O pensar cristão é submisso a Deus

O caminho bíblico do pensar cristão

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Nota do editor:  Este é o décimo quinto e último artigo da série de Hermisten Maia – O Ser, as pessoas e as coisas: Um diálogo entre Teologia e Filosofia.  O texto defende que o discipulado cristão envolve necessariamente o ato de pensar e de refletir criticamente sobre o próprio pensamento, sempre em submissão à revelação de Deus. A fé cristã não exclui a razão, mas a orienta, reconhecendo que a queda afetou nossa capacidade intelectual e exige renovação da mente pelo Espírito. A cosmovisão molda nossa percepção da realidade, e somente em Cristo encontramos o fundamento ontológico, epistemológico e existencial da verdade. Pensar biblicamente conduz à obediência, ao santo temor, à alegria verdadeira e a uma ética coerente com a realidade criada e governada por Deus, revelada plenamente em Jesus Cristo.


Os cristãos precisam pensar sobre o pensamento. (…) A maioria dos seres humanos, contudo, nunca pensa profundamente sobre o ato de pensar. (…) Devido à devastação intelectual causada pela queda, temos a obrigação  de pensar sobre o ato de pensar. Essa é a razão pela qual o discipulado cristão é, também, uma atividade intelectual.  – R. Albert Mohler Jr.[1]

Pensar e pensar sobre o pensar

Na Segunda Epístola destinada a Timóteo, Paulo se despede. Apresenta instruções finais e palavras de encorajamento ao seu discípulo mais próximo. Escreve então: Pondera (= atentar, compreender, pensar, entender) o que acabo de dizer, porque o Senhor te dará compreensão (= entendimento, inteligência, discernimento) em todas as coisas” (2Tm 2.7).

Pensar, pensar sobre o pensar é algo salutar e muito desafiante e abençoador. Somos destinados ao pensar. Devemos nos valer deste privilégio, próprio do ser humano, concedido pelo Criador.

Precisamos aprender que a fé não elimina a nossa responsabilidade de pensar. Pensar não exclui a nossa fé. Pelo contrário, é por fé que nos aventuramos no campo da pesquisa, certos de que podemos conhecer. Sem essa pressuposição básica, não haveria a possibilidade  de pesquisa.

Portanto, ambas as atitudes devem caracterizar a vida do cristão a fim de que a nossa fé seja compreensível e a nossa razão seja guiada pela fé.

Portanto, fé e razão devem caminhar juntas em submissão a Deus. O pensar obscuro, destituído de fundamento, leva à confusão.  O seu repetir e propagar cria uma estagnação social em todos os níveis. A confusão intelectual é uma das raízes de repetições infindáveis que sufoca a possibilidade de crescimento, ajudando a perpetuar o erro, o equívoco e o que é obsoleto em sua constituição e prática.

Calvino (1509-1564), escreveu com propriedade:

Chamo serviço não somente o que consiste na obediência à Palavra de Deus, mas também aquele pelo qual o entendimento do homem, despojado dos seus próprios sentimentos, converte-se inteiramente e se sujeita ao Espírito de Deus. Essa transformação, que o apóstolo Paulo chama renovação da mente [Rm 12.2], tem sido ignorada por todos os filósofos, apesar de constituir o primeiro ponto de acesso à vida. Eles ensinam que somente a razão deve reger e dirigir o homem, e pensam que só a ela devemos ouvir e seguir; com isso, atribuem unicamente à razão o governo da vida. Por outro lado, a filosofia cristã pretende que a razão ceda e se afaste, para dar lugar ao Espírito Santo, e que por Ele seja subjugada e conduzida, de modo que já não seja o homem que viva, mas que, tendo sofrido com Cristo, nele Cristo viva e reine.[2]

O Senhor nos dá compreensão, nos faz ter entendimento de toda a realidade. O real não é uma utopia. Ele é acessível e, portanto, conhecível.

Não vivemos num mundo de imagens, mas, de realidade, por mais desagradável que essa possa se configurar a nós em determinadas circunstâncias. No entanto, precisamos refletir a respeito.

Não basta ler, é preciso refletir. O que me faz pensar que o caminho para a compreensão das coisas é um pensar intenso, humilde e submisso a Deus. Nem sempre as coisas se mostram a nós de forma clara e evidente. Precisamos pensar a respeito.

