John Bell – Compartilhando o Evangelho no Bairro Gay

Esta é a semana do Orgulho Gay em Toronto, e Tim¹ me pediu para escrever um post detalhando meus esforços evangelísticos na comunidade LGBT de Toronto (LGBT significa Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transexuais). Eu apreciaria algum insight ou crítica útil que os leitores desse blog possam me oferecer, assim como suas orações.
Comecei esse ministério há dois anos, enquanto trabalhava como um interno em uma igreja do centro de Toronto. Fui informado que parte das minhas obrigações de estágio envolveria três horas de evangelismo toda semana em um café ou em um pub. Essas não eram boas notícias. Para ser honesto, eu acho esse tipo de evangelismo muito intimidador. Fazer “propaganda não-solicitada” não faz meu estilo; eu sou muito polido! Quando o pastor explicou o que ele esperava de mim, um cenário esquisito surgiu em minha mente: eu no Starbucks me aproximando de alguém que está lendo um livro e bebendo café. Eu me apresento e pergunto se posso me sentar e falar com essa pessoa. Naturalmente, ela quer saber o que pretendo, então eu imediatamente passo a falar de religião ou de Jesus, provavelmente soando como os Mórmons que apareceram semana passada em sua porta, enquanto ela jantava.
Pessoalmente (e Deus usa todas as formas de evangelização, não estou fazendo uma afirmação absoluta) eu acho esse tipo de tática abaixo do ideal. Eu não sei nada sobre essa pessoa, e ainda assim eu interrompi seu café da manhã para falar sobre o que eu quero discutir. Eu queria que meu evangelismo começasse de uma maneira melhor, mais natural; queria iniciar a discussão de uma forma que não fosse nem “rude”, nem baseada em um pretexto forçado (pedir sua opinião sobre espiritualidade, etc.). E mais: se pedi para sentar com aquela mulher, talvez ela pensasse que eu estava dando em cima dela. E, é claro, vivendo onde vivo, um homem talvez pensasse a mesma coisa. Melhor segurar logo o touro pelos chifres, pensei. Eu nunca tinha ido num café gay antes, mas eu pensei (corretamente) que alguns gays gostariam que um completo estranho se sentasse com eles e conversasse. E foi isso que decidi fazer.
O bairro gay de Toronto fica a apenas dez minutos andando de onde eu vivo. Na primeira vez que me aventurei lá, orei ao Senhor para que ele me mostrar aonde ir, o que fazer e o que dizer. Eu estava muito nervoso. Não tinha um plano. Estava certo de que veria todo tipo de coisas repulsivas, e que eu seria chutado do estabelecimento por disseminar ódio fundamentalista. Mas eu tinha de falar ao meu pastor que havia evangelizado por três horas naquela semana, então fui adiante.
O Senhor foi à minha frente. Eu parei no primeiro café que vi, um Timothy’s, no bairro Church and Alexander. Eu descobri mais tarde que esse é o café gay de toda a área da Grande Toronto. (Veja o artigo na Wikipedia: http://en.wikipedia.org/wiki/Church_and_Wellesley). Sua clientela é composta majoritariamente por homens de meia idade. Comprei meu café e procurei um lugar para sentar. As mesas eram bem pequenas e os bancos ficavam bem próximos – perfeito para o evangelismo, embora eu tenha certeza de que essa não era a intenção original!
A comunidade gay de Toronto é bastante unida. Muitos daqueles homens se conhecem há muitos anos, e todo mundo se trata pelo primeiro nome. Alguns deles eram regulares naquele estabelecimento. Tornei-me amigo de quatro deles: A. – que tem uma severa paralisia cerebral, que o confina numa cadeira de rodas (o que não atrapalha sua vida sexual, entretanto; ele me contou que já teve centenas de parceiros); D. – uma drag queen infectada pelo vírus HIV, que foi molestada por um padre católico; J. – um funcionário público, vindo recentemente de Ottawa; e C. – que trabalha no departamento de crédito de um banco nacional. Esses homens me aceitaram como amigo e me apresentaram a outros gays, embora eles saibam que sou um cristão praticante, heterossexual e conservador, que não aprova seus estilos de vida.
Até o dia de hoje já falei com um bom número de gays – quase todos brancos e na meia-idade. Muitos deles saíram do armário depois de terem se casado e terem filhos. Por alguma razão, 85% deles vieram do contexto católico. Isto significa que muito do meu trabalho evangelístico já está fundamentado. Não há necessidade de explicar que a Bíblia tem dois testamentos, ou quem Moisés ou Abraão eram, ou convencê-los da historicidade da ressurreição; eles acreditam na maior parte disso. Descobri que é com a autoridade da Escritura que preciso me preocupar mais ao lidar com eles.
Quando conheço alguém pela primeira vez no café e me perguntam o que eu faço (o que é uma entrada natural para a apresentação do Evangelho), eles imaginam que eu devo ser um pastor batista liberal e gay, porque, afinal, o que eu estaria fazendo no café deles? (O primeiro homem com quem conversei tinha acabado de terminar com seu namorado, um pastor metodista). Começo perguntando algumas coisas. Eu os deixo falar pelos próximos 45 minutos. Pergunto sobre o emprego deles, seu contexto, a vida familiar, vida pessoal, no que acreditam, de maneira que eu possa obter um retrato da epistemologia e da cosmovisão deles. É desnecessário dizer, faço minhas perguntas de uma maneira educada, curiosa e relativamente simples, não de forma interrogativa ou formal. Homossexuais adoram conversar (pelo menos estes homens no café parecem gostar) e, em geral, as pessoas hoje gostam de discutir “espiritualidade”. Então, de maneira cuidadosa, eles inevitavelmente perguntam em que eu creio. Então lhes falo do Evangelho, começando de Gênesis 1, apresentando-lhes a narrativa e a cosmovisão bíblicas.
