O mundo de Platão e a verdade revelada em Cristo

Deus como padrão absoluto da realidade e da verdade

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Nota do editor:  Este é o décimo terceiro artigo da série de Hermisten Maia – O Ser, as pessoas e as coisas: Um diálogo entre Teologia e Filosofia. 


A filosofia de Platão (427–347 a.C.) sustentava que o nosso mundo é apenas um mundo de aparências. O mundo sensível é apenas um reflexo de uma realidade superior, imutável e eterna, da qual o mundo visível não passaria de uma cópia imperfeita. Essa concepção influenciou pensadores posteriores, como Cícero (106–43 a.C.) e Fílon de Alexandria (c. 20 a.C.–c. 42 d.C.).[1]

Porém, o Novo Testamento apresenta uma perspectiva radicalmente distinta: Jesus afirma que a Palavra de Deus é a verdade (Jo 17.17). O termo grego (alēthinós) (verdadeiro, real) deriva da mesma raiz de (alētheia)[2] (verdade). Isso  indica que para os cristãos, a realidade última não está em ideias abstratas, mas na revelação divina. Cristo se autodesigna como o verdadeiro pão do céu (Jo 6.32), a videira verdadeira (Jo 15.1), enviado pelo Deus verdadeiro (Jo 7.28; 1Ts 1.9; 1Jo 5.20). No Apocalipse, Ele é chamado de “o verdadeiro” (Ap 3.7, 15; 6.10), e suas palavras são “fiéis e verdadeiras” (Ap 15.3; 16.7; 19.2; 21.5; 22.6). O termo contrasta aquilo que é genuíno e eterno com o que é apenas terreno (Hb 8.2; 9.24), e Deus procura os verdadeiros adoradores (Jo 4.23).

Assim, a oração de Jesus nos ensina que a Palavra de Deus é real, não apenas aparentemente, mas de forma absoluta. Se me permitem a expressão, a Palavra de Deus é a “verdadeira verdade”, pois Deus é o padrão final e absoluto para todas as afirmações que se dizem verdadeiras.[3]

A Escritura não é mera aparência ou possibilidade de verdade, mas a realidade objetiva diante da qual todas as coisas devem ser avaliadas. Como bem afirma MacArthur: “As Escrituras não são apenas a verdade inteira, elas são também o mais elevado padrão de toda verdade – a regra pela qual todas as alegações de verdade devem ser medidas”.[4]

Ateísmo prático: viver como se a Palavra fosse uma aparente verdade

Apesar dessa clareza bíblica, muitos cristãos vivem como se a Palavra fosse apenas uma verdade distante, sem relevância para o cotidiano. Esse é o ateísmo prático: professar fé na Bíblia, mas negar sua autoridade na prática.

Quando Jesus declara que a Palavra é a verdade, Ele afirma que ela é válida para todas as esferas da vida: casamento, profissão, educação, vocação, lazer, ética, espiritualidade. Schaeffer resume: “A verdadeira espiritualidade abrange toda a realidade”. [5]

Portanto, não basta apenas confessar a Bíblia como verdade; é necessário aplicá-la em cada dimensão da existência. A incoerência entre fé e prática revela que muitas vezes tratamos a Palavra como se fosse apenas uma “aparência de verdade”.

Não há verdade fora de Deus

Scott observa com precisão: “Não há verdade no sentido bíblico do termo, isto é, verdade válida, fora de Deus. Toda verdade procede de Deus e é verdade porque está relacionada com Deus”. [6]

A sua Palavra, portanto, como toda a sua comunicação conosco, fundamenta-se nesta realidade. O Deus da verdade se revela verdadeiramente tal como é em sua essência, se mostrando a nós, ainda que não exaustivamente, mas, proporcionalmente, como de fato é.

O salmista chama o Senhor de “Deus da verdade (’emeth) (Sl 31.5; Is 65.16). Jeremias declara: “Mas o Senhor é verdadeiramente (’emeth) Deus; Ele é o Deus vivo e o Rei eterno” (Jr 10.10). A lei de Deus é descrita como “a própria verdade” (Sl 119.142, 151, 160), [7] e seus mandamentos como “fiéis, dignos de crédito (’emunah)” (Sl 119.86).

A palavra mitsvah (mandamentos) é frequentemente associada à Torah e ao temor do Senhor, sendo usada de modo intercambiável com a própria Lei e com o “temor do Senhor”. (Gn 26.5; Ex 16.28; 24.12; Dt 30.10).

Referindo-se ao “corpo geral da Lei de Deus”,[8] enfatiza as exigências naturais da Aliança feita por Deus com o seu povo, e demonstra a sabedoria adquirida em observá-la, sem nada acrescentar ou omitir: De tudo o que se tem ouvido, a suma é: Teme a Deus e guarda os seus mandamentos (mitsvah); porque isto é o dever de todo homem(Ec 12.13).

