[DOUTRINAS DA GRAÇA] Reflexões sobre o “livre arbítrio” (3)

POR QUE O HOMEM NÃO É CAPAZ DE VOLTAR PARA DEUS?

“Suas ações não lhes permitem voltar para o seu Deus. Um espírito de prostituição está no coração deles; não reconhecem o Senhor”. Oséias 5:4

As duras palavras ditas por Deus através do profeta era dirigida aos religiosos, ao povo em geral e à família real, sem deixar ninguém de fora: “Ouçam isto, sacerdotes! Atenção, israelitas! Escute, ó família real! Esta sentença é contra vocês” (Os 5:1). As terríveis consequências da Queda não desviam de nenhum filho de Adão. “Todos pecaram e separados estão da glória de Deus” (Rm 3:23). Mas o texto nos mostra que o problema com o pecado não é apenas sua extensão, atingindo a todos os homens, mas também a profundidade em que penetra em cada ser humano, afetando todas as suas faculdades.

As obras impedem de voltar para Deus, Is 59:2

O proceder do homem natural é corrompido de tal forma que ele só faz pecar e pecar. Nem mesmo uma reforma exterior ele pode apresentar de forma consistente, pois “suas ações não lhes permitem voltar para o seu Deus” (Os 5:4a). A prática do pecado se torna um hábito tão natural que o homem quase nunca percebe que sua natureza está dominada pelo pecado. Não raro as pessoas consideram seus pecados como sendo falhas desculpáveis, e as vezes os defendem como uma virtude. Na verdade, estão tão acostumados aos seus pecados quanto se acostumaram à cor da pele. “Será que o etíope pode mudar a sua pele? Ou o leopardo as suas pintas? Assim também vocês são incapazes de fazer o bem, vocês que estão acostumados a praticar o mal” Jr 13:23.

Contrariando os profetas citados, os homens acreditam que é tudo uma questão de escolha, que basta ao homem preferir o bem que é capaz de fazê-lo. Chamam a essa capacidade de livre-arbítrio. Porém, a Escritura não oferece nenhum respaldo a essa filosofia humanista, quando diz que “todos se extraviaram, à uma se fizeram inúteis; não há quem faça o bem, não há nem um sequer” (Rm 3:12). Isto é corroborado pela observação e a experiência de cada um, que não consegue encontrar um só homem na história que tenha superado sua inclinação para o mal e vivido sem pecar. E quando olhamos para nós, temos que confessar que o “porque não faço o bem que quero, mas o mal que não quero, esse faço” (Rm 7:19).

O coração é dominado pelo pecado, Mc 7:21-23

Num nível mais profundo, o pecado domina o coração das pessoas, “um espírito de prostituição está no coração deles” (Os 5:4b), diz o mensageiro do Senhor. No Gênesis o diagnóstico divino sobre o coração humano era de que “toda a imaginação dos pensamentos de seu coração era só má continuamente” (Gn 6:5) e que tal condição não exclui nem as crianças, pois “a imaginação do coração do homem é má desde a sua meninice” (Gn 8:21). As palavras de Salomão sobre o ímpio de que “há no seu coração perversidade, todo o tempo maquina mal” (Pv 6:14) não se aplica apenas a Hitler e a quem esquarteja namoradas, mas também a pais de famílias honestos, pois“enganoso é o coração, mais do que todas as coisas, e perverso” (Jr 17:9).

Não é o homem que determina como seu coração deve ser, mas o coração é que determina como o homem é, “porque, como imaginou no seu coração, assim é ele” (Pv 23:7). Um homem sempre procederá de acordo com a natureza de seu coração. Se este for endurecido e mau, então tal pessoa resistirá ao Espírito e procederá de forma contrária à lei de Deus. Por isso que as pessoas dos dias de Oséias não podiam voltar para Deus, pois seus coração estavam dominados por um espírito de prostituição e dominavam o comportamento deles. E é por isso que o homem moderno não pode converter-se a Deus, pois a natureza de seu coração é má e o incapacita para o bem.

O pecado cega o entendimento, 1Co 2:14

O pecado afeta também a mente do homem, cegando-o para as coisas de Deus. “Ora, o homem natural não aceita as coisas do Espírito de Deus, porque lhe são loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente” (1Co 2:14). Ao invés de se voltar para Deus “o povo que não tem entendimento corre para a sua perdição” (Os 4:14), ainda mais que “por haverem desprezado o conhecimento de Deus, o próprio Deus os entregou a uma disposição mental reprovável, para praticarem coisas inconvenientes” (Rm 1:28). Outro profeta descreve a cegueira do povo como sendo pior que a dos animais, pois “o boi conhece o seu possuidor, e o jumento, o dono da sua manjedoura; mas Israel não tem conhecimento, o meu povo não entende” (Is 1:3).

