Um blog do Ministério Fiel
Refúgio em Deus
O que os Salmos nos ensinam sobre abrigo e esperança
Na Capital Paulistana, ainda que não exclusivamente, é comum ao começar uma chuva, pararem nas avenidas em baixo de pontes e viadutos diversos motociclistas em busca de abrigo. Ali não há diferença de motos (Ducati Superleggera V4 e BMW K 1600 GTL ou Honda Pop 110i e Scooter). Todos querem, em primeira instância, se proteger.
Esse momento de pausa forçada não é apenas uma questão de conforto, mas de segurança: trocar o traje por um impermeável adequado evita que a roupa encharcada comprometa a pilotagem e a visibilidade.
É interessante como essa prática revela uma espécie de solidariedade silenciosa entre os motociclistas − um reconhecimento mútuo das dificuldades enfrentadas no trânsito e das estratégias para lidar com elas.
Algo parecido ocorre quando motoristas dirigem pela estrada e são surpreendidos por uma chuva de granizo. Imediatamente procuram um abrigo para os seus veículos: Postos de gasolina, estacionamentos cobertos ou até mesmo viadutos para se proteger. Além do perigo de transitar nessa situação o prejuízo causado ao automóvel pode ser considerável.
Parece que o homem; nesse caso, o gênero masculino tem uma dificuldade notória: ao volante de seu automóvel, um tanto perdido, parar e pedir informações. Em geral ele demora um pouco mais a admitir que precisa de uma direção e orientação seguras.
Essa atitude pode estar ligada a construções sociais sobre masculinidade, como a ideia de que “homem tem que saber o caminho” ou que demonstrar dúvida seria sinal de fraqueza. Claro que isso não é uma regra universal, mas é um comportamento que aparece com frequência. É interessante como até mesmo algo tão cotidiano como pedir uma informação pode revelar traços profundos da nossa cultura e das expectativas sociais que moldam o comportamento.
O fato é que quer seja por um fator cultural, gênero, temperamento ou personalidade, todos nós temos algumas facilidades e dificuldades.
A Palavra nos ensina que o nosso Senhor que nos guia e protege é o nosso alto refúgio em meio às tribulações. Precisamos aprender a buscar nele o abrigo necessário para as nossas aflições.
Davi, considerando o reto juízo de Deus, testifica a sua confiança: “O SENHOR é também alto refúgio (misgab) para o oprimido, refúgio (misgab) nas horas de tribulação” (Sl 9.9).
Porém, por vezes estamos tão desacostumados de nos valer de algo que temos disponível que, quando precisamos, até nos esquecemos. Assim, estranhamente, pedimos emprestado, compramos novo ou lamentamos o não ter.
Na vida formalmente cristã ou de frieza espiritual, justamente por nos mantermos distantes da Palavra, da oração, dos cultos, de um pensar e uma conversação santa, corremos o risco de não considerar a Deus como o Deus presente; aquele que nos ouve e socorre; que é o nosso abrigo seguro em todas as circunstâncias.
O salmista gostava de sentir-se perto de Deus: “O SENHOR dos Exércitos está conosco; o Deus de Jacó é o nosso refúgio (misgab)” (Sl 46.7). Repete no verso 11).
Em outro lugar: “Quanto a mim, bom é estar junto a Deus; no SENHOR Deus ponho o meu refúgio (machaseh), para proclamar todos os seus feitos” (Sl 73.28),
Salmo 7: calúnia e confiança
Ilustremos esses pontos à luz do salmo 7, onde temos um cenário vívido da alma de Davi diante de acusações injustas. Cuxe, o benjamita, é uma figura enigmática − não temos registros diretos de suas palavras em outros textos bíblicos, mas ele pode representar alguém como Simei, que amaldiçoou Davi durante sua fuga de Absalão (2Sm 16.5-14).[1]
Nos versículos 3 e 4, Davi faz uma declaração ousada de inocência: “3 SENHOR, meu Deus, se eu fiz o de que me culpam, se nas minhas mãos há iniquidade,4 se paguei com o mal a quem estava em paz comigo, eu, que poupei aquele que sem razão me oprimia” (Sl 7.3-4). Ele está aflito, contudo, “une a audácia da fé com a força ética de sua consciência”[2] para invocar a justiça de Deus.
