Riscos ao pastorado em tempos de pandemia

Há cerca de um ano a OMS reconheceu a COVID19, doença causada pelo Coronavírus, como uma pandemia (11.03.2020). Naquela altura, a doença havia se espalhado por diversos continentes com transmissão sustentada entre as pessoas. Mas o mundo continuaria sendo surpreendido pelos desdobramentos, as ações desse vírus e suas mutações. Toda a humanidade tem sofrido com as adaptações à realidade pandêmica e novos ajustes são exigidos diariamente. Para piorar a situação, a confusão quanto aos procedimentos a serem tomados, tanto por políticos quanto por profissionais da saúde, aumentam a insegurança e angústia da população mundial.

O cenário pandêmico trouxe mudanças também para o exercício do ministério pastoral. Por exemplo, o isolamento social não permite mais os templos repletos e nem as visitações frequentes. Também, embora algumas ramificações da pandemia incluam ansiedade, solidão, conflitos domésticos e outras mazelas afins, os cuidados protocolares dificultam a realização do aconselhamento pastoral presencial em um dos momentos nos quais ele parece ser mais necessário. Somado a tudo isso, se encontra o desafio tecnológico para muitos pastores que não foram preparados nos seminários para pregarem diante de uma tela do celular e nem aprenderam a fazer edições de vídeos para divulgação de seus sermões. Grande parte da dinâmica social se tornou remora, mas é difícil exercer o ministério pastoral remotamente.

Ainda que complicados e desafiadores, as dificuldades mencionadas acima não são as que oferecem maiores riscos aos pastores nesses tempos de pandemia. Há outras ameaças mais graves que podem, inclusive, desorientar alguns da lida ministerial e contribuir com a perturbação do rebanho de Deus nesses tempos angustiantes. Procurei relacionar abaixo alguns desses itens e comentar brevemente sobre cada um deles para nossa reflexão.

1. O envolvimento na politização dos temas envolvendo a pandemia. A luta contra o avanço da Covid 19 assumiu contornos politizados em várias partes do mundo, e no Brasil não é diferente. As diferentes opiniões quanto as formas de tratamentos, medicação ou medidas governamentais implementadas, acabaram acirrando os ânimos de todos. O debate ainda se tornou mais apimentado pelas acusações abstratas de “negacionismo”, “terraplanismo”, “cientificismo”, etc. É difícil para um pastor não se envolver com essas questões, mas manter distanciamento desse campo minado é uma necessidade factual, pois o chamado pastoral é mais sublime do que os conflitos políticos.

O principal aspecto do chamado ministerial é proclamar a gloriosa mensagem do Evangelho e equipar o rebanho de Cristo. Contudo, é verdade no exercício do cuidado pelo rebanho ele tenha que, algumas vezes, se envolver em polêmicas e debates, mas isso não pode se tornar normativo. Ao contrário, a norma ministerial ensina que “é necessário que o servo do Senhor não viva a contender, e sim deve ser brando para com todos, apto para instruir, paciente” (2Tm 2.24). Além do mais, o ministro deve se lembrar de que ele foi comissionado para pastorear pessoas com diferentes opiniões políticas e formações variadas. Mas infelizmente, muitos ministros têm se envolvido mais com a politização da pandemia do que o ministério de consolar os aflitos e sustentar os abatidos. O servo do Senhor recebe língua de erudito para dizer boa palavra ao cansado (Is 50.4) e essa prioridade não deve ser ignorada. Assim, por mais que seja tentador, refreie-se de se envolver na armadilha da politização dos temas relacionados à pandemia.

2. O desperdício de horas nas atividades online que, além de não estarem relacionadas ao ministério, podem alimentar práticas pecaminosas. Com raras exceções, o labor ministerial no período da pandemia foi reduzido às atividades remotas, principalmente àquelas realizadas pela Internet. Naturalmente o pastor passou a consumir mais tempo com mídias sociais, postagens, navegações, interações por meio de plataformas online e, dessa maneira, as horas do seu dia são consumidas à frente da tela que o conecta com sua congregação e com o mundo. Mas é justamente essa última conexão (com o mundo) que muitas vezes pode levá-lo a gastar o seu tempo pecaminosamente.

