O santo temor do Senhor

Uma reverência cheia de amor

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O salmista escreveu: “A intimidade (conselho secreto, conversa confidencial) do SENHOR é para os que o temem (yare’), aos quais ele dará a conhecer a sua aliança” (Sl 25.14).

O temor filial de Deus por parte de seus servos revela um senso profundo de reverência, fruto do conhecimento da grandeza e majestade do Senhor. Aqueles que o temem são considerados íntimos de Deus — têm com Ele “conversas confidenciais”.

Aqui mais uma vez, nos deparamos com um paradoxo: o temor, longe de nos afastar, nos aproxima de Deus. É o próprio Senhor quem nos atrai para junto de si.

Deus compartilha com os que o temem a sua aliança, seus propósitos e conselho, colocando em seus corações a alegria e a confiança de conhecer, de forma experiencial, quem Ele é — o Deus da aliança, digno de todo temor e de alegre obediência. Como escreve Patterson: “O homem justo e reto, que anda no temor do Senhor, receberá o conselho secreto de Deus”.[1]

A Palavra de Deus, oculta aos ímpios, torna-se clara e evidente aos seus filhos por meio do Espírito. Os que temem ao Senhor conhecem os “segredos” revelados em sua Palavra.

Confiam e esperam no Senhor

Os salmistas com experiências semelhantes, testemunham a sua fé no Senhor:

Alegraram-se os que te temem (arey) (yare’) quando me viram, porque na tua palavra tenho esperado. (Sl 119.74).

Confiam no SENHOR os que temem (arey) (yare’) o SENHOR; ele é o seu amparo e o seu escudo. 12 De nós se tem lembrado o SENHOR; ele nos abençoará; abençoará a casa de Israel, abençoará a casa de Arão. 13 Ele abençoa os que temem (arey) (yare’) o SENHOR, tanto pequenos como grandes. (Sl 115.11-13).

O SENHOR está comigo; não temerei (arey) (yare’). Que me poderá fazer o homem? (Sl 118.6).

Mesmo sem compreender cada etapa da vida, os que temem ao Senhor conhecem o seu Deus e descansam em suas promessas, certos de que seus caminhos são sempre perfeitos.

Têm uma visão correta da misericórdia de Deus      

Os salmistas, como homens pecadores − porém, tementes a Deus, que tinham consciência da misericórdia de Deus sobre sua vida −, alegram-se na majestade tremenda e misericórdia paternal de Deus que se manifestava em sustento e perdão:

Contigo, porém, está o perdão, para que te temam (yare’) (Sl 130.4).

Digam, pois, os que temem (yare’) ao SENHOR: Sim, a sua misericórdia dura para sempre. (Sl 118.4/Sl 103.11,17).

18 Eis que os olhos do SENHOR estão sobre os que o temem (yare’), sobre os que esperam na sua misericórdia, 19 para livrar-lhes a alma da morte, e, no tempo da fome, conservar-lhes a vida. 20 Nossa alma espera no SENHOR, nosso auxílio e escudo. 21 Nele, o nosso coração se alegra, pois confiamos no seu santo nome. 22 Seja sobre nós, SENHOR, a tua misericórdia, como de ti esperamos. (Sl 33.18-22).

Como um pai se compadece de seus filhos, assim o SENHOR se compadece dos que o temem (yare’). (Sl 103.13).

Usando ideologicamente do nome graça, podemos nos tornar arrogantes. No então, nas Escrituras, não há lugar para isso. A graça corretamente compreendida é um estímulo ao temor. Paulo tratando da dureza dos judeus e de sua consequente rejeição por parte Deus, diz: “Bem! Pela sua incredulidade, foram quebrados; tu, porém, mediante a fé, estás firme. Não te ensoberbeças, mas teme (Rm 11.20).

Sem dúvida; graça merecida seria uma contradição de termos e de essência. (Rm 11.6)

Sentem-se seguros

Onde buscamos a nossa segurança? Sentir-se seguro é algo fundamental ao nosso bem-estar. O problema é quando aquilo que julgamos que nos transmite a sensação de segurança, falha: Os nossos bens, economias, nome, cargos, poder, família, posição social, etc.

