A geração eterna do Filho de Deus

A importância de crermos na realidade da geração eterna do Filho

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Uma boa teologia é um convite a examinar mais profundamente aquilo em que acreditamos. Quando se trata das doutrinas mais importantes, temos a vantagem de uma rica história de credos e confissões cuidadosamente elaborados para nos guiar nessa jornada. Por exemplo, cremos que Deus Filho é “gerado eternamente, não criado, sem princípio, consubstancial ao Pai”. O que é a geração eterna e qual a sua importância?

A fé em Jesus como Filho de Deus é a própria essência do cristianismo. “Se alguém confessar que Jesus é o Filho de Deus, Deus permanece nele, e ele em Deus”, diz 1 João 4.15. Confessamos que Jesus é o Filho de Deus em resposta à mensagem do Evangelho de que “o Pai enviou o seu Filho para ser o Salvador do mundo” (1 João 4.14). Mas, uma vez que confessamos que Jesus é o Filho de Deus, temos bons motivos para nos perguntarmos quão profunda é essa filiação, ou quão antiga ela é.

A resposta é que a filiação do Filho é tão profunda quanto as profundezas de Deus; remonta ao próprio ser de Deus. Nunca houve um tempo em que o Filho não fosse o Filho.

Existem alternativas?

As alternativas são inaceitáveis. Por exemplo, se alguém dissesse que Jesus nem sempre foi o Filho de Deus, mas se tornou Filho em algum momento de sua vida — digamos, quando o Espírito Santo desceu sobre ele, ou na transfiguração, ou na ressurreição — isso seria a forma mais grosseira de adocionismo. Limitaria a filiação a uma fase da vida de Cristo e a interromperia antes de rastreá-la até sua essência ou eternidade.

Ou, se alguém admitisse que sempre existiu algo como a segunda pessoa da Trindade, mas que essa pessoa não era “o Filho” até se encarnar, isso também seria interromper a filiação antes mesmo de ela se estender por toda a sua origem. Nesse caso, teríamos Jesus, o Filho, do nosso lado, mas do lado de Deus não haveria filiação. Mas se a filiação só é real do nosso lado e não corresponde a nada no ser de Deus, então como Deus se revelou ao enviar o Filho?

Eternamente pronto para o envio

Quando o Novo Testamento nos diz que o Pai enviou o Filho (1 João 4.14; João 3.16; Gálatas 4.4), pressupõe que o Pai sempre teve o Filho consigo, por assim dizer, pronto para ser enviado. O Filho sempre esteve com o Pai; o único Deus sempre foi o Pai, o Filho e o Espírito Santo. É crucial para a profundidade da mensagem bíblica da salvação que o que encontramos em Cristo não seja apenas mais um evento ou arranjo, mas que, ao encontrarmos o Filho, encontremos aquele que “estava no princípio com Deus” (João 1.2), aquele que “estava com o Pai e se manifestou a nós” (1 João 1.2).

Essa era a linha de pensamento bíblico que foi classicamente expressa no século IV no Credo Niceno, que reconhece Jesus como Deus Filho e o chama de “eternamente gerado”. A palavra “gerado” soa antiquada para a maioria das pessoas hoje em dia, mas significa “vir de um pai”. É o paralelo paterno da palavra materna “nascido” : os filhos são gerados pelos pais e nascem das mães.

Ao chamar Deus de Filho eternamente gerado, a tradição cristã deixa claro que a filiação de Cristo remonta ao próprio ser de Deus. O Filho pertence a esse ser divino, ou essência; para usar uma linguagem mais relacional e trinitária, ele é da mesma essência que o Pai.

Por que usar termos que não são bíblicos?

Pode parecer mais seguro restringirmo-nos à linguagem puramente bíblica e não ir além da afirmação de que ele é o Filho. Mas, depois de citarmos a linguagem bíblica, o valor de usar alguns termos-chave que não são extraídos diretamente da Bíblia reside no fato de podermos usá-los para especificar o que entendemos que a Bíblia significa.

É exatamente esse o passo que damos quando dizemos que o Filho é eternamente gerado. Estamos especificando que, quando dizemos “Filho”, não nos referimos a qualquer coisa que possa ser associada a algum tipo de filiação. Não queremos dizer que esse filho seja mais novo, ou que tenha uma mãe divina, ou que esteja sob autoridade paterna, por exemplo.

Afirmar sua geração eterna mostra que não estamos associando livremente todos os aspectos possíveis da filiação terrena ao Filho divino, mas selecionando esta relação eterna específica com o ser de Deus. O Filho provém do Pai: coeternamente, coessencialmente, coigualmente. Geração eterna significa que não trazemos todas as nossas ideias sobre filiação e as aplicamos a Ele; aprendemos com o eternamente gerado o que Ele quer dizer ao se chamar Filho de Deus.

Por que isso é importante

Qual a importância da geração eterna? Seu valor fundamental reside em revelar a verdade sobre quem Deus Filho é, segundo as Escrituras. Mesmo que fosse uma verdade sem outras implicações práticas, isso já seria suficiente, pois confessar a geração eterna do Filho nos ajudaria a manter o equilíbrio não apenas na cristologia, mas em tudo o que dizemos sobre Deus Filho.

Mas também é uma doutrina com implicações práticas, principalmente devido à sua estreita ligação com a doutrina da salvação. Já falamos sobre a importância de remontar a filiação a Deus para confessar com mais precisão que Jesus é o Filho de Deus. Fundamentar a filiação no próprio ser de Deus, naquele que é “gerado desde a eternidade, não criado, sem princípio, consubstancial ao Pai”, significa também que nossa adoção está fundamentada em Deus.

Quando Deus salva os pecadores, ele o faz vindo ao nosso encontro em nossa extrema necessidade e nos introduzindo em sua própria vida de bem-aventurança e comunhão. Deus nos abre as portas da vida divina sem comprometer sua divindade ou obliterar nossa condição de criaturas, porque Deus Pai envia Deus Filho e Deus Espírito Santo para nos envolver na vida Pai-Filho-Espírito, que é nossa única fonte possível de salvação.

Adotados em uma filiação eterna

A filiação na qual somos adotados como filhos e filhas humanos é uma filiação que, na pessoa de Deus Filho, remonta inteiramente a Deus. O que a segunda pessoa da Trindade é por natureza, os redimidos se tornam pela graça: filhos. Há uma cadeia de filiação interligada que se une a Deus de um lado e à nossa salvação do outro. O Filho unigênito torna-se o Filho encarnado e estabelece a comunhão com os filhos adotivos. Quanto mais clara e seguramente confessarmos a geração eterna de Deus Filho, mais profundamente compreenderemos nossa regeneração como filhos adotivos.

A doutrina da geração eterna é um tesouro da teologia cristã. Além de ser uma verdade bíblica, a geração eterna também é a posição profundamente tradicional professada pela igreja ao longo dos séculos. E ela permeia toda a experiência da salvação e a vida cristã, que é uma vida de filiação fundamentada na profundidade eterna do Filho eterno.

Por: Fred Sanders © Desiring God Foundation.Website: desiringGod.org. Original: Forever and Always the Son | Traduzido com permissão. Revisão e edição por Vinicius Lima.

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