Um blog do Ministério Fiel
Todo conhecimento de Deus depende de sua auto-revelação graciosa
O Deus que transcende nossas categorias sem contradizê-las
Nota do editor: Este é o primeiro artigo da nova série de Hermisten Maia – O Ser, as pessoas e as coisas: Um diálogo entre Teologia e Fisosofia. Neste primeiro artigo, Hermisten Maia diz que Deus não pode ser definido ou apreendido pela mente humana. Sua essência é inesgotável, e qualquer tentativa de categorizá-Lo incorre em reducionismo. Este artigo explora, à luz da Escritura e da teologia reformada, por que todo verdadeiro conhecimento de Deus depende da Sua auto-revelação graciosa. A partir de vozes como Calvino, Bavinck, Sproul e outros, aprendemos que a fidelidade bíblica exige reverência, humildade e temor diante do Deus que se revela, mas permanece transcendente.
Deus não pode ser apreendido pela mente humana. É mister que Ele se revele através de Sua Palavra; e é à medida que Ele desce até nós que podemos, por sua vez, subir até os céus. – João Calvino (1509-1564).[1]
Nenhuma perfeição expressa plenamente o ser de Deus – Herman Bavinck (1854-1921).[2]
Se nos recusarmos a honrar a Deus como Deus, toda nossa visão sobre a vida e o mundo torna-se distorcida. – R.C. Sproul (1939-2017).[3]
O anti-intelectualismo encontrado na igreja representa uma calamidade, principalmente à luz do fato de que os cristãos deste lado do céu são o povo de um Livro e, portanto, são inevitavelmente pensadores. – David Mathis.[4]
Nunca se pode ter moral verdadeira sem absolutos. Nós podemos chamá-la de moral, mas sempre termina com “eu gosto”, ou contrato social, nenhum dos quais é a moral. (…) E não tendo nenhum absoluto, o homem moderno não tem categorias. Não se podem ter respostas verdadeiras sem categorias, e estes homens não podem ter outras categorias, além das pragmáticas e tecnológicas. – Francis A. Schaeffer (1912-1984).[5]
Introdução
O já falecido, piedoso e respeitado teólogo Saucy (1930–2015), ao esclarecer por que não podemos apresentar uma “definição rigorosa da ideia de Deus”, lança luz sobre o conceito de definição: “Definir, que significa limitar, envolve a inclusão do objeto dentro de certa classe ou proposição universal conhecida e a indicação dos seus aspectos distintivos comparados com outros objetos daquela mesma classe.”[6]
Agostinho (354-430), de forma iluminadora, trata da necessidade da definição:
A ciência da definição, da divisão e da classificação, ainda que seja empregada muitas vezes para coisas falsas, não é por si só falsa; nem foi instituída pelos homens, mas descoberta pela própria razão das coisas.[7]
Algo fundamental para a compreensão − e eventual solução − de um problema é possuir uma definição clara e precisa sobre ele. Definir é delimitar. Uma definição apropriada nos permite enxergar o objeto como ele de fato é.[8] A conceituação de Espinosa (1632–1677) é-nos orientadora: “A verdadeira definição de cada coisa não envolve nem exprime senão a natureza da coisa definida.”[9]
Em uma entrevista concedida em 1991, Thomas Kuhn (1922–1996), ao lamentar o uso excessivo e inadequado da expressão “paradigma” − central em sua obra A Estrutura das Revoluções Científicas − admite que no livro não definira “paradigma” tão rigorosamente como deveria”.[10] Segundo ele, essa imprecisão contribuiu para a multiplicidade de interpretações e aplicações indevidas do termo.
Ao se buscar uma definição, o princípio que deve orientá-la é o de privilegiar a essência, e não os acidentes, que são geralmente efêmeros e não revelam as qualidades intrínsecas do ser.
O historiador Huizinga (1872-1945) oferece-nos um valioso critério nesse sentido:
Uma boa definição deve ser concisa, ou seja, expor o conceito que se trata de definir com toda precisão e de um modo completo, no menor número de palavras. A definição descreve o significado de uma determinada palavra, usada para designar um determinado fenômeno. Na definição deve ficar inscrito, incluído o fenômeno em sua totalidade. Se permanecem fora dela partes essenciais do fenômeno, a definição não é boa. Por outro lado, uma definição não precisa entrar em detalhes.[11]
Se Aristóteles (384–322 a.C.) estiver correto − como creio que esteja − ao afirmar que “uma definição é uma frase que significa a essência de uma coisa”,[12] então, de fato, não podemos definir Deus. Ele é, como veremos mais adiante, pura essência, sem qualquer acidente; e sua essência é inesgotável, não apenas no aspecto fenomenológico, mas também em sua própria realidade ontológica (no que é em si).
