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Chegou a hora: quinta-feira à noite no jardim da agonia

“Chegou a hora; o Filho do Homem está sendo entregue nas mãos dos pecadores” (Mc 14.41).

Toda a vida humana de Jesus prenunciou essa hora. Toda tentativa cuidadosa de manter o segredo messiânico, todo investimento emocional concedido com alegria aos seus discípulos, todo vislumbre do oceano de sua bondade enquanto ele curava o cego, o mudo, o coxo, o endemoninhado e mesmo quando ressuscitou os mortos.

Nesse momento, a hora chegou. Toda a história depende dessa hora. E isso é absolutamente aterrorizante. Jesus deve decidir: Ele protegerá sua própria vida e alma ou aceitará a vontade perfeita e dolorosa do Pai?

A morte de Jesus havia começado muito antes dessa hora, mas agora, no Getsêmani, ele precisa enfrentar a morte para si mesmo, que ocorre antes da morte no Calvário. Nunca uma alma esteve tão angustiada. Nunca um ser humano foi tão não merecedor da ira divina. Jamais alguém enfrentou tal horror: ser feito pecado em favor de outras pessoas — colocar a si mesmo em nosso lugar.

Chegou a sua hora

Ainda em João 2, quando Jesus transformou água em vinho, ele sabia: “Ainda não é chegada a minha hora” (Jo 2.4). Mas ele reconheceu que a sua hora chegaria. E esse fato o moldou desde o princípio.

Quando Jesus subiu a Jerusalém secretamente para a festa dos tabernáculos, ele sabia: “O meu tempo ainda não chegou” (Jo 7.6). Quando começou a ensinar de modo público, não demorou muito para que procurassem “prendê-lo; mas ninguém lhe pôs a mão”. Por que ele foi poupado? João explica: “porque ainda não era chegada a sua hora” (Jo 7.30). Novamente, em João 8, durante essa mesma aparição na cidade santa, “ensinava no templo; e ninguém o prendeu”. Mais uma vez, João explica a invencibilidade de Jesus: “porque não era ainda chegada a sua hora” (Jo 8.20).

Porém, quando Jesus finalmente chegou a essa dramática e profética semana de páscoa, sabia que enfim…

É chegada a hora de ser glorificado o Filho do Homem. Em verdade, em verdade vos digo: se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer, fica ele só; mas, se morrer, produz muito fruto” (Jo 12.23-24).

Quando Jesus pousou com seus discípulos no cenáculo para prepará-los para a sua partida, sabia que aquela era a hora (Jo 13.1). Ao começar a sua magnífica oração sacerdotal naquela noite de quinta-feira, orou: “Pai, é chegada a hora; glorifica a teu Filho, para que o Filho te glorifique a ti” (Jo 17.1).

Por que “santa”?

Na igreja de língua inglesa, passamos a chamar essa noite angustiante antes da sexta-feira santa de “maundy thursday” (o equivalente à “quinta-feira santa”, em português – N.T.). Estudiosos suspeitam que a palavra “maundy” vem do latim mandatum, que significa mandamento. Trata-se de uma referência ao comando que Jesus deu aos seus discípulos, no cenáculo, após lavar os seus pés deles (Jo 13.1-20) e ver Judas partir (Jo 13.21-30):

“Novo mandamento vos dou: que vos ameis uns aos outros; assim como eu vos amei, que também vos ameis uns aos outros. Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos: se tiverdes amor uns aos outros” (Jo 13.34–35).

Chamá-la assim, “quinta-feira do mandamento”, pode dar a impressão errada de que a ênfase está em nosso amor, não no amor de Jesus. A ênfase dessa quinta-feira santa, no entanto, não é o novo mandamento para a igreja (“vos ameis uns aos outros”), mas o ato inimitável do seu noivo (“assim como eu vos amei”).

Naquela primeira quinta-feira santa, quando Jesus disse: “assim como eu vos amei”, ele não estava se referindo principalmente ao seu ato de lavar os pés dos discípulos. Ele tinha em vista o que a lavagem dos pés prenunciava: a sua própria morte no dia seguinte e o sacrifício definitivo que ele faria para resgatá-los. O pecado daqueles discípulos, e o nosso, mereciam justamente a ira onipotente de Deus. O resgate de Jesus e a demonstração de seu amor por nós exigiriam muito mais do que uma lavagem de pés. E muito mais que mera morte física.

Angústia no jardim

Quando Jesus terminou de orar no cenáculo, “saiu juntamente com seus discípulos para o outro lado do ribeiro Cedrom, onde havia um jardim; e aí entrou com eles” (Jo 18.1). A sua hora havia chegado e esse seria o jardim da sua agonia. O primeiro Adão não sentiu angústia em seu jardim, porque cedeu muito rapidamente, mas Jesus sabia que para resistir a todas as tentações, precisaria sofrer.

A sua hora de sofrimento literalmente excruciante por vir no Calvário seria suportada pela agonia emocional e espiritual ocorrida no passado. Antes que ele clamasse: “Meu Deus, meu Deus, por que me abandonaste?”, no grande eclipse da luz de seu Pai (Mc 15.34), ele primeiro, aqui no jardim, deve fazer a escolha final de se submeter ao próprio inferno. Ele precisa abraçar a dor, não apenas suportá-la. Ele precisa escolher os cravos e as trevas. Ele precisa dar um passo à frente para receber a ira santa de seu Pai. Ele precisa saudar a sua hora.