Em outro lugar, escreve o salmista: “Todas as veredas do SENHOR são misericórdia e verdade (‘emeth) para os que guardam a sua aliança e os seus testemunhos” (Sl 25.10).

Algumas considerações

A realidade última não se encontra em construções humanas ou em abstrações filosóficas, mas na própria essência de Deus revelada em Cristo. Ele é a verdade encarnada, e sua Palavra é o padrão absoluto diante do qual todo conhecimento deve ser avaliado.

A verdade não é autônoma nem relativa; ela procede da natureza de Deus e encontra nele seu fundamento definitivo. Esse caráter absoluto estabelece um critério objetivo para toda avaliação da experiência e do pensamento humano.

A revelação progressiva das Escrituras confirma essa certeza: desde Gênesis até o Apocalipse, a verdade de Deus se manifesta de forma consistente e fiel. Por isso, o crente é chamado a rejeitar o ateísmo prático e, a assumir uma vida coerente com a Escritura em todas as áreas da existência.

Deus procura adoradores que o adorem “em espírito e em verdade” (Jo 4.23). A vida cristã, portanto, não pode ser fragmentada; ela deve ser integral, envolvendo todas as dimensões da experiência humana.

Além disso, a Palavra de Deus é suficiente para orientar o povo em tempos de crise, dúvida ou confusão cultural. É nela que encontramos direção segura e esperança firme.


[1] Veja-se: Platão, A República, 7. ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, (1993), 382e; 499c; 522a; Platão, Timeu, São Paulo: Hemus, [s.d.], 22d.

[2] Veja-se: A.C. Thiselton, Verdade: In: Colin Brown, ed. ger. O Novo Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento, São Paulo: Vida Nova, 1983, v. 4, p. 708-711.

[3] “O relativismo é uma revolta contra a realidade objetiva de Deus. A existência de Deus cria a possibilidade da verdade. Deus é o padrão essencial e final para todas as afirmações da verdade. Quem Ele é, o que Ele quer, o que Ele diz é o padrão externo e objetivo para medirmos todas as coisas. Quando o relativismo diz que não há qualquer padrão de verdade válido universalmente, fala como um ateísta” (John Piper, Pense – A Vida da Mente e o Amor de Deus, São José dos Campos, SP.: Fiel, 2011, p. 150).

[4]John F. MacArthur, Jr.  Princípios para uma Cosmovisão Bíblica: uma mensagem exclusivista para um mundo pluralista, São Paulo: Cultura Cristã, 2003, p. 49.

[5]Francis A. Schaeffer, Um manifesto cristão. In: Francis A. Schaeffer, A igreja no século 21, São Paulo: Cultura Cristã, 2010, p. 166. Em outro lugar: “A Verdadeira espiritualidade significa o senhorio de Cristo sobre o homem todo” (Francis A. Schaeffer, A Arte e a Bíblia, Viçosa, MG.: Editora Ultimato, 2010, p. 17).

[6]Jack B. Scott, Aman: In: R. Laird Harris, et. al.  eds. Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento, São Paulo: Vida Nova, 1998, p. 87.

[7]“Tu estás perto, SENHOR, e todos os teus mandamentos são verdade (tm,a/) (‘emeth)” (Sl 119.151). “As tuas palavras são em tudo verdade (tm,a/) (‘emeth) desde o princípio, e cada um dos teus justos juízos dura para sempre” (Sl 119.160).

[8] E. Calvín Beísner, Psalms of Promise: Celebrating the Majesty and Faithfulness of God, 2. ed. Phillipsburg, NJ.: P. & R. Publishing, 1994, p. 35.

 

Referências Bibliográficas

  1. BEÍSNER, E. Calvín. Psalms of Promise: Celebrating the Majesty and Faithfulness of God. 2. ed. Phillipsburg, NJ.: P. & R. Publishing, 1994.
  2. MACARTHUR Jr., John F. Princípios para uma Cosmovisão Bíblica: uma mensagem exclusivista para um mundo pluralista. São Paulo: Cultura Cristã, 2003.
  3. PIPER, John. Pense – A Vida da Mente e o Amor de Deus. São José dos Campos, SP.: Fiel, 2011.
  4. PLATÃO. A República. 7. ed. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1993.
  5. PLATÃO. Timeu. São Paulo: Hemus, [s.d.].
  6. SCHAEFFER, Francis A. Um manifesto cristão. In: SCHAEFFER, Francis A. A igreja no século 21. São Paulo: Cultura Cristã, 2010.
  7. SCHAEFFER, Francis A. A Arte e a Bíblia. Viçosa, MG.: Editora Ultimato, 2010.
  8. SCOTT, Jack B. Aman. In: HARRIS, R. Laird et al. (Eds.). Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 1998.
  9. THISELTON, A. C. Verdade. In: BROWN, Colin (Ed.). O Novo Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 1983. v. 4, p. 708-711.

Autor: Hermisten Maia. © Voltemos ao Evangelho. Website: voltemosaoevangelho.com. Todos os direitos reservados. Editor e Revisor: Vinicius Lima.

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