O fenômeno não esgota a essência e, nesse caso específico, o fenômeno é grandioso, enquanto nossa percepção se revela limitadíssima − mesmo diante dele. Como bem expressa Jó: “Eis que isto são apenas as orlas dos seus caminhos; e quão pouco é o que dele ouvimos!” (Jó 26.14).
Deus se acomoda à nossa linguagem
Considerando a distância qualitativa entre Deus e o homem, Calvino (1509–1564) sustenta que Deus, em sua graça, se acomoda à nossa compreensão, adaptando-se de forma condescendente à nossa limitação.[13] Empregando suas próprias palavras, Calvino afirma que Deus, ao revelar-se, “se acomodava[14] à nossa capacidade”,[15] “balbuciando” sua Palavra a nós como as amas fazem com as crianças.[16]
Deus se vale de analogias, recorrendo à metáforas − comparando-se a um leão, ao urso e ao homem –, visando ser entendido por nós.
Quando o Senhor às vezes se compara a um leão, a um urso, a um homem, ou a outros objetos, isto nada tem a ver com imagens, como imaginam os papistas, senão que, por meio de tais metáforas, ou a benignidade e mercê de Deus, ou sua ira e desprazer, e outras coisas da mesma natureza se expressam. Pois Deus não pode revelar-se a nós de qualquer outra maneira senão por meio de uma comparação com coisas que conhecemos.[17]
Essa imagem é profundamente comovente: o Deus infinito, transcendente e santo abaixa-se voluntariamente para comunicar-se conosco em termos que possamos compreender − não diminuindo sua glória, mas ajustando sua revelação à nossa fragilidade. É o gesto de um Pai que fala a linguagem dos filhos, sem perder, no caso de Deus, a majestade de sua verdade.
Portanto, Deus não pode ser definido nem comparado.[18] As comparações bíblicas são formas humanas, concedidas pelo próprio Deus Criador, com o propósito de nos proporcionar um conhecimento adequado − ainda que limitado − de sua natureza.[19]
Nossas analogias, por mais bem-intencionadas que sejam, podem tornar-se extremamente perigosas, pois estão sujeitas a erros, distorções e ao esvaziamento da plenitude daquilo que foi revelado. Parece-me um princípio seguro atermo-nos às figuras que o próprio Senhor utilizou em sua Palavra, e mesmo essas devem ser interpretadas dentro do propósito estrito que Ele estabeleceu.
Fora disso, é trilhar um caminho escorregadio e arriscado − movido, muitas vezes, por imaturidade espiritual ou por uma vaidade leviana que presume dizer mais do que Deus disse.[20]
A Escritura afirma com clareza que Deus é incomparável e insondável. Não há parâmetro que possa medi-lo, nem mente que possa perscrutar plenamente os seus caminhos. Ao reconhecer essa realidade, não estamos promovendo um irracionalismo ilógico, mas sim afirmando que, diante da revelação fidedigna do Deus pessoal e racional, aprendemos que Ele transcende nossas categorias sem, contudo, contradizê-las.
A racionalidade bíblica consiste em reconhecer que a nossa razão − embora tenha paralelos com a de Deus, visto que fomos criados à sua imagem − é limitada em seu alcance e em sua capacidade de síntese. Deus é maior do que podemos compreender, mas não é incoerente ou arbitrário.
Importa destacar que a revelação divina não é um faz-de-conta. A nossa razão não é um mero “café com leite”, relegada às questões terrenas enquanto Deus habita uma esfera totalmente distinta, regida por uma lógica inacessível. Pelo contrário, a revelação bíblica é inteligível, confiável e dirigida a seres pensantes, chamados à responsabilidade diante do Deus que se comunica.[21]
Compreender essa relação entre transcendência e revelação é essencial para o desenvolvimento do nosso tema − e, mais ainda, para a nossa sobrevivência como criaturas racionais, vocacionadas à verdade e à comunhão com o Criador.
