Um blog do Ministério Fiel
Cantar salmos e um cântico novo ao Rei-Pastor!
O poder do louvor na vida de mártires do passado e na nossa vida
À luz do que temos estudado a respeito da direção e do cuidado de Senhor para conosco como Rei e Pastor, uma atitude mais do que natural, ainda que de origem sobrenatural, é cultuarmos a Deus.
Deus não necessita de nosso culto, porém, Deus deseja que essa prática prevaleça em nosso meio como expressão de gratidão (Sl 50). Nessa relação amadurecemos em nossa fé inclusive contemplando a salvação de Deus.
Recordar os feitos de Deus, além de deleitoso, é um estímulo à gratidão e obediência.
A Escritura se vale de vários termos para descrever a nossa atitude de gratidão: louvar, adorar e ação de graças, bendizer, exaltar, etc. Muitas das palavras são praticamente sinônimas. Destacarei alguns dos termos para a nossa exposição.
Somente Deus é digno de louvor
O que perpassa todo o livro de Salmos é o que disse Davi quando se viu livre da parte de Deus de todos os seus inimigos: “Invoco o SENHOR, digno de ser louvado (halal)” (Sl 18.3/Sl 48.1).
Somente Deus é digno de ser louvado! Portanto, o nosso louvor não o engrandece nem o dignifica; apenas, de modo reverente testemunhamos pela graça a consciência agradecida de sua grandeza.
“Porque grande (gadol) é o SENHOR e mui digno de ser louvado, temível (yare) mais que todos os deuses” (Sl 96.4), canta o salmista.
Vamos selecionar alguns termos e textos significativos que com algumas nuances nos ensinam a respeito de como louvar a Deus conforme um espírito agradecido e de acordo com a sua Palavra.
1. Cantar-lhe Salmos
Uma expressão comum de adoração a Deus são os cânticos de salmos destacando aspectos da grandeza de Deus e de seus feitos.
A palavra hebraica (pala), usada nesses salmos (Sl 98.1; 105.2),[1] nos remete a feitos extraordinários, maravilhas que ultrapassam as capacidades humanas e revelam o caráter singular de Deus. Não é à toa que o salmista convida a cantar “um cântico novo”: não porque a melodia seja inédita, mas porque as misericórdias do Senhor se renovam a cada manhã − e cada nova manifestação de sua graça pede nova resposta de louvor.
Isso também enfatiza que o conteúdo do louvor deve estar enraizado na verdade revelada e nas ações concretas de Deus na história, e não apenas em sentimentalismo ou invenções poéticas cheias de adjetivos e rima. A imaginação, nesse caso, é cativada e moldada pela realidade divina, e a beleza do cântico brota da fidelidade de Deus.
A imagem poética “do nascimento do sol até ao ocaso” (Sl 113.3)[2] nos lembra que não há momento do dia nem ponto da terra onde o louvor ao Senhor não seja apropriado. É um convite à adoração perpétua, sem limites geográficos ou temporais, pois a glória de Deus é eterna, e sua presença permeia toda a criação.
O Salmo 113, como um todo, o salmista exalta a grandeza transcendente de Deus que, ao mesmo tempo, Se inclina para socorrer o necessitado. Isso torna o louvor ainda mais profundo: Ele é exaltado sobre todas as nações, mas está atento aos humildes. Assim, a adoração não nasce apenas da admiração pela sua majestade, mas também do reconhecimento da sua misericórdia.
O Cantar na Tradição Reformada
O cantar Salmo faz parte essencial da tradição litúrgica Reformada.
