Aprendendo com a vida intensa de John Knox (Reforma500)

500 anos de Reforma Protestante

Em comemoração aos 500 anos de Reforma Protestante, o Voltemos ao Evangelho trará artigos semanais e biografias de diferentes reformadores: Girolamo Zachi (jan), Theodoro Beza (fev), Thomas Cranmer (mar), Guilherme Farrel (abr), William Tyndale (mai), Martin Bucer (jun), John Knox (jul), Ulrico Zuínglio (ago), João Calvino (set) e Martinho Lutero (out).

Os historiadores não estão certos se foi em 1514 ou 1515, ou em algum momento próximo, que Knox nasceu na pequena cidade mercantil de Haddington, na Escócia, na rua da igreja de Santa Maria [Saint Mary’s Church].

Como o biógrafo Rosalind Marshall explica, grande parte do começo da vida de Knox é desconhecida. Ele não entra nos livros de história até os trinta anos, e o pouco que sabemos sobre a sua vida antes é encontrado em registros de seus contemporâneos. Por exemplo, acredita-se que ele frequentou a Universidade de Saint Andrews e foi bem-sucedido em seus estudos, embora não haja nenhuma evidência além da palavra de Teodoro de Beza, seu contemporâneo. Beza o considerava um acadêmico distinto, e outros o chamavam de “Sr. Knox”, um título reservado para aqueles que possuíam níveis acadêmicos. Ele provavelmente passou algum tempo sendo também um advogado local, mas ninguém tem certeza.

O que primeiro realmente conhecemos sobre Knox é quando ele invadiu a cena durante alguns dos mais tumultuados anos da história da Escócia. Knox tornou-se um protestante, unindo-se ao grupo de George Wishart, um líder protestante e mentor de Knox que posteriomente foi queimado na fogueira por seus ensinos. Note-se que, quando Wishart viajava para falar, Knox seguiria adiante com uma grande espada de dois gumes. Ele fazia coisas como carregar consigo espadas, e mais — coisas que fariam com que muitos de nós nos surpreendêssemos hoje. Parte disso era devido ao tempo em que ele vivia, e parte era devido simplesmente ao fato de que ele não era um homem simpático, pelo menos não pela forma como os outros o percebiam.

Basta de ajoelhar-se diante da mesa

Como no tempo em que ele teve a rara oportunidade de pregar diante de Eduardo VI, rei da Inglaterra, e atacou a prática de ajoelhar-se durante a ceia. O contexto em torno deste sermão foi uma nova influência Protestante na liturgia da Igreja. O arcebispo Thomas Cranmer havia acabado de publicar um novo livro de orações, o Segundo Livro de Oração Comum, porque o primeiro livro fora rejeitado por parecer muito Católico Romano. O Segundo Livro, que distanciou a prática Protestante do Catolicismo Romano, era o único manual lícito de adoração na Igreja da Inglaterra, mas Knox o odiava por instruir as pessoas a receberem o pão e o vinho ajoelhadas. Ele insistia que nenhum tal mandamento poderia ser extraído das Escrituras. Ele teve a audiência do rei, observe, e ele pregou sobre a prática de ajoelhar-se.

Expressando-se de modo áspero

Ou no tempo que ele escreveu o “Primeiro Toque da Trombeta contra o Monstruoso Governo de Mulheres”. A premissa do tratado era que as mulheres não deveriam ser governantes, e havia mais de uma boa razão para o seu argumento. Maria I assumiu o trono na Inglaterra após a morte prematura de Eduardo VI. Ela era uma Católica Romana devota e estava disposta a reverter qualquer vitória Protestante que a Inglaterra tivesse obtido com o rei Eduardo. Ela estava entrando no quinto ano de seu reinado quando Knox publicou o “Primeiro Toque da Trombeta” e, quando morreu em novembro de 1558, havia assassinado cerca de 300 Protestantes. Maria, a sanguinária, era uma Jezabel, e Knox queria desacreditar o seu direito de governar — compreendemos essa parte. Mas, quanto à sua retórica, em seus esforços para derrotar a tirania da rainha, ele afirmou algumas coisas desagradáveis ​​sobre as mulheres em geral, como: “A natureza, eu digo, retrata as mulheres como sendo fracas, frágeis, impacientes, débeis e tolas, e a experiência tem declarado que elas são inconstantes, volúveis, cruéis e que não têm o espírito de conselho e regimento. E os homens têm notado essas falhas evidentes em todas as eras”.

Esse argumento simplesmente não é válido (Deus fez com que as mulheres fossem mães, afinal!). Não é surpreendente que o seu tratado bombástico não tenha sido bem-sucedido, nem com Maria, nem com a sua irmã Protestante, a rainha Elizabete, nem com as mulheres monarcas na Escócia, com Maria de Guise e com sua filha, Maria Stuart. Ele estava cercado por mulheres governantes, e ainda assim escreveu aquilo. De acordo com Marshall, esse escrito não é menos impopular na Escócia atual, conferindo a Knox a reputação pública de “o primeiro e mais injurioso machista” do país.

