Do altar para o mundo

Como os Salmos transformam adoração em Missão

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Nota do editor: Este é o centésimo quarto e último artigo de Hermisten Maia de sua série Rei e Pastor: o Senhor na visão e vivência dos salmistas. Hermisten Maia é, de longe, o autor brasileiro com mais artigos postados em nosso blog – são 202 artigos publicados até hoje, com postagens sendo feitas desde 2013! Fica aqui nosso agradecimento a este excelente ministro da Palavra que tanto contribue para a igreja por meio de seus ensinos de púlpito, em salas de aula de seminários e faculdades, livros, artigos e videos na internet! Muito obrigado! Que Deus abençoe ricamente a vida do nosso querido reverendo e doutor Hermisten Maia!


O louvor nos salmos é, por vezes, o resultado de um aprendizado de fé, como é o caso do salmista no Salmo 71: Tu me tens ensinado (lamad), ó Deus, desde a minha mocidade; e até agora tenho anunciado (nagad) as tuas maravilhas (pala) (Sl 71.17).

A nossa adoração e louvor a Deus não se resumem à repetição de frases prontas, vazias de sentido. Pelo contrário, são expressões vivas de um profundo conhecimento de Deus e de uma relação pessoal com o Altíssimo. Por meio do louvor, proclamamos os seus feitos e revelamos a intimidade que temos com Ele.

Nos Salmos, encontramos um testemunho missional − uma expressão da revelação divina, diluída na experiência dos salmistas. Seus escritos refletem suas vidas como espelhos, apresentando uma teologia vivida e sentida. Essa teologia não é meramente conceitual, mas encarnada, acessível a todos que desejam fazer parte do círculo cada vez mais amplo dos que adoram a Deus em espírito e em verdade.

Assim, o salmista canta sua fé com profundidade e paixão:

Pois tu, SENHOR, és o Altíssimo sobre toda a terra; tu és sobremodo elevado acima de todos os deuses. (Sl 97.9).

Cantarei (shir) a bondade e a justiça; a ti, SENHOR, cantarei (zamar). (Sl 101.1).

Muitas graças (yadah) darei ao SENHOR com os meus lábios; louvá-lo-ei (halal) no meio da multidão. (Sl 109.30).

O fundamento da missão está na convicção de que Deus é o Senhor de toda a Terra; o Deus dos deuses:[1] “Pois o SENHOR Altíssimo (elyon) é tremendo, é o grande rei de toda a terra” (Sl 47.2).

Sem qualquer concessão ao “politicamente correto”[2] diante das religiões pagãs, o salmista proclama, com ousadia e convicção, um desfile majestoso dos atributos de Deus − atributos que, por sua grandeza e santidade, devem conduzir todos à adoração reverente, marcada por profunda alegria e piedade:

4Porque grande (gadol) é o SENHOR e mui digno de ser louvado (halal), temível (yare) mais que todos os deuses. 5Porque todos os deuses dos povos não passam de ídolos; o SENHOR, porém, fez os céus. (Sl 96.4).

Pois tu, SENHOR, és o Altíssimo (elyon) sobre toda a terra; tu és sobremodo elevado (alah) acima de todos os deuses. (Sl 97.9).

Porque o SENHOR é o Deus supremo (gadol) e o grande (gadol) Rei acima de todos os deuses. (Sl 95.3/Sl 96.4).

O teu caminho, ó Deus, é de santidade. Que deus é tão grande (gadol) como o nosso Deus? (Sl 77.13).

O SENHOR é grande (gadol) em Sião e sobremodo elevado (rum) acima de todos os povos. (Sl 99.2).

Grande (gadol) é o Senhor nosso e mui poderoso; o seu entendimento (tebunah) (= inteligência, aptidão, habilidade) não se pode medir. (Sl 147.5).

Louvor resultante da graça

Agostinho (354-430), de forma poética, mostra que o nosso louvor a Deus é o fruto do trabalho do Agricultor em nós. Embora o louvor nada acrescente a Deus, nós crescemos quando sinceramente bendizemos o Senhor atestando o resultado de sua obra em nós:

Quando Deus nos abençoa, nós crescemos, e quando bendizemos ao Senhor, também crescemos; ambas as coisas são para o nosso proveito. Ele nada ganha quando o bendizemos, nem diminui por nossas maldições. (…) A bênção do Senhor vem-nos em primeiro lugar, e por consequência também nós bendizemos ao Senhor. A primeira é a chuva, e esta é o fruto. Por isso estamos entregando a Deus, o agricultor, que nos manda a chuva e nos cultiva, o fruto que produzimos. Cantemos estas palavras com devoção, mas não estéril, nem só de voz, mas com um coração sincero.[3]

Louvor teocêntrico e missionário

No nosso louvor, Deus é quem deve ser engrandecido, a sua glória é que deve ser buscada e proclamada. Ele é o centro de nosso culto e adoração.