Matrizes intelectuais

Além da vulnerabilidade de nossos órgãos dos sentidos, conforme vimos,  todos temos matrizes intelectuais – bem fundamentadas ou não – que conferem determinado sentido à realidade por ela ser percebida como tal.

A realidade é o que é, no entanto, nós a percebemos mediante contornos conferidos e mediados por nossa experiência. O nosso lugar social privilegia a nossa percepção. O que nos privilegia também nos delimita. Não somos oniscientes. Portanto, no que acreditamos, de certa forma, determina a construção de nossa identidade. Isto é válido dentro de uma perspectiva cultural como individual.

Cada época é caracterizada por determinadas crenças as quais moldam a sua visão de mundo.[3] Todos temos a nossa filosofia, adequada ou, não, de vida.[4] Esta filosofia é a nossa cosmovisão. É esta cosmovisão que nos permite ser como somos, e fornecem elementos de padronização para a nossa cultura.

Schaeffer (1912-1984) lembra que “as ideias nunca são neutras ou abstratas. Têm consequências na maneira como vivemos e agimos em nossa vida pessoal e na cultura como um todo.”[5]  Cosmovisão é algo inescapável ao ser humano. Todos a temos.[6] Por sua vez, toda cosmovisão, consciente ou não, tem uma matriz ontológica que traz consequências epistemológicas que são determinantes para a nossa vida e conduta.

Como vimos, o mundo do conhecimento pertence a Deus. Ele se revela fidedignamente nos possibilitando conhecê-lo real e pessoalmente.

A epistemologia precede a lógica, e esta, por mais coerente que seja, se estiver alicerçada em uma premissa equivocada, conduzirá inevitavelmente a conclusões erradas e, consequentemente, a uma ética de fundamentos frágeis e inconsistentes. Indo além, como afirma Sire (1933-2018), a ontologia antecede à epistemologia: antes do conhecer, há o ser. [7] Um conhecimento universal, ainda que equivocado, não altera a essência da realidade. Se todos negassem a existência de Deus, isso não mudaria o fato de Deus ser quem é. O conhecimento, seja correto ou incorreto, modifica apenas a nossa relação com o real, mas jamais a essência daquilo que existe.

É preciso afirmar que toda verdade possui coerência lógica; contudo, o fato de algo nos parecer lógico não garante que seja verdadeiro. Por isso, a questão epistemológica precede a práxis e, em grande medida, a orienta e determina.

Na declaração de Cristo: “Eu sou o caminho, e a verdade, e a vida; ninguém vem ao Pai senão por mim” (Jo 14.6), significa que temos nele a verdade epistemológica (Caminho); verdade ontológica ou metafísica (Verdade em essência) e a verdade existencial (Vida). Em Cristo temos o fundamento e modelo de interpretação e conhecimento da verdade. A verdade absoluta personificada e, a verdade que serve de padrão absoluto e final para a nossa existência.

A história é regida por Deus que age por meio dos meios ordinários e extraordinários para cumprir o seu propósito glorioso. Jesus Cristo, O enviado de Deus, é o próprio Deus que confere sentido à História e à nossa existência; no final, na consumação da história, nós seremos glorificados nele e Ele será glorificado em nós e por nós (Jo 17.10/2Ts 1.10-12).

O apelo último da fé cristã é a autorrevelação de Deus em Jesus Cristo. O nosso apelo não é à razão ou à experiência, mas ao Deus encarnado. Nele, encontramos a Verdade e o sentido de todas as coisas.[8]

A Socialização do pensamento

Por vezes pensamos que o pensar com intensidade é uma tarefa exclusiva para profissionais, quem sabe, filósofos. No entanto, o Cristianismo apresenta um desafio constante ao pensamento, à análise e ponderação.[9]

O homem foi destinado ao pensamento. Na Criação, vemos que Deus planeja, executa e avalia a sua obra (Gn 1.26-31). Ao mesmo tempo, lemos que Ele nos criou à sua imagem e semelhança. Por isso, não podemos conceber o ser humano exercendo plenamente seus dons sem recorrer, de modo natural, a essa característica divina que lhe foi concedida e que o define.[10]

Adler (1902-2001) resume de forma precisa essa vocação do ser humano para o pensamento e para a filosofia:

Não podemos deixar de repetir que a filosofia é assunto para todos. Ser um ser humano é ser dotado com a propensão de filosofar. Em certa medida, todos nos ocupamos de pensamentos filosóficos durante o curso de nossas vidas. Reconhecer isso não é o bastante. Também é necessário compreender por que é assim e qual é o negócio da filosofia. A resposta, em uma palavra, é ideias. Em duas palavras, é grandes ideias – as ideias básicas e indispensáveis para compreendermos a nós mesmos, nossa sociedade e o mundo em que vivemos.[11]

Outro aspecto que merece destaque é que, embora nosso pensamento possa fluir com facilidade em determinados assuntos, levando-nos a formar opiniões ou a seguir uma linha de raciocínio aparentemente coerente e sensata, isso não significa que devamos nos acomodar.