Nunca antes

Jesus não será uma mera vítima. Se ele for como um cordeiro para esse matadouro, deve ir voluntariamente. Livremente, por seu próprio espírito eterno, deve oferecer a si mesmo (Hb 9.14).

Se alguma vez houve um pavor santo, esse o é. Ele “começou a sentir-se tomado de pavor e de angústia” (Mc 14.33). Sendo totalmente humano, Jesus confessa: “A minha alma está profundamente triste até à morte” (Mc 14:34). “Estando em agonia” (Lc 22.44), ele se prostrou em terra e orou “para que, se possível, lhe fosse poupada aquela hora”.

Tão grande é o seu tormento que “estando em agonia, orava mais intensamente. E aconteceu que o seu suor se tornou como gotas de sangue caindo sobre a terra” (Lc 22.44). Ele oferece “forte clamor e lágrimas” (Hb 5.7). Quando ele se encontrava em fraqueza, “lhe apareceu um anjo do céu que o confortava” (Lc 22.43).

A cada momento que passa, está mais perto do traidor que chega com suas tropas. Jesus será traído pelas mãos dos pecadores, e eles personificarão, para todo o mundo ver, a própria essência do pecado: ataque a Deus, com intenção de matar. Como cada minuto no jardim não pareceria com uma vida inteira?

Angústia, por causa da alegria

Jesus sabia que o próprio inferno estava se aproximando. Então, de que modo ele, como homem, pode abraçá-lo em todo o seu horror?

Antes naquela mesma noite, dissera aos seus discípulos o que a sua hora significaria: angústia, por causa da alegria.

“A mulher, quando está para dar à luz, tem tristeza, porque a sua hora é chegada; mas, depois de nascido o menino, já não se lembra da aflição, pelo prazer que tem de ter nascido ao mundo um homem” (Jo 16.21)

No jardim, Jesus ainda está no outro lado. E, no entanto, fala, em todo o terror e tormento, em toda a sua tristeza e aflição, sentindo apenas alegria suficiente para escolher a alegria que virá. Isaías havia profetizado: “Ele verá o fruto do penoso trabalho de sua alma e ficará satisfeito” (Is 53.11). Somente a obrigação não consegue suportar essa hora. Suportá-la exigirá alegria. “em troca da alegria que lhe estava proposta, suportou a cruz” (Hb 12.2).

Por fim, ele resolve: “não se faça a minha vontade, e sim a tua” (Lc 22.42).

Nunca mais

Nunca antes um coração, mente e vontade humanos lidou com o que Jesus enfrentou naquele jardim. E nunca mais Deus precisará disso. A ida de seu Filho ao Getsêmani é absolutamente única em relação a qualquer jardim de angústia para o qual Deus possa nos guiar.

Aqueles que odeiam a Deus em breve ficarão desprotegidos ao enfrentarem a sua ira onipotente e justa. Mas eles nunca o farão no lugar de outras pessoas. E nunca o farão em troca da alegria que lhes foi proposta, por amor ao Pai e ao seu povo.

Nunca mais Deus fará um de seus filhos passar por esse jardim da sombra da morte. Nós podemos muito bem entregar as nossas próprias vidas nesse mundo para salvar outras pessoas aqui, mas não podemos escolher a ira de Deus no lugar do pecado de outra pessoa. O que Jesus fez naquela noite de quinta-feira é absolutamente único.

E, ainda assim, esta é a quinta-feira do mandamento: “vos ameis uns aos outros; assim como eu vos amei”.

Nossa alegria ecoa esse amor

O jardim de Jesus não será o nosso. A sua hora não será a nossa. Mas tendo sido amados desse modo, como não podemos nos amar uns aos outros? Como não podemos, como beneficiários do sacrifício insubstituível de Cristo, nos esvaziar de nós mesmos pelo bem de outros? Tendo provado tanta plenitude de Cristo, como não podemos alegremente servir a fim de satisfazermos as necessidades de outras pessoas?

Sim, nós amaremos, mas a quinta-feira santa não estimula o nosso amor. Essa é uma noite para nos maravilharmos com o que Jesus abraçou por nós; é uma noite para nos encantarmos com a singularidade do seu amor sacrificial. Imaginem que, enquanto ainda éramos pecadores, ele morreu por nós (Rm 5.8). “Nisto consiste o amor: não em que nós tenhamos amado a Deus, mas em que ele nos amou e enviou o seu Filho como propiciação pelos nossos pecados” (1Jo 4.10).

Na “quinta-feira do mandamento”, nós primariamente não assumimos a responsabilidade de nos amar uns aos outros. Nós caímos de joelhos, prostrados em terra, e dizemos:

Foi por mim, no jardim

Ele orou: “Não a minha vontade, e sim a tua”.

Não chorou por seus próprios sofrimentos,

Mas suou gotas de sangue por mim.

 

Que maravilha! Que maravilha!

E minha canção sempre será:

Que maravilha! Que maravilha!

O amor do meu Salvador por mim!

Por: David Mathis. © Desiring God Foundation.Website: desiringGod.org. Traduzido com permissão. Fonte: The Hour Had Come.

Original: Chegou a hora: quinta-feira à noite no jardim da agonia. © Voltemos ao Evangelho. Website: voltemosaoevangelho.com. Todos os direitos reservados. Tradução: Camila Rebeca Teixeira. Revisão: William Teixeira.

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