“De onde você é?” – A necessidade da encarnação do Filho de Deus (2/2)

No artigo anterior, vimos que parece ter faltado algo na genealogia do evangelista Mateus, pois ele não nos disse por quem Jesus foi gerado: “E Jacó gerou José, marido de Maria, da qual nasceu Jesus, que se chama o Cristo” (Mt 1.16). Veja que ele não diz que José gerou Jesus (o que seria esperado). Resta-nos uma pergunta: Quem o gerou? O evangelista não pode encerrar a genealogia no verso 17, ele precisa ir além. É por isso que temos a próxima narrativa dos versos 18-25.

A prova de que estamos no caminho certo, está na própria palavra usada por Mateus no verso 18 – “genesis” (transliterada): “O nascimento (γένεσις) de Jesus Cristo foi assim: Maria, a sua mãe, estava comprometida para casar com José. Mas, antes de se unirem, ela se achou grávida pelo Espírito Santo” (Mt 1.18). “Nascimento” nesse verso é “genesis”, a mesma palavra usada para “genealogia” no primeiro verso do evangelho: “Livro da genealogia (γένεσις) de Jesus Cristo…” (Mt 1.1.). O ponto é, Mateus continua tratando acerca da origem (genesis) de Jesus.

Podemos pensar que Mateus tem em mente aqui não só a genealogia propriamente dita, mas traça um paralelo também à própria criação. O primeiro livro da nossa Bíblia (Gênesis) é o livro dos começos. Lá, no capítulo 5, temos a “genesis” de Adão: “Este é o livro da genealogia de Adão” (Gn 5.1). A palavra chave da genealogia de Adão é “morreu” – “Todos os dias da vida de Adão foram novecentos e trinta anos; e morreu” (Gn 5.5). A morte reina na genealogia de Adão. Agora, na genealogia de Cristo (Mt 1.1-17), a palavra chave é “gerou”, em outras palavras, a vida reina por intermédio do novo Adão, Jesus Cristo, há uma nova criação acontecendo por intermédio dele.

Mas o que Mateus nos diz sobre o nascimento de Jesus? Por duas vezes ele afirma que ele foi gerado pelo Espírito Santo:

[…] Mas, antes de se unirem, ela se achou grávida pelo Espírito Santo.” – Mt 1.18

— José, filho de Davi, não tenha medo de receber Maria como esposa, porque o que nela foi gerado é do Espírito Santo.” – Mt 1.20

A conclusão de Mateus é óbvia perante esse fato. Se isso é verdade, esse Jesus só pode ser “Emanuel, Deus conosco”, conforme prometido pelo profeta Isaías (Mt 1.23). Nenhum outro homem na história foi gerado desse jeito e nunca haverá outro. Sem dúvida alguma estamos perante o maior milagre de toda história! A crise de Pilatos – “De onde você é?” (Jo 19.9), está resolvida! Jesus Cristo realmente teve uma origem diferente. Ele foi gerado pelo Espírito Santo e concebido pela virgem Maria. Por ter uma origem divina, suas afirmações acerca da sua deidade e sua obra salvífica devem ser consideradas como verdades. Portanto, o problema da origem foi solucionado por Mateus.

Não pense que foi fácil para José entender essa realidade, por dois mil anos o cristianismo tem trabalho e lutado com essa doutrina. Se coloque no lugar dele por um instante. Se imagine noivo de uma mulher virgem, o casamento em breve irá acontecer, as famílias estão envolvidas e de repente você recebe uma notícia da sua noiva afirmando uma gravidez da parte de Deus. Como você reagiria?

Acrescente à essa tensão o fato de que fazia cerca de quatrocentos anos que Deus não se manifestava como tinha feito antes no Antigo Testamento. Desde os dias do profeta Malaquias, as teofanias e os profetas cessaram em Israel. Agora, uma menina simples e pobre está dizendo que está grávida do Espírito Santo. Para José (e para nós) isso parece um verdadeiro absurdo! Mas Deus estava agindo como sempre fez, “escolhendo as coisas loucas do mundo para envergonhar os sábios e escolhendo as coisas fracas para envergonhar os fortes” (1Co 1.27). A gravidez de Maria é uma prova disso!