Precisamos cultivar a arte de refletir sobre o próprio ato de pensar. O pecado afetou nossa estrutura mental e, por consequência, tanto o pensar quanto o processo de reflexão. Grande parte do que enxergamos e valorizamos não está apenas no objeto visto, mas na predisposição intelectual que molda a forma como vemos e interpretamos a realidade.[12]

Como cristãos, ao partirmos do pressuposto equivocado de que a fé é apenas uma questão de sentimento, corremos o risco de reduzir tanto a nossa fé quanto as Escrituras a essa única dimensão da realidade. Assim, o nosso culto acaba limitado ao que sentimos, mesmo sem compreender ou nos esforçar para isso. Contudo, não podemos ser cristãos autênticos sem o cultivo de uma mente que também busque o amadurecimento.[13]

Piper nos adverte:

Pensar não é o alvo da vida. Pensar, como o não pensar, pode ser o alicerce para a vanglória. Pensar, sem oração, sem o Espírito Santo, sem obediência e sem amor ensoberbecerá e destruirá (1Co 8.1). Mas o pensar em submissão à poderosa mão de Deus, o pensar saturado de oração, o pensar guiado pelo Espírito Santo, o pensar vinculado à Bíblia, o pensar em busca de mais razões para louvar e proclamar as glórias de Deus, o pensar a serviço do amor – esse pensar é indispensável em uma vida de pleno louvor a Deus.[14]

Cada época, de certo modo, torna-se cativa de valores que se apresentam com aparência de racionalidade, objetividade, universalidade e perpetuidade. Escapar dos encantos sedutores de nossa geração é tarefa árdua.[15]

Em contraste, Paulo instrui Timóteo a refletir sobre o que lhe escreveu, buscando compreensão no Senhor. Reflexão e oração caminham inseparavelmente. Assim, somos chamados a pensar sobre o próprio ato de pensar, rogando a Deus que nos conceda iluminação.[16]

Pela graça, Deus nos dará discernimento em todas as coisas. Pensar, orar e discernir devem ser o prelúdio de uma submissão sincera. Pense sobre isso.

Calvino comenta:

A essência da sabedoria celestial consiste nisto: que os homens, tendo seus corações fixos em Deus através de uma fé genuína e não fingida, o invoquem; e que, com o propósito de manter e nutrir sua confiança nele, se exercitem em meditar sinceramente nesses benefícios; e que, então, se lhe entreguem em obediência sincera e devotada.[17]

Os caminhos de Deus são para serem conhecidos e seguidos

O salmista não buscou conhecer os caminhos do Senhor apenas de forma intelectual, como quem deseja exibir, em um suposto debate “edificante”, seu vasto conhecimento das Escrituras. Não o fez para ostentar erudição, talvez até sob um disfarce de humildade, como se pudesse dominar intelectualmente o modo de Deus conduzir a vida.

Pelo contrário, Davi desejava conhecer para seguir com integridade as suas veredas: “Faze-me, SENHOR, conhecer (yada) os teus caminhos (derek), ensina-me (lamad) as tuas veredas (orach)” [18] (Sl 25.4).

O Autor da Palavra nos ensina a ler a Palavra

Portanto, devemos buscar e suplicar pelo ensino de Deus. Ele que é o Autor da Palavra, é também, quem nos ensina a lê-la. Esta é a oração persistente de servos de Deus:

Bendito és tu, SENHOR; ensina-me (למד)(lamad) os teus preceitos. (Sl 119.12).

Eu te expus os meus caminhos, e tu me valeste; ensina-me  (למד) (lamad) os teus decretos. (Sl 119.26).

A terra, SENHOR, está cheia da tua bondade; ensina-me (למד)(lamad)  os teus decretos. (Sl 119.64).

Ensina-me (למד)(lamad)  bom juízo e conhecimento, pois creio nos teus mandamentos. (Sl 119.66).