Biblicamente, como Deus cuida de nós ao seguirmos seu caminho que, por si só são preventivos, podemos nos sentir seguros, protegidos por Ele mesmo. Esta é a experiência dos salmistas:

Temei (yare’) o SENHOR, vós os seus santos, pois nada falta aos que o temem (yare’). (Sl 34.9).

Dá sustento aos que o temem (yare’); lembrar-se-á sempre da sua aliança. (Sl 111.5).

Se Deus é a nossa fortaleza, a ninguém temeremos: “Ainda que eu ande pelo vale da sombra da morte, não temerei (yare’) mal nenhum, porque tu estás comigo; o teu bordão e o teu cajado me consolam” (Sl 23.4/Sl 34.7; 56.3-4,11).

Os mais terríveis temores podem ser dominados pela plena confiança no cuidado de Deus. Esse é o testemunho e estímulo do salmista aos que creem: “O SENHOR é a minha luz e a minha salvação; de quem terei medo (yare’)? O SENHOR é a fortaleza da minha vida; a quem temerei (pahad)?” (Sl 27.1/Is 12.2).

Deus lhes atende à oração

Davi bendizendo ao Senhor, escreve: “Ele acode à vontade dos que o temem (arey) (yare’); atende-lhes o clamor e os salva” (Sl 145.19).

O temor do Senhor não nos torna imunes a angústias próprias de nossa existência e limitações. Contudo, há uma certeza: Deus não é indiferente à nossa oração. Dentro de seu santo propósito, Ele nos consola: ouve o nosso clamor e nos salva.

Como é confortador saber quem é o nosso Deus. Diferente dos deuses imaginários, o nosso Deus é real, presente e solícito. Ele é de fato o nosso Senhor e Pastor.

Deus não  desdenha do nosso clamor. Ele nos deu a sua Palavra e, nos concedeu seus ouvidos para que possamos falar com Ele. A sua Palavra deve ser o estímulo e o conteúdo de nossas orações.

Como temos demonstrado, os salmistas, entre tantos outros servos de Deus, em suas angústias, diversas vezes se alimentavam na certeza de que Deus ouve as suas orações.

São bem-aventurados com as bênçãos de Deus

Como o temor de Deus envolve uma relação amorosa com Ele, tendo implicações em todas as nossas relações, a Escritura declara com frequência a bem-aventurança própria daqueles que temem ao Senhor:

Aleluia! Bem-aventurado o homem que teme (yare’) ao SENHOR e se compraz nos seus mandamentos. (Sl 112.1).

Ele abençoa os que temem (yare’) o SENHOR, tanto pequenos como grandes. (Sl 115.13).

Bem-aventurado aquele que teme (yare’) ao SENHOR e anda nos seus caminhos!. (Sl 128.1/Sl 128.4).

Como é grande a tua bondade, que reservaste aos que te temem (yare’), da qual usas, perante os filhos dos homens, para com os que em ti se refugiam! (Sl 31.19).

O temor do Senhor e o culto

O autor de Hebreus exorta os cristãos da nova Aliança a aproximarem-se de Deus com confiança em Cristo. Acrescenta:

28 Por isso, recebendo nós um reino inabalável, retenhamos a graça, pela qual sirvamos a Deus de modo agradável (=  “de modo aceitável”), com reverência (= modéstia) e santo temor (= reverentemente, piedosamente); 29porque o nosso Deus é fogo consumidor. (Hb 12.28-29).

Nós cultuamos a Deus, a quem conhecemos, tendo uma visão clara, ainda que não exaustiva, de sua majestade e santidade. Devemos ter diante de nossos olhos esses aspectos em nosso culto solene a Deus. Como nos preparamos para isso?

Outro ponto que quero destacar, é que devemos ter prazer em compartilhar entre os santos os feitos de Deus em nossa vida: o seu perdão, a sua misericórdia, proteção e paz. Esse é o convite do salmista aos seus ouvintes: “Vinde, ouvi, todos vós que temeis (yare’) a Deus, e vos contarei o que tem ele feito por minha alma” (Sl 66.16).

O culto é a reunião solene de pecadores alcançados pela graça perdoadora e abençoadora de Deus. É a celebração dos que temem a Deus, o amam, obedecem e adoram.

