revela\u00e7\u00e3o, mas por causa da dist\u00e2ncia ontol\u00f3gica entre o Criador e a criatura. Nosso conhecimento \u00e9 de servo, limitado, fracionado, e dependente essencialmente da revela\u00e7\u00e3o: <em>\u201cN\u00e3o sabes, n\u00e3o ouviste que o eterno Deus, o SENHOR, o Criador dos fins da terra, nem se cansa, nem se fatiga? N\u00e3o se pode <u>esquadrinhar<\/u><\/em> (chaqar) <em>o seu entendimento\u201d<\/em> (Is 40.28).<\/p>\n<h2 style=\"text-align: justify;\"><a name=\"_Toc517104903\"><\/a>Desejo de anunciar os feitos de Deus<\/h2>\n<p style=\"text-align: justify;\">Assim, ao contr\u00e1rio dessa tenta\u00e7\u00e3o especulativa, o salmista oferece-nos um caminho a seguir: anunciar os feitos de Deus ainda que n\u00e3o tenhamos, naturalmente, a compreens\u00e3o de todos eles:<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 160px;\"><em>S\u00e3o muitas, SENHOR, Deus meu, as maravilhas que tens operado e tamb\u00e9m os teus des\u00edgnios para conosco; ningu\u00e9m h\u00e1 que se possa igualar contigo. Eu quisera anunci\u00e1-los e deles falar, mas s\u00e3o mais do que se pode contar<\/em>. (Sl 40.5).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify; padding-left: 160px;\"><em>Tu me tens ensinado, \u00f3 Deus, desde a minha mocidade; e at\u00e9 agora tenho anunciado as tuas <u>maravilhas<\/u><\/em> (pala). (Sl 71.17).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Todo o nosso conhecimento de Deus deve nos conduzir \u00e0 adora\u00e7\u00e3o e\u00a0 \u00e0 glorifica\u00e7\u00e3o do seu Nome por meio de nossa obedi\u00eancia humilde e sincera. Com tal esp\u00edrito, continuemos nossos apontamentos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<h2>Refer\u00eancias Bibliogr\u00e1ficas<\/h2>\n<p>AGOSTINHO, Santo. <em>A doutrina crist\u00e3<\/em>. S\u00e3o Paulo: Paulinas, 1991.<\/p>\n<p>ANAXIMANDRO. Fragmentos e doxografias. In: FERRATER MORA, Jos\u00e9. Apeiron: <em>Dicion\u00e1rio de Filosofia<\/em>. S\u00e3o Paulo: Edi\u00e7\u00f5es Loyola, 2001. v. 1, p. 156-157.<\/p>\n<p>ARIST\u00d3TELES. <em>T\u00f3picos<\/em>. S\u00e3o Paulo: Abril Cultural, 1973. (Os Pensadores, v. 4)<\/p>\n<p>BAVINCK, Herman. <em>Dogm\u00e1tica Reformada<\/em>. S\u00e3o Paulo: Cultura Crist\u00e3, 2012. v. 2.<\/p>\n<p>BAVINCK, Herman. <em>Reformed Dogmatics: Volume 1: Prolegomena<\/em>. Grand Rapids: Baker Academic, 2003.<\/p>\n<p>BERGE, Dami\u00e3o. <em>O Logos Heracl\u00edtico: Introdu\u00e7\u00e3o ao Estudo dos Fragmentos<\/em>. Rio de Janeiro: Instituto Nacional do Livro, 1969.<\/p>\n<p>CALVINO, Jo\u00e3o. <em>As Institutas<\/em>. 3. ed. S\u00e3o Paulo: Cultura Crist\u00e3, 2022.<\/p>\n<p>CALVINO, Jo\u00e3o. <em>Exposi\u00e7\u00e3o de 1 Cor\u00edntios<\/em>. S\u00e3o Paulo: Parakletos, 1997.<\/p>\n<p>CALVINO, Jo\u00e3o. <em>Exposi\u00e7\u00e3o de Romanos<\/em>. S\u00e3o Paulo: Parakletos, 1997.<\/p>\n<p>CALVINO, Jo\u00e3o. <em>O Evangelho segundo Jo\u00e3o<\/em>. S\u00e3o Jos\u00e9 dos Campos: Editora Fiel, 2015.