Tu és bom e fazes o bem; ensina-me (למד)(lamad)  os teus decretos. (Sl 119.68).

As tuas mãos me fizeram e me afeiçoaram; ensina-me (bîyn) para que aprenda (למד)(lamad) os teus mandamentos. (Sl 119.73).

Ensina-me (bîyn) a fazer a tua vontade, pois tu és o meu Deus; guie-me o teu bom Espírito por terreno plano. (Sl 143.10) (Do mesmo modo: Sl 119.108,124,135).

Davi e os demais servos de Deus quando assim oravam, estavam firmados na promessa de Deus, que diz: Instruir-te-ei (sakal) e te ensinarei o caminho (derek) que deves seguir; e, sob as minhas vistas, te darei conselho” (Sl 32.8). Outra vez: “No caminho (derek) da sabedoria te ensinei, e pelas veredas da retidão te fiz andar” (Pv 4.11).

O propósito de Deus em nos ensinar é para que, obedecendo às suas instruções, usufruamos de suas promessas preparadas de forma graciosa para os seus filhos: “Agora, pois, ó Israel, ouve os estatutos e os juízos que eu vos ensino (למד) (lamad), para os cumprirdes, para que vivais, e entreis, e possuais a terra que o SENHOR, Deus de vossos pais, vos dá” (Dt 4.1). (Do mesmo modo: Dt 4.5,14; 5.1,31; 6.1).

Deus conhece os nossos caminhos: “Esquadrinhas o meu andar (orach) e o meu deitar e conheces todos os meus caminhos (derek) (Sl 139.3).

Caminho preventivo e corretivo

Seguir o caminho de Deus nos livra de trilhas perigosas e perniciosas que, inevitavelmente, seguiríamos sem a sua direção: “Quanto às ações dos homens, pela palavra dos teus lábios, eu me tenho guardado dos caminhos (orach) do violento” (Sl 17.4).

Os caminhos do Senhor são ao mesmo tempo preventivos e corretivos, afastando-nos das veredas falsas e destrutivas. “De que maneira poderá o jovem guardar puro o seu caminho? Observando-o segundo a tua palavra” (Sl 119.9).

À frente declara a sua prática santamente assimilada: “De todo mau caminho (orach) desvio os pés, para observar a tua palavra” (Sl 119.101). No processo de caminhar progressivo de aprendizado e obediência, testifica: “Por meio dos teus preceitos (piqqud), consigo entendimento (bin); por isso, detesto todo caminho (xr;ao) (orach) de falsidade” (Sl 119.104/Sl 119.128).

Portanto, seguir o caminho de Deus é a única maneira de viver com sabedoria. A nossa humanidade se desenvolve e se aperfeiçoa na obediência a Deus.[19] A obediência é a fé manifestada. A fé é a obediência oculta.

Desse modo, aprendemos biblicamente, que o meditar na Palavra é o prelúdio à obediência sincera: Meditarei (siach) nos teus preceitos (piqqud) (= Estatutos), e às tuas veredas (orach) terei respeito” (Sl 119.15). 

Se Deus é verdadeiramente o nosso Senhor, cabe a nós meditarmos em sua Palavra, orar buscando dele discernimento e aplicá-la com fidelidade às diversas situações e contextos da vida.

Conhecimento e Santo Temor

Outro aspecto que desejo pontuar relaciona-se ao conhecimento de Deus e o santo temor.

O temor que Deus inspira é evidente nas páginas das Escrituras. Esse temor não nasce da ignorância quanto ao seu amor e bondade, mas da percepção de sua grandeza e santidade, que ultrapassam qualquer padrão humano e se revelam a nós de modo terrível, impenetrável e incomensurável. Assim, Deus é para ser amado, mas também reverenciado com santo temor, pois nada se compara a Ele.

A compreensão correta dessa realidade deve nos conduzir a atitudes condizentes. O senso da grandeza incomensurável de Deus não nos leva à especulação, mas ao temor reverente que se expressa em obediência e culto.

Os salmistas se alegram no temor de Deus, cientes da sua santa majestade: “Porque grande é o SENHOR e mui digno de ser louvado, temível (yare) mais que todos os deuses” (Sl 96.4). “Celebrem eles o teu nome grande (gadol) e tremendo (yare), porque é santo (qadosh)” (Sl 99.3).