Não há com que ou com quem comparar Deus. Ele está muito além de nossas referências. A sua grandeza é inexaminável e indecifrável. Não temos parâmetros para decifrá-la ainda que de forma aproximada.[22] Assim se expressaram os salmistas:
Grande (gadol) é o SENHOR e mui digno de ser louvado; a sua grandeza (gedullah) é insondável (ayin cheqer). (Sl 145.3).
Ó SENHOR, Deus dos Exércitos, quem é poderoso como tu és, SENHOR, com a tua fidelidade ao redor de ti?! (Sl 89.8).
Com efeito, eu sei que o SENHOR é grande e que o nosso Deus está acima de todos os deuses. (Sl 135.5).
Todos os meus ossos dirão: SENHOR, quem contigo se assemelha? (Sl 35.10).
“Ora, a tua justiça, ó Deus, se eleva até aos céus. Grandes coisas tens feito, ó Deus; quem é semelhante a ti?” (Sl 71.19).
Tentação de esquadrinhar Deus
Considerando o que disse Salomão – “A glória de Deus é encobrir as coisas, mas a glória dos reis é esquadrinhá-las (chaqar) (= sondar, investigar, pesquisar) (Pv 25.2) –, devemos nos precaver de uma tentação na qual podemos incorrer; especular sobre o ser de Deus e seus atos. No entanto, temos aqui uma tensão saudável: Deus oculta, e o homem investiga. A investigação é legítima − é parte da vocação humana dada por Deus. No entanto, há uma linha tênue entre sondar com reverência e especular com presunção.
O profeta Isaías nos lembra que o entendimento de Deus é inescrutável − não por falta de revelação, mas por causa da distância ontológica entre o Criador e a criatura. Nosso conhecimento é de servo, limitado, fracionado, e dependente essencialmente da revelação: “Não sabes, não ouviste que o eterno Deus, o SENHOR, o Criador dos fins da terra, nem se cansa, nem se fatiga? Não se pode esquadrinhar (chaqar) o seu entendimento” (Is 40.28).
Desejo de anunciar os feitos de Deus
Assim, ao contrário dessa tentação especulativa, o salmista oferece-nos um caminho a seguir: anunciar os feitos de Deus ainda que não tenhamos, naturalmente, a compreensão de todos eles:
São muitas, SENHOR, Deus meu, as maravilhas que tens operado e também os teus desígnios para conosco; ninguém há que se possa igualar contigo. Eu quisera anunciá-los e deles falar, mas são mais do que se pode contar. (Sl 40.5).
Tu me tens ensinado, ó Deus, desde a minha mocidade; e até agora tenho anunciado as tuas maravilhas (pala). (Sl 71.17).
Todo o nosso conhecimento de Deus deve nos conduzir à adoração e à glorificação do seu Nome por meio de nossa obediência humilde e sincera. Com tal espírito, continuemos nossos apontamentos.
Referências Bibliográficas
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[1] João Calvino, O Profeta Daniel: 1-6, São Paulo: Parakletos, 2000, v. 1, (Dn 3. 2-7), p. 186.
[2] Herman Bavinck, Dogmática Reformada, São Paulo: Cultura Cristã, 2012, v. 2, p. 98.
[3] R.C. Sproul, A Santidade de Deus, São Paulo: Cultura Cristã, 1997, p. 206.
[4] David Mathis, Introdução – Pensar, amar, fazer: na perspectiva do Evangelho. In: John Piper; David Mathis, orgs. Pensar – Amar – Fazer, São Paulo: Cultura Cristã, 2013, p. 14.
[5]Francis A. Schaeffer, Poluição e a Morte do Homem, São Paulo: Cultura Cristã, 2003, p. 24.
[6] Robert L. Saucy, Deus, Doutrina de: In: Walter A. Elwell, ed. Enciclopédia Histórico-Teológica da Igreja Cristã, São Paulo: Vida Nova, 1988-1990, v. 1, [p. 439-445], p. 440. Sobre a importância das definições no âmbito geral, veja-se: Hermisten M.P. Costa, Introdução à Metodologia das Ciências Teológicas, Goiânia: Cruz, 2015, p. 63-65.
[7] Santo Agostinho, A Doutrina Cristã, São Paulo: Paulinas, 1991, II.36 p. 143.
[8]“Uma definição não arbitrária deve afirmar o conjunto de características singulares compartilhado por todas as coisas do tipo que está sendo definido” (Roy A. Clouser, O mito da neutralidade religiosa: Um ensaio sobre a crença religiosa e seu papel no pensamento teórico, Brasília, DF.: Editora Monergismo, 2020. Edição do Kindle. (Posição 287 de 11450).
