Um blog do Ministério Fiel
Louvor e gratidão nos Salmos
A prática da exaltação e gratidão na poesia de Salmos
Exaltar o nome do Senhor
Exaltar o nome de Deus é um testemunho de que reconhecemos a excelsitude do Senhor e o seu senhorio pessoal.
O salmista tem prazer em fazê-lo: “Tu és o meu Deus, render-te-ei graças; tu és o meu Deus, quero exaltar-te” (Sl 118.28).
Em outro contexto o salmista Davi exalta a Deus considerando o seu livramento: “Eu te exaltarei, ó SENHOR, porque tu me livraste e não permitiste que os meus inimigos se regozijassem contra mim” (Sl 30.1).
Esse exaltar não significa acrescentar algo a Deus; antes, o reconhecimento de que Ele é exaltado por sua própria natureza que excede à toda Criação: “Sê exaltado, ó Deus, acima dos céus; e em toda a terra esplenda a tua gloria” (Sl 57.5/1Rs 8.27).
O próprio Senhor testemunha a respeito de sua excelsitude: “Aquietai-vos e sabei que eu sou Deus; sou exaltado entre as nações, sou exaltado na terra” (Sl 46.10).
Davi se propõe a exaltar para sempre o nome do Senhor: “Exaltar-te-ei, ó Deus meu e Rei; bendirei (barak) o teu nome para todo o sempre” (Sl 145.1)
Possivelmente quando consagra o seu palácio, escreve: “Eu te exaltarei (rum), ó SENHOR, porque tu me livraste e não permitiste que os meus inimigos se regozijassem contra mim” (Sl 30.1).
Exaltar ao Senhor é reconhecer, com reverência e alegria, a grandeza de sua natureza eterna e a abundância do seu amor gracioso manifestado para conosco. É render-lhe glória por quem Ele é em sua essência divina e pelo modo como atua redentivamente em nossa história. Exaltá-lo é colocar-se em humilde adoração diante de sua majestade e bondade, declarando que somente Ele é digno de toda honra e louvor.
Render Graças
O nosso louvor não deve ser apenas de lábios. Aliás, os nossos lábios de forma isolada não louvam ao Senhor. Eles o fazem verdadeiramente se expressarem o que se passa em nosso coração. (Mt 15.7-8). Esta é a expressão de louvor do salmista:
Louvar-te-ei (yadah), SENHOR, de todo (kol) o meu coração (leb); contarei todas as tuas maravilhas (pala). (Sl 9.1).
Rendam graças (yadah) ao SENHOR por sua bondade e por suas maravilhas para com os filhos dos homens! (Sl 107.15).
Os motivos são variados para render graças a Deus. Destaquei alguns:
a) Por sua santidade absoluta
“Celebrem (yadah) eles o teu nome grande e tremendo, porque é santo” (Sl 99.3). Deus é absolutamente santo, estando acima de toda Criação.
O Salmo 99:3 nos convida a louvar o nome de Deus − não apenas por sua grandeza, mas por sua santidade que inspira reverência e temor. A palavra hebraica (yadah) carrega o sentido de “confessar”, “dar graças” ou “louvar”, indicando uma adoração profunda e expressiva.[1] Uma das ideias preponderantes, é o de “confessar ou declarar a glória de Deus”.[2]
b) Bondade e maravilhas
“Dar-te-ei graças (yadah) para sempre, porque assim o fizeste; na presença dos teus fiéis, esperarei no teu nome, porque é bom (tôb)” (Sl 52.9).[3]
“Rendam graças (yadah) ao SENHOR por sua bondade (hesed) e por suas maravilhas para com os filhos dos homens!” (Sl 107.31).
Ambos revelam a profundidade da adoração bíblica − não como um ato ocasional, mas como uma resposta contínua à bondade e fidelidade de Deus. O louvor aqui é comunitário, um chamado para que todos reconheçam as maravilhas de Deus.
c) Sustentar e defender a causa do aflito e necessitado
“O SENHOR é a minha força e o meu escudo; nele o meu coração confia, nele fui socorrido; por isso, o meu coração exulta, e com o meu cântico o louvarei (yadah)” (Sl 28.7) (Sl 140.12-13).
Deus é tanto o poder que cria e sustenta quanto a proteção que defende. O salmista experimenta a ajuda divina e responde com alegria. Temos uma explosão de fé: o coração que confia é o mesmo que canta. A adoração aqui é resultante de ter experimentado o socorro divino. Portanto, a adoração bíblica é mais do que palavras − é uma resposta viva à ação de Deus.
d) Misericórdia
“Aleluia! Rendei graças (yadah) ao SENHOR, porque ele é bom; porque a sua misericórdia dura para sempre” (Sl 106.1).[4]
Aqui temos o convite para todos louvem ao Senhor com gratidão e reconhecimento da ação divina. Ele é essencialmente bom e a sua misericórdia que é contínua é a base da aliança divina.
Esse convite é mais do que uma emoção espiritual − é um ato consciente de quem conhece a ação divina na história, mesmo quando ela se entrelaça com a fragilidade humana. O louvor se torna, então, não apenas uma resposta, mas uma proclamação: “Ele é bom, e sua misericórdia não tem fim.”
e) Nos socorrer e salvar
“Render-te-ei graças (yadah) porque me acudiste e foste a minha salvação” (Sl 118.21).
Deus não apenas ouviu, mas agiu com prontidão e compaixão. O salmista reconhece que sua libertação não veio de estratégias humanas, mas do próprio Deus.
f) Pela sua justiça
“Eu, porém, renderei graças (yadah) ao SENHOR, segundo a sua justiça, e cantarei louvores ao nome do SENHOR Altíssimo (elyon)” (Sl 7.17/Sl 138.2).