A conexão com o mundo pela Internet se revela uma infindável fonte de entretenimento. Qualquer que seja o interesse de uma pessoa, com certeza ela encontrará recursos na Internet capazes de mantê-la navegando horas à fio. Por exemplo, há inúmeros vídeos de esportes, trabalhos manuais, tecnologia, discussões políticas, questões teológicas e assim por diante. Essas predileções inocentes e, até virtuosas, podem se tornar pecaminosas se consomem o tempo que deveria ser dedicado a algum aspecto do cuidado pastoral com o rebanho de Cristo ou serve apenas para alimentar nossos impulsos egocêntricos e curiosos. Como diria o demônio Maldanado (ou Coisa-Ruim), da obra de C. S. Lewis:

. . . lembre-se que a única coisa que importa é o quanto você consegue afastar o homem do Inimigo. Não importa quão pequenos são os pecados desde que o seu efeito cumulativo seja desviar o homem para longe e para fora da luz, direto para o Nada. O assassinato não será melhor do que o carteado se este der conta do recado. A estrada mais segura para o inferno é gradativa – a ladeira é suave, o solo é macio, sem curvas acentuadas, sem marcos e sem postes indicadores.[1]

Assim, “ocupações inocentes” no universo virtual podem acabar se tornando pecaminosas ao desviar o pastor do seu chamado ministerial. Todavia, há outras tentações mais gráficas e viciantes na Internet, como pornografia e jogos de azar, e os pastores não estão imunes a elas. É possível que profissionais, inclusive pastores, desperdicem o precioso tempo do seu labor remoto em algo que não tenha qualquer relação com sua produtividade vocacional, mas com atividades pecaminosas.

3. Confundir cuidado remoto com ociosidade e descaso. Como já foi dito acima, o cuidado pastoral no período da pandemia se tornou praticamente restrito aos contatos remotos. O medo de contaminar ou ser contaminado faz com que muitos membros da igreja recusem receber visitas presenciais, ainda que em ambientes abertos. Por outro lado, vários pastores tentam evitar o constrangimento e tomam a iniciativa em prol dos contatos telefônicos, mensagens de WhatsApp ou videochamadas. Quando isso acontece, as ovelhas se sentem assistidas, ainda que limitadamente, mas compreendem que o ministro faz aquilo que lhe é permitido nesses dias estranhos.

Todavia, nem todo pastor age assim. Há aqueles que, uma vez que a demanda ministerial é diminuída, logo se lançam em sua zona de conforto e nela se acomodam. Ao invés de serem criativos e proativos na procura de novas maneiras de ministrar ao rebanho, esses obreiros consomem o tempo que deveria ser dedicado ao trabalho em lidas domésticas, interesses familiares, consumos de séries televisivas ou hobbies pessoais. O problema é que tudo isso comunica descaso com o rebanho e até preguiça. Como o trabalho pastoral dificilmente possui uma supervisão objetiva, alguns se limitam a fazer apenas aquilo que é necessário, pois o extraordinário é demasiado para eles (filosofia do urso Balu, da história de Mogli). Assim, pregar um sermão, ministrar um estudo bíblico ou algumas ligações telefônicas esporádicas parecem suficientes para preencher a agenda de trabalho desses pastores.

É necessário compreender que aquilo que a realidade remota apresenta é um desafio e convite para reorientar o ministério pastoral, não uma justificativa para a ociosidade. Todos nós somos mordomos do tempo e das oportunidades concedidas por Deus para cuidar de suas ovelhas e o que se “requer dos despenseiros é que cada um deles seja encontrado fiel” (1Co 4.2).