[9]Baruch Espinosa, Ética, São Paulo: Abril Cultural, (Os Pensadores, v. 17), 1973, I.8. Escólio 2, p. 91.
[10]John Horgan, O Fim da Ciência: uma discussão sobre os limites do conhecimento Científico, 3. reimpressão, São Paulo: Companhia das Letras, 2006, p. 64.
[11]Johan Huizinga, El Concepto de la Historia y Otros Ensayos, 4. reimpresión, México: Fondo de Cultura Econômica, 1994, p. 87.
[12]Aristóteles, Tópicos, São Paulo: Abril Cultural, (Os Pensadores, v. 4), 1973, I.5. p. 13.
[13]Cf. Alister E. McGrath, Historical Theology: An Introduction to the History of Christian Thought, Massachusetts: Blackwell Publishers, 1998, p. 210. A Confissão de Westminster fala também da “condescendência” de Deus em firmar um Pacto com o homem caído (Ver: Confissão de Westminster, VII.1).
[14] Battles (1915-1979) nos adverte que Calvino nunca empregou a palavra “acomodação” na forma substantivada (accommodatio) nas Institutas e, possivelmente em qualquer de seus escritos. Porém, utilizou os verbos accommodare ou attemperare. (acomodar). (Cf. Ford L. Battles, Interpreting John Calvin, Grand Rapids, MI.: Baker Books, 1996, p. 117).
[15]J. Calvino, Exposição de 1 Coríntios, São Paulo: Paracletos, 1997, (1Co 2.7), p. 82. “Deus não pode ser compreendido por nós, a menos que se acomode ao nosso padrão” (John Calvin, Calvin’s Commentaries, Grand Rapids, Michigan: Baker Book House Company, 1996 (Reprinted), v. 11/2, (Ez 9.3,4), p. 304). “Não podemos compreender plenamente a Deus em toda a sua grandeza, mas que há certos limites dentro dos quais os homens devem manter-se, embora Deus acomode à nossa tacanha capacidade toda declaração que faz de si mesmo. Portanto, somente os estultos é que buscam conhecer a essência de Deus” (João Calvino, Exposição de Romanos, São Paulo: Paracletos, 1997, (Rm 1.19), p. 64). “O Espírito Santo propositadamente acomoda ao nosso entendimento os modelos de oração registrados na Escritura” (João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo: Paracletos, 1999, v. 1, (Sl 13.3), p. 265). “Porque se viesse a nós em Sua majestade estaríamos perdidos; porém quando Se nos apresenta por meio de homens se acomoda a nossas debilidades para que possamos conhecer mais convenientemente sua verdade a qual Ele nos propõe” (Juan Calvino, Autoridad y Reverencia que Debemos a la Palabra de Dios: In: Sermones Sobre Job, Jenison, Michigan: T.E.L.L., 1988, (Sermon nº 17), p. 212). “Porque, uma vez que em si mesmo seja incompreensível, ele assume, quando quer manifestar-se, aquelas marcas pelas quais possa ser conhecido” (John Calvin, Calvin’s Commentaries, Grand Rapids, Michigan: Baker Book House Company, 1996 (Reprinted), v. 1/1, (Gn 3.8), p. 161). “Este é aquele arrependimento tão amiúde referido nas Escrituras. Não que Deus seja em si mutável, mas Ele usa a linguagem humana para que sejamos afetados com o mais profundo senso de sua ira” (J. Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo: Parakletos, 2002, v. 3, (Sl 106.23), p. 685]. “O Espírito Santo não teve intenção de ensinar astronomia; e, com o propósito de instruir procurou ser comum às pessoas mais simples e iletradas” (John Calvin, Commentary on the Book of Psalms, Grand Rapids, Michigan: Baker Book House (Calvin’s Commentaries, v. 6/4), 1996 (Reprinted), (Sl 136.7), p. 184]. Veja-se: James Orr, Ciência e Fé Cristã: In: R.A. Torrey, ed. Os Fundamentos, (Edição atualizada por L. Feinberg), São Paulo: Hagnos Editora, 2005, p. 129-139. Ver também: Herman Bavinck, Reformed Dogmatics: Volume 1: Prolegomena, Grand Rapids, Michigan: Baker Academic, 2003, p. 214.
