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Será que eu sou um eleito?

Resumo

No capítulo 4, “Atormentado pelo pecado e Satanás”, John Bunyan retrata diversas dúvidas que começaram a tentá-lo. Ele questionou se era um eleito, se já não havia mais oportunidade dele se converter e se era realmente chamado por Deus. Alguns textos bíblicos lhe trouxeram consolo passageiro, contudo ele começou a “perceber algo concernente à vaidade e à miséria interior de [seu] coração perverso” (49), e considerou estar cada vez mais distante da conversão (50). Por fim, ele descobriu “que, se a culpa da consciência não fosse removida da maneira certa — ou seja, pelo sangue de Cristo — o estado da pessoa se tornaria pior, perdendo ela a mente preocupada” (52). E ele queria fazer da forma correta e isso aumentava a sua aflição, a tal ponto que desejava ser como um animal, que “não são objetos da ira de Deus, nem são destinados ao inferno após a morte” (53).

No capítulo 5, “Intensificado os ataques de Satanás”, o tentador aflige Bunyan com dúvidas a respeito da existência de Deus e de Cristo e da inspiração das Escrituras. Era como se o diabo lhe dissesse: “Você possui um desejo ardente por misericórdia, mas o esfriarei; esse estado de coração e mente não durará para sempre” (63). “Mas, depois, o Senhor se revelou a [ele], de maneira mais graciosa e plena” (64) através de textos como Cl 1.20 e Hb 2.14-15 – Bunyan compreendeu que Deus e sua alma eram amigos, por meio do sangue de Cristo (65).

No capítulo 6, “A graça de Deus e a fúria de Satanás”, Bunyan começa relatando como o sangue de Cristo removia sua culpa (72) e que ele, agora, percebia “claramente que havia uma vasta diferença entre as ideias da carne e do sangue e a revelação de Deus no céu; entre a fé simulada de acordo com a sabedoria dos homens e a fé genuína, que surge quando um homem é nascido de Deus (Mt 16.17; 1 Jo 5.1)” (69). Contudo, não demorou muito para o tentador investir furiosamente contra ele novamente. Desta vez, a tentação era para que Bunyan “vendesse a Cristo” – trocasse Cristo por outras coisas e desistisse dele (75). Ele resistiu por um tempo, contudo a ideia de “deixar Cristo ir se esta fosse a vontade dele” foi consentida em seu coração (76). Isso levou Bunyan a questionar se havia cometido o pecado imperdoável.

O que podemos aprender: será que sou um eleito?

Você se perguntou se você é realmente um eleito, uma pessoa que Deus escolheu antes da fundação do mundo (Ef 1.4)? John Bunyan retrata em uma linguagem tão expressiva uma dúvida que provavelmente muitos de nós já tivemos:

“Talvez você não seja um eleito”, dizia o Tentador. De fato, talvez eu não seja, eu pensava. “Então”, dizia Satanás, “você pode também abandonar essas dúvidas e parar de lutar; porque, se você não é realmente um eleito de Deus, não há esperança de que seja salvo, pois: ‘Não depende de quem quer ou de quem corre, mas de usar Deus a sua misericórdia’”. Estas coisas me deixaram desnorteado, não sabendo eu o que dizer ou como responder a essas tentações. De fato, nunca me ocorreu que era Satanás quem me atacava dessa maneira. Pensava que a minha própria prudência levantava tais questionamentos. Eu defendia, de todo o coração, que somente os eleitos obtinham a vida eterna. Mas, a pergunta era se eu era um deles. (45)

Então, como saber se sou um eleito? A primeira coisa para desmistificarmos é a ideia de que pode haver alguém que crê genuinamente mas que não seja um eleito. A Bíblia afirma que Deus escolheu desde o princípio para a fé na verdade (2 Ts 2:13) e que todo aquele que Deus predestinou ele também justificou (Rm 8.30). Logo, se você verdadeiramente crê, você é um eleito e se você é um eleito, você irá necessariamente crer.

A segunda coisa para ajudar nessa pergunta é o tripé da certeza da salvação elaborada pelos puritanos. A Confissão de Westminster coloca da seguinte forma:

Esta certeza não é uma mera persuasão conjectural e provável, fundada numa falsa esperança, mas uma infalível segurança da fé, fundada na [1] divina verdade das promessas de salvação, [2] na evidência interna daquelas graças a que são feitas essas promessas, [3] no testemunho do Espírito de adoção que testifica com os nossos espíritos sermos nós filhos de Deus, no testemunho desse Espírito que é o penhor de nossa herança e por quem somos selados para o dia da redenção. (XVIII.II)

[1] Promessas de salvação: Nossa salvação está baseada nas promessas de Deus em Cristo Jesus e não em nossos sentimentos. Se cremos que Cristo morreu por nós e confiamos que Deus não pode quebrar sua Palavra, então podemos ter a certeza de que ele nos salvará naquele último dia.

