Quando tudo parece perdido

Como confiar em Deus nos tempos de fome, luto e recomeço

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Mesa vazia. O alimento acabou.

Coração apertado. Alguém amado se foi.

Caminhos perdidos. A dúvida se faz presente.

Lutas, lutos e incertezas. Dias em que o corpo padece, a alma geme e a mente transtorna. Você já experimentou dias assim? Dias em que tudo parece escapar de nossas mãos? Talvez uma crise financeira, um diagnóstico inesperado, a perda de um ente querido, ou simplesmente o sentimento de se estar caminhando sem rumo, sem direção.

Em momentos como esses, geralmente, as lágrimas parecem ser nossas únicas companheiras, a fé parece distante, as orações ficam emudecidas, e as palavras de consolo encontram barreiras difíceis de transpor. Nada parece estar sob nosso controle. 

O livro de Rute começa exatamente em um cenário como esse: uma mesa vazia, dor em meio ao luto e de caminhos incertos. De Belém de Judá, Elimeleque parte em busca de pão – talvez, com o desejo de preservar a vida de sua família. Entretanto, em Moabe, ele encontra a morte e Noemi, sua esposa, a solidão. 

Agora viúva, amparada pelos filhos, Noemi ainda tinha um fio de esperança. Até que, longe de seu povo, tudo o que poderia ser um consolo para sua viuvez se vai, seus filhos encontram o mesmo fim de Elimeleque. Em terras moabitas, para eles, não houve recomeço. 

“O que fazer quando tudo parece perdido?” – Essa deve ser a grande dúvida que se abateu sobre a vida de Noemi que, amargurada, se vê desamparada e desorientada. Como confiar em Deus, como enxergar sua mão de misericórdia no meio da dor? 

A fome, a perda e o luto que abrem a história de Rute não são apenas tragédias pessoais, mas sinais de algo muito maior. No Antigo Testamento, em meio ao povo da aliança, a escassez de alimento era um dos instrumentos usados por Deus para despertar seu povo da apatia espiritual: 

“Se ainda assim com isto não me ouvirdes, tornarei a castigar-vos sete vezes mais por causa dos vossos pecados. Quebrantarei a soberba da vossa força e vos farei que os céus sejam como ferro e a vossa terra, como bronze. Debalde se gastará a vossa força; a vossa terra não dará a sua messe, e as árvores da terra não darão o seu fruto.” (Levítico 26:18-20)

A fome era uma clara expressão do juízo divino, era um alerta, um chamado a reflexão e ao arrependimento, um lembrete doloroso de que o homem não pode viver distante de Deus. Desde o Éden, quando o pecado entrou no mundo e quebrou nosso relacionamento com o Criador, somos lembradas dessa realidade de que não podemos nos satisfazer nas coisas criadas. 

Assim como o corpo físico, nossa alma também sente fome. Fome de sentido, de paz e de consolo. Vivemos insatisfeitas, de mesas vazias. Vivemos de corações partidos, diante da realidade da morte. E vivemos em busca de respostas, diante das incertezas da vida debaixo do sol.

Portanto, a história de Noemi lembra a nossa história: somos peregrinas em um mundo assolado pelos efeitos da Queda. Tentamos sobreviver em meio a dor. Muitas vezes, nos encontramos em uma situação que não nos permite enxergar uma “luz no fim do túnel”. Noemi se encontrava assim. Ela expressa sua falta de esperança quando diz às suas noras:  “… sou velha demais para ter marido. Ainda quando eu dissesse: tenho esperança ou ainda que esta noite tivesse marido e houvesse filhos…” (Rute 1.12) 

Percebe? Noemi não tinha esperança de recomeço.

Mas, nas entrelinhas dessa história, há algo surpreendente: mesmo quando o povo da aliança “fazia o que achava mais reto” (Jz 21.25) e não tinha um rei humano que conduzisse a nação, Deus continuava a reinar soberanamente sobre seu povo. 

Em meio à fome e a amargura que se instalaram em sua alma, em meio a dor e a incerteza de uma viúva solitária, quando a esperança dissipava, a graça de Deus resplandeceu. Uma notícia rompe os muros de Jerusalém e alcança Noemi lá nas terras de Moabe: 

“O Senhor se lembrou do seu povo” (Rt 1.6).