Se, pois, jubilais de tal modo que Deus ouça, salmodiai também de sorte que os homens vejam e ouçam; mas não a vosso nome. (…) Presta atenção ao fim, conta com certa finalidade; considera qual o fim que te move. Se ages assim para seres glorificado, foi o que proibi; se, porém, para que Deus seja glorificado, foi o que mandei. Salmodiai, portanto, não a vosso nome, mas ao nome do Senhor vosso Deus. Salmodiai vós; Ele seja louvado; vivei bem e Ele seja glorificado.[4]

O salmista convoca os fiéis a anunciar com alegria o Reino absoluto do Senhor:

10 Dizei entre as nações: Reina o SENHOR. Ele firmou o mundo para que não se abale e julga os povos com equidade. 11 Alegrem-se os céus, e a terra exulte; ruja o mar e a sua plenitude” (Sl 96.10-11).

Hipólito de Roma (170-235), mesmo com alguns pontos teológicos controversos, apresentou uma ênfase correta ao interpretar o Sl 96.11:

Por essas palavras significa que a pregação do evangelho será propagada além mares e nas ilhas do oceano e entre os povos que habitam ali, que são aqui chamados “a plenitude”. E  essa palavra foi cumprida. De fato, as igrejas de Cristo enchem todas as ilhas e se multiplicam todo dia e o ensino da Palavra da salvação.[5]

Anunciai (saphar) entre as nações a sua glória, entre todos os povos, as suas maravilhas (pala)(Sl 96.3), canta o salmista. Comentando o Salmo 96, Calvino sustenta que:

O salmista está exortando o mundo inteiro, e não apenas os israelitas, ao exercício da devoção. Isso não poderia ser efetuado, a menos que o evangelho fosse universalmente difundido como meio de comunicar conhecimento de Deus. (…) O salmista notifica, consequentemente, que o tempo viria quando Deus erigiria seu reino no mundo de uma maneira totalmente imprevista. Ele notifica ainda mais claramente como ele procede, ou, seja: que todas as nações partilhariam do favor divino. Ele convoca a todos a anunciarem sua salvação e, desejando que a celebrassem dia após dia, insinua que ela não era de uma natureza transitória ou evanescente, mas que duraria para sempre.[6]

Portanto, esse fato demanda a nossa responsabilidade missional: “É nosso dever proclamar a bondade de Deus a toda nação”, conclui Calvino.[7]

O caráter missional dos salmos é demonstrado em outros lugares:

Rendei graças (yadah) ao SENHOR, invocai o seu nome, fazei conhecidos (yada), entre os povos, os seus feitos. (Sl 105.1).

Render-te-ei graças (yadah) entre os povos, ó SENHOR! Cantar-te-ei louvores (zamar) entre as nações. (Sl 108.3).

A natureza por si só tem um caráter missional

Conforme já vimos, a criação − ainda que de maneira limitada − revela aspectos do poder glorioso de Deus, nosso Senhor. Trata-se de um testemunho universal, acessível a todas as nações, pois os traços da majestade divina estão impressos nas suas obras.

Entretanto, é importante reconhecer que a natureza nos antecede nesse testemunho. Antes mesmo que o ser humano erguesse sua voz em louvor, os céus já proclamavam a glória de Deus, e o firmamento anunciava a obra de suas mãos (Sl 19.1). A criação, portanto, é uma proclamadora silenciosa, mas eloquente, da grandeza do Criador.

1Os céus proclamam  (saphar) (= contam,[8]) a glória de Deus, e o firmamento anuncia as obras das suas mãos (yad)2 Um dia discursa a outro dia, e uma noite revela conhecimento a outra noite.  3 Não há linguagem, nem há palavras, e deles não se ouve nenhum som;  4 no entanto, por toda a terra se faz ouvir a sua voz, e as suas palavras, até aos confins do mundo. Aí, pôs uma tenda para o sol,  5 o qual, como noivo que sai dos seus aposentos, se regozija como herói, a percorrer o seu caminho.  6 Principia numa extremidade dos céus, e até à outra vai o seu percurso; e nada refoge ao seu calor. (Sl 19.1-6).

Os céus anunciam (nagad) a sua justiça, e todos os povos veem a sua glória (kabod). (Sl 97.6).

