Graça Infinita – Romances seculares que recomendamos [11]

Após alguns meses circundando sua produção literária, decidi que o último outono de 2016 seria o ano para me aprofundar em David Foster Wallace, começando com Graça Infinita (Cia das Letras, 2014), sua renomada e única obra completa de extensa, extensa ficção. Acontece que este ano[1] é, também, o 20º aniversário da primeira publicação do romance.

Eu não conhecia nada do livro quando o abri, mas a capacidade um tanto lendária de Wallace em expor a condição humana certamente o precedeu. Se você ainda não está suficientemente convencido disso, tire vinte minutos e procure seu discurso de paraninfo no Kenyon College, alguns anos antes de sua morte.

Ora, Graça Infinita é uma leitura gigantesca, no mesmo nível do ciclo de O Senhor dos Anéis e O Hobbit incluso. Ela não oferece uma narrativa ensaiada de moralidade. Em vez disso, ela atua mais como uma observação tardia e paciente. Entremeada nessa narrativa intricadamente comprimida está uma cena em especial que é maravilhosamente evocativa para a igreja, especialmente para a sua vida comunitária.Um tema essencial em Graça Infinita é a natureza inerentemente destrutiva do consumismo – como as pessoas, de várias formas, se entreterão para a morte. Uma das lentes através das quais Wallace faz essa observação é a do vício e da recuperação. É aqui, numa reunião do grupo “Básico Avançado” de Alcoólicos Anônimos (AA) em Boston, que encontramos uma imagem vívida – embora decididamente inadequada – de como a igreja poderia ser. O grupo é assim cativante por conta de três disposições fundamentais de seus integrantes: eles são profundamente compreensivos, profundamente graciosos e profundamente consistentes.

Empatia, graça, consistência

Em primeiro lugar, sua empatia. Toda a estrutura da reunião do Básico Avançado envolve uma série de alcoólatras contando suas histórias aos demais no recinto. Todos ficam no mesmo recinto porque seu vício, outrora invisível, borbulhara gradualmente até a superfície até que os tivesse envolvido e arruinado completamente. Ali, na beira de um precipício entre a morte e o AA, eles admitiam seus problemas e buscavam ajuda. A mesma história básica se desenrola com detalhes variáveis conforme o restante dos AA ouve ou, o que é mais importante, conforme eles se identificam.

Essa notável empatia conduz à benevolência. Não há ninguém cuja história seja arruinada ou “doidona” demais. É um testamento para a imaginação de Wallace que algumas das histórias que ele idealiza para sua gentalha “inexpressiva e repulsiva” sejam espantosamente sombrias. Todavia, ninguém admite sair dessa comunidade esquisita. Isso acontece porque há pretensão absolutamente zero e, portanto, capacidade zero de condenação. Cada pessoa no recinto tocou o vazio de sua própria impotência, para que possam conviver com a escuridão alheia com a humildade de alguém que sabe o que é ser liberto.

Por último, os membros centrais do grupo Básico Avançado são rigorosamente consistentes. Wallace escreve que cada um membro frequenta as reuniões ainda que “sinta que dominou aquilo tudo [o vício] finalmente e pode se virar sozinho”. Para eles, o AA não é uma opção tipo “quebre o vidro em caso de emergência”. Todos eles percebem que nunca estão livres da crise, uma vez que sua doença está sempre rondando, aguardando um tropeço. Sua carência de ajuda é inata, não circunstancial; portanto, eles buscam a cura religiosamente.

Calibrando nossas comunidades

Refletindo sobre a descrição que Wallace faz da comunidade, não pude deixar de pensar: Não seria este um tipo nobre de igreja, uma comunidade notável? Uma comunidade repleta de ouvintes que identificaram a dor dela com parte da própria dor deles. Uma dessas comunidades despretensiosas em que até mesmo a mais insondável confissão é recebida com graça pelas pessoas, em que todas se consideram como os principais dos pecadores. Uma comunidade de tal consistência que os membros vivem a vida juntos em vez de meramente se reunirem quando se sentirem necessitados, dispersando-se até sua próxima crise.

