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[PVE] O que vem primeiro: fé ou arrependimento?

O que vem primeiro: o arrependimento ou a fé? Essa é uma pergunta desnecessária; e fútil, a insistência de que um é anterior ao outro. Não há qualquer anterioridade. A fé para a salvação é uma fé de arrependimento; e o arrependimento para a salvação é um arrependimento de fé… A interdependência entre a fé e o arrependimento pode ser vista quando lembramos que a fé é a fé em Cristo para a salvação do pecado. Mas, se a fé é direcionada à salvação do pecado, tem de haver ódio do pecado e desejo de ser salvo do pecado. Esse ódio do pecado envolve arrependimento, que consiste essencialmente em converter-se do pecado para Deus. Ora, se lembramos que o arrependimento é o volver-se do pecado para Deus, esse volver-se para Deus implica fé na sua misericórdia revelada em Cristo. É impossível separar a fé do arrependimento. A fé salvadora é permeada de arrependimento, e este é permeada de fé. A regeneração se torna expressiva em nossa mente por meio do exercício da fé e do arrependimento.

O arrependimento consiste essencialmente em mudança de coração, mente e vontade. Essa mudança de coração, mente e vontade diz respeito, em especial, a quatro coisas: é uma mudança que diz respeito a Deus, a nós mesmos, ao pecado e à justiça. Sem a regeneração, os nossos pensamentos sobre Deus, nós mesmos, o pecado e a justiça são drasticamente pervertidos. A regeneração muda a mente e o coração. Ela os renova por completo. Há uma mudança radical em nossa maneira de pensar e sentir. As coisas velhas passaram, e todas as coisas se tornaram novas. É importante observar que a fé para a salvação é a fé acompanhada por mudança de pensamento e atitude. Com muita freqüência, nos círculos evangélicos e, em particular, no evangelismo popular, a relevância da mudança que a fé sinaliza não é entendida nem apreciada. Há dois erros. Um destes é excluir a fé do contexto que lhe dá significado. O outro é pensar na fé em termos de decisão e, com isso, baratear a decisão. Esses erros estão relacionados e condicionam um ao outro. Enfatizar o arrependimento e a mudança profunda de sentimento e de pensamento envolvida no arrependimento é o elemento necessário para corrigir esse conceito distorcido da fé, o qual destrói a alma. A natureza do arrependimento serve para acentuar a urgência dos assuntos que estão em jogo nas exigências do evangelho, enfatizar a separação do pecado incluída na aceitação do evangelho e ressaltar a perspectiva totalmente nova que a fé no evangelho transmite.

Não devemos pensar no arrependimento como que constituído meramente de uma mudança genérica da mente. O arrependimento é bem especifico e concreto. E, visto que é uma mudança da mente em referência ao pecado, é uma mudança da mente em referência a pecados específicos, pecados em toda a particularidade e individualidade peculiares dos nossos pecados. É muito fácil falarmos sobre o pecado, sermos denunciatórios em relação ao pecado e aos pecados específicos de outras pessoas e não nos mostrarmos arrependidos quanto aos nossos próprios pecados. A prova do arrependimento é a genuinidade e a resolução de nosso arrependimento em referência aos nossos próprios pecados, pecados caracterizados pelos agravamentos peculiares a nós mesmos. O arrependimento, no caso dos tessalonicenses, manifestou-se em que eles se converteram dos ídolos para servirem o Deus vivo. A idolatria dos tessalonicenses evidenciava, de modo específico, a sua alienação de Deus; e foi o arrependimento dessa idolatria que provou a genuinidade da fé e da esperança deles (1 Ts 1.9-10).

