Um blog do Ministério Fiel
Pregação e louvor ao Rei-Pastor
Como a Palavra molda a adoração verdadeira
O sentido da palavra adorar é prostrar-se. Há na adoração a consciência da grandeza, majestade e santidade de Deus. É por isso que só adoramos a Deus. A nossa adoração só é possível em Cristo, por meio de quem nos oferecemos a Deus como sacrifício vivo e agradável a Deus
Adorar a Deus é mais do que a missão da Igreja; é a razão de sua existência:[1] Somos constituídos como povo de Deus para adorá-lo na beleza de sua santidade.[2]
Pregação e adoração
Portanto, a nossa adoração é precedida por um genuíno conhecimento de Deus. Biblicamente, quanto mais conhecermos a Deus, melhor poderemos adorá-lo considerando a sua majestade e a clara e adequada consciência de nosso pecado e carência de sua misericórdia.
No entanto, como salienta Kapic: “A adoração não exige que entendamos perfeitamente tudo sobre Deus, mas que respondamos com autenticidade ao Deus verdadeiro que se revela a nós”.[3]
O ensino da Palavra está relacionado diretamente ao nosso culto.
Stott (1921-2011) é enfático:
Nossa adoração é fraca porque nossos conhecimentos de Deus são fracos, e nossos conhecimentos de Deus são fracos porque a nossa pregação é fraca. Quando, porém, a Palavra de Deus é exposta na sua plenitude e a congregação começa a ter um vislumbre da glória do Deus vivo, todos se curvam em reverente temor solene e admiração jubilosa diante do seu trono. É a pregação que realiza isso – a proclamação da Palavra de Deus no poder do Espírito de Deus. É por isso que a pregação é incomparável e insubstituível.[4]
De fato, como diz Horton, “A pregação determina o foco e profundidade da adoração.”[5] Ela nos dá o foco correto a respeito da majestade de Deus, do nosso pecado e da necessidade que temos adorar o Senhor na beleza de sua santidade.
Desse modo, a assertiva de Olyott é correta: “Se temos um desejo sério de ver Deus sendo adorado mais do que Ele realmente o é, precisamos nos interessar ardentemente pelo assunto da pregação”.[6]
O salmista exorta o povo a adorar a Deus considerando os seus feitos: “Vinde, adoremos (shachah) e prostremo-nos (kara); ajoelhemos (barak) diante do SENHOR, que nos criou” (Sl 95.6).
O salmista nos dá uma perspectiva correta ao dizer em lugares diferentes:
Adorai (shachah) o SENHOR na beleza (hadarah) (= esplendor) da sua santidade (vd,qo) (qodesh); tremei diante dele, todas as terras. (Sl 96.9; Sl 29.2).
Exaltai ao SENHOR, nosso Deus, e prostrai-vos (shachah) ante o escabelo de seus pés, porque ele é santo. (Sl 99.5).
Exaltai ao SENHOR, nosso Deus, e prostrai-vos (shachah) ante o seu santo monte, porque santo é o SENHOR, nosso Deus. (Sl 99.9).
Salmo 5
Ilustremos com um caso específico.
O Salmo 5 nos fala da misericórdia de Deus que nos acompanha nas vicissitudes de nossa vida, nos abençoando, consolando e orientando.
Não sabemos ao certo o contexto de sua composição. É provável que tenha sido escrito por Davi em uma de suas fugas e perseguições por parte de Saul[7] ou de Absalão.[8] Neste caso, ele poderia ter sido escrito juntamente com os salmos 3 e 4.
O salmo descreve a situação de um homem caluniado e injustamente perseguido. Ele clama pelo auxílio de Deus enquanto aguarda a sua sentença já previamente determinada pelos seus ardilosos inimigos que planejam contra a sua vida (Sl 5.9-10).[9]
Estabelecendo um contraste com os seus inimigos e com o fim deles, demonstra confiar na misericórdia de Deus (Sl 5.7).
Davi conhecia o seu Deus. Ele sabe do seu caráter santo e justo. Deus aborrece e repele os ímpios, os arrogantes, os que praticam iniquidade, os mentirosos, sanguinários e fraudulentos. O mal não prevalece. (Sl 5.4-6)[10]
Por isso o contraste que faz da sua situação: “Porém eu” (7). Contudo, longe de presunção humana, ele completa: “pela riqueza da tua misericórdia” (7).
A misericórdia é uma das perfeições de Deus que faz com que Ele olhe para a nossa miséria e nos socorra. O salmista, de modo enfático fala da riqueza (bro) (rob) (multidão, muita e certamente variadas manifestações da misericórdia de Deus.
