Um blog do Ministério Fiel
Educação e religião na Bíblia
A educação interfere no que cremos e o que cremos determina a educação
Deuteronômio 6 é uma passagem bíblica chave para os estudos de educação cristã. É quase impossível participar de um evento, ou ler um livro sobre o assunto, sem se esbarrar com esta passagem. Não é difícil entender o porquê. Ela ensina muita coisa sobre educação. Ensina muito sobre o que devemos fazer, sobre como devemos fazer, e sobre as motivações [porque] e as finalidades [para que] pelas quais devemos fazer o que fazemos nesta dimensão de nossa existência. No contexto do ensino sobre os dois últimos aspectos [as motivações e finalidades da educação], essa passagem bíblica trabalha com a relação entre educação e religião e ensina exatamente o que afirmamos no tópico anterior: que existe uma relação necessária entre esses dois aspectos da vida humana.
Em Deuteronômio 6, educação e religião relacionam-se numa via de mão dupla. Primeiramente, o texto ensina que a educação influencia a religião. Veja o que dizem os versos introdutórios da passagem:
1 Estes, pois, são os mandamentos, os estatutos e os juízos que mandou o SENHOR, teu Deus, se te ensinassem, para que os cumprisses na terra a que passas para a possuir;
2 para que temas ao SENHOR, teu Deus, e guardes todos os seus estatutos e mandamentos que eu te ordeno, tu, e teu filho, e o filho de teu filho, todos os dias da tua vida; e que teus dias sejam prolongados.
3 Ouve, pois, ó Israel, e atenta em os cumprires, para que bem te suceda, e muito te multipliques na terra que mana leite e mel, como te disse o SENHOR, Deus de teus pais.
As palavras registradas em Deuteronômio 6 seguem imediatamente à narrativa da entrega da lei por parte de Deus, ao povo de Israel, registrada no capítulo 5. Esses três versos introdutórios apresentam, mais especificamente, a tarefa que Moisés deveria realizar, tendo recebido os mandamentos da parte de Deus: ENSINAR. Deus havia entregado os mandamentos a Moisés (Deuteronômio 5.1-22) e agora determina que ele os ensine a todo o povo (v.1).
O mais significativo para nós, neste ponto, é a finalidade última pela qual, segundo Moisés, a tarefa deveria ser realizada: para que temas ao SENHOR, teu Deus (v.2). Como se pode perceber nessas palavras, o objetivo final de Deus, ao exigir que Moisés ensinasse ao povo os seus mandamentos, era o de que ele [o povo] fosse levado, pelo aprendizado e cumprimento deles, a temer ao Senhor, isto é, respeitá-lo de modo reverente e se devotar a ele. Fica claro, nesses versos introdutórios, principalmente na menção às gerações posteriores feita pelo v.2, que a manutenção da religião em Israel [o temor ao Senhor], ao longo de sua vida na terra prometida, de alguma forma, dependeria da educação [o ensino dos mandamentos].
Temos aqui um princípio importante: existe certa influência da educação sobre a religião. O modo como somos educados interfere no que cremos, na decisão sobre quem devemos temer e a quem devemos servir. É verdade que não é fácil medir exatamente o quanto nossa educação influencia nossa religião. Sabemos, por um lado, que essa via da relação não é de determinação absoluta. Todos nós conhecemos pessoas que, embora tenham sido submetidas por longo tempo a uma educação religiosa X, optaram pela vida religiosa Y. Isso mostra que a nossa direção religiosa é determinada por algo mais do que educação. Mas sabemos, por outro lado, que não há como ignorar o papel fundamental da educação em nossa direção religiosa. Se fizéssemos uma pesquisa, suspeito que encontraríamos mais pessoas que foram submetidas a uma educação religiosa X na vivência da religião X, do que pessoas que foram submetidas a uma educação religiosa X na vivência da religião Y. Suspeito também que, se procurássemos estudar o segundo grupo de pessoas, perguntando como pessoas que foram submetidas a uma educação religiosa X passaram à vivência da religião Y, certamente encontraríamos algum momento em que elas foram submetidas à educação Y, mesmo que não pela mesma quantidade de tempo em que estiveram submetidas ao tipo anterior de educação. A relação não é de determinação, mas não há como negar que ela existe: a educação influencia a religião. Isto é verdade para qualquer postura religiosa, do teísmo ao ateísmo.