[2] Evidências internas: Deus nos escolheu antes da fundação do mundo para a santificação do espírito (2 Ts 2.13), para sermos santos e irrepreensíveis diante dele em amor (Ef 1.4). Assim, quando produzimos o fruto do Espírito, mostramos que ele habita em nós. Quando crescemos em santidade, mostramos que ele age em nós. O problema é que muitos procuram por perfeição e não santificação. Santificação é um processo – lento, progressivo e muitas vezes difíceis de perceber. Você consegue ver qualquer diferença em sua vida? Você ama a Deus e sua Palavra ou somente as coisas do mundo? O que seus irmãos dizem a respeito de sua vida (muitas vezes não somos os melhores juízes e temos a tendência de sermos mais severos conosco do que com nosso próximo).

[3] Testemunho do Espírito: a Escritura diz que “o Espírito mesmo testifica com o nosso espírito que somos filhos de Deus” (Rm 8:16). Esta é uma certeza pessoal e íntima, mas ela pode ser abafada pelo pecado rotineiro. Deixe todo o pecado que tão de perto lhe rodeia (Hb 12.1) e você ouvirá novamente o testemunho do Espírito.

Por fim, acredito que uma ilustração de Richard Sibbes, do livro O Caniço Ferido (recomendadíssimo!), pode ajudar:

“Umas poucas uvas mostrarão que a planta é uma vide e não um espinheiro.”

Ou seja, talvez você não esteja em um período de grande abundância dos frutos da graça, mas só uns pouco frutos, mesmo que imperfeitos, são capazes de mostrar que você é um verdadeiro cristão (vide) e não um falso (espinheiro).

Medite nas graciosas promessas de Deus (Sl 119:50), examine-se a si mesmo (2 Co 13.5) e clame pelo testemunho do Espírito (Rm 5.5)

Extra 1: Cuidado para não esfriar vagarosamente

O diabo está neste momento pensando em como esfriar a sua fé. Bunyan retrata um discurso vívido de Satanás:

“Embora você faça isso”, disse Satanás, “eu o tratarei com dureza. Eu o esfriarei, de modo imperceptível, pouco a pouco”. “O que importa”, dizia ele, “se eu levar sete anos para esfriar o seu coração, se no final eu conseguir? O balançar contínuo acalma a criança que chora, fazendo-a dormir. Eu o induzirei a render-se. No final, as coisas têm de ser como eu quero. Ainda que a sua vontade seja intensa, posso tirá-la de você. Logo o farei esfriar”. (63)

Você provavelmente já sabe que nós raramente nos desviamos abruptamente; na maioria das vezes é um esfriar gradual (ouça esta música). A pergunta é: você está vigiando agora!? Neste exato momento, enquanto você lê estas linhas, qual área da sua vida está gradualmente se esfriando? Sua leitura da Bíblia? Sua vida de oração? Aquele pecado que você só vai cair “mais uma vez”, afinal Deus perdoa mesmo, não? Meu irmão, será que você já não está caindo nas artimanhas de Satanás? Acorde! Vigie e ore! Não apague o Espírito que fala ao seu íntimo neste momento. “Rogamo-vos, pois, da parte de Cristo, que vos reconcilieis com Deus” (2 Co 5.20).

Extra 2: Não seja um teólogo de segunda mão

Você prefere ler um livro de Calvino ou a Bíblia? No capítulo seis, Bunyan faz uma crítica a teólogos de segunda mão:

Antes de afastar-me para tão longe dessas tentações, desejei muito ler sobre a experiência de um homem piedoso que tivesse escrito centenas de anos antes de eu nascer, pois eu pensava que os autores de meu tempo — peço-lhes que me perdoem por dizer isto — escreviam apenas a interpretação de outros. Também pensava que eles usavam sua habilidade intelectual somente com o propósito de responder às objeções que percebiam estar perturbando alguns, sem penetrarem as profundezas da Escritura, para descobrir as suas verdades. (73)

Teologia piedosa não é estudar o que outros falaram sobre Deus, mas buscar conhecer a Deus através do que ele se revelou nas Escrituras, com a ajuda de outros. Não é um exercício intelectual, mas algo feito diante de Deus (coram deo).