Sentimos prazer da companhia de nossos irmãos no culto a Deus. É o que declara o salmista:

A meus irmãos declararei o teu nome; cantar-te-ei louvores no meio da congregação; 23 vós que temeis (yare’) o SENHOR, louvai-o; glorificai-o, vós todos, descendência de Jacó; reverenciai-o, vós todos, posteridade de Israel. 24 Pois não desprezou, nem abominou a dor do aflito, nem ocultou dele o rosto, mas o ouviu, quando lhe gritou por socorro. 25 De ti vem o meu louvor na grande congregação; cumprirei os meus votos na presença dos que o temem (yare’). (Sl 22.22-25).

Cântico como um testemunho dos atos de Deus

O louvor é um testemunho vivo. O nosso cântico deve ser um testemunho dos atos de Deus a fim de que outros possam também aprender a temer e confiar no Senhor:

Esperei confiantemente pelo SENHOR; ele se inclinou para mim e me ouviu quando clamei por socorro. 2Tirou-me de um poço de perdição, de um tremedal de lama; colocou-me os pés sobre uma rocha e me firmou os passos. 3E me pôs nos lábios um novo cântico, um hino de louvor ao nosso Deus; muitos verão essas coisas, temerão (arey) (yare’) e confiarão no SENHOR. (Sl 40.1-3).

No Apocalipse, os anjos louvam a Deus considerando a sua majestade como digna de temor:

Temei a Deus e dai-lhe glória, pois é chegada a hora do seu juízo; e adorai aquele que fez o céu, e a terra, e o mar, e as fontes das águas. (Ap 14.7).

Quem não temerá e não glorificará o teu nome, ó Senhor? Pois só tu és santo; por isso, todas as nações virão e adorarão diante de ti, porque os teus atos de justiça se fizeram manifestos. (Ap 15.4).

Saiu uma voz do trono, exclamando: Dai louvores ao nosso Deus, todos os seus servos, os que o temeis, os pequenos e os grandes. (Ap 19.5).

Louvor em comunhão com nossos irmãos

O temor a Deus além de orientador de nossa conduta, nos move a adorá-lo em comunhão com nossos irmãos.

Peterson (1932-2018) expressou bem um aspecto relevante do culto comunitário:

A oração-modelo não é solitária, mas feita em comunidade. O contexto bíblico fundamental é a adoração. É por isso que o culto me parece ser o lugar certo. É o único contexto no qual podemos recuperar a profundidade do Evangelho.[2]

Algumas considerações

Se o temor do Senhor nos leva à intimidade com Ele, que tal reservar um tempo diário para orar de forma sincera, como quem conversa confidencialmente com um amigo fiel?

Vimos que os segredos de Deus são revelados a quem o teme. Separe momentos para meditar na Bíblia, não só para aprender, mas para experimentar a presença e o caráter do Senhor.

Esse temor não é medo paralisante, mas reverência que gera confiança. Podemos andar com Deus em obediência, mas com o coração cheio de alegria e na liberdade do Espírito.

Assim como o salmista convida os outros a ouvir o que Deus fez por sua alma, compartilhe em sua igreja ou com amigos os testemunhos da bondade de Deus na sua vida.

Honre a Deus com sua presença e participação nos cultos. Prepare seu coração antes de ir e envolva-se com gratidão e louvor — como celebração de quem teme e ama ao Senhor.

Mesmo não conseguindo entender todas as coisas, quem teme ao Senhor descansa nele. Confie nos caminhos e nos tempos de Deus, mesmo nas tribulações.

Transforme o louvor em testemunho: Que sua música seja uma ponte para que outros também conheçam e temam ao Senhor.


[1]R.D. Patterson, Swd: In: R. Laird Harris, et. al., eds. Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento, São Paulo: Vida Nova, 1998, p. 1031.

[2]Eugene H. Peterson, O pastor contemplativo: voltando à arte do aconselhamento espiritual, Rio de Janeiro: Textus, 2002, p. 17.

Autor: Hermisten Maia. © Voltemos ao Evangelho. Website: voltemosaoevangelho.com. Todos os direitos reservados. Editor e Revisor: Vinicius Lima.

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