O evangelho é não somente a mensagem de que pela graça somos salvos, mas também a mensagem de arrependimento. Quando Jesus, após a ressurreição, abriu o entendimento dos discípulos, para que entendessem as Escrituras, Ele lhes disse: “Assim está escrito que o Cristo havia de padecer e ressuscitar dentre os mortos no terceiro dia e que em seu nome se pregasse arrependimento para remissão de pecados a todas as nações, começando de Jerusalém” (Lc 24.46-47). Quando Pedro pregou à multidão, no Dia de Pentecostes, os ouvintes foram constrangidos a perguntar: “Que faremos, irmãos?” Pedro respondeu: “Arrependei-vos, e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo para remissão dos vossos pecados” (At 2.37-38). Posteriormente, Pedro interpretou a exaltação de Cristo como uma exaltação à função de “Príncipe e Salvador, a fim de conceder a Israel o arrependimento e a remissão de pecados” (At 5.31). Alguma outra coisa poderia assegurar mais claramente que o evangelho é o evangelho do arrependimento do que o fato de que o ministério celestial de Jesus como Salvador é um ministério de outorgar arrependimento para o perdão dos pecados?

Quando Paulo apresentou aos presbíteros de Éfeso um relato de seu próprio ministério, ele disse que testificara “tanto a judeus como a gregos o arrependimento para com Deus e a fé em nosso Senhor Jesus [Cristo]” (At 20.21). O autor da Epístola aos Hebreus indicou que “o arrependimento de obras mortas” é um dos princípios elementares da doutrina de Cristo (Hb 6.1). Não poderia ser diferente. A nova vida em Cristo Jesus implica que os laços que nos prendiam ao domínio do pecado foram destruídos. O crente está morto para o pecado por meio do sangue de Cristo. O velho homem foi crucificado para que o corpo do pecado seja desfeito e o crente não sirva mais o pecado (Rm 6.2, 6). Esse rompimento com o passado se registra na consciência por meio do converter-se do pecado para Deus, “com pleno propósito e empenho por uma nova obediência”…

O arrependimento é aquilo que descreve a resposta de converter-se do pecado para Deus. Este é o caráter específico do arrependimento, assim como o caráter específico da fé é receber a Cristo e confiar somente nEle para a salvação. O arrependimento nos recorda que, se a fé que professamos é uma fé que nos permite andar nos caminhos deste mundo mau, na concupiscência da carne, na concupiscência dos olhos, na soberba da vida e na comunhão das obras das trevas, a nossa fé é apenas zombaria e engano. A verdadeira fé é permeada de arrependimento. Assim como a fé é um ato momentâneo e uma atitude permanente de confiança e descanso direcionada ao Salvador, assim também o arrependimento resulta em contrição constante. O espírito contrito e o coração quebrantado são marcas permanentes da alma que crê… O sangue de Cristo é o instrumento da purificação inicial, mas é também a fonte à qual o crente pode recorrer continuamente. É na cruz de Cristo que o arrependimento começa; é ali que ele tem de continuar derramando seu coração, em lágrimas de confissão e contrição.

 

Por John Murray

Tradução: Pr. Wellington Ferreira © Editora FIEL 2009.

Extraído de Redemption: Accomplished and Applied, publicado por Wm. B. Eerdmans Publishing Company.

Permissões da Fiel: O leitor tem permissão para divulgar e distribuir esse texto, desde que não altere seu formato, conteúdo e / ou tradução e que informe os créditos tanto de autoria, como de tradução e copyright. Em caso de dúvidas, faça contato com a Editora Fiel.

  • Aldeneide Paiva

    eu creio ser fé e arrependimento indissociáveis para a redenção do homem a Deus!

  • http://www.2timoteo316.blogspot.com Filipe Luiz C. Machado

    Como sempre, John Murray sendo muito claro, objetivo, feliz e bíblico em suas palavras!

    Grande abraço!

  • http://www.cienciadacriacao.blogspot.com Hugo Hoffmann

    Interessante que em grego existem duas palavras que são traduzidas por “arrependimento” em português.

    Uma é METAMELOMÁI que é apenas mudança de sentimento e não de propósito. É o tipo de “arrependimento” que Deus sentiu quando os ninivitas se arrependeram dos seus pecados após a pregação do profeta Jonas. Deus mudou seu sentimento (de tristeza para alegria) ao ver o arrependimento sincero do coração daquele povo. Todavia, este foi o arrependimento sentido por Judas. Houve apenas mudança de sentimento.