<\/p>\n<p>CALVINO, Jo\u00e3o. <em>O Livro dos Salmos<\/em>. S\u00e3o Paulo: Parakletos, 1999\u20132002. 3 v.<\/p>\n<p>CALVINO, Jo\u00e3o. <em>O Profeta Daniel: 1\u20136.<\/em> S\u00e3o Paulo: Parakletos, 2000. v. 1.<\/p>\n<p>CALVINO, Jo\u00e3o. <em>As Pastorais<\/em>. 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In: John Piper; David Mathis, orgs. <em>Pensar \u2013 Amar \u2013 Fazer, <\/em>\u00a0S\u00e3o Paulo: Cultura Crist\u00e3, 2013, p. 14.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref5\" name=\"_ftn5\">[5]<\/a>Francis A. Schaeffer, <em>Polui\u00e7\u00e3o e a Morte do Homem, <\/em>S\u00e3o Paulo: Cultura Crist\u00e3, 2003, p. 24.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref6\" name=\"_ftn6\">[6]<\/a> Robert L. Saucy, Deus, Doutrina de: In: Walter A. Elwell, ed<em>. Enciclop\u00e9dia Hist\u00f3rico-Teol\u00f3gica da Igreja Crist\u00e3,<\/em> S\u00e3o Paulo: Vida Nova, 1988-1990, v. 1, [p. 439-445], p. 440. Sobre a import\u00e2ncia das defini\u00e7\u00f5es no \u00e2mbito geral, veja-se: Hermisten M.P. Costa, <em>Introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 Metodologia das Ci\u00eancias Teol\u00f3gicas, <\/em>Goi\u00e2nia: Cruz, 2015, p. 63-65.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref7\" name=\"_ftn7\">[7]<\/a> Santo Agostinho, <em>A Doutrina Crist\u00e3,<\/em> S\u00e3o Paulo: Paulinas, 1991, II.36 p. 143.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref8\" name=\"_ftn8\">[8]<\/a>\u201cUma defini\u00e7\u00e3o n\u00e3o arbitr\u00e1ria deve afirmar o conjunto de caracter\u00edsticas singulares compartilhado por todas as coisas do tipo que est\u00e1 sendo definido\u201d (Roy A. Clouser, <em>O mito da neutralidade religiosa: Um ensaio sobre a cren\u00e7a religiosa e seu papel no pensamento te\u00f3rico<\/em>, Bras\u00edlia, DF.: Editora Monergismo, 2020. Edi\u00e7\u00e3o do Kindle. (Posi\u00e7\u00e3o 287 de 11450).<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref9\" name=\"_ftn9\">[9]<\/a>Baruch Espinosa, <em>\u00c9tica,<\/em> S\u00e3o Paulo: Abril Cultural, (Os Pensadores, v. 17), 1973, I.8. E<em>sc\u00f3lio 2<\/em>, p. 91.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref10\" name=\"_ftn10\">[10]<\/a>John Horgan, <em>O Fim da Ci\u00eancia: uma discuss\u00e3o sobre os limites do conhecimento Cient\u00edfico, <\/em>3. reimpress\u00e3o, S\u00e3o Paulo: Companhia das Letras, 2006, p. 64.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref11\" name=\"_ftn11\">[11]<\/a>Johan Huizinga, <em>El Concepto de la Historia y Otros Ensayos,<\/em> 4. reimpresi\u00f3n, M\u00e9xico: Fondo de Cultura Econ\u00f4mica, 1994, p. 87.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref12\" name=\"_ftn12\">[12]<\/a>Arist\u00f3teles, <em>T\u00f3picos<\/em>, S\u00e3o Paulo: Abril Cultural, (Os Pensadores, v. 4), 1973, I.5. p. 13.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref13\" name=\"_ftn13\">[13]<\/a>Cf. Alister E. McGrath, <em>Historical Theology: An Introduction to the History of Christian Thought<\/em>, Massachusetts: Blackwell Publishers, 1998, p. 210. A <em>Confiss\u00e3o de Westminster<\/em> fala tamb\u00e9m da \u201ccondescend\u00eancia\u201d de Deus em firmar um Pacto com o homem ca\u00eddo (Ver: <em>Confiss\u00e3o de Westminster, <\/em>VII.1).