É como se ele dissesse: “Senhor, examina-me. Se sou culpado, que venha o juízo. Mas se não, sê meu defensor.” Essa postura revela não apenas a consciência limpa de Davi, mas também sua confiança na justiça de Deus como juiz.
Enquanto no Salmo 6 ele recorre à graça de Deus; nesse salmo apela para a justiça divina devido às calúnias que foram levantadas contra ele.
Mas, o fato preponderante, é que ele se refugiava em Deus, o seu Senhor: “SENHOR, Deus meu, em ti me refugio (chasah); salva-me de todos os que me perseguem e livra-me” (Sl 7.1).
Ele não se lança em autodefesa agressiva, nem tenta manipular a narrativa − simplesmente se abriga no caráter justo e protetor do Senhor.
O verbo (chasah) carrega essa ideia de buscar abrigo com confiança, como quem se lança sob as asas de alguém mais forte. Davi não está apenas pedindo livramento; ele está afirmando onde está sua segurança, sua identidade, sua esperança.
Essa atitude contrasta fortemente com a lógica humana de revidar ou justificar-se a qualquer custo. Davi nos ensina que a verdadeira força está em confiar no Deus que vê o invisível e julga com retidão. E é justamente essa confiança que o sustenta − não apenas diante de Cuxe, mas em tantas outras situações de perseguição e injustiça.
Confiança em meio à casa sitiada
Numa situação concreta de aperto, quando Saul sitia sua casa para pessoalmente matá-lo, escreve o Salmo 59: “Eu, porém, cantarei a tua força; pela manhã louvarei com alegria a tua misericórdia; pois tu me tens sido alto refúgio (misgab) e proteção no dia da minha angústia” (Sl 59.16).
Salmo 11
Quando Davi foge possivelmente de Absalão que deseja matá-lo, seus leais soldados e amigos aconselham-no a fugir para as montanhas. No entanto, Davi declara que a segurança em Deus é maior que se abrigar nas montanhas, lugar aparentemente seguro contra os seus inimigos: “No SENHOR me refugio (chasah). Como dizeis, pois, à minha alma: Foge, como pássaro, para o teu monte?” (Sl 11.1/Sl 16.1; 18.2; 31.1; 71.1; 141.8; 144.2);
Testemunho semelhante de confiança em Deus, encontramos no Salmo 118:“8Melhor é buscar refúgio (chasah) no SENHOR do que confiar no homem. 9 Melhor é buscar refúgio (chasah) no SENHOR do que confiar em príncipes” (Sl 118.8-9).[3]
Por vezes uma questão difícil para nós quando estamos aflitos ou em tentação, nossa tendência natural é fixar os olhos no problema − como se, ao encará-lo de frente, pudéssemos controlá-lo. Davi em meio a ameças de seus inimigos, durante o culto renova a sua fé. Sua oração nos convida a um movimento contrário: “Pois em ti, SENHOR Deus, estão fitos os meus olhos: em ti confio (chasah); não desampares a minha alma” (Sl 141.8).
Davi, mesmo cercado por inimigos e perigos, escolhe confiar − não porque a ameaça desapareceu, mas porque ele sabe em quem está o seu refúgio.
Esse versículo é um lembrete poderoso de que a fé não é negação da realidade, mas uma escolha consciente de onde colocamos nossa esperança. E, muitas vezes, é no culto, na adoração, que essa confiança é renovada − não por mágica, mas porque ali, diante de Deus, nossos olhos se realinham com o que é eterno.
Davi sabe que o seu livramento está em Deus: “De Deus dependem a minha salvação e a minha glória; estão em Deus a minha forte rocha e o meu refúgio (machaseh)” (Sl 62.7).
Os nossos amigos, por mais leais que sejam, tem limitações muitas das quais precisamos respeitar.
Portanto, a despeito das falhas de nossos amigos com os quais contávamos para nos socorrer, Deus é o nosso refúgio e sustento: “A ti clamo, SENHOR, e digo: tu és o meu refúgio (machaseh), o meu quinhão na terra dos viventes” (Sl 142.5).
Essa certeza nos encoraja em momentos de dificuldade. O Senhor cumpre poderosamente as suas promessas; podemos nos refugir nele e na sua Palavra. Esse é um motivo de alegria no Senhor.