Como “tanto a mente como a consciência deles estão corrompidas” (Tt 1:5), não são capazes de compreender a mensagem do evangelho. Precisam, antes, ter “iluminados os olhos do vosso coração, para saberdes qual é a esperança do seu chamamento, qual a riqueza da glória da sua herança nos santos” (Ef 1:18), do contrário sua mente irá das trevas presente para as trevas exteriores, sem conhecer a luz do Senhor.

Conclusão

O livre-arbítrio como capacidade do homem se voltar para Deus é uma mentira de Satanás, que assim perverte o evangelho, levando homens a torná-lo persuasivo a defuntos. Pois os pecadores não experimentam outra realidade senão o pecar, tornando a rebelião a Deus um hábito que não podem mudar. Além disso, seu coração que determina suas ações é fonte de toda sorte de males, sendo enganoso e perverso, portanto desinclinado às coisas de Deus. E sua mente é corrompida de tal forma pelo pecado que o evangelho lhe parece loucura indigna de crédito, só aceitando naturalmente se a mensagem for modificada de tal maneira que não se pareça em nada com o evangelho da glória de Deus. Diante disso, eles até “voltam, mas não para o Altíssimo” (Os 7:16). Igrejas lotam, mas corações continuam vazios de Deus, ocupados somente com a prostituição espiritual “porque um espírito de prostituição os enganou, eles, prostituindo-se, abandonaram o seu Deus” (Os 4:12).

Soli Deo Gloria.

Por Clóvis Gonçalves. © Cinco Solas. Website: cincosolas.blogspot.com

Postado em: 5calvinistas.blogspot.com

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A DEPRAVAÇÃO HUMANA – C. H. SPURGEON

TODO HOMEM É CEGO! – C. H. SPURGEON

Narração e Edição de Vídeo: josemarbessa.blogspot.com

7 Comentários
  1. Matheus Emerich Diz

    Muitas das confusões em nossos diálogos se devem a conceitos pré-concebidos. Por exemplo, só agora eu entendi que, quando se diz "livre-arbítrio", geralmente está se considerando a capacidade do homem de fazer o bem, pela simples escolha de ser assim. Neste ponto, realmente não existe livre-arbítrio, simplesmente porque não existe a possibilidade da p'ratica do bem – não existe dois caminhos a seguir, tão somente o caminho da tendência para o mal.

    Mas isso é uma coisa que deve ser muito bem explicada. Porque, se tratada em termos vagos (como geralmente é), fica parecendo que a salvação de alguém depende exclusivamente 100% de Deus. Mas sabemos que, embora pareça contraditório, depende 100% de Deus e 100% do ouvinte. Alguns textos mostram a salvação como a escolha do indivíduio entre crer ou não (2 Ts 2:10-12, Mt 16:24,25, por exemplo).

  2. (-V-) Diz

    Cleison,

    Você removeu, mas eu recebo por email, então sua resposta está aqui:
    http://voltemosaoevangelho.blogspot.com/2008/10/graa-resistvel-at-no-ser-mais.html

    Paz,
    Vinícius

  3. (-V-) Diz

    Matheus Emerich,

    De fato, muitas pessoas confundem livre-arbítrio com vontade. As duas coisas não são similares. Eu irei escrever algo a respeito, mas ainda não consegui.

    Agora, gostaria de lhe fazer algumas perguntas:

    – Os textos que você mandou dizem que o homem é capaz em si mesmo de crer ou só conclama a crença? (Leia com atenção)
    – Como você concilia o fato de que a fé é um dom de Deus (Ef. 2) exercído pelo homem e não algo quer parte do homem?
    – Se a vontade do homem está presa em fazer o mal sempre, como ele pode fazer algo bom que é crer? O que deve acontecer para que isso aconteça?

    Iremos chegar em Graça Irresistível (que responde a essas perguntas) algum dia aqui rsrs

    Em Cristo,
    Vini

  4. Matheus Emerich Diz

    Vini,

    Eu sei, tudo são desígnios de Deus. Mas não podemos supervalorizá-los a ponto de obscurecer a responsabilidade do homem – que é uma verdade tão real tanto quanto a soberania de Deus! Certo?

    Abraços!

  5. (-V-) Diz

    Matheus,

    Com certeza, também não quero negar a responsabilidade humana. Contudo sabemos que a "salvação vem do Senhor" e não do homem. Sabemos que todos são devem se arrepender de seus pecados e crer no evangelho, mas também sabemos que a fé é um dom de Deus.

    Em Cristo,
    Vini

  6. lucsa andreoli Diz

    do Senhor tanto é o querer como efetuar,como eu posso dizer que escolhir me salvar? a unica forma de enteder isso é que o Senhor é sobereano,e salva a quem ele quer

  7. […] Fonte: http://voltemosaoevangelho.com/blog/2010/08/doutrinas-da-graca-reflexoes-sobre-o-livre-arbitrio-3/#i… […]

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