<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref14\" name=\"_ftn14\">[14]<\/a> Battles\u00a0 (1915-1979) nos adverte que Calvino nunca empregou a palavra \u201cacomoda\u00e7\u00e3o\u201d na forma substantivada (<em>accommodatio) <\/em>nas <em>Institutas <\/em>e, possivelmente em qualquer de seus escritos. Por\u00e9m, utilizou os verbos <em>accommodare <\/em>ou <em>attemperare<\/em>. (acomodar). (Cf. Ford L. Battles, <em>Interpreting John Calvin,<\/em> Grand Rapids, MI.: Baker Books, 1996, p. 117).<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref15\" name=\"_ftn15\">[15]<\/a>J. Calvino, <em>Exposi\u00e7\u00e3o de 1 Cor\u00edntios,<\/em> S\u00e3o Paulo: Paracletos, 1997, (1Co 2.7), p. 82.\u00a0 \u201cDeus n\u00e3o pode ser compreendido por n\u00f3s, a menos que se acomode ao nosso padr\u00e3o\u201d (John Calvin, <em>Calvin\u2019s Commentaries,<\/em> Grand Rapids, Michigan: Baker Book House Company, 1996 (Reprinted), v. 11\/2, (Ez 9.3,4), p. 304). \u201cN\u00e3o podemos compreender plenamente a Deus em toda a sua grandeza, mas que h\u00e1 certos limites dentro dos quais os homens devem manter-se, embora Deus acomode \u00e0 nossa tacanha capacidade toda declara\u00e7\u00e3o que faz de si mesmo. Portanto, somente os estultos \u00e9 que buscam conhecer a ess\u00eancia de Deus\u201d (Jo\u00e3o Calvino, <em>Exposi\u00e7\u00e3o de Romanos,<\/em> S\u00e3o Paulo: Paracletos, 1997, (Rm 1.19), p. 64). \u201cO Esp\u00edrito Santo propositadamente acomoda ao nosso entendimento os modelos de ora\u00e7\u00e3o registrados na Escritura\u201d (Jo\u00e3o Calvino, <em>O Livro dos Salmos, <\/em>S\u00e3o Paulo: Paracletos, 1999, v. 1, (Sl 13.3), p. 265). \u201cPorque se viesse a n\u00f3s em Sua majestade estar\u00edamos perdidos; por\u00e9m quando Se nos apresenta por meio de homens se acomoda a nossas debilidades para que possamos conhecer mais convenientemente sua verdade a qual Ele nos prop\u00f5e\u201d (Juan Calvino, Autoridad y Reverencia que Debemos a la Palabra de Dios: In: <em>Sermones Sobre Job,<\/em> Jenison, Michigan: T.E.L.L., 1988, (Sermon n\u00ba 17), p. 212).\u00a0 \u201cPorque, uma vez que em si mesmo seja incompreens\u00edvel, ele assume, quando quer manifestar-se, aquelas marcas pelas quais possa ser conhecido\u201d (John Calvin, <em>Calvin\u2019s Commentaries,<\/em> Grand Rapids, Michigan: Baker Book House Company, 1996 (Reprinted), v. 1\/1, (Gn 3.8), p. 161). \u201cEste \u00e9 aquele arrependimento t\u00e3o ami\u00fade referido nas Escrituras. N\u00e3o que Deus seja em si mut\u00e1vel, mas Ele usa a linguagem humana para que sejamos afetados com o mais profundo senso de sua ira\u201d (J. Calvino, <em>O Livro dos Salmos,<\/em> S\u00e3o Paulo: Parakletos, 2002, v. 3, (Sl 106.23), p. 685]. \u201cO Esp\u00edrito Santo n\u00e3o teve