Fazendo a rainha chorar

Depois, é claro, há aquela vez que ele se encontrou com Maria Stuart, e a fez chorar. Depois de sua mãe, Maria de Guise, ter morrido, o parlamento da Escócia tornou a nação Protestante. Maria Stuart, foi criada na França Católica e retornou como a legítima monarca da Escócia, apesar de ser jovem e viúva. Alguns pensavam que ela se converteria ao Protestantismo; outros, a saber, Knox, estavam preocupados com a possibilidade de ela se casar com um Católico espanhol, e reverter o progresso Protestante e eventualmente repetir o reinado cruel de Maria, a sanguinária, na Inglaterra. Ele criticou publicamente os rumores dos planos de casamento e, assim, foi convocado para um encontro com ela.

Conforme o registro, ela ficou furiosa quando o viu e disse: “Eu não consigo me livrar de você. Eu juro a Deus, eu serei vingada”. Mas depois ela chorou de forma histérica. A rainha de dezoito anos, na presença de Knox, com cerca de quarenta anos, chorou tanto e tão alto que o pajem correu para dar-lhe alguns lenços. Foi estranho, no mínimo, como Knox permaneceu esperando ela terminar. Uma vez que ela se acalmou, ele falou mais algumas palavras, concluindo: “Eu não sou meu próprio mestre, mas devo obedecer Aquele que me ordena falar claramente e não lisonjear a carne nesta terra”.

Mas depois, a situação piorou. Depois de outro breve diálogo, Maria começou a chorar novamente. Ela soluçava violentamente, e até mesmo foi confortada por outras pessoas. Knox contou a história, dizendo que ele precisou aguardar outro longo período em sua presença enquanto ela tentava se recompor. A rainha estava com raiva suficiente para mandá-lo esperar na parte de fora de onde estavam. Knox esperou por quase uma hora, ficando desconfortavelmente em silêncio com algumas outras pessoas até que ele disse a um grupo de mulheres elegantemente vestidas que elas morreriam e seriam comidas por vermes. Olhando para elas, em suas palavras, ele disse: “Pensem sobre a terrível morte!… Os vermes sujos se ocuparão com essa carne, ainda que ela já tenha sido muito bela e delicada”.

O destemido Knox

Há estes exemplos e inúmeros outros de quando Knox enfureceu as pessoas. Ele irritou Católicos e Protestantes, homens e mulheres, ricos e pobres. Parece que todos os que o conheciam, pelo menos em algum momento, não gostaram dele. Isso não é um exagero. A coisa mais incrível sobre tudo, porém, é que Knox não se importava.

É quase difícil de crer em quão implacavelmente intrépido ele viveu a sua vida. Ele cria que Deus o chamara para pregar a verdade, e isso é quase exclusivamente o que ele fez. Colocando-se contra uma cultura consumida com etiquetas e lisonjas, Knox apenas dizia como as coisas eram de fato. Marshall escreve: “Knox estava convencido de que, como um pregador da Palavra de Deus, ele havia sido enviado para oferecer orientação espiritual a todos, independentemente de quão eminentes fossem”. Ele era como um profeta do Antigo Testamento.

Embora eu não pense que os líderes da igreja moderna devam modelar o seu discurso ao de Knox, e enquanto muitas ações em sua vida não deveriam ser imitadas, o seu destemor é o que exige a nossa atenção.

Incrível não é o que ele disse e quando disse, mas a ousadia que o fez falar. John Knox realmente cria que ele nunca morreria (João 11.26) e que as suas aflições momentâneas o preparavam para um incomparável e eterno peso de glória (2 Coríntios 4.17), e que, se ele tentasse agradar o homem, não seria servo de Cristo (Gálatas 1.10).

Ele vivia em uma realidade que muitos de nós compartilhamos, mas que muitos de nós esquecemos durante as adversidades. Se estamos unidos ao glorioso Filho de Deus e somos cheios do eterno Espírito de Deus, e somos irreversivelmente declarados justos e filhos por Deus o Pai, somos intocáveis. Nós herdaremos o mundo, você sabe (Mateus 5.5). Julgaremos os anjos (1 Coríntios 6.3). Deus sabe quantos cabelos temos em nossas cabeças (Mateus 10.30), e mais do que isso, ele faz com que cada pequena coisa que acontece em nossas vidas sirva para nos conformar à imagem de Jesus (Romanos 8.28). E nós teremos medo? Sério? O que a mera carne pode nos fazer (Salmo 56.4)?

Todos “sabemos” disso, mas John Knox praticou essa verdade diariamente. Ele viveu como se fosse verdade, porque, afinal, é verdade.

Por: Sinclair Ferguson. Fonte: John Knox

Original: Breves relatos da vida do reformador John Knox (Parte 2) (Reforma500) (Reforma500). © Ministério Fiel. Website: MinisterioFiel.com.br. Todos os direitos reservados. Tradução: Camila Rebeca Teixeira. Revisão: William Teixeira.

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