Pastores Moderninhos

Mostre-me um homem adulto com cavanhaque, e eu te mostrarei um jogador de basquete. Mostre-me um homem adulto de cavanhaque usando sandálias e eu te mostrarei um pastor de jovens.

Quando eu era criança, lembro que o pastor de jovens da minha igreja era totalmente diferente de qualquer outro pastor que eu já tinha visto. Ele citava bandas de rock e ia para a igreja de jeans. Ele era legal de uma forma que os outros adultos no meu convívio não eram. Eu tinha orgulho de chamar meus amigos para a igreja e ver seus estereótipos negativos dos cristãos irem por água abaixo. O grupo de jovens crescia e as crianças ‘de fora’ eram alcançadas. O diferencial do nosso grupo em relação aos outros era que nosso pastor era legal.

Conforme os jovens (e os pastores deles) dos anos 90 se tornaram a igreja e seus pastores nos anos 2000, esse fenômeno aparentemente só cresceu. Agora é uma idéia sem discussão em muitos lugares: a melhor forma de alcançar as pessoas é ser como elas. Para atingir nossa cultura, devemos incorporar o que a cultura define como aceitável e de valor. Devemos ser o mais “legal” possível sem abrir mão do evangelho. Dessa forma, as pessoas vão olhar para nós e não se sentirão rejeitadas. Talvez até queiram ser como nós.

Isso se mostra tanto na vida dos nossos pastores (vocês rapazes super legais, estou falando sobre vocês e seus óculos de emo) como no louvor da congregação, de onde nós tentamos retirar qualquer coisa que pareça estranho para o visitante que não é da igreja.

De certa forma, eu acho que é bom estarmos relacionados com a cultura ao nosso redor. Mas existem diversas formas que um compromisso em ser legal pode conflitar com o chamado pastoral. Sendo o cara legal do grupo do 9Marks (o que é quase como ser o cara que tem namorada em uma convenção de Jornada nas Estrelas), aqui vão algumas idéias:

1. Estar em contato com a cultura é uma espada de dois gumes.

De alguma forma, todos nós carregamos conosco um conjunto único de interesses, talentos, características e pontos fortes. Esse conjunto pode servir para a proclamação do evangelho, ou atrapalhá-la. Por exemplo, ontem o rapaz da assistência técnica da copiadora passou pela igreja onde sou pastor. Ele é um jovem rapaz que gosta de luta livre. Criamos uma afinidade por conta disso (um dos rapazes de nossa igreja também gosta de artes marciais), e ele se surpreendeu com o fato de que o pastor era tatuado. Compartilhei sobre Cristo com ele, e ele me pediu uma Bíblia. Ponto para a imersão cultural.

Mas há outras formas em que a minha aparência por atrapalhar o evangelismo. Tenho conversado sobre Cristo com um muçulmano que faz sauna no mesmo horário que eu na academia, uma ou duas vezes por semana. Temos certo nível de amizade e quase sempre conversamos sobre questões espirituais. Não tenho a menor dúvida que o fato de haver uma grande raposa tatuada no meu bíceps não o torna mais interessado na minha fé. Um ponto para quem não tem tatuagens. É por causa disso que uso camisa de manga comprida nas manhãs de Domingo. Em um momento, minhas tatuagens me ajudam; em outro, pode dificultar as coisas.

2. Devemos sempre estar alertas contra o orgulho.

Quanto do desejo de um pastor em ser visto como legal ou descolado é motivado por vaidade ou orgulho? Conhecendo a profundidade de nossa depravação, auto-engano e orgulho, devemos sempre nos examinar. O motivo que me leva a me vestir de certa forma ou ouvir determinada música é um bom motivo? Ou alguma parte de mim quer, no mínimo, evitar comparações com Ned Flanders? Devemos estar conscientes que nossa busca pelo legal não deve alimentar a vaidade e o orgulho com os quais devemos lutar diariamente.

De fato, eu temo (e aqui eu falo de algo que vejo em meu próprio coração) que algumas vezes nós somos, nem que seja um pouco, motivados a buscar as pessoas pelo orgulho. Quanto de nosso desejo de sermos legais é um desejo de alcançar pessoas não para a glória do evangelho, mas por nossa própria glorificação? Uma pergunta íntima para qualquer pastor: se o Senhor te chamasse para pastorear 60 crentes chatos até que eles estivessem a salvo, sem qualquer avivamento espetacular ou explosão ministerial, você levaria a sério esse chamado? Ou seria um aparente desperdício de seus dons e de sua vida? Se sim, você está sendo motivado pelo orgulho.

3. Muito do ministério pastoral é extremamente fora de moda.

Nem pense em se tornar um pastor se você quer soar razoável para a maioria das pessoas ou se você quer influenciar um grande grupo de pessoas legais e seus ideais. A proclamação da Cruz é loucura para uma grande parte da comunidade artística hipster. Devemos amar mais o Salvador do que nosso respeito pelos outros.

Além disso, grande parte da atitude que envolve ser muito legal não tem muito a ver com o trabalho de um pastor. Algumas vezes, você deverá ser embaraçosamente empolgado. Você deverá amar as pessoas chatas e extremamente estranhas com um amor real e que não busca rir delas. Você deve chorar com as pessoas quando elas sofrem tragédias inexplicáveis. Muito do que é ser pastor é profundamente “não legal”.