inten\u00e7\u00e3o de ensinar astronomia; e, com o prop\u00f3sito de instruir procurou ser comum \u00e0s pessoas mais simples e iletradas\u201d (John Calvin, <em>Commentary on the Book of Psalms, <\/em>Grand Rapids, Michigan: Baker Book House (Calvin\u2019s Commentaries, v. 6\/4), 1996 (Reprinted), (Sl 136.7), p. 184]. Veja-se: James Orr, Ci\u00eancia e F\u00e9 Crist\u00e3: In: R.A. Torrey, ed. <em>Os Fundamentos<\/em>, (Edi\u00e7\u00e3o atualizada por L. Feinberg), S\u00e3o Paulo: Hagnos Editora, 2005, p. 129-139. Ver tamb\u00e9m: Herman Bavinck, <em>Reformed Dogmatics: Volume 1: Prolegomena<\/em>, Grand Rapids, Michigan: Baker Academic, 2003, p. 214.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref16\" name=\"_ftn16\">[16]<\/a>Calvino usou deste recurso hermen\u00eautico para explicar assuntos aparentemente contradit\u00f3rios na B\u00edblia. Falando sobre os antropomorfismos b\u00edblicos, diz em lugares diferentes: \u201cPois quem, mesmo os de bem pouco entendimento, n\u00e3o percebe que Deus fala como que a balbuciar, como as amas costumam fazer com as crian\u00e7as? Por isso, formas de express\u00e3o como essas n\u00e3o exprimem, de maneira clara e precisa, o que Deus \u00e9, mas acomodam o conhecimento que temos dele \u00e0 pobreza de nossa compreens\u00e3o. Para que assim aconte\u00e7a, \u00e9 necess\u00e1rio que Ele des\u00e7a muito abaixo de sua grandeza\u201d (J. Calvino, <em>As Institutas, <\/em>I.13.1). \u201cA descri\u00e7\u00e3o que dele se nos outorga tem de acomodar-se-nos \u00e0 capacidade, para que seja de n\u00f3s entendida. Esta \u00e9, na verdade, a forma de acomodar-se: que tal se nos represente, n\u00e3o qual \u00e9 em Si, por\u00e9m, qual \u00e9 poss\u00edvel de ser de n\u00f3s apreendido\u201d (J. Calvino, <em>As<\/em> <em>Institutas, <\/em>I.17.13). Ver tamb\u00e9m: Jo\u00e3o Calvino, <em>O Livro dos Salmos,<\/em> v. 1, (Sl 13.3), p. 265; (Sl 19.4-6), p. 420-421; Jo\u00e3o Calvino, <em>O Livro dos Salmos,<\/em> S\u00e3o Paulo: Paracletos, 1999, v. 2, (Sl 50.14), p. 409; Jo\u00e3o Calvino, <em>O Livro dos Salmos,<\/em> S\u00e3o Paulo: Parakletos, 2002, v. 3, (Sl 78.65), p. 241; (Sl 91.4), p. 447; (Sl 93.2), p. 474; (Sl 106.23), p. 685; Jo\u00e3o Calvino, <em>O Evangelho segundo Jo\u00e3o, <\/em>S\u00e3o Jos\u00e9 dos Campos, SP.: Editora Fiel, 2015, v. 1, (Jo 1.1), p. 30;\u00a0 (Jo 3.12), p. 127; v. 2, (Jo 14.28), p. 111; (Jo 21.25), p. 327; <em>As Institutas,<\/em> I.14.3,11; I.16.9; IV.17.11; <em>As Institutas, <\/em>(1541) III.8. Deste princ\u00edpio derivado da Ret\u00f3rica (Cf. Alister E. McGrath, <em>A Vida de Jo\u00e3o Calvino,<\/em> S\u00e3o Paulo: Editora Cultura Crist\u00e3, 2004, p. 154ss.) ele tirou um princ\u00edpio pedag\u00f3gico: \u201cUm s\u00e1bio mestre tem a responsabilidade de acomodar-se ao poder de compreens\u00e3o daqueles a quem ele administra o ensino, de modo a iniciar-se com os princ\u00edpios rudimentares quando instrui os d\u00e9beis e ignorantes, n\u00e3o lhes dando algo que porventura seja mais forte do que