Veja, minha amada irmã, no meio do caos, Deus não deixou de agir. Ele é Deus onipotente e onipresente. Ele age sobre os eventos da terra e nos encontra nas nossas dores. Ele não só “busca Noemi” em território estrangeiro, como lhe concede a graça e, em sua santa providência, o Senhor coloca ao lado de Noemi alguém que lhe é melhor do que sete filhos (Rt 4.15), sua nora Rute. 

Mas Mara, como preferiu ser chamada (Rt 1.20), ainda não tinha se dado conta disso. Ela seguia olhando para as circunstâncias que pareciam lhe dizer que o Senhor se estava contra ela (Rt 1.21b).

Não! Absolutamente! Nós, sim, é quem muitas vezes nos voltamos contra Deus e buscamos outras fontes de saciedade. Mas Deus, não abandona o seu povo. O que Deus, por vezes, faz, é remover aquilo que consideramos como nossa “tábua de salvação”, para que percebamos que é nele, e somente nele, onde devemos depositar nossa confiança. É nele, e somente nele, que nossa dependência deve estar.

Nas páginas mais escuras da vida de Noemi, a graciosa providência de Deus começa a brilhar.  De onde? Não por meio de seus filhos belamitas, mas por meio da jovem moabita. Enquanto Noemi sofria com a morte de sua família, Deus estava provendo redenção tanto para a judia distante quanto para a moabita resgatada.

“O teu povo é o meu povo, o teu Deus é o meu Deus” (Rute 1.16). 

A história de Noemi e de Rute não termina no vazio, mas encontra o recomeço na redenção. De volta à Casa de Pão, à terra prometida, Noemi encontra fartura para seu corpo físico, encontra esperança para seu  ventre morto e, acima de tudo, o Caminho para vida.

“Assim, voltou Noemi da terra de Moabe, com Rute, sua nora, a moabita; e chegaram a Belém no princípio da sega da cevada”. (Rute 1.22)

O coração abatido de Noemi é transformado diante da evidente graça de Deus. Ela reconhece a mão providente do Senhor, que “não tem deixado a sua benevolência nem para com os vivos nem para com os mortos” (Rt 2.20).

Minha querida irmã, é aqui que encontramos consolo: o Deus que visitou Belém trazendo pão, o Deus que buscou Noemi em terras estrangeiras, o Deus que acolheu Rute na família da aliança, continua o mesmo! Ele continua a saciar nossa fome, a curar as dores do nosso coração, a nos conduzir na  desta vida. 

Quando tudo parece difícil demais, quando nos sentirmos enfraquecidas como Noemi, lembremos da graça de Deus, ela é suficiente para nós, ela é melhor do que a vida (2 Co12.9-10; Sl 63.3). Noemi e Rute foram alvos da fidelidade e da graça providente de Deus, experimentando a redenção por meio de Boaz. Assim, nós também podemos experimentar dessa graça e fidelidade em Cristo Jesus, que, pela sua morte e ressurreição, garantiu que nenhuma perda é definitiva, nenhuma lágrima durará para sempre, nenhuma de suas ovelhas fica perdida como se não tivesse Pastor. 

O Redentor, nascido em Belém, é  a prova de que a providência de Deus não falha. Portanto, mesmo quando tudo parece perdido, nós podemos confiar. Pois o nosso Deus é soberano, gracioso, misericordioso e ele vem ao nosso encontro, e ele já escreveu a nossa história em Jesus. Nossa esperança está em Cristo, portanto, pela sua graça, podemos ser “firmemente encorajadas, nós que nos refugiamos nele para tomar possa da esperança a nós proposta. Temos essa esperança como âncora da alma, firme e segura…” (Hebreus 6.18,19).

Quando tudo parecer perdido, lembre-se de Noemi em Moabe: uma viúva sem esperança, que foi surpreendida pela fidelidade de Deus. Lembre-se de sua fidelidade, de sua graciosa providência, pois ele continua a visitar o seu povo. Ele continua a transformar mesas vazias em banquetes de graça, corações amargurados em testemunhos de esperança e caminhos perdidos em trajetórias redimidas.

Quando tudo parece perdido, lembre-se: em Cristo, nunca estamos sem esperança. 

Por: Laise Oliveira. © Voltemos Ao Evangelho. Website: voltemosaoevangelho.com. Todos os direitos reservados. Revisor: Vinicius Lima. Editora responsável: Renata Gandolfo.

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