4. Não devemos desprezar nossos irmãos e irmãs de forma alguma.

Há um grande perigo de nos tornarmos tão orgulhosos de nossa liberdade em Cristo para usar roupas pretas que nós começamos a tratar com pouco caso os cristãos estilo Ned Flanders que amam o Senhor e  o têm servido fielmente por anos. De fato, talvez o Senhor se agrade mais do humilde (mas não tão sofisticado) caminhar deles do que do seu. O fato é, o amor pelos outros cristãos é uma marca do verdadeiro crente (1 João 2.10). Essa marca deve ser ainda mais profunda no pastor. Temos mais em comum com um crente do Myanmar e outro em Duluth (mesmo que você não saiba onde ficam esses lugares, ou até mesmo que eles existam) do que com as pessoas que tentamos alcançar para Cristo.

A grande questão é: nós não podemos escolher quem estará em nosso rebanho, e nem deveríamos tentar. A igreja deveria buscar alcançar “o cara”, diminuindo e desprezando o rapaz comum e sem graça que está lá todo Domingo? Se lermos Efésios com atenção, veremos que a igreja consiste de todo tipo de pessoas: legais e chatos, machos e sensíveis, punks e emos. Sinceramente, baseado na minha experiência, o cara sensível que não se esforça para ser muito legal é provavelmente 10 vezes mais parecido com o perfil bíblico de como um homem deve ser, mesmo que ele não ande de moto e assista esportes violentos na TV. Pastoreie o rebanho, agradeça a Deus pela diversidade do corpo de Cristo e ame as pessoas que não são como você.

5. Com algumas poucas exceções, cristãos que tentam ser legais são péssimos nisso.

Quando estava no ensino médio, um rapaz bem intencionado tentou realizar a performance do que ficou conhecido no Colégio Radnor Junior como o infame “rap de Jesus”. Eram os primeiros dias do sucesso do hip-hop, e o gênero nem tinha se formado totalmente ainda. Bem, esse homem, um rapaz branco e magro, atrasou em uns dez anos o desenvolvimento do hip-hop em cinco excruciantes minutos. Mais tarde descobri que o que ele cantou não havia sido escrito por ele mesmo (graças aos céus), mas mais tarde acabou sendo lançado em disco por outro rapaz.

O ponto é: nem todos os cristãos são bons nisso. Alguns conseguem, mas provavelmente você não consiga. Sério, pergunte a sua esposa. Ela te dirá a verdade. Não tente ser algo que você não é apenas para impressionar os não crentes. É uma má aplicação da teologia e não vai enganar ninguém. É esse tipo de pensamento que produziu a maior parte da música gospel que ouvimos por aí. Por favor, pare. Não, é sério. Agora. Eu insisto.

6. Ser como a cultura pode tornar mais difícil enxergar o evangelho.

Quanto mais entendemos o mundo (e a sua definição do que é atraente e o que é legal), menos devemos nos sentir atraídos por ele. Em uma sociedade que está cada vez mais falida, moralmente e espiritualmente, são as nossas diferenças com a cultura que servem para espalharmos o evangelho. David Wells fala melhor sobre isso do que eu poderia, eu seu livro God in the Wasteland:

No ponto em que chegamos, os evangélicos deveriam estar ansiosos por um avivamento genuíno na igreja, desejando que ela seja novamente um lugar de seriedade onde uma ávida aversão ao padrão desse mundo é cultivada, porque se entende os padrões do mundo, e onde a adoração é separada de tudo que é extravagante, onde a Palavra de Deus é ouvida com atenção, e onde os desolados e desamparados podem achar refúgio.

Oremos para que nossas igrejas recuperem a qualidade de ser avidamente adversa ao padrão desse mundo, mesmo que isso não seja legal.

A conclusão disso tudo é: seja que Deus te fez para ser. Se você é um pouco hipster, que seja. Seja um hipster para a glória de Deus. Se você está indo em outra direção, que bom. Mas Cristo deve ser o centro de tudo aquilo que você busca em seu chamado pastoral. Isso significa sacrificar nosso orgulho e irmos atrás daqueles que não são como nós. Isso significa evangelizar além dos limites de nossos gostos e preferências. E no fim das contas, isso pode nos levar a não sermos legais.

Por: Michael McKinley. © 9Marks. Website: 9marks.org. Traduzido com permissão. Fonte: Contemplating Cool.

Original: O que é legal. © Reforma21. Website: reforma21.org. Tradução: Filipe Schulz.

4 Comentários
  1. Joao Anisio de Sousa Diz

    Precisamos dar equilíbrio a contextualização..e entendermos que o evangelho e puro simples e discreto…as aparências e claro engana se…porem e preciso ter maturidade e comportar se de maneira moderada e sucinta para não sermos “iguais ” a esssa geração corrompida pela modernidade,para que vivamos uma vida sóbria e justa…e que a nossa luz resplandeça….e Jesus apareça.

  2. Denise Gonçalves Diz

    Ótimas considerações!
    É preciso muito cuidado mesmo. O foco é agradar à Deus e ganhar nossos irmãos para Cristo.
    No mais , toda máscara e orgulho só dificultarão o alvo.
    Deus te abençoe!

  3. Wladimir Diz

    equilíbrio, é a resposta!

  4. Gilberto Diz

    Acho que é necessário ter equilíbrio. É preciso trabalhar bem a questão das dimensões que envolvem a relação entre evangelho, cultura e igreja. Creio que não há nenhum problema de se identificar com a cultura desde que não se provoque escândalo, e que não haja nenhum traço pecaminoso naquilo que eu me identifico. Hudson Taylor foi criticado pelos seus contemporâneos ingleses, quando se vestiu com um chinês. Em seu ato, ele se identificou com a cultura e encontrou espaço para falar do amor de Deus no interior da China. Creio que todo radicalismo é perigoso. O que significa se vestir bem e adequadamente? Qual o critério? O que a Bíblia diz sobre o assunto? Creio que não devemos ultrapassar o que está escrito em interpretações pessoais quanto ao nosso comportamento diante de uma cultura vigente.

Comentários estão fechados.