podem suportar\u201d (J. Calvino, <em>Exposi\u00e7\u00e3o de 1 Cor\u00edntios,<\/em> (1Co 3.1), p. 98-99. Ver tamb\u00e9m: Jo\u00e3o Calvino, <em>As Pastorais, <\/em>S\u00e3o Paulo: Paracletos, 1998, <em>\u00a0<\/em>(2Tm 2.15), p. 235). Hooykaas (1906-1994) sustenta que a \u201cteoria da acomoda\u00e7\u00e3o de Calvino\u201d exerceu poderosa influ\u00eancia sobre os astr\u00f4nomos protestantes (Ver: R. Hooykaas, <em>A Religi\u00e3o e o Desenvolvimento da Ci\u00eancia Moderna,<\/em> Bras\u00edlia, DF.: Editora Universidade de Bras\u00edlia, 1988, p. 160ss.; Alister E. McGrath, <em>Historical Theology: An Introduction to the History of Christian Thought<\/em>, Massachusetts: Blackwell Publishers, 1998, p. 210. Em que pese o marxismo do autor, Christopher Hill (1912-2003), veja-se sua obra: Christopher Hill, <em>A B\u00edblia Inglesa e as Revolu\u00e7\u00f5es do S\u00e9culo XVII,<\/em> Rio de Janeiro: Civiliza\u00e7\u00e3o Brasileira, 2003, p. 43ss.).<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref17\" name=\"_ftn17\">[17]<\/a> John Calvin, <em>Calvin&#8217;s Commentaries,<\/em> Grand Rapids, Michigan: Baker Book House Company, 1996 (Reprinted), v. 8\/1, (Is 40.18), p.\u00a0 223<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref18\" name=\"_ftn18\">[18]<\/a> Obviamente, n\u00e3o pretendemos definir aqui por via negativa, apof\u00e1tica, optando pelo \u201canonimato\u201d de Deus, dizendo que a melhor defini\u00e7\u00e3o \u00e9 a indefini\u00e7\u00e3o ou, seguindo um caminho vago e impessoal de uma teologia m\u00edstica e negativa (Ver:\u00a0 Carl F.H. Henry, <em>Deus, Revela\u00e7\u00e3o e Autoridade v. 2: Deus que fala e age &#8211; 15 teses &#8211; parte um<\/em>, S\u00e3o Paulo: Hagnos, 2017, p. 250-251); ou ainda, o \u00e1peiron de Anaximandro (c. 610-547 a.C.) que foi o primeiro a usar a palavra &#8220;<em>princ\u00edpio<\/em>&#8221; (arche). (Dox., 1).\u00a0 Para ele, o princ\u00edpio (a)rxh\/) de todas as coisas \u00e9 o &#8220;<em>\u00c1peiron<\/em>&#8221; (a)\/peiron = &#8220;sem fim&#8221;, &#8220;ilimitado&#8221;, &#8220;indeterminado&#8221;, &#8220;indefinido&#8221;, \u201cprivado de limite espacial\u201d). (<em>Dox.,<\/em> 1,2,6). Ele \u00e9 ilimitado, eterno, indissol\u00favel\u00a0 e\u00a0 indestrut\u00edvel\u00a0 (Frags., 2,3; Dox.,\u00a0 2,3). Ele dirige todas as coisas (Dox., 2,3). \u00c9 poss\u00edvel \u2013 j\u00e1 que as fontes que temos s\u00e3o apenas de segunda m\u00e3o (Cf. Jos\u00e9 Ferrater Mora, Apeiron: <em>Dicion\u00e1rio de Filosofia<\/em>, S\u00e3o Paulo: Edi\u00e7\u00f5es Loyola, 2001, v. 1, [p. 156-1157], p. 156) \u2212 que Anaximandro tenha derivado o seu a)\/peiron do xa\/oj de Hes\u00edodo, quem atribu\u00eda ao xa\/oj o in\u00edcio de tudo. (Hes\u00edodo, <em>Teogonia: A Origem dos Deuses,<\/em> S\u00e3o Paulo: Roswitha Kempf; Editores, 1986, 116ss. p. 132). Para Hes\u00edodo, o xa\/oj era espa\u00e7o indefinido entre o c\u00e9u e a terra. (Vejam-se: Dami\u00e3o Berge<em>, O\u00a0 Logos Heracl\u00edtico: Introdu\u00e7\u00e3o ao Estudo dos Fragmentos,<\/em> Rio de Janeiro:\u00a0 Instituto\u00a0 Nacional\u00a0 do\u00a0 Livro, 1969, p. 139-140; G.S. Kirk; J.E. Revan,\u00a0 <em>Os Fil\u00f3sofos Pr\u00e9-Socr\u00e1ticos<\/em>, 2. ed.