A Estrada – Romances seculares que recomendamos [12]

“[Ela] seria até boa mulher”, o Desajustado disse, “se a cada instante de sua vida houvesse alguém nas cercanias para lhe dar um tiro”.[1]

Essas palavras, no finalzinho de “Um homem bom é difícil de encontrar”, de Flannery O’Connor, saíram pulando em minha cabeça enquanto eu progredia no romance de Comarc McCarthy, A Estrada (Editora Alfaguara, 2006). O homem e o filho na estrada vivem todos os dias conscientes de que alguém está lá para atirar neles, bem ao longo da curva, nos capins além da vala, ou surgindo atrás deles. Junto com a ameaça constante, a prosa enxuta de McCarthy constrói um mundo no qual quinquilharias e distrações haviam sido eliminadas. Nem cor nem raios solares enfeitam essa paisagem. A estória nos confronta com personagens a todo instante obrigados a reconhecer o que importa.

Nenhuma lista de coisas a fazer. O dia providencial a si mesmo. Todas as coisas graciosas e belas como as que se levam no coração têm uma origem comum na dor. Nascem do pesar e das cinzas. Então, ele sussurrou para o menino adormecido. Tenho você.[2]

O homem e o filho nessa aflição testificam por sua própria existência que os seres humanos devem viver por outros, do contrário não há razão para viver. E eles nos mostram que não podemos viver sem esperança.

O mundo como o conhecemos

O parágrafo de abertura do romance evoca Platão, Bunyan, Jonas e Dante:

No sonho do qual acordara ele andava a esmo numa caverna onde a criança o levava pela mão. A luz deles brincando sobre as paredes úmidas de rocha calcária. Como peregrinos numa fábula engolidos e perdidos nas entranhas de alguma besta de granito. Buracos profundos na pedra onde a água gotejava e cantava. Contando no silêncio os minutos da terra e suas horas e dias e os anos sem cessar. Até eles se encontrarem num grande salão de pedra onde havia um lago negro e antigo.[3]

Como Dante encontrando-se em uma floresta escura, o peregrino de McCarthy será conduzido através do inferno para amar não por causa de Virgílio, mas por causa da criança. Como o Cristão de Bunyan, ele carrega seu fardo, que ele perderá no caminho para a cidade celestial. Como Jonas, a jornada e experiência desse homem são em si mesmas uma mensagem que chama os ninivitas ao arrependimento. Como Platão, McCarthy tenta nos libertar da ilusão da caverna para conhecermos o que é real (“formas” são invocadas por toda parte, tal como a imagem dos “filósofos acorrentados à parede de um hospício”).

O peregrino de McCarthy reluta em despertar dos sonhos do mundo como o conhecemos, e McCarthy chama seu público a arrepender-se da perturbação irrequieta e despertar para este mundo, o mundo dos nossos sonhos. Em um ponto em que o homem encontra água potável, “água tão doce que ele podia sentir o cheiro”, ele não encontra “nada em sua memória em parte alguma de algo tão bom”. Saboreie seu próximo gole da mesma.

Como a esposa de Jó, a esposa do homem entregou os pontos (o verso “amaldiçoa a Deus e morre” aparece no romance, seguido brevemente pela sugestiva palavra “abençoado”). Ela declarou que aqueles que haviam sobrevivido eram os “mortos-vivos em um filme de terror”. Ela afirmou que não havia nenhum contra-argumento, que a sua única esperança era o “nada eterno”. Mas o contra-argumento que McCarthy apresenta – não fala – é fé, esperança e amor sacrificial. Esses mostram a falência da existência desesperançada e incrédula que termina em nada. O homem inclusive implorou que sua esposa não se matasse com as palavras, “pelo amor de Deus, mulher”.

Permanecem esses três

As palavras de McCarthy descrevem um mundo da “fragilidade de todas as coisas revelada”, e a estória que ele desenrola nesse mundo mostra que quando tudo o mais acabar, a esperança, a fé, o amor e a vida permanecem, que um homem sabe que não há amor maior do que renunciar sua vida por outrem, que a própria vida – o fato de continuarmos vivos – depõe contra o desespero. O nascimento do menino foi a garantia de esperança do homem e a fé contra o desespero desolado de sua esposa de que uma criança nascesse num mundo assim. O homem e sua esposa responderam de modos opostos: para ela, a criança era um pesar que arrancou seu coração; para ele, um milagre resplandecente de bondade:

Sentaram-se à janela e fizeram uma refeição à meia-noite vestindo seus robes à luz de velas e observaram cidades distantes queimando. Algumas noites mais tarde ela deu à luz na cama deles, sob a iluminação de uma lanterna a pilha. Luvas que serviam para lavar pratos. A aparência improvável da pequena coroa da cabeça. Listrado de sangue e cabelo preto e escorrido. O fedor do mecônio. Os gritos dela não significavam nada para ele.[4]

As alternativas são claras: morte/vida; desespero/esperança; egoísmo/amor. E nesse livro os bons sujeitos escolhem a vida, a esperança e o amor. Os bons sujeitos nunca entregam os pontos. Os bons sujeitos nunca quebram pequenas promessas, pois isso leva a quebras as grandes. Os bons sujeitos trazem o fogo. As noites eram nevascas frias e caixões negros, e o longo alcance da manhã comunicavam um silêncio terrível. Como uma alvorada antes da batalha… Houve momentos, quando ele ficava observando o menino dormir, em que ele começava a soluçar incontrolavelmente, mas isso não dizia respeito à morte. Ele não tinha certeza sobre o que era, mas ele pensava que dizia respeito à beleza ou à bondade. Coisas que, seja como for, ele já não teria mais como pensar.