Em toda a terra a glória de Deus é manifesta: “Sê exaltado, ó Deus, acima dos céus; e em toda a terra esplenda a tua glória (kabod) (Sl 108.5).

O propósito final da missão é conduzir todos os povos à adoração do Deus verdadeiro. O salmista expressa esse desejo com clareza: “E me pôs nos lábios um novo cântico (shir), um hino de louvor (tehillah) ao nosso Deus; muitos verão essas coisas, temerão e confiarão (batach) no SENHOR” (Sl 40.3)

A meta é que todos aprendam a bendizer o Senhor, reconhecendo-o como o soberano que dirige toda a história. Essa realidade se cumprirá plenamente no Reino Messiânico.

O Deus da Glória como Senhor e Pastor guia a todos de forma segura e justa: “Alegrem-se e exultem as gentes, pois julgas os povos com equidade e guias (nachah)[9]  na terra as nações” (Sl 67.4/Sl 23.3).

No livramento de Davi, há um testemunho de gratidão e, ao mesmo tempo, uma expectativa escatológica que ainda não se consumou mas, se concretizará no regresso triunfante de Cristo:

3 No dia em que eu clamei, tu me acudiste e alentaste a força de minha alma.  4 Render-te-ão graças (yadah), ó SENHOR, todos os reis da terra, quando ouvirem as palavras da tua boca e cantarão os caminhos do SENHOR, pois grande  é a glória (kabod) do SENHOR.  (Sl 138.3-5).

Profira a minha boca louvores (tehillah) ao SENHOR, e toda carne louve (barak) o seu santo nome, para todo o sempre. (Sl 145.21/Sl 145.10).

Por sermos guiados pelo Senhor, o nosso Pastor, sabemos que Jesus Cristo, nosso Salvador nos espera na “Casa do Senhor”, onde habitaremos com Ele e nossos irmãos para sempre: “Bondade e misericórdia certamente me seguirão todos os dias da minha vida; e habitarei na Casa do SENHOR para todo o sempre” (Sl 23.6).

Na consumação da história veremos que a oração do salmista será atendida: “Uma coisa peço ao SENHOR, e a buscarei: que eu possa morar na Casa do SENHOR todos os dias da minha vida, para contemplar a beleza do SENHOR e meditar no seu templo” (Sl 27.4).

Então as ovelhas estarão completas no aprisco do Bom Pastor. A sua obra terá sido consumada: “Ainda tenho outras ovelhas, não deste aprisco; a mim me convém conduzi-las; elas ouvirão a minha voz; então, haverá um rebanho e um pastor” (Jo 10.16).

Então, pela graça poderemos dizer: “O Senhor é o nosso Pastor: Nada nos faltou”. Amém.

 


[1]Cf. Carl J. Bosma, Os Salmos: Porta de Entrada para as Nações. Aspectos da base teológica e prática missionária no Livro dos Salmos, São Paulo: Fôlego, 2009, p. 32-33.

[2] Bruce K; Waltke; James M. Houston, Os Salmos como Louvor Cristão, São Paulo: Shedd Publicações, 2020, p. 195.

[3] Stº. Agostinho, Comentário aos Salmos, São Paulo: Paulus, (Patrística, 9/2), 1997, v. 2, (Sl (67) 66.1), p. 361.

[4] Stº. Agostinho, Comentário aos Salmos, v. 2, (Sl (66) 65.3), p. 336, 337.

[5] Hippolytus, The Extant Works and Fragments of Hippolytus. In: In: Alexander Roberts; James Donaldson, eds. The Ante-Nicene Fathers. 2. ed. Peabody, Massachusetts: Eerdmans, 1995, v. 5, p. 203.

[6]João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo: Parakletos, 2002, v. 3, (Sl 96.1), p. 514-515.

[7]John Calvin, Calvin’s Commentaries, Grand Rapids, Michigan: Baker Book House Company, 1996 (Reprinted), v. 7, (Is 12.5), p. 403.

[8] Sl 9.1; 22.17; 78.3-4.

[9] “Somente aqui no Antigo Testamento esse verbo é usada para denotar o Senhor como o grande Pastor (= Rei) também das nações” (Carl J. Bosma, Os Salmos: Porta de Entrada para as Nações. Aspectos da base teológica e prática missionária no Livro dos Salmos, São Paulo: Fôlego, 2009, p. 64).

Autor: Hermisten Maia. © Voltemos ao Evangelho. Website: voltemosaoevangelho.com. Todos os direitos reservados. Editor e Revisor: Vinicius Lima.

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