\u00a0 Lisboa: Funda\u00e7\u00e3o Calouste Gulbenkian, 1982, p. 18ss.).<\/p>\n<p>O termo a)\/peiron permite diversas interpreta\u00e7\u00f5es. (Vejam-se: F.E. Peters, <em>Termos Filos\u00f3ficos Gregos: Um l\u00e9xico hist\u00f3rico,<\/em> 2. ed. Lisboa: Funda\u00e7\u00e3o Calouste Gulbenkian, (1983), p. 32-33; Jos\u00e9 Ferrater Mora, Apeiron: <em>Dicion\u00e1rio de Filosofia<\/em>, v. 1, [p. 156-157], p. 156). De qualquer forma, Anaximandro <em>parece<\/em> escapar da atribui\u00e7\u00e3o material como origem de todas as coisas ou, pelo menos, de nomin\u00e1-la.<\/p>\n<p>Embora meu ponto n\u00e3o seja esse, n\u00e3o posso deixar de mencionar uma relevante contribui\u00e7\u00e3o de Anaximandro. \u00a0 Ele de fato assinala\u00a0 um grande progresso em rela\u00e7\u00e3o a Tales pois,\u00a0 a\u00a0 sua\u00a0 resposta quanto \u00e0 origem do universo \u00e9 marcada por uma\u00a0 compreens\u00e3o de que o elemento primordial, o &#8220;arche&#8221; de todas as coisas, n\u00e3o pode ser um elemento material determinado como o Ar, a \u00c1gua, a Terra, o Fogo ou mesmo, a mistura de dois ou mais destes elementos. Todos eles s\u00e3o gerados, criados; logo, finitos. (Dox.,\u00a0 2).\u00a0 <em>Talvez<\/em> a sua filosofia seja a primeira tentativa ocidental, de explicar a origem de todas as coisas por deriva\u00e7\u00e3o do infinito n\u00e3o de uma causa material. (Vejam-se:\u00a0 F. Klimke; E. Colomer, <em>Historia de la Filosof\u00eda<\/em>, 3. ed. Barcelona: Editorial Labor S.A., 1961, p. 22; G.S. Kirk; J.E. Revan, <em>Os Fil\u00f3sofos Pr\u00e9-Socr\u00e1ticos<\/em>, 2. ed.\u00a0 Lisboa: Funda\u00e7\u00e3o Calouste Gulbenkian, 1982, p 139; F. Nietzsche, <em>A Filosofia na \u00c9poca Tr\u00e1gica dos Gregos,<\/em>\u00a0 S\u00e3o Paulo: Abril Cultural (Os Pensadores, v. 32), 1974, \u00a7 4, p. 42; Giovanni Reale; Dario Antiseri, <em>Hist\u00f3ria da Filosofia: Antiguidade e Idade M\u00e9dia,<\/em> S\u00e3o Paulo: Paulus, 1990, v. 1, p. 31-34; G. Fraile, <em>Historia de la Filosofia<\/em>\u00a0 (Grecia y Roma), 2. ed. Madrid: Biblioteca de Autores Cristianos, v. 1, 1965, p. 144-147).\u00a0 Foi ele, escreve Jaeger (1888-1961), &#8220;o \u00fanico de cuja concep\u00e7\u00e3o do mundo podemos obter uma representa\u00e7\u00e3o exata&#8221; (Werner Jaeger<em>, Paid\u00e9ia: A Forma\u00e7\u00e3o do Homem Grego,<\/em> 2. ed. S\u00e3o Paulo; Bras\u00edlia, DF., Martins Fontes; Editora\u00a0 Universidade\u00a0 de\u00a0 Bras\u00edlia, 1989, p. 136).\u00a0 Em outro lugar, continua Jaeger: \u201cEm Anaximandro encontramos o primeiro quadro unificado e universal do mundo, baseado em uma dedu\u00e7\u00e3o e explica\u00e7\u00e3o natural de todos os fen\u00f4menos\u201d (Werner Jaeger, <strong>\u00a0<\/strong><em>A Teologia de los Primeiros Filosofos Gregos,<\/em> M\u00e9xico: Fondo de Cultura Econ\u00f3mica, <strong>\u00a0<\/strong>3\u00aa reimpresi\u00f3n, 1992, \u00a0p. 29).