Isso soa como uma comunidade que daria a vida. Soa como o tipo de comunidade tão profunda e humildemente familiarizada entre si que eles conseguem ver Jesus com clareza esplêndida e aglutinadora. Esse não é o “cristianismo” suburbano eu-me-reúno-informalmente. Essa é a verdadeira comunidade dos redimidos.

Como chegamos lá, então?

Bem, como eles dizem no AA, o primeiro passo é você admitir que tem um problema. Considere as palavras de Jesus:

Certo credor tinha dois devedores: um lhe devia quinhentos denários, e o outro cinquenta. Não tendo nenhum dos dois com que pagar, perdoou a dívida a ambos. Qual deles, portanto, o amará mais? (Lucas 7.41-42).

É ridículo pensar que somos o indivíduo com o débito pequeno. Todos estamos na mais profunda dívida; chegamos a Jesus da beira de um precipício com vistas para a morte. É apenas uma questão de se vamos admitir isso ou não. Quando não admitimos quão demasiadamente endividados nós estamos, moral e espiritualmente, estamos funcionalmente dizendo que podemos lidar com nossas fraquezas, que podemos pagar a conta, que podemos gerenciar nosso vício.

O orgulho está na raiz de todo tipo de pensamento, e esse mesmo orgulho impede a vulnerabilidade com outros cristãos, em detrimento da saúde da comunidade. Mas e se reconhecermos nossa desesperada necessidade de Deus e dos outros para nos ajudarem? E se fôssemos de tal modo humildes, dependentes de seu Espírito e comprometidos com seu corpo?

Uma igreja cheia de pessoas que têm dificuldade para confessar pecados – ou mesmo admitir suas vulnerabilidades facilmente mascaradas como ferida, frustração ou mágoa – é um lugar perigoso. Por que? Porque o pecado, uma vez consumado, leva à morte (Tiago 1.15). Mas algo engraçado acontece quando confessamos nosso pecado e abrimos nossas vidas a outros cristãos. Nosso orgulho encolhe, nossa afeição por Jesus cresce e a comunidade vivificadora começa a tomar forma. Quando somos honestos sobre nossas falhas com irmãos e irmãs fidedignos, a igreja é capaz de concretizar seu chamado para a aplicar a Palavra da verdade como um bálsamo para as feridas reais. Sem fingimento, condenação, fofoca; pois quem poderia atirar essa primeira pedra? Sem nenhuma necessidade de fachada ou fakery.[2] Apenas um ajuntamento de pobres devedores, todos igualmente perdoados de uma dívida impossível de ser paga.

Esse é o caminho para o tipo de comunidade que David Foster Wallace descreveu tão vividamente, mas que pode ser encontrado de forma verdadeira e final apenas em Cristo.

#1 O texto é de 2016. ‒ N.T.

#2 Estabelecimento comercial (padarias, cafés, mercadinhos) usado como fachada por traficantes para lavagem de dinheiro e para o fornecimento de meios mais interessantes de consumo de drogas. ‒ N.T.

Leia Graça Infinita 

Por: Michael Morgan. ©The Gospel Coalition. Website: thegospelcoalition.org. Traduzido com permissão. Fonte: In Community Group with David Foster Wallace

Original: Graça Infinita – Romances seculares que recomendamos [11]. © Ministério Fiel. Website: MinisterioFiel.com.br. Todos os direitos reservados. Tradução: Leonardo Bruno Galdino. Revisão: William Teixeira.

1 comentário
  1. Bruno Nogueira Diz

    Acredito que o livro tenta mostrar que há pouca diferença, em essência, entre o “consumo” do AA e o consumo das Substâncias. Entre eles há apenas a diferença de intensidade com que levam à morte e à desgraça. Fora isso, são duas formas de entretenimento, de fazer passar o tempo, de dar sentido à vida. As pessoas do livro que eram alcoólatras tornaram-se viciadas em rotinas de reabilitação.

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