Contraste agudo

Outras respostas religiosas também são contrastadas. Em determinado momento, o homem e o menino encontram um viajante, “um velho pequeno e curvado”, e este encara o mundo e sua experiência como se nada importasse. Quando o homem lhe pergunta “Como você saberia se fosse o último homem da terra”? O velho diz ao homem:

“Não faria diferença alguma. Quando você morre é como se o resto do mundo morresse também”.

O homem retruca: “Acho que Deus saberia. É isso?”

O velho: “Deus não existe”.

O homem: “Não?”.

McCarthy condena a lógica do velho ao apresentá-lo contradizendo-se com a resposta: “Deus não existe e nós somos os seus profetas”.

O homem enfrenta a afirmação ilógica do velho – de que ele é o profeta de um Deus que não existe – com um contra-argumento com relação à rejeição indiferente do velho para com Deus: “Não entendo como você ainda está vivo. Como você come?”.

A afirmação de que “Deus não existe” é respondida com a contra-afirmação “você ainda está vivo”. O homem parece estar sugerindo que a própria vida é uma prova da existência de Deus, uma evidência contra a falta de sentido. À pergunta “Como você come?”, o velho mendigo responde: “As pessoas te dão coisas”. Com essas palavras, o velho confessa que, à parte da virtude cristã da caridade, ele não tem esperança de vida. O homem confrontou a rejeição do velho de Deus com o fato da vida contínua do velho, e o próprio velho reconheceu que a generosidade de outros sustenta sua vida. A narrativa mais ampla explica que generosidade e caridade brotam somente da fé em Deus, da esperança de que Deus há de libertar e prover, e do amor que imita o próprio amor de Cristo, que deu a sua vida para que pudéssemos viver.

No momento em que o homem e o menino partem, o homem pergunta se o velho não vai agradecer ao menino por dar-lhe comida, mas o velho se recusa a fazê-lo. O cristianismo torna a gratidão possível, mas o velho não exprimirá a gratidão que ele deve.

Esse diálogo com o velho mostra que o amor é distintamente cristão. O velho não tem categoria para amor, bondade ou gentileza, e o intercâmbio desconfiado do homem com ele também mostra quão essencial a confiança é para a comunicação humana. Deus é fundamental para a gentileza e essencial para a dignidade humanas. Em outras palavras, à parte de Deus não pode haver nem gentileza nem dignidade. O velho sequer desejará sorte ao homem e ao menino, e McCarthy parece, com isso, insinuar que uma crença na providência de Deus reforça o tipo de sorte que o velho não lhe desejará. Conforme eles o deixam, o homem diz a seu filho: “Não há muitas boas-novas na estrada”.[5] O velho não tem o evangelho.

O livro inicia com o homem acordando para tatear seu filho no escuro, determinado a assegurar-se que ele está ali, que eles estão seguros. O livro termina com o homem indo dormir, escolhendo não matar seu filho antes de morrer, confiando claramente que, embora ele não esteja acordado para proteger o menino, ele pode descansar sabendo que este ficará seguro. Para esse peregrino, morrer é um ato de fé. Eles não vagavam em uma caverna, mas em um mundo sem civilização, um mundo sem formas. As formas são o mundo que desfrutamos agora, caso… caso o Jonas de McCarthy nos leve a arrepender-se ao nos escoltar através do inferno, peregrinos progredindo através das ruínas da Feiras das Vaidades.

McCarthy parece querer que saibamos que a vida pela qual ansiamos é a vida que possuímos.

1# O’Connor, Flannery. Contos completos. Cosac Naify, 2008. p. 175.

2# McCarthy, Cormac. A Estrada. Editora Alfaguara, 2006. Tradução de Adriana Lisboa (edição Kindle, posição 557).

3# Idem, posição 33.

4# Idem, posição 613.

5# No original, “good news”. Tomei, aqui, a liberdade de traduzir livremente, pois a tradução da Adriana Lisboa diz “boas novidades” – o que faz com que se perca o conceito bíblico e evangélico de “boas-novas”. ‒ N.T.

Leia A Estrada

Por: James Hamilton. © The Gospel Coalition. Website: thegospelcoalition.org. Traduzido com permissão. Fonte: The Life We Long For: On Cormac McCarthy’s The Road

Original: A Estrada – Romances seculares que recomendamos [12].  © Ministério Fiel. Website: MinisterioFiel.com.br. Todos os direitos reservados. Tradução: Leonardo Bruno Galdino. Revisão: William Teixeira.

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