Esse versículo é a resposta final de Davi após clamar por livramento e justiça. Ele não celebra a queda dos ímpios, mas a manifestação da justiça de Deus, que é motivo suficiente para louvor.
g) Pela sua verdade
“Prostrar-me-ei para o teu santo templo e louvarei (yadah) o teu nome, por causa da tua misericórdia e da tua verdade, pois magnificaste acima de tudo o teu nome e a tua palavra” (Sl 138.2).
A Palavra de Deus é uma expressão verdadeira de Deus. Ela não apenas comunica informações, mas revela o próprio coração divino. A Palavra é superior a todas as outras manifestações de Deus. Ela é mais clara − revelando a verdade sem sombras −, contundente − tocando o íntimo do ser humano −, acessível − Deus fala em linguagem que podemos compreender −, transformadora − operando vida, arrependimento e santificação.
h) Pelos seus retos juízos
“Levanto-me à meia-noite para te dar graças (yadah), por causa dos teus retos (mishpat) juízos (tsedeq)” (Sl 119.62).
São os juízos do Senhor que corrigem e alinham o nosso caminho. Por serem justos, santos e verdadeiros, permanecem firmes e eficazes − não se esgotam, não se contradizem e não falham. Sua retidão é permanente e sua aplicação transforma o coração, instruindo-nos na vereda da vida.
i) Pela beleza maravilhosa da criação de Deus expressa no ser humano e na natureza em geral
“Graças te dou (yadah), visto que por modo assombrosamente (yare’) maravilhoso (palah) me formaste; as suas obras são admiráveis (pala) (maravilhosas, extraordinárias), e a minha alma o sabe muito bem” (Sl 139.14).
Davi reconhece que sua formação não é apenas biológica − é teológica. Ele foi moldado por um Deus que age com sabedoria, poder e propósito. A criação do homem revela a sua complexidade em beleza e funcionalidade.
A alma do salmista “sabe muito bem” − ou seja, há uma convicção interior de que ele é obra de Deus. Isso transforma o louvor em resposta litúrgica-existencial: “Eu sou teu, Senhor, e por isso te louvo.”
Quando o Reino de Cristo se instaurar definitivamente, mediante a sua Palavra, todos bendirão a Deus reconhecendo a sua Glória: “Render-te-ão graças (yadah), ó SENHOR, todos os reis da terra, quando ouvirem as palavras da tua boca e cantarão os caminhos do SENHOR, pois grande (gadol) é a glória (kabod) do SENHOR” (Sl 138.4-5).
Isso ecoa Fp 2.10-11, onde é-nos dito que todo joelho se dobrará e toda língua confessará que Jesus Cristo é Senhor. O louvor dos reis representa a rendição dos poderes terrenos ao Rei eterno, e a Igreja já vive essa realidade em fé e adoração.
A Igreja, ao render graças hoje, antecipa o louvor universal do fim dos tempos. Como Corpo de Cristo, ela já canta os caminhos do Senhor, reconhecendo sua Palavra como guia e sua glória como destino.
[1] É por isso que (hd’y”) (yadah) é traduzida muitas vezes por: a) Render graças: (Sl 7.17; 57.9; 107.1,8,15,21,31; 118.19,21, 28, 29; 119.7); b) Dar graças (Sl 30.4,12; 35.18; 52.9; 106.47; Is 12.1,4); c) Louvar (Sl 6.5; 9.1;28.7; 30.9; 42.5,11; 43.4-5; 44.8; 45.17; 49.18; 54.6; 67.3 (2 vezes); Is 25.1); d) Glorificar (Sl 18.49); e) Celebrar (Sl 33.2); f) Confessar (os pecados) (Lv 16.21; 1Rs 8.33,35; Ed 10.1; Ne 1.6; 9.2-3; Sl 32.5; Dn 9.4,20); g) Confessar (o nome de Deus) (2Cr 6.24,26).
[2]“Louvor é uma confissão ou afirmação de quem Deus é do que faz” (Ralph H. Alexander, Yãdâ: In: R. Laird Harris, et. al. eds. Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento, São Paulo: Vida Nova, 1998, p. 595). “A ação de graças acompanha o louvor, pois quando alguém declara os atributos e obras de Deus, não pode deixar de ser agradecido por isso. O louvor conduz regularmente à ação de graças” (Ralph H. Alexander, Yãdâ: In: R. Laird Harris, et. al. eds. Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento, p. 595). “No Antigo Testamento, a confissão frequentemente se reveste do caráter de louvor, quando o crente, agradecido, declara o que Deus fez pela redenção de Israel ou pela sua própria alma. (…) A confissão pode levar o crente a reconsagrar-se a Deus, a entoar-Lhe hinos de louvor, a oferecer-Lhe sacrifício de regozijo, e infunde no crente o desejo de falar aos outros sobre a misericórdia de Deus e de Identificar-se com os outros crentes na adoração ao Senhor” (J.B. Torrance, Confissão: In: J.D. Douglas, ed. org. O Novo Dicionário da Bíblia, São Paulo: Junta Editorial Cristã, 1966, v. 1, p. 314). Vejam-se: Otto Michel, O(mologe/w: In: G. Friedrich; G. Kittel, eds. Theological Dictionary of the New Testament, Grand Rapids, Michigan: Eerdmans, 1982, v. 5, p. 204; D. Furst, Confessar: In: Colin Brown, ed. ger. O Novo Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento, São Paulo: Vida Nova, 1981-1983, v. 1, p. 465-466.
[3]Sl 9.1; 75.1; 107.8,15, 21,31; 118.1.
[4]Sl 107.1; 118.29; 136.1-3,26.