Em 15 de maio de 1553, Calvino, depois de várias tentativas diplomáticas para libertá-los, escreve uma carta de consolo a cinco jovens estudantes de teologia em Lausane que, conforme as evidências pareciam apontar, após serem traídos, foram presos e estavam na iminência de serem martirizados em Lyon:
Para onde quer que olhemos daqui debaixo, Deus tem interrompido o caminho. Não obstante, nossa esperança nele, ou nas suas santas promessas não pode ser frustrada. (…) Agora, no presente momento, a própria necessidade os exorta a elevarem a mente totalmente ao céu. Até agora, não sabemos como será o evento, mas, porquanto parece que Deus utilizará o sangue de vocês para subscrever sua verdade, o melhor é prepararem-se para esse objetivo, suplicando-lhe para submetê-los à sua boa vontade, de modo que nada os impeça de seguirem para onde quer que Ele lhes chame. (…) Uma vez que lhe [Deus] aprouve consagrar vocês à morte na manutenção da sua contenda, Ele lhes fortalecerá as mãos no combate e não deixará que nenhuma gota do sangue de vocês seja gasta em vão. E embora o fruto não apareça de imediato, no tempo apropriado produzirá com mais abundância do que podemos expressar. Mas assim como Ele lhes concedeu esse privilégio, para que os laços de vocês sejam renovados e o seu clamor se propague amplamente por toda a parte, é indispensável, a despeito de Satanás, que a morte de vocês ressoe muito mais poderosamente, para que o nome do nosso Senhor seja engrandecido por meio disso. Da minha parte, se foi grato a esse bondoso Pai tomá-los [para] si mesmo, não duvido que Ele lhes preservou até aqui para que o seu prolongado e contínuo encarceramento sirva de preparação para despertar melhor a quem Ele determinou edificar com o fim de vocês. Assim, por mais que os inimigos se esforcem, jamais conseguirá esconder essa luz que Deus fez brilhar em vocês, para que fosse contemplada desde muito longe. (…) O fato de Deus lhes designar como mártires do seu Filho lhes serve de sinal de graça superabundante. (…) Enquanto aprouver a Deus dar o reino aos seus inimigos, nosso dever é ficarmos quietos, embora tarde o tempo da nossa redenção. (…) Há de vir o tempo em que a terra revelará o sangue que tem estado escondido, e nós, depois de nos desembaraçarmos desse corpo corruptível, seremos completamente restaurados. De qualquer modo, que o Filho de Deus seja glorificado na nossa vergonha e que nos contentemos com este fiel testemunho: que, embora sejamos perseguidos e condenados, confiamos no Deus vivo. Assim, temos com o que desprezar o mundo inteiro com a sua soberba, até que sejamos reunidos naquele reino eternal, onde gozaremos plenamente aquelas bênçãos de que agora só temos em esperança.[3]
Certamente esses missionários não receberam a carta de Calvino. No dia seguinte, 16 de maio de 1553, foram martirizados na fogueira.
Seguiram tranquilamente para o lugar (Place des Terreaux)[4] cantando salmos e recitando passagens bíblicas. O mais velho, Martial Alba, com permissão do comandante (tenente), beijou os outros quatro condenados que já estavam amarrados.[5] Sendo também preso, o fogo foi aceso. Assim foram martirizados.
Uma observação muito estimulante. O cantar salmos se constituiu em um ponto fundamental de identidade entre os Calvinistas na Europa e, posteriormente nos Estados Unidos.[6] Os Salmos se tornaram em “verdadeiros hinos de batalha”;[7] um cântico de combate, mas, também de consolo diante das perseguições e iminente morte.[8] Cottret (1951-2020) resume: “O saltério foi a Reforma francesa”.[9]
Massacre da Igreja Reformada de Meaux
“Em 1546, a Igreja reformada de Meaux foi dizimada pela perseguição”, informa Delumeau.[10] Aqui, 14 mártires morreram cantando o Salmo 79.[11] John Owen (1616-1683), no leito de morte, teve como últimas palavras, o Salmo 79.8.[12]
Place Maubert nas proximidades da Sorbone em Paris, traz em suas silentes memórias os cânticos de muitos huguenotes ali torturados e martirizados.[13]
Leith (1919-2002) comenta que,
O cântico dos salmos contribuiu para moldar o caráter e a piedade reformada e sua influência dificilmente poderia ser superestimada. Os salmos eram as orações do povo na liturgia de Calvino. Por meio deles, os adoradores respondiam à Palavra de Deus e afirmavam sua confiança, gratidão e lealdade a Deus.[14]
O cântico de salmos tornou-se essencial para a piedade calvinista. Os protestantes franceses, ao serem levados para a prisão ou para a fogueira, cantavam salmos com tanta veemência que foi proibido por lei cantar salmos e aqueles que persistiam tinham sua língua cortada.[15] O salmo 68 era a Marselhesa huguenote.[16]
De fato, na França, em diversas ocasiões os protestantes foram atacados enquanto prestavam culto a Deus, orando, lendo a Palavra e cantando salmos.
