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Igreja e Estado – Franklin Ferreira (1/2)

ferreira-estado

Parte 1 Parte 2

Deus estabelece na criação várias instituições para a ordem social, cada qual com sua própria esfera de atividade e missão, e responsável por algo diante dele. Mas, antes de considerarmos a posição reformada sobre a relação da igreja com o estado, será útil compará-la com outros modelos políticos e teológicos rivais.

Ao tratar-se de modelos políticos, fala-se de espectro político, que é o conjunto de posições políticas representadas em um país ou localidade. A classificação das correntes políticas geralmente se faz através da sua localização em um ou mais eixos, cada um representando um aspecto da política. Isso é representado pelo diagrama abaixo, que mostra onde está situada uma pessoa, um partido político ou um governo no que diz respeito à sua ideologia política.[39]

Franklin Ferreira - Igreja e Estado (1)

Um primeiro modelo político é apresentado no gráfico abaixo, que ilustra as ênfases estatizantes e intervencionistas associadas à posição esquerdista, como no comunismo e no nazismo. Nesse modelo, há pouca ou nenhuma liberdade pessoal e nenhuma liberdade econômica. O estado ou partido ganha uma dimensão transcendente, agindo para estender seu domínio ideológico sobre todas as esferas da sociedade:

Franklin Ferreira - Igreja e Estado (2)

O estatismo é o cerne do esquerdismo, não a mera ausência de eleições livres e “democracia”. Portanto, em última instância, tanto o comunismo como o nazismo são socialismos, sendo o primeiro um socialismo de classe e internacional, e o segundo um socialismo étnico e nacionalista.[40]

Um segundo modelo é ilustrado no gráfico abaixo, que resume os ideários políticos associados à posição direitista, em que se privilegia a liberdade pessoal e econômica, e a garantia dos direitos individuais, sendo os limites o respeito à vida, à propriedade e à liberdade dos demais:

Franklin Ferreira - Igreja e Estado (3)

Os dois primeiros gráficos delineiam os dois principais lados em disputa no espectro político, especial

mente desde antes da II Guerra Mundial, mas que se tornaram proeminentes no Pós-Guerra. Obviamente, há várias gradações partidárias entre a esquerda e a direita. À esquerda podem ser associados o comunismo, o socialismo e o nazismo. A centro-esquerda, a social-democracia, também conhecida como a “terceira via”, e a centro-direita são consideradas de centro. O conservadorismo, o liberalismo econômico — que defende a liberdade de mercado e uma restrição à intervenção estatal sobre a economia — e o libertarianismo são associados à direita. Como ficará mais claro abaixo, nenhuma dessas correntes políticas pode ser associada à posição reformada, baseada na Escritura.

O gráfico abaixo ilustra as percepções de cristãos influenciados pelo fundamentalismo americano, que se tornou um dos principais modelos de relação com a sociedade entre os evangélicos no século XX. A partir desse modelo, defendia-se não somente uma separação do Estado, mas também uma separação de outras esferas da criação, percebendo-as como essencialmente pecaminosas e impedidas de qualquer possibilidade de redenção:

Franklin Ferreira - Igreja e Estado (4)

Como visto anteriormente, a visão reformada da sociedade não se centraliza no indivíduo nem na instituição, mas na soberania de Deus sobre as esferas da criação, nas quais diferentes instituições estão debaixo do reinado de Deus. Essa posição destaca que “todos os homens vivem numa rede de relacionamentos divinamente ordenada.” Nesse sentido, “as pessoas não encontram sentido ou propósito quer em sua própria individualidade, quer como parte de um todo coletivo.” Na verdade, “elas atendem a seus chamados dentro de uma pluralidade de associações comunais, como família, escola e Estado”, portanto “Deus ordenou cada uma dessas esferas de atividade como parte da ordem original. Juntas, elas constituem a comunidade da vida.”[41]

O gráfico a seguir esboça essa posição:

Franklin Ferreira - Igreja e Estado (5)

Nessa posição, a família, o indivíduo e a igreja são esferas independentes, pois existem a despeito do Estado, derivando sua autoridade somente de Deus. O papel do Estado é mediador, intervindo quando as diferentes esferas entram em conflito entre si ou para defender os fracos contra abusos de poder.