[16]Calvino usou deste recurso hermenêutico para explicar assuntos aparentemente contraditórios na Bíblia. Falando sobre os antropomorfismos bíblicos, diz em lugares diferentes: “Pois quem, mesmo os de bem pouco entendimento, não percebe que Deus fala como que a balbuciar, como as amas costumam fazer com as crianças? Por isso, formas de expressão como essas não exprimem, de maneira clara e precisa, o que Deus é, mas acomodam o conhecimento que temos dele à pobreza de nossa compreensão. Para que assim aconteça, é necessário que Ele desça muito abaixo de sua grandeza” (J. Calvino, As Institutas, I.13.1). “A descrição que dele se nos outorga tem de acomodar-se-nos à capacidade, para que seja de nós entendida. Esta é, na verdade, a forma de acomodar-se: que tal se nos represente, não qual é em Si, porém, qual é possível de ser de nós apreendido” (J. Calvino, As Institutas, I.17.13). Ver também: João Calvino, O Livro dos Salmos, v. 1, (Sl 13.3), p. 265; (Sl 19.4-6), p. 420-421; João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo: Paracletos, 1999, v. 2, (Sl 50.14), p. 409; João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo: Parakletos, 2002, v. 3, (Sl 78.65), p. 241; (Sl 91.4), p. 447; (Sl 93.2), p. 474; (Sl 106.23), p. 685; João Calvino, O Evangelho segundo João, São José dos Campos, SP.: Editora Fiel, 2015, v. 1, (Jo 1.1), p. 30; (Jo 3.12), p. 127; v. 2, (Jo 14.28), p. 111; (Jo 21.25), p. 327; As Institutas, I.14.3,11; I.16.9; IV.17.11; As Institutas, (1541) III.8. Deste princípio derivado da Retórica (Cf. Alister E. McGrath, A Vida de João Calvino, São Paulo: Editora Cultura Cristã, 2004, p. 154ss.) ele tirou um princípio pedagógico: “Um sábio mestre tem a responsabilidade de acomodar-se ao poder de compreensão daqueles a quem ele administra o ensino, de modo a iniciar-se com os princípios rudimentares quando instrui os débeis e ignorantes, não lhes dando algo que porventura seja mais forte do que podem suportar” (J. Calvino, Exposição de 1 Coríntios, (1Co 3.1), p. 98-99. Ver também: João Calvino, As Pastorais, São Paulo: Paracletos, 1998, (2Tm 2.15), p. 235). Hooykaas (1906-1994) sustenta que a “teoria da acomodação de Calvino” exerceu poderosa influência sobre os astrônomos protestantes (Ver: R. Hooykaas, A Religião e o Desenvolvimento da Ciência Moderna, Brasília, DF.: Editora Universidade de Brasília, 1988, p. 160ss.; Alister E. McGrath, Historical Theology: An Introduction to the History of Christian Thought, Massachusetts: Blackwell Publishers, 1998, p. 210. Em que pese o marxismo do autor, Christopher Hill (1912-2003), veja-se sua obra: Christopher Hill, A Bíblia Inglesa e as Revoluções do Século XVII, Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003, p. 43ss.).
[17] John Calvin, Calvin’s Commentaries, Grand Rapids, Michigan: Baker Book House Company, 1996 (Reprinted), v. 8/1, (Is 40.18), p. 223
[18] Obviamente, não pretendemos definir aqui por via negativa, apofática, optando pelo “anonimato” de Deus, dizendo que a melhor definição é a indefinição ou, seguindo um caminho vago e impessoal de uma teologia mística e negativa (Ver: Carl F.H. Henry, Deus, Revelação e Autoridade v. 2: Deus que fala e age – 15 teses – parte um, São Paulo: Hagnos, 2017, p. 250-251); ou ainda, o ápeiron de Anaximandro (c. 610-547 a.C.) que foi o primeiro a usar a palavra “princípio” (arche). (Dox., 1). Para ele, o princípio (a)rxh/) de todas as coisas é o “Ápeiron” (a)/peiron = “sem fim”, “ilimitado”, “indeterminado”, “indefinido”, “privado de limite espacial”). (Dox., 1,2,6). Ele é ilimitado, eterno, indissolúvel e indestrutível (Frags., 2,3; Dox., 2,3). Ele dirige todas as coisas (Dox., 2,3). É possível – já que as fontes que temos são apenas de segunda mão (Cf. José Ferrater Mora, Apeiron: Dicionário de Filosofia, São Paulo: Edições Loyola, 2001, v. 1, [p. 156-1157], p. 156) − que Anaximandro tenha derivado o seu a)/peiron do xa/oj de Hesíodo, quem atribuía ao xa/oj o início de tudo. (Hesíodo, Teogonia: A Origem dos Deuses, São Paulo: Roswitha Kempf; Editores, 1986, 116ss. p. 132). Para Hesíodo, o xa/oj era espaço indefinido entre o céu e a terra. (Vejam-se: Damião Berge, O Logos Heraclítico: Introdução ao Estudo dos Fragmentos, Rio de Janeiro: Instituto Nacional do Livro, 1969, p. 139-140; G.S. Kirk; J.E. Revan, Os Filósofos Pré-Socráticos, 2. ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1982, p. 18ss.).
