As Aventuras de Huckleberry Finn – Romances seculares que recomendamos [2]

Série Romances Seculares que Recomendamos

John Piper, no artigo Cristãos podem se beneficiar de livros seculares?, afirma que “todas as nossas leituras, cristãs ou não-cristãs, visam conhecer melhor a Deus, o homem, os caminhos de Deus e os caminhos do homem, de modo que nós possamos obedecer mais plenamente ao que Deus diz e sermos mais úteis para cumprir seus propósitos e glorificar seu nome.” Nesta série “Romances seculares que recomendamos”, diversos teólogos e pastores recomendam boas literaturas que todo cristão deve considerar ler. 

“Toda literatura americana moderna provém de um livro de Mark Twain chamado Huckleberry Finn”, disse Ernest Hemingway. “Toda produção literária americana vem dali. Não havia nada antes. Não houve nada tão bom desde então”.

O livro, publicado em 1884, foi o primeiro romance escrito em um dialeto distintamente americano, apresentando uma jornada épica através do cenário físico e social americano, escrito a partir de uma sensibilidade particularmente americana e explorando problemas especificamente americanos.

Diferente de alguns clássicos, que um leitor contemporâneo encara por um senso de dever e lê com muita dificuldade, As Aventuras de Huckleberry Finn devolve todos os prazeres da leitura. Mark Twain combina uma narrativa de suspense, aventura e melodrama com personagens inesquecíveis, temas profundos e uma sátira social devastadora. Twain não é apenas um grande romancista – ele é um grande humorista. É um dos poucos autores que conseguem ser sérios e engraçados ao mesmo tempo. Leitores de As Aventuras de Huckleberry Finn pegar-se-ão rindo em voz alta, mesmo enquanto são levados às lágrimas.

A estória é contada a partir do ponto de vista e voz de Huck Finn, o amigo maltrapilho de Tom Sawyer. Ela começa como a continuação de As Aventuras de Tom Sawyer, com brincadeiras mais divertidas na pequena cidade de Missouri, até que a trama fica séria após a chegada do assassino do pai de Huck. Ao fugir dele, Huck encontra-se também ajudando Jim, um escravo, a escapar rumo à liberdade. Eles descem o rio Mississipi em uma balsa, deparando-se com aventuras e personagens pitorescos pelo caminho, desde famílias envolvidas em rixas ao melhor estilo Hatfields & McCoys a uma dupla de vigaristas que alegam ser um duque inglês e o legítimo rei da França. O objetivo é chegar em Cairo, Illinois, onde eles conseguem rumar para o norte no rio Ohio, para a liberdade de Jim. Mas eles perdem a direção e se lançam cada vez mais profundamente para uma região escravocrata.

No Mississipi, Huck aprende a ver Jim não como uma propriedade particular – que é como ele é visto quando eles desembarcam –, mas como um ser humano, um amigo que está disposto a sacrificar-se por Huck. O romance é um tratado profundo sobre os males de se tratar outros seres humanos como meros objetos a serem explorados, e é uma das acusações mais contundentes da escravidão e do racismo em toda a literatura.

Hoje, contudo, em uma ironia de proporções twaineanas, Huckleberry Finn não é leitura permitida em muitos círculos – e particularmente nas escolas públicas – porque está carregado de racismo. O livro, como o linguajar sulista do século 19 em que é escrito, usa a palavra “negro”. Jim, embora o centro moral do romance, às vezes aparece como um estereótipo racial, com algo do humor de Twain, parecendo uma reminiscência dos antigos e racialmente ofensivos “minstrel shows”[1].

Neste caso, como amiúde acontece, o estilo sobrepuja o conteúdo, com detalhes aparentemente superficiais impedindo as pessoas até mesmo de serem capazes de ver o sentido subjacente. Mas se os leitores não conseguirem superar a palavra “negro”, recomendo adiar a leitura de Huckleberry Finn. A ironia é, pelo que consta, a figura de linguagem mais difícil de dominar; portanto, se os leitores virem apenas racismo no romance e não a maneira com que Twain está atacando esse racismo, eles não estão prontos para lê-lo.

