Restauração para os que sofreram abuso sexual

*Este artigo é um resumo da palestra de Filipe Niel proferida na Conferência Fiel Jovens Interativa 2020.

Este é um tópico extremamente difícil, delicado nos dias atuais. Não há como saber o que cada pessoa passou. Milhares de crianças e adolescentes foram abusados ano passado; estima-se que cerca de 20% da população brasileira foi abusada ao decorrer da vida. O abuso deixa um passado cheio de confusão, medo e dor. Há quatro possibilidades com relação a isso: é possível sofrer sem ter culpa e reagir bem ao sofrimento; sofrer sem ter culpa e reagir mal ao sofrimento; sofrer tendo culpa e reagir bem após o sofrimento; ou sofrer tendo culpa e ainda assim reagir mal. Serão abordados os dois primeiros por serem, talvez, os mais comuns.

O Salmo 73 não é o salmo de alguém que foi, necessariamente, abusado sexualmente, mas ele traz elementos importantes que devem ser lembrados quando somos injustiçados, quando somos abusados. O salmista começa afirmando que Deus é bom para os puros de coração, mas, de alguma forma, ele não se vê entre esses puros de coração. Essa também parece ser a visão de muitos que sofreram abuso: eles se sentem sujos, impuros, indignos e, por vezes, não conseguem ver dignidade e bondade em Deus.

Observe os versos 2 e 3: o salmista possui muita honestidade com relação ao que pensa, encarando os fatos de frente, e dizendo: foi por pouco que eu não caí; quase tropecei pois senti inveja dos arrogantes e da prosperidade dos maus. É uma concepção errada a de que o tempo irá curar tudo. Então escolhe-se não lidar com a situação de frente. A primeira lição do salmista é: precisamos encarar o problema com honestidade; é preciso rasgar o coração diante de Deus e ser brutalmente honesto.

Nos versos 4 a 12, o salmista relata a suposta vida dos ímpios: parecem não passar por sofrimentos, não carregar nenhum fardo, se vestem com orgulho e violência; zombam e falam com más intenções; são arrogantes e ameaçam com opressão; se acham donos de tudo; e as pessoas muitas vezes os admiram. Então, chegam ao ponto de desafiar o próprio Deus, sempre despreocupados. Ainda assim, parecem sempre prosperar.

O salmista analisa seus opressores e chega a uma conclusão inicial nos versos 13 e 14: foi inútil manter puro o coração e procurar a inocência, pois ele é quem foi afligido e castigado. O resultado? Muitas vítimas do abuso olham para si e, sentido-se sujas, tentam cobrir essa sujeira vivendo uma vida de iniquidade e podridão, afinal, para que se manter puro se, ao querer isso, o tornaram sujo?

Geralmente, pessoas abusadas, assim como Adão e Eva, que tentaram cobrir sua nudez com folhas de figueira, ao perceberem sua suposta impureza criada pelo abuso, também criam para si “folhas de figueira” sob personagens criados para si, a fim de se esconder neles. Eis alguns exemplos: a personagem “boa menina”, aquela que não reclama de nada, que apenas sobrevive; ou a “personagem durona”, a pessoa que nada parece atingi-la e que não confia em ninguém; ou a “personagem divertida”, aquela que se torna o centro da festa, a que ri e faz os outros rirem; ou a “personagem espiritual”, que se esconde por trás de uma falsa religiosidade, tentando se limpar daquela sujeira.

No v. 15, o salmista percebe que, se ele continuasse nesse caminho, ele teria perdido a verdadeira identidade. É preciso ter muito cuidado para não fazer do abuso a sua vida e quem você é, pois logo não mais perceberá sua identidade na família da fé. Outra tentação forte é tentar trazer o abuso para o campo da razão (veja o v. 16). Mas, sendo honesto, o salmista diz que isso é difícil demais para uma mente finita.

Então, no v. 17, ocorre uma grande mudança no rumo do salmo. O salmista, que antes parecia não ter esperança, passa a enxergar tudo diferente após entrar no santuário de Deus. Ou seja, sua perspectiva deixa de ser terrena e passa a ser eterna. Se antes ele via seus agressores como pessoas prósperas, ele passa a ter uma perspectiva divina e eterna (vv. 18-20). Se, no abuso, há uma pessoa que sai pior do que o abusado, esta pessoa é o abusador. Ele terá que prestar contas ao Deus criador dos céus e da terra, do justo juiz que criou a criatura por ele abusada, e terá que responder por isso.

Logo, depois de mudar a perspectiva, o salmista começa a perceber suas reações ruins diante da opressão e do abuso (v. 21-22). Seu coração estava literalmente amargo e sentia inveja; ele reconhece que reagiu bruta e irracionalmente contra Deus. Quando mudamos nossa perspectiva de terrena para eterna, podemos reconhecer as maneiras ruins que reagimos para com o pecados dos outros contra nós.

Talvez, devido aos abusos sexuais que você possa ter sofrido, você tenha sofrido outras más consequências como trair seu atual parceiro(a), não confiar no outro totalmente, etc. Vemos aqui que lidar com tudo isso é parte do processo de restauração.

O salmista reconhece no v. 23: “Todavia, estou sempre contigo”. Após reconhecer seus próprios erros, ele reconhece que, ainda assim, em Deus ele encontra aceitação. Em Deus não há desprezo nem vergonha para aqueles que foram abusados. Em Deus você é aceito não por ter sido abusado ou pelo que você faz, mas pelo que Ele fez em Cristo Jesus por você. Ele reconhece o cuidado, a proteção, a direção de Deus. Dentre tantas vozes que tentam orientar os que sofreram abuso, a Palavra nos mostra que o Senhor é quem nos dirige com seu conselho. Você pode confiar e encontrar direção na palavra de Deus.

O salmista também reconhece as promessas futuras (v. 24). O Senhor o receberá com honras. Um dia, você que é parte da noiva de Cristo, a qual será apresentada pura e imaculada a Ele nas bodas do Cordeiro, poderá receber plena restauração.

No v. 25, o salmista fala consigo mesmo e mostra que seus desejos aqui na terra mudaram: ele deseja estar com Deus. No v. 26, ele reconhece que a restauração é um processo. Teremos dias mais difíceis em que o medo e a amargura tentarão dominar novamente; mas, por mais que o corpo e o coração fraquejar, Deus continua sendo sua herança para sempre. Ele não muda e as promessas para sua vida não mudam (v. 27-28).

Por vezes, as pessoas abusadas possuem um medo real de estar perto de pessoas. O salmista mostra que é bom e seguro estar perto de Deus; precisamos nos lembrar disso todos os dias. A soberania de Deus é melhor do que a justiça de um deus indiferente.

Por fim, o salmista afirma, no fim do v. 28, que nossas dores e sofrimentos podem ser usados por Deus para ajudar outras pessoas. É possível proclamar todos os feitos de Deus e assim consolar os que passam por tribulações (2 Co 1.3-5). Tudo pelo que você passou pode ser usado como instrumento para redimir pessoas que passaram pela mesma coisa. O processo final da sua restauração é se colocar nas mãos do teu Bom Redentor e, com as consolações dele, que passou por todos os males e se compadece de nós, você possa consolar outros que estão sofrendo.