José teve que escolher o caminho que todo homem e mulher escolhem quando aceitam Jesus Cristo pela fé: humilhar-se perante a palavra de Deus e aceitá-la como verdade (no caso de José, a palavra de Deus foi dita pelo anjo). Há verdades bíblicas que não entendemos completamente, mas mesmo assim aceitamos pela fé. José é um bom exemplo para nós.

Precisamos fazer uma última consideração. Por que essa doutrina da encarnação é tão importante?

Em primeiro lugar, sem encarnação não há redenção.

A lógica é simples: o homem pecou, o homem precisa ser condenado, não um anjo, não um animal, nem qualquer outra criatura. Ao mesmo tempo, nenhum ser humano poderia levar toda a culpa e perdoar todos os pecados dos homens. Somente Deus poderia fazer isso. Por isso era necessário que Jesus fosse verdadeiramente Deus e verdadeiramente homem. Veja como autor de Hebreus deixa isso claro:

“Por essa razão era necessário que ele se tornasse semelhante a seus irmãos em todos os aspectos, para se tornar sumo sacerdote misericordioso e fiel com relação a Deus e fazer propiciação pelos pecados do povo” (Hebreus 2.17).

Deus poderia ter enviado seu Filho eterno na forma de um anjo, mas ele não veio para salvar anjos, mas seres humanos (“descendência de Abraão” Hb 2.16), “por essa razão”, diz o autor de Hebreus, ele tinha que ser plenamente homem. Deus também poderia ter gerado Cristo por José e Maria, mas teríamos dificuldades em crer que ele era Deus. A única maneira provável para Jesus Cristo ser Deus-homem é a doutrina da encarnação.

Mas ele também deveria “fazer propiciação pelos pecados do povo” e nenhum ser humano pode propiciar perfeitamente e eternamente a Deus. Nenhum ser humano suportaria a ira divina completa e definitiva sobre si mesmo. Nenhum homem oferecia sua vida em perfeição e santidade completa. Somente Deus poderia ocupar esse cargo, e ele fez exatamente isso. Por isso temos a doutrina da encarnação. É por essa razão que temos esse plano perfeito de Deus gerar o Filho de Deus em Maria. Ele é Deus de fato. Ele é homem de fato.

Se negarmos a doutrina da encarnação a nossa redenção estará comprometida! Essa doutrina é solo santo. É a pedra de toque da fé cristã. Negue ela e tudo desmorona!

Em segundo lugar, é por crermos na doutrina da encarnação que podemos afirmar que o nosso salvador se compadece de nós em todos os momentos da nossa existência.

Você já chorou? Ele também!

Já foi traído? Ele já!

Já passou necessidade? Ele não tinha nem onde repousar sua cabeça!

Você já orou e teve a impressão de ser ignorado? Lembra da oração de Jesus no Getsêmani?

Já enfrentou a morte? Ele foi crucificado!

Já se sentiu abandonado? – “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste” (Mt 27.46)

Ele sentiu na pele, tudo o que passamos!

Podemos recorrer a Jesus em todas as nossas adversidades nessa vida porque ele não só foi homem de verdade, mas ainda é o Deus-homem, nosso advogado e intercessor, ao lado do Pai. A humanidade de Jesus permanecerá por toda eternidade.

Veja, portanto, que a doutrina da encarnação é mais do que um tema teológico para ser estudado, mas é uma verdade que traz profundas implicações no nosso dia a dia.

Perante essa verdade só cabe louvor e admiração. Nada melhor do que encerrar com três estrofe do hino que Lutero fez para seus filhos em 1535:

Atentem! Este é o sinal:
No cocho, em fraldas, muito mal
Deitado está o que mantém
O céu e a terra, e os sustém.

Ó Deus, de tudo o Criador
Como te humilhas, meu Senhor
Que em palha vieste te deitar
P’ra vaca e burro alimentar.

Amado Jesusinho meu,
Vem tu fazer o berço teu
Bem fofo no meu coração,
Jamais te esquecerei então

Feliz Natal!

Por: Thiago Guerra. © Voltemos ao Evangelho. Website: voltemosaoevangelho.com. Todos os direitos reservados. Original: “De onde você é?” – A necessidade da encarnação do Filho de Deus (2/2)

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