    A outra é METANÓEO, este é o tipo de arrependimento que Deus espera de nós, pois envolve mudança de propósito, mudança de caminho. Este é o tipo de arrependimento que João, o batista, pregava e que Jesus também pregou muito.

    Independente de quem vem primeiro (fé ou arrependimento) as Escrituras são claras em nos ensinar que, tanto uma, quanto outra, provém de Deus. Se continuamos pecando no mesmo assunto da vida espiritual, certamente estamos nos especializando em arrependimento falso (metamelomái), aquele que nos deixa apenas com medo das consequências e não produz em nós a vontade de mudar, não errar mais.

    O inimigo procura cauterizar-nos com os pecados recorrentes, pois sabe que o pecado produz distância entre nós e Deus e nos afasta de Suas promessas e sem Deus, sinceramente, estamos perdidos, já nascemos perdidos.

    Que a Paz do Senhor Jesus Cristo, nosso Salvador e Redentor, seja com toda equipe deste maravilhoso e edificante blog.

    • BERNARDO MACIEL

      Muito bom, completou minha compreesão de arrependimento.

      Paz

  • Gabriel Chagas

    Eu soh li o primeiro paragrafo, pois estou sem tempo ( e paciencia ) agora .. mas quero deixar algo registrado aki….

    Em Muitas ocasioes somos levados a estudar alguma doutrina e o que fazemos? Vamos logo correndo pros braços de algum teologo pra nos dar tudo “mastigado”
    Tipo agora, ODEIO conversas sobre coisas desnecessarias… AMEI o primeiro paragrafo do Texto, sempre foi minha resposta (soh li ele e vou ler o resto depois)

    Uma coisa: quando forem estudar uma algo nao levantem suas bandeiras “eu sou Sinergista; ah jah eu sou Monergista”

    LEIA a biblia, leiam os teologos, sao otimos, mas leiam a biblia e evitem assuntos desnecessarios ….

    Parabens VE pelo texto do J.Murray
    Por isso amo vcs heheheheh
    Paz .. quando eu ler tudo faço outro comentario

    eCh

    • http://voltemosaoevangelho.com Gabriel Chagas

      Eh li tudo agora …
      Tao dificil ler sobre arrependimento hj em dia ….
      Que tristezaa ….
      Otimo texto, otimo assunto ..

      eCh

  • Luiz Cecim

    De sorte que a fé é pelo ouvir, e o ouvir pela palavra de Deus. Romanos 10:17, concerteza que a Fe vem primeiro.

    • Vini

      Luiz,

      Onde no versículo que você colocou sequer dá a entender que a fé vem antes do arrependimento?

      Paz

  • http://www.romanos9.blogspot.com Wellington Agápto

    Perfeito!

  • Caio Pierre

    Vir a fé sem arrependimento é algo no mínimo duvidoso. Em Mateus 3.7-8 os fariseus vieram a João Batista para serem batizados. A príncipio aqueles que viviam no meio dos fariseus poderiam achar, assim como os próprios fariseus, que tinham FÉ, pois eles viviam de um modo aparentemente espiritual, mas João os chama de raça de víboras e diz a eles que produzam frutos dignos de ARREPENDIMENTO. Bom, acho que estou chovendo no molhado, mas é exatamente como o autor disse. O método para avaliarmos se nossa fé é genuína é o arrependimento.O texto deixa claro que uma fé sem arrependimento não pode ser a fé que vem de Deus. Tanto a fé como o arrependimento são dons de Deus, e ambas andam juntas. Não pode uma vir a existir independentemente da outra.

    Graça e Paz!

  • Paulo Junior

    Gostei muito desse texto, bastante esclarecedor.

    Assim com a Soberania de Deus e Responssabilidade do homem não podem serem separados. O Arrependimento e a Fé muito menos.

  • Huberto Q. dos Santos

    “Estando nós ainda mortos…[Deus] nos vivificou juntamente com Cristo (pela graça sois salvos)”. É impossível um morto se arrepender. Só um vivificado pode crer e se arrepender.