Depois de narrar algumas dessas perseguições, Baird (1828-1887) constata: “A Liturgia do protestantismo francês foi banhada com o sangue de seus mártires”.[17]
Mártires franceses no Brasil
Do mesmo modo, no Brasil, quando os calvinistas franceses Jean du Bourdel, Matthieu Verneuil, Pierre Bourdon, André Lafon não negaram à sua fé diante de Nicolas Durand de Villegaignon (1510-1571), foram presos.[18]
Crespin (c. 1520-1572) registra: “Entretanto, os condenados consolavam-se e regozijavam-se em suas cadeias, orando e cantando, com extraordinário fervor, salmos e louvores a Deus”.[19]
Na manhã de sexta-feira, 9 de fevereiro de 1558, quando Jean du-Bourdel, o autor da Confissão de Fé,[20] ia sendo conduzido ao rochedo para ser executado, acompanhado por Villegaignon e seu pajem, narra Crespin:
Ao passar junto da prisão em que estavam os seus companheiros, gritou-lhes em alta voz que tivessem coragem, pois iam ser logo libertados desta vida miserável. E, caminhando para a morte, entoava salmos e louvores a Deus, o que causava grande espanto a Villegaignon e ao carrasco.[21]
Godfrey parece captar bem o espírito desses calvinistas franceses:
Os Salmos eram (…) mais do que inspiração e conforto para os cristãos reformados. Os Salmos eram mais do que uma forma de expressarem suas alegrais e pesares a Deus nas próprias palavras de Deus. O Saltério explicava a vida que eles viviam tanto em relação aos iníquos que se lhes opunham quanto a Deus que os sustentava. Como povo de Deus, eles viviam nos Salmos.[22]
O nosso culto é determinado basicamente pelo conhecimento e prática da Palavra. O nosso louvor é a expressão de um coração alegre diante de Deus: O júbilo começa no coração. Os lábios apenas o expressam, ensina-nos Agostinho (354-430): “Pois, não se jubila com palavras; mas somente se emitem sons de alegria, que de certo modo são concebidos e gerados pelo coração, como expressão da ideia que for impossível manifestar por palavras”.[23]
Parece-me que aqui podemos cair em uma armadilha sutil, porém, quase onipresente: Transformarmos a nossa pregação, ensino, louvor e testemunho em meios para causar sentimentos, sem sentimentos. Nesse caso, seríamos apenas manipuladores de emoções. Meros profissionais, talvez competentes, porém hipócritas.[24]
O nosso culto começa por uma vida de obediência[25] com um coração sincero.[26] O ato público de adoração é a complementação indispensável de nosso culto cotidiano a Deus, escreve Calvino.
Porquanto Deus preceitua, em primeiro lugar, que o adoremos interiormente, e em seguida também verbalizemos uma profissão de fé externa. O principal altar, no qual Deus é adorado, deve estar situado dentro de nós, pois Deus é adorado espiritualmente através da fé, de orações e de outros ofícios de piedade. A confissão externa deve ser forçosamente acrescentada, não só para que nos exercitemos na adoração a Deus, mas também para que nos ofereçamos inteiramente a ele, tanto no corpo quanto na mente, assim como Paulo preceitua (1Co 7.34; 1Ts 5.23) – em suma, para que Ele nos possua inteiramente.[27]
É natural e até desejável que usemos de nossos talentos para servir a Deus com novas composições que reflitam a nossa fé decorrente da Palavra. A nossa fé por proceder da Palavra deve ser orientada pela Palavra em nossas experiência cotidianas.
Cântico novo
O livro de Salmos se constitui num modelo majestoso e singular deste emprego. A adoração verdadeira não é apenas uma questão de forma, mas de essência − nasce do coração tocado pela graça. O “cântico novo”, nesse contexto, não é uma ruptura com o passado, mas uma extensão natural de uma caminhada viva com Deus. Ele não descarta o antigo; ele o celebra ao lado do novo, compondo um coro contínuo de reconhecimento pelas misericórdias que se renovam todos os dias.
Essa perspectiva nos desafia a cantar não apenas com os lábios, mas com a alma desperta − com “graça no coração” (Cl 3.16). É uma liturgia da vida cotidiana, onde cada experiência de cuidado e direção do nosso Rei e Pastor se converte em melodia de gratidão.