 

Sua vez

1) Você já duvidou da sua salvação e eleição? Como você reagiu?

2) O que chamou mais a sua atenção na leitura?

 

Por Vinícius Musselman Pimentel © 2014 Voltemos ao Evangelho. Original: 2 formas erradas e 1 correta de tratar a consciência pesada

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17 Comentários
  1. David Oliveira Diz

    Confesso que não compreendi a respeito das palavras e intenções de satanás neste estudo. De onde vem tais palavras, do livro? Me soou como q ele tem poder de tocar na vida do crente, e sabemos que mesmo o Cristão que está caído, só pode ser alcançado com a permissão de Deus.
    Se puder explicar eu agradeço.
    O estudo é uma bênção! O faço diariamente.

  2. joao Diz

    1. Tenho amado a leitura deste livro, pois ele me fez ver que não estive sozinho em dúvidas que Satanás lança sobre o homem. Já passei por períodos como John B e foi comigo como com ele a Palavra de Deus agindo e mostrando que em Cristo Jesus, por seu sangue fui perdoado e predestinado para crer e ser salvo do poder da morte.

    2. A busca dele em conhecer mais as Escrituras e meditar nelas. Tenho procurado fazer isto tb em minhas leituras, ligando as passagens para crescimento em amor, piedade e fé.

    PS. fiquei com uma dúvida nesta frase: (muitas vezes não somos os melhores juízes e temos a tendência de sermos mais severos conosco do que com nosso próximo). Pode esclarecer melhor? Em que sentido somos mais rigorosos conosco do que com o proximo, achava que faziamos o contrário?!

    1. Vinícius Musselman Pimentel Diz

      Quando um irmão peca, temos o costume de incentivá-lo a buscar a Cristo e o perdão divino, mas muitas vezes quando pecamos começamos a nos condenar.

  3. Gracy Kelle Dos Santos Diz

    Tem momentos que o inimigo joga um balde de água fria na chama da nossa fé a ponto de duvidarmos da nossa salvação. Olhamos para dentro de nós e ainda enxergamos tanto entulho, tanta escuridão, tantos quartos fechados… Somente o sangue de Jesus para redimir a nossa mente e nos libertar das sugestões cruéis que vez ou outra batem a nossa porta.

  4. Raíza Fernandes Diz

    Obrigada pelo texto

  5. Denício Godoy Diz

    Passo por tudo que venho lendo até agora.

  6. Geovani SRamos Diz

    Graças a Deus por esta mensagem, me ajudou muito. Quantas vezes eu já me questionei se era um eleito, se fui realmente escolhido, pois eu olhava para mim e não via nada de bom. Mesmo nos meus melhores momentos com Deus eu só via o pecado. Que muitas outras vidas sejam alcançadas também.

  7. Ícaro Diz

    1) Sim já duvidei muitas e muitas vezes. Algumas de modo tão extremo que cheguei para conversar com algumas pessoas e externar algo que estava me matando por dentro. Uma vez eu me lembro que eu pensei: “Mesmo se não for salvo eu quero viver uma vida pra Deus”, depois de um tempo percebi que ao pensar assim seria um sinal de salvação, mas não foi o suficiente. Por agora, Deus parece me responder sempre que esses questionamentos vêm ao meu coração. Exemplo: Já ouve um dia que eu estava me questionando e ao pegar a bíblia, na contracapa de trás uma irmã escreveu romanos 8:1 e romanos 8:28 para mim, foi uma resposta, e no decorrer da semana, esses versículos foram aparecendo pra mim no facebook, na postagem de amigos e em pregações. De todas as formas Deus me confortava sabendo que Ele tinha me pego e agora me trata como filho, eu posso ver Deus me resgatando, me salvando e agora me ensinando cada vez mais, Ele me deu fé, por isso creio!

    2) “Você provavelmente já sabe que nós raramente nos desviamos abruptamente; na maioria das vezes é um esfriar gradual (ouça esta música). A pergunta é: você está vigiando agora!? Neste exato momento, enquanto você lê estas linhas, qual área da sua vida está gradualmente se esfriando? Sua leitura da Bíblia? Sua vida de oração? Aquele pecado que você só vai cair “mais uma vez”, afinal Deus perdoa mesmo, não? Meu irmão, será que você já não está caindo nas artimanhas de Satanás? Acorde! Vigie e ore! Não apague o Espírito que fala ao seu íntimo neste momento. “Rogamo-vos, pois, da parte de Cristo, que vos reconcilieis com Deus” (2 Co 5.20).” Através do pecado rotineiro, de algumas palavras, venho me afastando de Deus, mas eu creio que se Ele me salvou Ele me sustenta, agora é de minha responsabilidade permanecer santo como Ele é.