39. Gráficos adaptados de Greg Johnson, O mundo de acordo com Deus. São Paulo, Vida, 2006, p. 93,94 (usados com permissão da Editora Vida), Espectro político, http://pt.wikipedia.org/wiki/Espectro_político e “Espectropolítico”, O capitalista: vida, liberdade, propriedade, htttp://www.ocapitalista.com/2007/12/espectro-poltico.html, acessados em 27 de abril de 2010.

40. Para uma introdução à conceituação da esquerda aqui adotada, cf., por exemplo, Alain Besançon, A infelicidade do século. Rio de Janeiro, Bertrand Brasil, 2000, Jonah Goldberg, Fascismo de esquerda. Rio de Janeiro, Record, 2009 e Czeslaw Milosz, Mente cativa. São Paulo, Novo Século, 2010. Para uma crítica ao marxismo e ao nazismo como cosmovisões rivais da fé cristã, cf., por exemplo, Alister McGrath, Apologética cristã no século XXI. São Paulo, Vida, 2008, p. 272-279 e Franklin Ferreira, “A Igreja Confessional Alemã e a ‘Disputa pela Igreja’ (1933-1937)”, Fides Reformata, v. 15, n. 1 (2010), p. 9-36. Cf. também os textos de Thomas Schirrmacher: “Four Problems with Germany’s Re-unification”, Contra Mundum, http://www.contra-mundum.org/schirrmacher/probreun.html, “The Myth of the End of Communism”, Contra Mundum, http://www.contra-mundum.org/schirrmacher/mythcomm.html e “National Socialism as Religion”, Chalcedon Report 1992, http://ww.contra-mundum.org/schirrmacher/NS_Religion.pdf.

41. Gordon Spykman, “The principled pluralistic position”, em Gary Scott Smith (ed.), God and Politics: Four Views on the Reformation of Civil Government. Phillipsburg, NJ, Presbyterian and Reformed, 1989, p. 79, citado em Greg Johnson, O mundo de acordo com Deus, p. 93.

Teologia Cristã: Uma introdução à sistematização das doutrinas (Franklin Ferreira)

Teologia Cristã - Franklin Ferreira (Vida Nova)Esta obra fornece uma compreensão básica e necessária das doutrinas centrais do cristianismo. Além de uma pesquisa bastante cuidadosa das Escrituras e da história da teologia cristã, o leitor é brindado com as visões de vários teólogos que ao longo da história se dedicaram a ensinar os princípios mais caros e essenciais da fé cristã.

No final de cada capítulo, há uma bibliografia de apoio e uma série de questões cuja finalidade é rever as teses mais elementares nele defendidas. No final do livro o leitor encontrará um glossário de importantes teólogos e documentos da igreja cristã e também um apêndice com alguns desses principais documentos.

Saiba mais sobre o livro

Por Franklin Ferreira. Trecho do 6º Capítulo do livro “Teologia Cristã” (Edições Vida Nova)





  • Seles Silva

    muito oportuno!

  • Italo Jardim Cabral

    Eu sempre acompanho os textos do Voltemos ao Evangelho, e são muito bons, porem neste texto vejo uma mensagem um pouco tendenciosa, criando argumentos de que a direita é melhor, porem ha um equivoco, o nazismo não foi um regime esquerdista, e sim um regime de extrema direita, portanto fica a dica, no momento de redigir um texto faça pesquisas mais concretas, obrigado e fiquem na paz.

    • Yago Martins

      Que base você tem para dizer que o NACIONAL SOCIALISMO (vulgo Nazismo) não foi de esquerda? No momento de redigir um comentário, faça pesquisas mais concretas. Obrigado e fique na paz.