<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref19\" name=\"_ftn19\">[19]<\/a> Vejam as pertinentes observa\u00e7\u00f5es de Frame\u00a0 (John M. Frame, <em>\u00a0A Doutrina de Deus, <\/em>S\u00e3o Paulo: Cultura Crist\u00e3, 2013, p. 166ss.).<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref20\" name=\"_ftn20\">[20]<\/a> Achei oportuna a coloca\u00e7\u00e3o de Horton que li ap\u00f3s ter escrito esse par\u00e1grafo: \u201cN\u00e3o \u00e9 simplesmente que Deus possua mais ser, conhecimento, poder, amor e justi\u00e7a, mas que Deus transcende toda a compara\u00e7\u00e3o conosco \u2013 at\u00e9 mesmo aquelas que ele revela nas Escrituras\u201d (Michael Horton, <em>Doutrinas da f\u00e9 crist\u00e3, <\/em>S\u00e3o Paulo: Cultura Crist\u00e3, 2016, p. 47). Veja-se tamb\u00e9m \u00e0 frente o tratamento de Horton mais detalhado sobre o assunto, p. 59-63.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref21\" name=\"_ftn21\">[21]<\/a> Veja-se: Ronald H. Nash, <em>Cosmovis\u00f5es em Conflito: escolhendo o Cristianismo em um mundo de ideias, <\/em>Bras\u00edlia, DF.: Monergismo, 2012, p. 99ss.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref22\" name=\"_ftn22\">[22]<\/a> \u201cQuando chegamos a conhecer Deus, ficamos temerosos, esmagados; vemos nele uma grandeza que torna como an\u00f5es todos os outros objetos de conhecimento, reais ou potenciais\u201d (John M. Frame, <em>\u00a0A doutrina de Deus, <\/em>S\u00e3o Paulo: Cultura Crist\u00e3, 2013, p. 166).[\/vc_column_text][vc_message message_box_style=&#8221;outline&#8221; style=&#8221;square&#8221; message_box_color=&#8221;grey&#8221; icon_type=&#8221;pixelicons&#8221; el_class=&#8221;creditos_box&#8221; icon_pixelicons=&#8221;vc_pixel_icon vc_pixel_icon-explanation&#8221;]Autor: Hermisten Maia. \u00a9 Voltemos ao Evangelho. Website: voltemosaoevangelho.com. Todos os direitos reservados. 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Leciona em diversos Semin\u00e1rios ininterruptamente desde 1980. Tem experi\u00eancia na \u00e1rea de Teologia Sistem\u00e1tica, lecionando h\u00e1 40 anos, e Hist\u00f3ria da Reforma Protestante, atuando principalmente nos seguintes temas: Jo\u00e3o Calvino e Teologia Reformada e Cosmovis\u00e3o Reformada. Faz parte de diversos Conselhos Editoriais de Revistas de Teologia e de Ci\u00eancias da Religi\u00e3o. Tem 40 livros escritos e mais de 1.500 artigos publicados. Leciona em diversas Institui\u00e7\u00f5es de Ensino Superior no Brasil. Publica diariamente em suas redes sociais um artigo e um v\u00eddeo.\",\"url\":\"https:\\\/\\\/voltemosaoevangelho.com\\\/blog\\\/autor\\\/hermisten-maia\\\/\"}]}<\/script>\n<!-- \/ Yoast SEO plugin. -->","yoast_head_json":{"title":"Todo conhecimento de Deus depende de sua auto-revela\u00e7\u00e3o graciosa","description":"Deus n\u00e3o pode ser definido ou comparado. 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