Tenho conseguido compartilhar o Evangelho com muitos homens nos últimos dois anos, mesmo que eu diga coisas altamente ofensivas para o estilo de vida gay – que é realmente a identidade deles. Baseio tudo que digo na autoridade da Palavra; isto é, deixo claro o que estou fazendo, que eu acredito que a Bíblia é autoritativa para todos os povos em todas as culturas e tempos, porque é a revelação autoritativa de Deus para os seres humanos. Eu insisto nisso enfaticamente. E os digo que a Bíblia me condena, e condena a todos. Ela me condena como um idólatra, alguém que é egoísta e pecador, que tem retirado Deus de sua posição e colocado a si mesmo na posição de “Dono do meu próprio nariz”. Fiz coisas em minha vida de que me envergonho, e frequentemente aquilo de que me envergonho a Bíblia diz ser meu “pecado” (tenho descoberto que aqueles homens podem entender muito bem o que é se envergonhar). Eu não foco em sua homossexualidade (que é o que eles esperariam de mim), mas sim no fato de que eles são pecadores.
Algo comum de acontecer é eles me pressionarem e perguntarem se a prática da homossexualidade é uma expressão particular de sua disposição pecaminosa, e eu não hesitarei em dizer a eles que sim. Quando perguntado, eu digo a eles que, pessoalmente, eu teria uma posição de “viva e deixe viver” em relação à vida sexual de todo mundo, mas que minha opinião não conta em nada se Deus, nosso Criador, declarou algo diferente. Eu digo a eles que sei que pareço muito intolerante e obtuso quando os digo que são pecadores e que seus estilos de vida não agradam a Deus. Quem sou eu para dizer a outro ser humano o que fazer com base em minha própria autoridade? Então, explico que não é por minha autoridade que eu digo essas coisas. Aceitem ou não, estou completamente convencido de que a Bíblia é a revelação de Deus. Estou depositando minha alma eterna nisso. Me condena, mas eu encontrei a salvação em Cristo. E condena você. E aqui estou eu para falar sobre a salvação que encontrei em Jesus, que acredito que você precisa, que a Bíblia diz que é necessário.
Ao apresentar o Evangelho desse jeito (que é da mesma maneira que apresento aos heterossexuais) ainda não vi ninguém irado comigo devido à minha perceptível intolerância – embora eu tenha certeza de que este dia está chegando! De fato, ser hetero e conservador tem funcionado em meu favor, porque eles veem que eu realmente devo me importar com eles, a ponto de entrar em um ambiente onde sou um peixe fora d’água, para contar uma mensagem que sei que eles considerarão ofensiva. E eu realmente me importo com eles. Muitos deles vêm de contextos onde eles criam em alguma coisa semelhante ao que eu creio sobre a autoridade da Palavra de Deus, vêm de uma perspectiva católica, porém desde então eles “seguiram adiante”. Talvez eu seja jovem e iludido na opinião deles, mas eu sou um cara agradável e eles percebem isso, porque veem que eu os amo, e muitas vezes eles dirão: “a esse respeito nós o ouviremos outra vez”. Eles gostam do fato de eu querer ser amigo deles, mesmo que não aprove suas crenças. Acredito que isso mostra integridade e respeito; eles respeitam isso e desejam corresponder.
Faço tudo isso porque amo a comunidade LGBT. Esta é uma comunidade composta por almas eternas individuais. Infelizmente, eles são uma cultura que quase não tem contato com o cristianismo bíblico de qualquer vertente. Quantas drag queens podem contar com um cristão verdadeiro entre seus amigos? Muitas poucas, para nossa vergonha.
Eu sou o pastor de uma igreja nova no centro de Toronto e é minha oração sincera que Deus use nosso povo para impactar essa comunidade espiritualmente carente. Oro pelo dia em que travestis possam entrar pelas portas de nossa igreja e serem recebidos com sorrisos genuinamente amáveis e com amor cristão. Mas antes que esse dia possa acontecer, eles precisarão de um amigo cristão, em quem eles tenham aprendido a confiar; uma pessoa que nunca os convidaria para um lugar onde eles seriam atacados ou envergonhados publicamente; um lugar onde todos estão no mesmo nível, diante da cruz de Cristo, porque todos são pecadores; um lugar onde nenhum pecado de qualquer pessoa seja considerado mais repugnante que o pecado de outra; um lugar onde todos os pecadores possam se sentar debaixo da pregação pura da sagrada Escritura e escutar sobre o único Salvador do mundo e da salvação somente em seu nome.
Eu oro para que sejamos mais cuidadosos nisso; que enquanto a soberana graça de Deus trabalha através de suas fiéis testemunhas, a igreja, nós vejamos mais homens e mulheres homossexuais virem a Cristo.
¹ John Bell é pastor da New City Baptist Church, em Toronto. Ele estuda teologia no Seminário Batista de Toronto, e foi convidado pelo blogueiro Tim Challies para escrever sobre sua experiência com a evangelização de homossexuais.