    • http://voltemosaoevangelho.com/vinipimentel/ Vinícius Musselman Pimentel

      Ítalo,

      Hitler:
      “Nós somos socialistas, nós somos inimigos do atual sistema econômico capitalista para a exploração dos economicamente fracos, com seus salários injustos, com sua indecorosa avaliação do ser humano de acordo com a riqueza e a propriedade em vez de sua responsabilidade e desempenho, e nós estamos todos determinados a destruir esse sistema sob todas as condições.”

      - Primeiro de Maio de 1927, conforme mencionado em “Adolf Hitler: The Definitive Biography”, 1976, de John Toland

    • Franklin Ferreira

      Italo,

      Ao rotular o
      Partido Nacional-SOCIALISTA Alemão (Nationalsozialistische Deutsche Arbeiters
      Partei) como ‘extrema direita’ vc só repete o cliché comum que, admito, é muito
      popular, mas carece de estudo mais aprofundado. Pelo jeito vc não sabe, mas
      foram os socialistas estalinistas que ajudaram as forças armadas alemãs a se
      rearmarem (o que era proibido pelo Tratado de Versalhes); o treinamento da força
      aérea e das forças blindadas alemãs se deu em território soviético, na década de
      1930. Em 1934 havia moedas nazistas com a foice e o martelo (procure em Google,
      imagens, e digite ‘Tag Der Arbeit’). E no começo da Segunda Guerra nazistas e
      comunistas tinham um pacto de não-agressão. Inclusive, duas semanas após a
      invasão alemã da Polônia, os soviéticos a invadiram também, pois a partilha da
      Polônia era parte do pacto de não agressão teuto-soviético. E a crueldade
      soviética era equivalente à crueldade alemã. Portanto, como diz o Alain
      Besançon, nazismo e comunismo são gêmeos heterozigotos. E a guerra entre os dois
      totalitarismos se deu pois a extrema-esquerda é autofágica. Se vc quer
      extrema-direita, vc precisará procurá-la entre os anti-estado, anarquistas, etc.
      Em outras palavras, aos estatitas contrapõem-se os libertários (cf. o Diagrama
      de Nolan). Por outro lado, seria interessante vc ler todo o texto, inclusive sua
      continuação, prá ver q não defendo “direita”, mas a noção reformada de Coram
      Deo, inclusive em política – o que implica, claro, a rejeição da idolatria
      ao Partido ou à ideologia e a crítica ao ente estatal que quer ser total. Outras
      fontes q poderia ter citado são: A. James Gregor, The Faces of Janus;
      Richard Pipes, Comunismo, etc.

      Franklin

      • Franklin Ferreira

        Uma ilustração:

        ” ‘Por que’, perguntei a Hitler, ‘o senhor se diz um nacional-socialista, já que o programa do seu partido é a própria antítese do que geralmente se acredita ser o socialismo?’

        ‘O socialismo’, replicou ele agressivo, deixando de lado a xícara de chá, ‘é a ciência de lidar com o bem estar geral. O comunismo não é o socialismo. O marxismo não é o socialismo. Os marxistas roubaram o termo e confundiram seu significado. Vou tirar o socialismo dos socialistas. O socialismo é uma antiga instituição ariana e alemã. Nossos ancestrais alemães tinham algumas terras em comum. Cultivavam a idéia do bem-estar geral. O marxismo não tem direito de se disfarçar de socialismo. O socialismo, diferentemente do marxismo, não repudia a propriedade privada. Diferentemente do marxismo, ele não envolve a negação da personalidade e é patriótica. [...] Não somos internacionalistas. Nosso socialismo é nacional. Exigimos o atendimento das justas reivindicações das classes produtivas pelo Estado com base na solidariedade racial. Para nós, o Estado e a raça são um só.’ ”

        (Entrevista concedida a George Sylvester Viereck, em julho de 1932. In: ALTMAN, Fábio (org). A Arte da entrevista; uma antologia de 1823 aos Nossos Dias. São Paulo: Scritta, 1995. p. 114-115.)

        A entrevista completa pode ser lida aqui: http://www.tirodeletra.com.br/entrevistas/AdolfHitler.htm

        Veja a curiosa menção a Trotski no texto. Muito reveladora.

        Franklin