A beleza disso é que o nosso repertório não se limita às páginas do hinário ou à playlist da igreja, mas se enriquece com cada intervenção de Deus no ordinário. E quanto mais atentamente percebemos sua presença, mais naturalmente brotarão novos cânticos de um coração inteiramente agradecido − ainda que entoados com melodias antigas.
[1] “Cantai ao SENHOR um cântico novo, porque ele tem feito maravilhas (pala); a sua destra e o seu braço santo lhe alcançaram a vitória” (Sl 98.1/Sl 9.1). “Cantai-lhe, cantai-lhe salmos; narrai todas as suas maravilhas (pala)” (Sl 105.2).
[2] “Do nascimento do sol até ao ocaso, louvado seja o nome do SENHOR” (Sl 113.3).
[3] In: João Calvino, Cartas de João Calvino, São Paulo: Cultura Cristã, 2009, p. 107-109. Como o processo foi longo, Calvino teve oportunidade de lhes dirigir anteriormente outras cartas. Vejam-se: João Calvino, Cartas de João Calvino, São Paulo: Cultura Cristã, 2009, p. 97-99 (10.06.1552) e p. 103-104 (07.03.1553).
[4] Modernamente constitui-se em ponto turístico concorridíssimo em Lyon.
[5] Nome dos demais estudantes: Pierre Escrivain, de Boulogne; Bernard Seguin, de La Réole; Charles Faure, de Blanzac e Pierre Navihères, de Limoges. Posteriormente foram achadas várias correspondências entre esses jovens, sendo então publicadas em um livro: Pierre Bergier, ed. Correspondance Inédite Des Cinq Étudiants Martyrs Martial Alba, de Montauban, Pierre Escrivain, (Éd. 1854). Hachette Livre Bnf. (Impresso sob demanda). Para uma visão parcial (10 páginas) da edição original em pdf, veja-se: https://www.furet.com/media/pdf/feuilletage/ 9/7/8/2/0/1/1/3/9782011314147. pdf (Consulta feita em 04.01.2025).
[6] Cf. Charles Garside, Jr., The Origins of Calvin’s Theology of Music: 1536-1543, Philadelphia: The American Philosophical Society, 1979, p. 5.
[7] W. Stanford Reid, The Battle Hymns of the Lord: Calvinist Psalmody of the Sixteenth Century. In: C.S. Meyer, ed. Sixteenth Century Essays and Studies, St. Louis: Foundation for Reformation Research, 1971, v. 2, [p. 36-54], p. 46. (Disponível: https://www.jstor.org/stable/3003691?seq=10#metadata_in fo_tab_contents). (Consulta feita em 24.06.25). Ver: John Ker, Psalms in History and Biography, Edinburgh: Andrew Elliot, 1886, p. 95.121, 184, 188. https://archive.org/details/psalmsinhistory b00kerj/). (Consulta feita em 24.06.2025).
[8]Veja-se: John Ker, Psalms in History and Biography, Edinburgh: Andrew Elliot, 1886, p. 121, 184, 188. https://archive.org/details/psalmsinhistoryb00kerj/).(Consulta feita em 31.03.2021). Daniel-Rops (1901-1965), historiador católico, cujo belo estilo, por vezes, tenta compensar as suas inclinações e o uso das fontes, ironiza o fato de os huguenotes cantarem salmos enquanto se preparavam para as batalhas e, do mesmo modo, as longas rezas. (Veja-se: Daniel-Rops, Igreja da Renascença e da Reforma – V. 2, São Paulo: Quadrante, 1999, p. 178-179).
[9]Bernard Cottret, Calvin: a Biography, Grand Rapids, Mi.: Eerdmans and Edinburgh: T & T Clark, 2000, p. 172. Cottret prossegue: “Os primeiros reformadores ignoravam a proliferação dos hinos; se contentavam em cantar em voz alta em melodias marciais cuidadosamente cadenciadas, o amor de Deus para com o seu povo, a destruição dos maus e a beleza do mundo. O canto dos salmos foi para a Reforma da língua francesa o que o coral foi para a Reforma alemã. A música participou intimameente da cultura calvinista. (…) O salmo 114 tornou-se emblemático da Reforma na França” (Bernard Cottret, Calvin: a Biography, p. 172).