Por John Bell. © New City Baptist Church. Website: newcitybaptist.ca
Tradução: Iprodigo

11 Comentários
  1. Diogo Carvalho Diz

    "Eu não foco em sua homossexualidade (que é o que eles esperariam de mim), mas sim no fato de que eles são pecadores".

    Que bênção essa postagem!!!

    Às vezes temos que deiscernir entre o momento para um evangelismo amoroso e para uma apologética zelosa. Quando se pede apologética simplesmente, devemos trovejar o juízo de Deus sobre o homnossexualismo. Mas, quando nos dispomos a evangelizar essas pessoas, o amor pelas suas almas deve estar acima do nosso desejo (ainda que legítimo) de que reconheçam que temos razão.

    Como bem disse o autor, os homossexuais não vão para o inferno (Deus os salve) somente porque são homossexuais, mas porque são pecadores (mentirosos, adúlteros etc…), assim como nós iríamos se não fosse a graça.

    Dia desses, compartilhei com um amigo evangelista que abordou um homossexual, e depois de expor alguns dos 10 mandamentos, sem falar de homossexualismo, o homossexual disse que só então entendeu porque estava caminhando em direção ao inferno: porque era pecador.

    Com certeza, a experiência do autor será preciosa em nosso ministério.

  2. Marcello Comuna Diz

    Já li muitas coisas abençoadoras aqui. Mas na prática, essa postagem foi a com mais utilidade para mim. Terminei minha leitura com lágrimas nos olhos diante do sonho de igreja do pastor. Mediante a todo sistema eclesiástico atual, o sonho do pastor parece uma utopia. Porém, ainda sim, me atrevo a continuar lutando por essa utopia, propagando e aguentando as conseqüências de propagar o amor ao invés da intolerância, da inclusão ao invés da exclusão.

    Onde eu moro, em Nova Iguaçu, há uma seara enorme de gays e lésbicas, adolescentes de diversas tribos urbanas. O trabalho que fazemos por lá tem alguma coisa haver com o do pastor, porém esse post vai melhorar muito o nosso trabalho.

    Que o Senhor te mantenha firme no Caminho.

  3. Doracy Diz

    mto edificante, k Deus venha cada dia te abençoar ricamente, e k essas vidas sejam benças em outras vidas pela transformação do poder de Deus.