Refúgio ativo
O refúgio de Deus envolve a sua defesa ativa para com o seu povo. Alegra-se o salmista: “Mas regozijem-se todos os que confiam (chasah) em ti; folguem de júbilo (ranan) para sempre, porque tu os defendes (cakak)(cobre,[4] protege);[5] e em ti se gloriem os que amam o teu nome” (Sl 5.11/ Sl 37.40; 57.2).
“O caminho de Deus é perfeito; a palavra do SENHOR é provada; ele é escudo para todos os que nele se refugiam (chasah)” (Sl 18.30).
A palavra (chasah) não é apenas “confiar”, mas refugiar-se com a expectativa de proteção ativa − como quem corre para um abrigo seguro em meio à tempestade. E o verbo (cakak), traduzido como “defender” ou “cobrir”, reforça essa imagem de um Deus que não apenas acolhe, mas se interpõe como escudo entre o perigo e o seu povo.
O Salmo 5.11, nesse contexto, é um convite à alegria não por ausência de adversidade, mas pela certeza da presença protetora de Deus. O verbo (ranan), “folgar de júbilo”, sugere uma exultação que brota da confiança — uma alegria que não depende das circunstâncias.
No ato de refugiar-nos em Deus vamos descobrindo gradativamente as expressões magníficas de sua bondade. Portanto, refugiar-se em Deus não é apenas um ato de desespero, mas uma jornada de descoberta da sua bondade. Testemunha o salmista: “Como é grande a tua bondade, que reservaste aos que te temem, da qual usas, perante os filhos dos homens, para com os que em ti se refugiam (chasah)!” (Sl 31.19; 36.7). O Salmo 31.19 nos mostra que essa bondade é “reservada” − como um tesouro cuidadosamente guardado − para aqueles que o temem e se refugiam nele. É uma bondade que se manifesta “perante os filhos dos homens”, ou seja, visível, concreta, testemunhável.
O salmista então nos convida a uma experiência pessoal e sensorial; nos desafia a “testar” a nossa fé em Deus: “Oh! Provai e vede que o SENHOR é bom; bem-aventurado o homem que nele se refugia (chasah)” (Sl 34.8/34.22). O verbo “provar” aqui é quase ousado − como se o salmista dissesse: “não fique apenas ouvindo sobre Deus; experimente-o”. O resultado é a bem-aventurança, felicidade verdadeira, para quem se refugia nele.
Essa confiança ativa, que se transforma em alegria e segurança, é um fio condutor que perpassa toda a espiritualidade dos Salmos.
A graça de Deus deve ser mantida diante de nós nas situações mais adversas para que nos estimulemos à alegre perseverança e a um espírito de gratidão.[6] “Nada anima mais nossa esperança do que nos lembrarmos da benevolência pregressa de Deus”, conclui de forma viva e pastoral Calvino.[7]
A consideração sobre a misericórdia de Deus deve ser um estímulo à nossa esperança. A esperança cristã não é uma expectativa vaga, mas uma certeza fundamentada no caráter imutável de Deus.
O Senhor é o nosso Pastor que cuida de nós. Refugiar-nos em Deus significa buscar a sua orientação e seguir confiantemente as suas instruções. E, em meio às tribulações buscá-lo ainda mais intensamente o seu socorro. Assim, de fato, nada nos faltará.
[1] Quando às especulações sobre quem seria Cuxe, vejam-se o resumo delas em W.S. Plumer, Psalms, Carlisle, Pennsylvania: The Banner of Truth Trust, © 1867, 1975 (Reprinted), p. 106-107.
[2]Artur Weiser, Os Salmos, São Paulo: Paulus, 1994, p. 95.
[3] “Guarda-me (shamar) (= Proteger, cuidar) a alma e livra-me; não seja eu envergonhado (bosh), pois em ti me refugio (chasah)” (Sl 25.20) “O SENHOR guarda (shamar) a todos os que o amam; porém os ímpios serão exterminados” (Sl 145.20). “Os meus olhos se elevam continuamente ao SENHOR, pois ele me tirará os pés do laço” (Sl 25.15).
[4] Sl 91.4/Lm 3.43-44.
[5] Sl 140.8.
[6]Cf. João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo: Paracletos, 1999, v. 1, (Sl 5.7), p. 114.
[7]João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo: Paracletos, 1999, v. 2, (Sl 61.3), p. 563.