[10]Jean Delumeau, Nascimento e Afirmação da Reforma, São Paulo: Pioneira, 1989, p. 177.
[11]John Ker, Psalms in History and Biography, Edinburgh: Andrew Elliot, 1886, p. 106. https://archive.org/details/psalmsinhistoryb00kerj/page/106); W. Stanford Reid, The Battle Hymns of the Lord: Calvinist Psalmody of the Sixteenth Century. In: C.S. Meyer, ed. Sixteenth Century Essays and Studies, St. Louis: Foundation for Reformation Research, 1971, v. 2, [p. 36-54], p. 46. (Disponível: https://www.jstor.org/stable/3003691?seq=10#metadata_info_tab_contents); Carl Lindberg, As Reformas na Europa, São Leopoldo, RS.: Sinodal, 2001, p. 339. O pré-reformador João Huss (c. 1369-1415), pregador da Capela de Belém e professor e Reitor da Universidade de Praga, foi queimado vivo. Antes de morrer, recitou diversos salmos, principalmente o 51 e 53 (Cf. John Ker, Psalms in History and Biography, Edinburgh: Andrew Elliot, 1886, p. 54-55. https://archive.org/details/psalm sinhistoryb00kerj/). (Consulta feita em 24.06.2025).
[12] John Ker, Psalms in History and Biography, Edinburgh: Andrew Elliot, 1886, p. 107-108. Apresentando uma relação mais ampla, Ker (1819–1886), como escocês, escreve: “Há uma semelhança notável na maneira de morrer dos mártires franceses e escoceses, decorrente das relações frequentes entre as Igrejas nos primeiros dias da Reforma e de sua devoção comum ao livro dos Salmos” (John Ker, Psalms in History and Biography, Edinburgh: Andrew Elliot, 1886, p. 85).
[13]Vejam-se: John Ker, Psalms in History and Biography, Edinburgh: Andrew Elliot, 1886; https://fr.wikipedia.org/wiki/Place_Maubert#cite_note-9
[14]John H. Leith, A Tradição Reformada: Uma maneira de ser a comunidade cristã, São Paulo: Pendão Real, 1997, p. 301. Ver alguns exemplos significativos em: Charles W. Baird, A Liturgia Reformada: Ensaio histórico, Santa Bárbara D’Oeste, SP.: SOCEP., 2001, p. 67ss.
[15] Fazendo um paralelo, transcrevo uma informação de Fox: “Em 1554 dois homens reformistas, junto com o filho e a filha de um deles, foram capturados e encarcerados no castelo de Niverne. Interrogados, professaram a sua fé e tiveram ordenada a sua execução. Quando eram untados com gordura, enxofre e pólvora, exclamaram: ‘infeliz é esta carne pecaminosa e corrompida’. Cortaram-lhes então a língua, e lançaram-nos às chamas, que logo se consumiram, devido às substâncias inflamáveis com que foram cobertos” (John Fox, O Livro dos Mártires, 4. ed. Rio de Janeiro: CPAD., 2002, p. 55).
[16]John H. Leith, A Tradição Reformada: Uma maneira de ser a comunidade cristã, p. 299. Do mesmo modo: Carl Lindberg, As Reformas na Europa, São Leopoldo, RS.: Sinodal, 2001, p. 339. Ver: Emily R. Brink, The Genevan Psalter: In: Emily B. Brink; Bert Polman, eds. Psalter Hymnal Handbook, Grand Rapids, Michigan: CRC Publications, 1998, p. 34. Foi o próprio Calvino quem adaptou a melodia de um dos corais de Greiter ao Salmo 68. (Cf. Henriqueta R.F. Braga, Contribuição da Reforma ao Desenvolvimento Musical: In: Bill H. Ichter, org. A Música Sacra e Sua História, Rio de Janeiro: JUERP., 1976, p. 77). Matthäus Greiter (c.1495-1550), de grande talento mas, de ética ambígua, foi quem compôs a música, sendo publicado pela primeira vez no Saltério de Estrasburgo em 1539 e foi então incluido na primeira edição do Saltério de Genebra (1542). O Salmo 68 também tornou-se conhecido entre os huguenotes como “Cântico das batalhas”, sendo cantado por eles em muitos de seus conflitos “sangrentos e desesperados”. (Cf. John Ker, Psalms in History and Biography, Edinburgh: Andrew Elliot, 1886, p. 95). O hino de Lutero baseado no Salmo 46 foi chamado por H. Heine (1797-1856) de “Marselhesa da Reforma” (Cf. W.J.R.T., Hymnology: In: Rev. John McClintock; James Strong, eds. Cyclopedia of Biblical, Theological and Ecclesiastical Literature, [CD-ROM], (Rio, WI., Ages Software, 2000), v. 4, p. 130).
