Fim de caso – Romances seculares que recomendamos [3]

Série Romances Seculares que Recomendamos

John Piper, no artigo Cristãos podem se beneficiar de livros seculares?, afirma que “todas as nossas leituras, cristãs ou não-cristãs, visam conhecer melhor a Deus, o homem, os caminhos de Deus e os caminhos do homem, de modo que nós possamos obedecer mais plenamente ao que Deus diz e sermos mais úteis para cumprir seus propósitos e glorificar seu nome.” Nesta série “Romances seculares que recomendamos”, diversos teólogos e pastores recomendam boas literaturas que todo cristão deve considerar ler. 

Meu primeiro contato com Fim de caso, de Graham Greene, foi quando fiz uma análise crítica da adaptação cinematográfica de Neil Jordan, com Ralph Fiennes e Juliane Moore, para o meu jornal da faculdade. Odiei isso. Havia um espírito de algo intrigante ali sobre fé e descrença, mas a coisa toda parecia atenuada, obscura, maculada com o romantismo sentimentalista característico dos filmes de época de Hollywood. Mais tarde, contudo, alguém me convenceu a ir à fonte primária, e descobri, na obra de Greene – o quarto de seus romances mais explicitamente cristãos –, aquilo que as telas do cinema não poderiam reproduzir: as complexidades muitas vezes ensandecedoras da fé e da descrença, e a linha tênue entre a fúria contra Deus e o temor a ele.

“Uma estória não possui começo nem fim” – assim começa a narrativa de Greene. Há algo mais que não possui começo nem fim – ou Alguém mais, melhor dizendo, e sua sombra afeta cada página do romance, que narra o caso extraconjugal entre o escritor Maurice Bendrix e Sarah Miles, a esposa de um oficial britânico.

O romance ilícito parece bastante rotineiro: o típico artista apaixonado corteja a esposa entediada de um homem entediante. Mas durante um de seus encontros, uma bomba que estoura durante o ataque alemão a Londres destrói o quarto onde eles estavam, quase matando Bendrix. Após esse evento traumático, o romance misteriosamente azeda, e Bendrix cai numa espiral descendente de ciúme e luxúria.

Ele acredita que está sendo trocado por um novo amante; então, contrata um detetive particular, que acaba confirmando suas suspeitas. Mas o novo amante de Sarah revela-se ser a fonte de todo amor. Na ocasião em que Bendrix quase morreu, ela orou para que Deus o protegesse e comprometeu-se com Deus que, caso a vida de seu amante fosse poupada, ela não o veria mais. Por mais difícil que fosse desistir de seu namorico proibido, a alternativa era mais dolorosa. Ela temia não primariamente pelo corpo, mas pela alma. E aqui descobrimos algo um tanto estranho e um tanto singular em meio à vasta exploração literária do pecado sexual.  Num contexto em que tantas obras fictícias tratam o adultério como “natural”, totalmente legitimado pela classificação de “Romance”, o grande justificador teórico de todas as coisas, eis um livrinho onde a mulher ama seu amante ao não “amá-lo”.

Isto, naturalmente, enfurece o mundano Bendrix, que passa a ver a religião como outro marido entediante refreando toda a sua fúria romântica, frustrando a expressão artística de seus próprios apetites. E quando, mais adiante, Sara contrai tuberculose e morre, ele vê o Deus dela não apenas como um intruso, mas como um vilão.

É aqui onde a narrativa se intensifica. Em sua abstinência, em seu rompimento doloroso, e agora em sua morte cruel, Sarah ensinou Bendrix mais sobre o amor do que ela jamais poderia ter feito na paixão imoral de seu passado juntos. E Bendrix agora se vê obrigado, pela primeira vez, a ajustar as contas com o grande Inimigo de seus apetites carnais, o grande Autor desimpedido que tão injustamente havia apagado a sua história.

Isso me lembrou uma fala de C. S. Lewis sobre seu ateísmo juvenil: “Eu não acreditava que Deus existia”, ele disse, “e ficava muito furioso com ele por ele não existir”.  De fato, no final, à medida que brande o punho cerrado contra o Deus de Sarah, rejeitando o objeto de suas orações a seu favor, proclamando propositadamente inclusive o seu ódio por Deus (“Eu queria passar o resto da minha vida com Sarah e Você a levou embora. Com essas Suas formidáveis maquinações, você destrói a nossa felicidade como um trator agrícola destrói a toca de um rato: Eu te odeio, Deus! Te odeio como se você existisse”), achamos que ele protesta demais. Ele sequer percebe que está orando.

Não, ficar furioso com Deus não é correto nem justificável. Mas é um começo. Quando a narrativa de Fim de caso acaba, a luta jacobeana[1] de Bendrix está apenas começando. Estamos certos de que, considerando as últimas linhas do romance, brilhando com uma fatia de esperança, como uma luz através de uma porta rachada (“Eu disse a Sara: ‘OK, faça como quiser. Eu acredito que você vive e Ele existe’”), Bendrix não sairá dessa luta da mesma forma que entrou. O leitor termina, na verdade, com a grande expectativa de que o ódio possa ter uma vantagem peculiar sobre a indecisão na medida em que é, pelo menos, uma espécie de cuidado, uma paixão que está apenas aguardando o redirecionamento do evangelho transformador.

[1] Uma referência à luta de Jacó com Deus, relatada em Gênesis 32. [Nota do Tradutor]

Por: Jared Wilson. © The Gospel Coalition. Original: JARED WILSON: A NOVEL EVERY CHRISTIAN SHOULD CONSIDER READING

Original: “Fim de caso – Romances seculares que recomendamos [3]” © 2017 Ministério Fiel. Todos os direitos reservados. Website: MinisterioFiel.com.br. Tradução: Leonardo Galdino.

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