Em outro momento Davi repete esse conceito como fundamento de sua esperança na resposta de Deus. A resposta às nossas orações é sempre uma expressão da graça de Deus: “Quanto a mim, porém, SENHOR, faço a ti, em tempo favorável, a minha oração. Responde-me, ó Deus, pela riqueza (rob) da tua graça (hesed); pela tua fidelidade (‘emeth) em socorrer (yesha`)” (Sl 69.13).
Relação fundamentada em Misericórdia
Toda a nossa relação com Deus tem como fundamento a sua misericórdia. Por isso a confiança do salmista: Deus é misericordioso; posso perseverar aguardando amparado em suas promessas.
Davi em meio a essas adversidades, confia na misericórdia de seu Senhor. O fundamento de sua fé e o alvo de sua promessa é o próprio Senhor: “Porém eu, pela riqueza (rob) da tua misericórdia (hesed), entrarei na tua casa e me prostrarei (shachah) (adorar) diante do teu santo templo (hekal), no teu temor” (Sl 5.7).
Quando estamos angustiados e aflitos devido às injustiças praticadas, o que pensamos em fazer após passar por essa turbulência?: Dar o troco? Nos vingar? Contrariamente, o salmista tinha em seu coração o firme propósito de entrar na casa do Senhor e se prostrar diante do seu santo templo que representava a sua presença.
Meditar sobre a majestade de Deus e a sua misericórdia providente é um estímulo à nossa adoração sincera. Adorar a Deus é nos apresentar diante dele com um coração dominado por sua santidade. A adoração não é meramente íntima e mística; é necessariamente existencial: as nossas mãos se constituem em exercício de adoração moldando a realidade a partir de nossa fé fundamentada na Palavra.[11]
[1] “Adoração não é somente apropriada para a igreja; ela é o propósito da igreja” (John C. Vaughn, na apresentação do livro de Tim Fisher, O Debate sobre a Igreja, São Paulo: Editora Batista Regular, 2005, p. 10).
[2] “Adorar (…) é atribuir ao Senhor a glória devida ao seu nome, cultuá-lo de acordo com o esplendor de sua santidade; esta é a atividade que almejamos alcançar” (Peter White, O Pastor Mestre, São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2003, p. 83).
[3]Kelly M. Kapic, Pequeno livro para novos teólogos, São Paulo: Cultura Cristã, 2014, p. 22.
[4]John Stott, Eu Creio na Pregação, São Paulo: Editora Vida, 2003, p. 89. “Há a mais íntima das conexões entre a teologia cristã e a maneira como que os cristãos cultuam e oram. Não pode ser permitido que teologia e doxologia – para dizer, uma compreensão de culto e adoração – saiam por seus caminhos, como se os caminhos em que os cristãos cultuam não causassem nenhum impacto em suas reflexões teológicas” (Alister E. McGrath, Paixão pela Verdade: a coerência intelectual do Evangelicalismo, São Paulo: Shedd Publicações, 2007, p. 40).
[5]Michael Horton, As Doutrinas da Maravilhosa Graça, São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2003, p. 87.
[6]Stuart Olyott, Pregação pura e simples, São José dos Campos, SP.: Fiel, © 2010, 2012 (Reimpressão), p. 13.
[7] Cf. João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo: Paracletos, 1999, v. 1, (Sl 5.1-2), p. 107.
[8] Ver: Ernst W. Hengstenberg; John Thomson, Commentary on the Psalms, Tennessee: General Books, © 1846, 2010 (Reprinted), v. 1, (Sl 5), p. 51-52.
[9] “9 pois não têm eles sinceridade nos seus lábios; o seu íntimo é todo crimes; a sua garganta é sepulcro aberto, e com a língua lisonjeiam. 10 Declara-os culpados, ó Deus; caiam por seus próprios planos. Rejeita-os por causa de suas muitas transgressões, pois se rebelaram contra ti” (Sl 5.9-10).
[10]“4 Pois tu não és Deus que se agrade com a iniquidade, e contigo não subsiste o mal. 5 Os arrogantes não permanecerão à tua vista; aborreces a todos os que praticam a iniquidade. 6 Tu destróis os que proferem mentira; o SENHOR abomina ao sanguinário e ao fraudulento” (Sl 5.4-6).
[11] Veja-se: John R.W. Stott, A Mensagem de Romanos, São Paulo: ABU., 2000, (Rm 12.1-2), p. 389).