[17]Charles W. Baird, A Liturgia Reformada: Ensaio histórico, p. 65.
[18] O alfaiate André Lafon terminou por ser persuadido a retratar-se. Foi poupado. Permaneceu então preso na fortaleza “como alfaiate do almirante e de toda sua gente” (Jean Crespin, A Tragédia da Guanabara ou Historia dos Protomartyres do Christianismo no Brasil, Rio de Janeiro: Typo-Lith, Pimenta de Mello & C., 1917, p. 81).
[19]Jean Crespin, A Tragédia da Guanabara ou Historia dos Protomartyres do Christianismo no Brasil, p. 74. Ver também: Jean de Léry, Viagem à Terra do Brasil, 3. ed., São Paulo: Livraria Martins Fontes, (1960), p. 245.
[20] Elaborada entre 04/01/1558 e 09/02/1558. Ver: Jean Crespin, A Tragédia da Guanabara ou Historia dos Protomartyres do Christianismo no Brasil, p. 63-64.
[21]Jean Crespin, A Tragédia da Guanabara ou Historia dos Protomartyres do Christianismo no Brasil, p. 77. O padre Anchieta (1534-1597), dando destaque ao que encontrou ente os huguenotes, relata (01.06.1560): “Grande quantidade de livros heréticos, entre os quais, (se porventura isto é sinal de sua reta fé) se achou um missal, com imagens raspadas” (Joseph de Anchieta, Cartas: Correspondência Ativa e Passiva, 2. ed. São Paulo: Loyola (Obras Completas, − 6º volume), 1984, p. 168-169). O que me leva a supor que sem dúvida, entre os “livros heréticos” deviam constar exemplares do Saltério de Genebra.
[22]W. Robert Godfrey, Aprendendo a amar os Salmos, Rio de Janeiro: Pro Nobis, 2021, p. 19.
[23] Agostinho, Comentário aos Salmos, São Paulo: Paulus, (Patrística, 9/2), 1997, v. 2, (Sl (66) 67.2), p. 335.
[24] Por mera analogia, veja-se: Étienne Gilson, Introdução às Artes do Belo – O que é filosofar sobre a arte? São Paulo: É Realizações, 2010, p. 195-196.
[25] “A regra que distingue o culto puro do culto corrompido é de aplicação universal, a fim de que não adotemos qualquer artifício que nos pareça adequado, mas olhemos para a determinação do único que que tem autoridade de prescrevê-lo. Portanto, se queremos que Deus aprove nosso culto, então que se observe esta regra que ele, por toda parte, enfatiza com a máxima exatidão. Pois, há uma dupla razão pelas quais o Senhor, ao condenar e proibir todo e qualquer culto falso, requer que rendamos obediência somente à sua própria voz. Primeiro, porque isto tende a estabelecer grandemente sua autoridade para que não sigamos nossos próprios deleites, mas dependamos inteiramente de sua soberania; e, segundo, tal é nossa estultícia, que, quando somos deixados livres, tudo o que somos capazes de fazer é nós desviarmos da vereda certa, não há limite para nossos desvios, até que nos vejamos sepultados sob uma multidão de superstições” (João Calvino, A Necessidade de Reformar a Igreja: In: Waldemir Magalhães, ed., As Obras de João Calvino, Recife, PE: CLIRE, 2017, p. 158). Veja-se também: João Calvino, Romanos, 2. ed. São Paulo: Parakletos, 2001, (Rm 12.1), p. 435.
[26]“Visto que não é suficiente que pronunciemos os louvores a Deus com nossos lábios, se também não procederem do coração” (João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo: Paracletos, 1999, v. 1, (Sl 9.14), p. 195).
[27]João Calvino, O Profeta Daniel: 1-6, São Paulo: Parakletos, 2000, v. 1, (Dn 3.2-7), p. 192.