O termo a)/peiron permite diversas interpretações. (Vejam-se: F.E. Peters, Termos Filosóficos Gregos: Um léxico histórico, 2. ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, (1983), p. 32-33; José Ferrater Mora, Apeiron: Dicionário de Filosofia, v. 1, [p. 156-157], p. 156). De qualquer forma, Anaximandro parece escapar da atribuição material como origem de todas as coisas ou, pelo menos, de nominá-la.
Embora meu ponto não seja esse, não posso deixar de mencionar uma relevante contribuição de Anaximandro. Ele de fato assinala um grande progresso em relação a Tales pois, a sua resposta quanto à origem do universo é marcada por uma compreensão de que o elemento primordial, o “arche” de todas as coisas, não pode ser um elemento material determinado como o Ar, a Água, a Terra, o Fogo ou mesmo, a mistura de dois ou mais destes elementos. Todos eles são gerados, criados; logo, finitos. (Dox., 2). Talvez a sua filosofia seja a primeira tentativa ocidental, de explicar a origem de todas as coisas por derivação do infinito não de uma causa material. (Vejam-se: F. Klimke; E. Colomer, Historia de la Filosofía, 3. ed. Barcelona: Editorial Labor S.A., 1961, p. 22; G.S. Kirk; J.E. Revan, Os Filósofos Pré-Socráticos, 2. ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1982, p 139; F. Nietzsche, A Filosofia na Época Trágica dos Gregos, São Paulo: Abril Cultural (Os Pensadores, v. 32), 1974, § 4, p. 42; Giovanni Reale; Dario Antiseri, História da Filosofia: Antiguidade e Idade Média, São Paulo: Paulus, 1990, v. 1, p. 31-34; G. Fraile, Historia de la Filosofia (Grecia y Roma), 2. ed. Madrid: Biblioteca de Autores Cristianos, v. 1, 1965, p. 144-147). Foi ele, escreve Jaeger (1888-1961), “o único de cuja concepção do mundo podemos obter uma representação exata” (Werner Jaeger, Paidéia: A Formação do Homem Grego, 2. ed. São Paulo; Brasília, DF., Martins Fontes; Editora Universidade de Brasília, 1989, p. 136). Em outro lugar, continua Jaeger: “Em Anaximandro encontramos o primeiro quadro unificado e universal do mundo, baseado em uma dedução e explicação natural de todos os fenômenos” (Werner Jaeger, A Teologia de los Primeiros Filosofos Gregos, México: Fondo de Cultura Económica, 3ª reimpresión, 1992, p. 29).
[19] Vejam as pertinentes observações de Frame (John M. Frame, A Doutrina de Deus, São Paulo: Cultura Cristã, 2013, p. 166ss.).
[20] Achei oportuna a colocação de Horton que li após ter escrito esse parágrafo: “Não é simplesmente que Deus possua mais ser, conhecimento, poder, amor e justiça, mas que Deus transcende toda a comparação conosco – até mesmo aquelas que ele revela nas Escrituras” (Michael Horton, Doutrinas da fé cristã, São Paulo: Cultura Cristã, 2016, p. 47). Veja-se também à frente o tratamento de Horton mais detalhado sobre o assunto, p. 59-63.
[21] Veja-se: Ronald H. Nash, Cosmovisões em Conflito: escolhendo o Cristianismo em um mundo de ideias, Brasília, DF.: Monergismo, 2012, p. 99ss.
[22] “Quando chegamos a conhecer Deus, ficamos temerosos, esmagados; vemos nele uma grandeza que torna como anões todos os outros objetos de conhecimento, reais ou potenciais” (John M. Frame, A doutrina de Deus, São Paulo: Cultura Cristã, 2013, p. 166).