  4. Vilma Diz

    Querido irmão,
    Deus abençõe seu trabalho e lhe conceda sabedoria para continuar a obra Dele no meio dessa comunidade.
    Com certeza Jesus faria o mesmo, pregando a palavra mas acima de tudo demonstrando amor.
    Se todos nós que nos denominamos cristâos, buscassemos agir todos os dias e colocassemos nossa vida a disposição do Mestre, com o mesmo amor e autoridade que Ele viveu, pregaríamos muito mais do que só falando e fazendo vistas grossas pra qqulquer segmento da sociedade.
    Que todos nós possamos nos despertar em oração,clamando pela proteção e sabedoria do SEnhor, na vida dos irmãos que se dispoem a esse trabalho.
    Deus o abençõe!

  5. Anonymous Diz

    gostei do texto mais teve um frase que eu achei infeliz: ''porque amo a comunidade LGBT''

    bem, acho que como cristãos devemos amar, homossexuais pois somos tão merecedores do inferno quanto eles…, mias a comunidade LGBT termos que odia e repudiar!, entendi que ele quis fala das pessoas, mais ele se experçou mau

  6. (-V-) Diz

    Anônimo,

    Qual outro significado de "comunidade LGBT" do que as pessoas?

    Paz,
    Vini

  7. Anonymous Diz

    Paz!
    Gostei deste testemunho e muito me comoveu na parte que diz que a drag queen foi molestada por um padre. Muitas vezes quando vemos um gay, ou lésbica, etc… nós olhamos para eles com ódio, sem saber o que aconteceu em suas vidas.
    Muitas dessas pessoas tem algum trauma, podem ter sido estrupadas, espancadas ou sei lá o que mais, e se tornam gays ou até outras coisas, já vi um testemunho de um homem que era travesti, o amigo de seu pai abusava dele quando era menor, e ele se sentia evergonhado em falar isso e se tornou travesti no futuro.
    Todos nós devemos ter compaixão por eles, são famintos no espírito, precisam de alguém que queira o bem deles e evangelize eles.
    São como nós, mas sem Cristo e sedentos por ele.

    Abraços.

  8. nat Diz

    Nossa, muito bom. Mesmo.
    Isso tem que ser algo que a gente pense.Eu estive pensando outro dia (com todo o tchururu do MACK, e etc.) que quando pensamos em comunidades carentes de Cristo, normalmente temos a brilhante ideia de orar, e fazer vigília(talvez) ou… corrente de oração por isso, mas não fazemos nada,(essas comunidades longes da Palavra da verdade) nao estou falando que a oração nao é importante, mas quantos realmente amam essas pessoas, e querem se envolver com isso? com eles? eu tenho pensado bastante nisso, e esse post caiu como uma luva nos meus pensamentos :)
    obrigada.

  9. Lunar Diz

    "Cheguemos, pois, com confiança ao trono da graça, para que possamos alcançar misericórdia e achar graça, a fim de sermos ajudados em tempo oportuno." (Hb 4.16)
    A Paz do Senhor.
    Como sempre, postagens reais, que oportunizam tanta comunicação.
    Parabéns.
    DEUS concede graça ao crente, para que seja "liberto do pecado"(Rm 6.20,22), para que nele opere "tanto o querer como o efetuar, segundo a sua boa vontade"(Fp 2.13; . cf. Tt 2.11,12) para orar(Zc12.10), para crescer em Cristo(2Pe3.18) e para testemunhar de Cristo (At 4.33;11.23).

  10. Abraão Isvi Diz

    DEUS levanta alguém para cada situação. Não sei se conseguiria agir como esse irmão, (claro que se DEUS ordenasse eu não poderia dizer não), não que eu não ame os que vivem nesta situação deplorável, mas tenho minhas reservas quanto a amizade com estas pessoas. Todo pecado pode ter o mesmo peso, ou seja, condena da mesma maneira para o inferno, mas existe aspectos de certos pecados cujas consequências os tornam mais agravantes no mundo presente. Penso assim por exemplo do homossexualismo, um pecado que para mim é o fundo do poço na vida de uma pessoa. O homossexualismo ceifa a vida de uma pessoa muito rápido. Enfim, fico na reserva de trazer uma pessoa dessas ao meu convívio, por exemplo, não gostaria do contato de meus filhos com um indivíduo nesta situação, acredito que não é bom para as crianças, não falo isto sem fundamento.

  11. Walison de Paula Diz

    Amadureço muito com os artigos desse site!

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