Muitas vezes presumimos que livros sobre crianças são para crianças. Nem sempre é o caso. Há, de fato, muito mais do que racismo no romance; coisas que fariam os pais modernos se contorcerem. Crianças fumando. Crianças bebendo. Crianças fugindo. Crianças perambulando à vontade por toda a cidade, fazendo coisas perigosas como nadar no rio e entrar em grutas, conduzindo-se sem a supervisão constante de um adulto. (Minha infância foi muito mais parecida com a de Huck Finn do que a dos meus filhos, muito mais protegidos, que agora são ainda mais protetores com os meus netos.) Sendo a cultura o que é, deixemos Huckleberry Finn ser um livro para adultos.

Mas Mark Twain não é hostil ao cristianismo? Bem, em seus últimos anos, Twain foi um homem amargo que xingava a religião, ao mesmo tempo que cultivou uma veneração quase católica à Santa Joana D’Arc. Mas em Huckleberry Finn, ele satiriza o conflito entre o que o cristianismo ensina e o cristianismo cultural de sua época. Desse modo, a família Grangerford é simpática e amável, cheia de piedade cristã sincera e boas obras – excetuando-se o fato de que eles estão envolvidos em uma vendeta com os igualmente piedosos Shepherdsons, e vêm matando os filhos uns dos outros por gerações, embora nenhum deles consiga se lembrar de como tudo isso começou ou por que se odeiam tanto.

O ponto e virada do romance é quando Huck decide violar sua consciência e tudo o que aprendera na Escola Dominical ao ajudar Jim a obter sua liberdade. Ele descreve como decidiu mudar de vida e trilhar a vereda da justiça ao entregar Jim aos seus proprietários legítimos. Mas então, entrevendo a humanidade de Jim, Huck decide ajudá-lo a escapar, mesmo que isso fosse roubo, e mesmo que este crime certamente o condenasse eternamente. “Tudo bem, então”, Huck decide. “Eu vou para o inferno”. Esse trecho é de fazer qualquer cristão estremecer. Mas uma razão por que não podemos ser salvos por nossas boas obras é que, quando as praticamos pensando que elas nos farão merecer o céu, isso rouba a sua a implicância moral. Nossa natureza pecaminosa é tal que praticamos até mesmo boas obras por um motivo egoísta. Em Huck, o universo moral é tão bagunçado que uma má ação (trair um amigo) é considerada boa, e uma boa ação (ajudar um amigo) é interpretada como má. No lugar de fazer o que é certo em troca de uma recompensa eterna, Huck faz o que é certo – amando e servindo seu próximo –, embora suponha que isso lhe renderá um castigo eterno. Novamente, outra ironia que pode desconcertar muitos leitores. Mas, em geral, é bom para os cristãos suportar sátiras contra a hipocrisia e suas próprias atitudes e comportamentos não cristãos. Elas ajudam a nos manter em um estado de arrependimento.

Na última parte do livro, o pobre porém virtuoso e realista Huck encontra-se novamente com seu amigo Tom Sawyer e seu status de classe média e ideais altamente românticos. Hemingway diz que devíamos ignorar essa última parte, que se estupidifica e transforma o nobre Jim em mais um palhaço. Bem no finzinho, Huck decide fazer o que os americanos sempre costumavam fazer após se depararem com problemas espinhosos: “Escapulir para o território da frente”. Vá para o Oeste, rume para a fronteira, comece uma vida nova. Foi basicamente isso o que Mark Twain fez ao trocar o sul destruído pela guerra pelas minas de prata de Nevada. O romance lembra o leitor cristão de que o pecado penetra fundo no coração e sociedade humanos e que isso nos escraviza; e ele desperta um desejo por liberdade que só pode vir de Cristo, que morreu para nos libertar. Pode ser que outras pessoas não captem isso da estória. Mas os cristãos captarão.

[1] N.T.: “Nome pelo qual ficou conhecido um tipo de espetáculo teatral popular tipicamente americano que reunia quadros cômicos, variedades, dança e música, inicialmente com artistas brancos maquiados como negros e, principalmente depois da Guerra Civil, negros com o rosto maquiado de preto”. Fonte: Wikipedia.

Por: Gene Veith. © Between 2 Worlds. Original: Gene Veith: a novel every christian should consider reading

Original: “As Aventuras de Huckleberry Finn” – Romances seculares que recomendamos [2] © 2017 Ministério Fiel. Todos os direitos reservados. Website: MinisterioFiel.com.br. Tradução: Leonardo Galdino.

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