4. A negligência do cuidado consigo. O antônimo de preguiça é o ativismo e, no meio cristão, esse se torna extremamente perigoso quando é confundido com a espiritualidade. No caso de alguns pastores, enquanto não se veem agitados, atendendo os compromissos da agenda, realizando reuniões (ainda que remotamente), mantendo algumas reuniões presenciais, multiplicando ocasiões de culto (para atender menores números), visitando trabalhadores em empresas etc., não se sentem realizados. A consciência parece acusar esses irmãos que vivem para trabalhar intensamente. O problema é que nesse afã de atender outros, acabam por não atender suas próprias necessidades. Pequenas coisas começam a ser negligenciadas como o sono, a boa alimentação, as atividades físicas, os cuidados protocolares do contexto pandêmico e assim por diante. Esses bem-intencionados ministros acabam se tornando “presas fáceis” para um vírus que não respeita a devoção e cujos efeitos se agravam sobre aqueles que apresentam maiores fragilidades. Há muito pastor que por detrás da máscara do ativismo esconde a negligência com sua saúde (obesidade, sedentarismo, imprudência e descuido). Infelizmente esses santos homens de Deus não conseguem ser modelos para o rebanho na área do cuidado pessoal.

É importante divorciar espiritualidade do ativismo, pois esse último apenas mascara o crescimento espiritual. Na história de Marta e Maria encontramos que a “boa parte” foi escolhida por aquela que “quedava-se” aos pés do Senhor a ouvir seus ensinamentos. Assim, é necessário aprender que há momentos nos quais a melhor coisa que um pastor pode fazer pelo seu rebanho é “atender por si”, primeiramente, e depois “por todo o rebanho” (At 20.28).

5. Deixar de analisar a situação sob a ótica de Deus. Em tempos de crises e dificuldades nossa mente se torna fértil em produzir questionamentos e tentar encontrar alguma explicação “lógica” ao nosso redor. O problema é que nesse processo facilmente esquecemos do óbvio: a soberana providência de Deus. Deixamos de observar o curso da vida sob a ótica do Senhor e buscamos respostas sociológicas, antropológicas, biológicas, econômicas, políticas e assim por diante. Os recursos parecem infindáveis nesse sentido. Porém, somente a verdade bíblica de que tudo se encontra debaixo do controle absoluto daquele que se assenta no trono (Ap 4) pode acalmar o coração aflito. O exercício de analisar toda situação sob a ótica do Senhor fortalece nossa fé e vivifica nosso vigor. Como o salmista confessou a Deus: “Nos muitos cuidados que dentro de mim se multiplicam, as tuas consolações me alegram a alma” (Sl 94.19). No entanto, o benefício desse exercício não é apenas pessoal, mas ministerial. Quando somos bem-sucedidos nesse empreendimento podemos aconselhar outros e ajudar nosso rebanho a fazer o mesmo. Quando isso acontece, ao invés de propagarmos lamúrias, agitações e confusões, contribuímos com o progresso espiritual do rebanho que nos foi confiado por Deus.

Nesse sentido, há uma história ilustrativa envolvendo Charles H. Spurgeon, que sofria com várias enfermidades, inclusive uma depressão severa. Certa vez alguém lhe perguntou como deveria ser angustiante para ele que Satanás lhe causasse tanto sofrimento mesmo sendo ele tão devoto a Deus. É dito que Spurgeon respondeu: “Seria de fato um sofrimento, na verdade a maior angústia de minha vida, acreditar que qualquer dos males que sofro fosse causado somente por Satanás e não ordenado pelo meu Bondoso Deus”. A resposta de Spurgeon revela alguém determinado a olhar para a vida sob a ótica do Senhor e comprometido a analisar cada detalhe dessa vida teologicamente.

Há, de fato, muitos perigos nesse cenário pandêmico que não sabemos quando passará. Todavia, é mister que os ministros do Evangelho atentem para certos riscos sutis que podem afetar suas vidas e ministério, desviando-os do glorioso propósito traçado nas Escrituras para o bom desempenho do ministério pastoral.


[1] LEWIS, C. S. Cartas de um diabo ao seu aprendiz. Thomas Nelson Brasil, p. 72-73