O nosso santo temor acompanhado de uma atitude condizente, alegra o Senhor. A Palavra nos ensina que o Deus abençoa os que o temem: “Ele abençoa os que temem (yare) o SENHOR, tanto pequenos como grandes” (Sl 115.13)

Esse Deus, Rei glorioso e temível, é também o nosso Pastor − aquele que, por graça, se tornou acessível e cuida pessoalmente de nós.

Conhecer a Deus, relacionar-se genuinamente com Ele, saber que ouve nossas orações, que nos fala por meio de sua Palavra e que habita em nós pelo seu Santo Espírito é uma alegria indizível, reverente, profundamente estimulante e desafiadora. É o chamado para vivermos segundo o seu glorioso propósito, como povo redimido e propriedade exclusiva do Senhor.

A piedade é proveitosa em todas as coisas. Que nossas pesquisas e reflexões sejam guiadas por Deus e que perseveremos nesse espírito para a sua Glória. Amém!

A Palavra que alegra o coração

A Palavra de Deus, em toda a sua amplitude, alegra o coração humano. É o que experimentou o salmista: “Os preceitos (piqqud) (= Estatutos) do SENHOR são retos (yashar) (justos, íntegros, corretos) e alegram (samach) o coração” (Sl 19.8).

A verdadeira alegria que a Palavra traz não é passageira, mas duradoura, porque fala ao coração − o centro vital e essencial do nosso ser.

Essa alegria não se reduz a mero sentimento. Ela envolve o conhecimento de quem é Deus e a experiência de seu cuidado preservador, que fortalece, perdoa e redime. Suas promessas tornam-se realidade em nossa caminhada de aprendizado e confiança jubilosa.

Além disso, essa alegria não depende das circunstâncias. Permanece porque nos dá uma visão correta da existência, educando e moldando o coração.

Em contraste, a alegria que o mundo busca é, em geral, sem Deus. Por isso, nunca alcançará a verdadeira alegria, pois não há genuína alegria na ausência do Senhor (Sl 16.11).[20]

Essa busca ilusória pode até parecer duradoura, mas revela-se frágil, inconsistente e, muitas vezes, irresponsável.[21]

Pela Palavra, aprendemos a nos alegrar em Deus e em sua contínua e abençoadora presença. É assim que o salmista se expressa:

Alegrar-me-ei (samach) e exultarei em ti; ao teu nome, ó Altíssimo, eu cantarei louvores. (Sl 9.2).

Regozijem-se (samach) todos os que confiam em ti; folguem de júbilo para sempre, porque tu os defendes; e em ti se gloriem os que amam o teu nome. (Sl 5.11/Sl 30.2; 31.7; 32.11; 33.21; 35.27, etc.).

Conhecimento e Ética

O conceito cristão de pensar e viver articula três dimensões fundamentais:

  1. Ontologia – antes do conhecer, há o ser.
  2. Epistemologia – conhecer corretamente conduz à verdade.
  3. Ética – a prática decorre da verdade conhecida.

Assim, pensar na submissão a Deus nos conduz à obediência e à verdadeira alegria; por isso, alegremo-nos no Senhor. Amém!


[1] R. Albert Mohler Jr., O modo como o mundo pensa: Um encontro com a mente natural no espelho e no mercado. In: John Piper; David Mathis, orgs. Pensar – Amar – Fazer,  São Paulo: Cultura Cristã, 2013, [p. 44-61], p. 44,45,54).

[2] João Calvino, As Institutas da Religião Cristã: edição especial com notas para estudo e pesquisa, São Paulo: Cultura Cristã, 2006, v. 4, (IV.17), p. 184 (Veja-se a nota 5 in loc.).

[3]Veja-se: Alister E. McGrath, Fundamentos do Diálogo entre Ciência e Religião, São Paulo: Loyola, 2005, p. 19.

[4] Veja-se: J.P. Moreland; William L. Craig, Filosofia e Cosmovisão Cristã, São Paulo: Vida Nova, 2005, p. 27-28.

[5]Francis A. Schaeffer, O Grande Desastre Evangélico. In: Francis A. Schaeffer, A Igreja no Século 21, São Paulo: Cultura Cristã, 2010, p. 258.

[6]Ver: James W. Sire, Dando nome ao elefante: Cosmovisão como um conceito. Brasília, DF.: Monergismo, 2012, p. 158.

[7]Ver: James W. Sire, Dando nome ao elefante: Cosmovisão como um conceito, Brasília, DF.: Monergismo, 2012, p. 77-109.