Em segundo lugar, Deuteronômio 6 ensina que a religião determina a educação. É importante atentarmos para a mudança dos verbos. Quando falamos da via de relação anterior, utilizamos o verbo influenciar. Ao falarmos desta, optamos pelo verbo determinar. A mudança não é casual. É que acreditamos que, ao contrário do que acontece na primeira, nesta segunda via a relação é mais radical. Veja o que diz o restante da passagem:
4 Ouve, Israel, o SENHOR, nosso Deus, é o único SENHOR.
5 Amarás, pois, o SENHOR, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de toda a tua força.
6 Estas palavras que, hoje, te ordeno estarão no teu coração;
7 tu as inculcarás a teus filhos, e delas falarás assentado em tua casa, e andando pelo caminho, e ao deitar-te, e ao levantar-te.
8 Também as atarás como sinal na tua mão, e te serão por frontal entre os olhos.
9 E as escreverás nos umbrais de tua casa e nas tuas portas.
Neste trecho, a passagem se volta da atividade pedagógica de Moisés para a atividade pedagógica do povo. O que estava implícito na menção às gerações posteriores (v.2) é explicitado agora nos versos 4 a 9, em termos imperativos.
Na maioria das vezes em que nos aproximamos destes versos, enfatizamos as exigências da segunda metade deles: inculcarás, falarás, atarás e escreverás (v.7-9). De fato, essas exigências são importantes e reveladoras. Elas sugerem lições preciosas, tais como: a existência de diferentes formas de aprendizado, a importância da repetição, o papel fundamental da aplicação do ensino, dentre outras. Mas, tão importantes quanto as exigências desses versos (7-9), são as feitas nos versos anteriores (5-6). Devemos olhar com maior cuidado para elas, pois relacionam as atividades pedagógicas mais práticas a outras atividades e circunstâncias que lhes são fundamentais. Ou seja: os versos 5 e 6 apresentam duas exigências, cujo atendimento é condição para a realização efetiva das atividades mais práticas.
A primeira dessas exigências fundamentais é: Estas palavras que, hoje, te ordeno estarão no teu coração (verso 6). Essa, que é imediatamente anterior às exigências mais práticas, sugere algo que todo educador está acostumado a ouvir: é necessário que aquele que ensina tenha, antes de tudo, se apropriado do que pretende ensinar. A condição para se ensinar algo é, antes, tê-lo aprendido. Há, contudo, algo muito significativo neste aprendizado mencionado na passagem: a dimensão da existência na qual ele deve acontecer — o coração. Quando consideramos o papel central do coração na antropologia do Antigo Testamento (Provérbios 4.23; 27.19), concluímos que o texto não se refere, meramente, a um aprendizado teórico-racional, mas a uma apropriação existencial que transforma o ser. Em outras palavras, para que o povo de Israel promovesse uma educação que estivesse de acordo com a vontade de Deus, antes o próprio povo deveria ser conformado a essa vontade. O que esta primeira exigência fundamental sugere é que existe uma relação necessária entre aquilo que ensinamos e quem nós somos.
A segunda exigência fundamental é: Amarás, pois, o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de toda a tua força (v.5). Embora, na ordem de nossa argumentação, esta tenha sido apresentada como a segunda exigência, no texto ela é a primeira. Isto não acontece por acaso, mas porque ela, de fato, diz respeito à condição mais básica para a realização efetiva das atividades pedagógicas práticas. Para que o povo de Israel promovesse uma educação que estivesse de acordo com a vontade de Deus, antes de tudo, era necessário que ele confiasse no Senhor e se devotasse a ele. Esse é o verdadeiro sentido de amor na Bíblia Sagrada. O que essa segunda exigência fundamental sugere é que existe não apenas uma relação necessária entre aquilo que ensinamos e quem nós somos, mas também entre quem somos e a quem adoramos.
Essa segunda metade da passagem propõe uma estrutura básica para o funcionamento de nossa atividade pedagógica: ADORAR-SER-EDUCAR. O modo como ensinamos (v.7-9) é determinado por aquilo que somos (v.6), e o que somos, por aquele a quem adoramos (v.4-5). É, portanto, a religião, compreendida em seu sentido mais profundo, de relação com o absoluto (o verdadeiro, Deus; ou um falso, um ídolo), o fundamento de nossa maneira de ser, e consequentemente, de nossa maneira de educar. Os nossos projetos, interesses, motivações, conceitos e modelos, se definem, em última instância, por aquilo que amamos e com o qual nos comprometemos; seja ele o Deus da Bíblia, ou qualquer outra coisa que insistimos em colocar no lugar de Deus. Deuteronômio 6 ensina que você educa de acordo com o que adora!
Este artigo é um trecho adaptado e retirado com permissão do livro Você educa de acordo com o que adora, de Filipe Fontes, Editora Fiel.