    1. Jonathan Roberto Diz

      Já pensei exatamente a mesma coisa, no sentido de “mesmo que eu não seja salvo vou viver uma vida para Deus” como se isso fosse um sinal de que minha fé era menos egoísta e madura, já disse em muitas orações minhas para Deus que eu não seria louco de ser inimigo dele, que ele sondasse isso no meu coração, mas realmente depois de um tempo não me dava conforto algum, até hoje ainda tenho algumas crises produto de um emaranhado de conhecimento e ceticismo, mesmo assim, é a vida que eu sinti que preciso viver. Que Deus nos ajude.

  8. Alexia Diz

    1) Durante a minha caminhada cristã já passei por muitas dúvidas e incertezas, principalmente quando existem pecados persistentes. Penso: “Poxa, caí de novo! Será que Jesus realmente me salvou? Não deveria já estar liberta se realmente estivesse salva? etc”. Bati de frente diversas vezes com a incredulidade. Pude me identificar com alguns dos questionamentos que Bunyan fez e relata em seu livro. De fato, é desesperador. Mas acredito ser essencial para o crescimento espiritual, porque te faz buscar respostas na Bíblia, na conversa com outros irmãos, na oração. Deus, no seu trabalhar, vai se revelando aos poucos e a paz vai adentrando em nossos corações.

    2) A leitura desse livro tem sido muito importante para mim. Tem despertado questionamentos que nunca havia feito a mim mesma. Está me ajudando a avaliar com mais rigor a minha relação com Deus.
    Embora, nos capítulos lidos até então, Bunyan venha descrevendo seu tormento diante das dúvidas e tentações pelas quais passou, pude notar, em meio ao seu relato, virtudes cristãs essenciais, qual seja, o temor de Deus e a sua carência de misericórdia. Ele sofria, porque temia a Deus, as consequências do seu pecado.
    O que também achei interessante, no seu processo de conversão, foi o fato de Bunyan se deparar e perceber sua natureza pecaminosa antes de considerar a obra de Cristo. Ele notou a sua miséria e entendia que merecia a ira de Deus e a condenação. Ele era atormentado por isso. Acredito ser fundamental para o cristão entender quão vil é a sua natureza para então receber com maior gratidão o perdão e o amor de Deus.
    Percebi também que as aflições pelas quais Bunyan passou foram sedimentando nele o conhecimento da Palavra de Deus e do próprio Deus. O Senhor ia se revelando a Bunyan a cada dúvida e angústia que atormentava o seu coração. Buscando a paz e o descanso em Deus, ele meditava constantemente em passagens bíblicas. As aflições permitiram a Bunyan conhecer tanto o Deus da justiça quanto o Deus da Graça. Ele não podia negligenciar qualquer face do Deus vivo.

  9. Denise Diz

    Quantas vezes já me questionei nesse sentido… Agradeço ao Senhor por obter o esclarecimento necessário.

  10. Vinícius Musselman Pimentel Diz

    Satanás tentou Cristo audivelmente e nem por isso o "tocou".

  11. Cledson Luciano Diz

    Eu precisava muito de ler esse texto. Obrigado.

  12. Dayvid Victor Diz

    Estou lendo este clássico. Parece que foi escrito para mim. Bunyan morreu sem saber como ele foi um instrumento de Deus para salvação e edificação de muitos.

  13. Leon Gustavo Diz

    Realmente este artigo me esclareceu muitas duvidas. O inimigo das nossas almas tenta esfriar a nossa fé constantemente e se não vigiarmos caímos nas suas artimanhas. Obrigado Senhor por Tua graça sobre nós.

  14. Auro Hefzibá Benobo Diva Diz

    Muitas das vezes duvidei, pensava que havia cometido o pecado imperdoável e já orei para que Deus me mandasse no Inferno… Mas hoje sei que Deus é comigo e eu continuarei a caminhada

  15. Lycam Gaios Diz

    Só não entendi uma coisa irmão, no último parágrafo vocês estão dizendo que devemos buscar estudar a Palavra de Deus com nossa própria interpretação do texto? Não ficou muito claro, pois eu subentendi como se o texto tivesse falando de conhecimento mastigado.

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