[8]Veja-se: Alister E. McGrath, Paixão pela Verdade: a coerência intelectual do Evangelicalismo, São Paulo: Shedd Publicações, 2007, p. 24.

[9]“Pensar não é tarefa somente para grandes filósofos. Nós estamos todos envolvidos. “Precisamos pensar profundamente no que significa o cristianismo e sua relação com as questões culturais” (H.R. Rookmaaker, A Arte não Precisa de Justificativa, Viçosa, MG.: Ultimato, 2010, p. 32).

[10]“Não posso conceber um homem sem pensamento: seria uma pedra ou um animal” (Blaise Pascal, Pensamentos, São Paulo: Abril Cultural, 1973 (Os Pensadores, v. 16), VI.339. p. 127. Veja-se também, p. 128 e 130).

[11]Mortimer J. Adler, Como pensar sobre as grandes ideias, São Paulo: É Realizações, 2013, p. 21.

[12] “Você não precisa acreditar em tudo o que pensa, e a razão é simples: nós vemos o que queremos ver. (…) O nervo óptico, o único nervo com ligação direta com o cérebro, na verdade transmite mais impulsos do cérebro para o olho do que vice-versa. Isto significa que seu cérebro determina o que o olho vê. Você já está precondicionado. É por isso que, se quatro pessoas presenciarem um acidente, cada uma vai relatar algo diferente. Precisamos nos lembrar, e ensinar aos outros, que não devemos acreditar em tudo o que pensamos” (Rick Warren, A batalha pela sua mente. In: John Piper; David Mathis, orgs. Pensar – Amar – Fazer, São Paulo: Cultura Cristã, 2013, p. 27). “Em suas Memórias, Ludwig Richter [1803-1884] lembra uma passagem de sua juventude, quando certa vez, em Tivoli, ele e mais três companheiros resolveram pintar um fragmento de paisagem, todos firmemente decididos a não se afastarem da natureza no menor detalhe que fosse. E embora o modelo tivesse sido o mesmo e cada um tivesse sido fiel ao que seus olhos viam, o resultado foram quatro telas completamente diferentes – tão diferentes quanto as personalidades dos quatro pintores. O narrador concluiu, então, que não havia uma maneira objetiva de se verem as coisas, e que formas e cores seriam sempre captadas de maneira diferente, dependendo do temperamento do artista” (Heinrich Wölfflin, Conceitos Fundamentais da História da Arte, 4. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2000, (2. tiragem) 2006, p. 1).

[13]“Nossas igrejas estão cheias de pessoas que são espiritualmente nascidas de novo, mas que ainda pensam como não cristãs” (William L. Craig, Apologética Cristã para Questões difíceis da vida, São Paulo: Vida Nova, 2010, p. 14). À frente: “Nossas igrejas estão cheias de cristãos intelectualmente preguiçosos” (p. 26).

[14]John Piper, Pense – A Vida da Mente e o Amor de Deus, São José dos Campos, SP.: Fiel, 2011, p. 41.

[15]“Cada época caracteriza-se por determinadas crenças responsáveis por sua visão de mundo” (Alister E. McGrath, Fundamentos do Diálogo entre Ciência e Religião, São Paulo: Loyola, 2005, p. 19).

[16]“Pensar intensamente sobre a verdade bíblica é o meio pelo qual o Espírito nos mostra a verdade” (John Piper: In: John Piper; D.A Carson, O Pastor Mestre e O Mestre Pastor, São José dos Campos, SP.: Fiel, 2011, p. 64).

[17]João Calvino, O livro dos Salmos, São Paulo: Parakletos, 2002, v. 3 (Sl 78.7), p. 202.

[18] Esta palavra é costumeiramente usada no sentido figurado, descrevendo um caminho de vida ou morte (Veja-se: Victor P. Hamiton,  ‘ãrah: In: R. Laird Harris, et. al.  eds. Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento, São Paulo: Vida Nova, 1998, p. 119-120.

[19] Vern S. Poythress, O Senhorio de Cristo: servindo o nosso Senhor o tempo todo, com toda a vida e de todo o nosso coração, Brasília, DF.: Monergismo, 2019, p. 44.

[20] “Plenitude de alegria só se encontra onde o Senhor revela sua presença” (Allan Harman, Comentário do Antigo Testamento ‒ Salmos, São Paulo: Cultura Cristã, 2011, (Sl 16), p. 110-111).

[21] Como escreve Calvino: “Os prazeres deste mundo se desvanecem como sonhos. Davi, pois, testifica que a verdadeira e sólida alegria, na qual as mentes dos homens podem repousar, jamais será encontrada em alguma outra parte senão em Deus. Portanto, ninguém mais além dos fiéis, que vivem contentes só com a graça divina, podem viver real e perfeitamente felizes” (João Calvino, O Livro dos Salmos, São Paulo: Paracletos, 1999, v. 1, (Sl 16.11), p. 324). Em outro lugar: “Se a alegria que os homens experimentam e nutrem é sem Deus, o resultado dessa alegria por fim será destruição, e sua hilaridade se converterá em ranger de dentes. Cristo, porém, se introduz no monte Sião com seu evangelho a encher o mundo com genuína alegria e felicidade eterna” (João Calvino, O Livro de Salmos, São Paulo: Paracletos, 1999, v. 2, (Sl 48.2), p. 354-355).


 Referências Bibliográficas

 

  1. ADLER, Mortimer J. Como pensar sobre as grandes ideias. São Paulo: É Realizações, 2013.
  2. CALVINO, João. As Institutas da Religião Cristã: edição especial com notas para estudo e pesquisa. São Paulo: Cultura Cristã, 2006.
  3. CALVINO, João. O Livro dos Salmos. São Paulo: Paracletos, 1999. v. 1.
  4. CALVINO, João. O Livro dos Salmos. São Paulo: Parakletos, 2002. v. 3.
  5. CRAIG, William L. Apologética Cristã para Questões Difíceis da Vida. São Paulo: Vida Nova, 2010.
  6. HAMILTON, Victor P. ‘ãrah. In: HARRIS, R. Laird et al. (org.). Dicionário Internacional de Teologia do Antigo Testamento. São Paulo: Vida Nova, 1998, p. 119-120.
  7. HARMAN, Allan. Comentário do Antigo Testamento – Salmos. São Paulo: Cultura Cristã, 2011.
  8. McGRATH, Alister E. Fundamentos do Diálogo entre Ciência e Religião. São Paulo: Loyola, 2005.
  9. McGRATH, Alister E. Paixão pela Verdade: a coerência intelectual do Evangelicalismo. São Paulo: Shedd Publicações, 2007.
  10. MOHLER Jr., R. Albert. O modo como o mundo pensa: um encontro com a mente natural no espelho e no mercado. In: PIPER, John; MATHIS, David (org.). Pensar – Amar – Fazer. São Paulo: Cultura Cristã, 2013, p. 44-61.
  11. MORELAND, J.P.; CRAIG, William L. Filosofia e Cosmovisão Cristã. São Paulo: Vida Nova, 2005.
  12. PASCAL, Blaise. Pensamentos. São Paulo: Abril Cultural, 1973. (Os Pensadores, v. 16).
  13. PIPER, John. Pense – A Vida da Mente e o Amor de Deus. São José dos Campos, SP: Fiel, 2011.
  14. PIPER, John; CARSON, D.A. O Pastor Mestre e O Mestre Pastor. São José dos Campos, SP: Fiel, 2011.
  15. POYTHRESS, Vern S. O Senhorio de Cristo: servindo o nosso Senhor o tempo todo, com toda a vida e de todo o nosso coração. Brasília, DF: Monergismo, 2019.
  16. ROOKMAAKER, H.R. A Arte não Precisa de Justificativa. Viçosa, MG: Ultimato, 2010.
  17. SCHAEFFER, Francis A. O Grande Desastre Evangélico. In: SCHAEFFER, Francis A. A Igreja no Século 21. São Paulo: Cultura Cristã, 2010.
  18. SIRE, James W. Dando nome ao elefante: cosmovisão como um conceito. Brasília, DF: Monergismo, 2012.
  19. WARREN, Rick. A batalha pela sua mente. In: PIPER, John; MATHIS, David (org.). Pensar – Amar – Fazer. São Paulo: Cultura Cristã, 2013, p. 44-61.
  20. WÖLFFLIN, Heinrich. Conceitos Fundamentais da História da Arte. 4. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2000. 2. tiragem, 2006.

Autor: Hermisten Maia. © Voltemos ao Evangelho. Website: voltemosaoevangelho.com. Todos os direitos reservados. Editor e Revisor: Vinicius Lima.

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