Os perigos da internet e redes sociais na vida de missionários

Escapismo digital versus relacionamentos reais

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Resumo: O artigo aborda o perigo do escapismo digital, especialmente entre missionários transculturais, mostrando como o acesso irrestrito à internet pode afastá-los dos relacionamentos reais e do ministério local. Com base no exemplo de Jesus, o texto oferece práticas para priorizar relacionamentos presenciais, definir limites digitais saudáveis e encontrar descanso verdadeiro na presença de Deus.


Depois de três dias de viagem sem escalas, finalmente pousamos no país anfitrião. Era 2018, e enquanto nossa família embarcava em um avião de dez lugares para a última etapa da viagem, fui invadido por uma sensação de distância e isolamento. A sensação só aumentou à medida que sobrevoávamos lentamente vastos pântanos, montanhas e selvas antes de pousar em uma pequena pista de terra. Conseguimos. Nosso país, os Estados Unidos, nunca fora tão distante.

Como acontece com todos os missionários transculturais, nosso primeiro mandato incluiu muitos desafios. Um deles foi a adaptação ao acesso limitado à internet. Nossa internet era cara e lenta (quando funcionava), uma conexão que pagávamos por megabyte de uso. Aprendemos a usá-la com moderação — para e-mails, tarefas básicas de trabalho e, ocasionalmente, ligações para casa ou postagens nas redes sociais. Embora frustrante às vezes, isso nos deixou com muito tempo livre que nós e nossos colegas missionários usamos para investir em relacionamentos. Compartilhávamos refeições, jogos e vivíamos a vida juntos. Rapidamente passamos a apreciar essa comunidade rica e vibrante.

O segundo semestre foi diferente. Nosso provedor de internet atualizou para uma nova conexão de fibra óptica. Tínhamos um plano de internet ilimitado e com tarifa fixa, assim como tínhamos nos Estados Unidos. No início, ficamos animados — podíamos assistir à Netflix, acompanhar as redes sociais e fazer videochamadas com a frequência que quiséssemos. Mas, aos poucos, percebemos que a atualização era, de certa forma, um downgrade.

Passávamos mais tempo em ambientes fechados em vez de ao ar livre, mais tempo mantendo relacionamentos em nosso país de origem em vez de construí-los no país anfitrião, mais tempo olhando para as telas em vez de para os amigos. Atraídos pelo que deixamos para trás, nosso foco mental e emocional corria o risco de se erodir.

Os atrativos do escapismo digital

Nesta era digital, a tentação de fugir para as telas está presente para todo cristão. Bombardeados com histórias de caos, calamidade e corrupção ao redor do mundo e vivenciando sofrimento, dificuldades e mágoas em nossas próprias vidas, às vezes queremos nos afastar de tudo. Então, fechamos a porta e assistimos a outro episódio. Rolamos a tela por mais alguns minutos. Fazemos compras online.

A atração do escapismo digital pode ser especialmente forte para missionários. Por quê?

Primeiro, os missionários frequentemente vivem em lugares onde o caos, a calamidade e a corrupção deste mundo decaído os bombardeiam não apenas digitalmente, mas também fisicamente. Uma simples ida à loja pode incluir risco real de roubo ou assalto. Ministrar às pessoas pode envolver exposição a pulgas, sarna ou percevejos. Os missionários frequentemente estão cercados por crianças famintas, abuso doméstico e violência. Eles podem suportar incertezas quase constantes em relação a moradia, finanças, assistência médica e muito mais.

Em segundo lugar, às vezes, uma fuga é saudável e necessária. Até mesmo Jesus “escapou” do ministério algumas vezes (Lucas 5.16), e Paulo retornou “para casa” entre as viagens missionárias (Atos 14.26-27). Nossa fragilidade e a necessidade divina de descanso frequentemente exigem um retiro estratégico. Isso pode ser especialmente verdadeiro para missionários, que normalmente vivenciam níveis mais elevados de estresse. Tal conhecimento confere um senso de legitimidade a toda tentação de fuga — o que só serve para intensificar a tentação.

E, finalmente, escapar está mais fácil do que nunca. Em muitos dos lugares mais remotos, a internet está disponível no seu bolso. Torres de celular continuam a ser construídas mesmo em florestas tropicais isoladas. A cobertura de internet via satélite cresce diariamente. A internet continuará a se tornar mais disponível, acessível e confiável em todo o mundo.

Perigos do escapismo digital

Os missionários podem deixar seus países de origem, mas seus países de origem não os abandonam. E essa conexão constante pode se tornar perigosa. Por quê?

O acesso instantâneo e contínuo a imagens, histórias e relacionamentos de casa pode intensificar e prolongar a sensação de perda que todo missionário sente. Podemos lamentar ao ver amigos tirando férias, familiares se reunindo e ex-colegas de trabalho sendo promovidos. Além da tristeza e da perda, também podemos sentir inveja de amigos e familiares que estão vivendo uma vida “normal”. Podemos nos sentir desanimados por fortes desejos de voltar para casa.

O fácil acesso digital ao lar também pode servir para distrair os missionários do ministério e dos relacionamentos no país anfitrião. Às vezes, os missionários sentem expectativas silenciosas (ou expressas em alto e bom som) de que devem manter todos os seus relacionamentos de seu país de origem na mesma intensidade. Parceiros e igrejas podem esperar comunicação frequente; familiares podem querer conversas por vídeo frequentes. Esses são, claro, bons relacionamentos. Mas o excesso de conexão também pode distrair a atenção e dividir o coração de um missionário.

Evitando o escapismo digital

Então, como os missionários — e todos os cristãos — podem evitar a poderosa atração do escapismo digital? Nossa família encontrou muita ajuda no ministério terreno de Jesus, especialmente na maneira como ele abraçou limitações e se envolveu em retiros estratégicos.

1. Priorize relacionamentos próximos.

O Filho eterno se fez homem e esteve presente corporalmente conosco. Como homem, limitou-se a viver em um único lugar em um único momento, a ter um número finito de relacionamentos físicos e a ministrar às pessoas específicas ao seu redor. Aceite suas limitações, como o Cristo encarnado fez, construindo e priorizando relacionamentos com aqueles que estão fisicamente mais próximos de você.

Quando a família de Jesus veio procurá-lo e alguém disse: “Tua mãe e teus irmãos estão lá fora, desejando te ver”, Jesus não largou tudo para ir falar com eles; ele priorizou as pessoas que estavam à sua frente (Lucas 8.19-21). Nós também devemos fazer o mesmo.

Só porque você teoricamente consegue acompanhar todos os relacionamentos em vários continentes não significa que você realmente consiga (ou deva tentar). A era digital removeu muitas limitações à comunicação, mas não removeu e não pode remover nossas limitações inerentes. Deixe os relacionamentos mais distantes em segundo plano em relação aos relacionamentos mais próximos.

Entre as muitas medidas práticas que podemos tomar para aceitar nossos limites, considere três que nos ajudaram.

Primeiro, programe check-ins. Reserve um tempo regular e limitado para conversar com entes queridos, igrejas que os apoiam e outros parceiros — talvez apenas uma manhã por semana ou um dia por mês. Criar uma agenda não só ajudará você a manter os outros atualizados, como também ajudará você a se concentrar nos relacionamentos físicos que tem pela frente no restante do tempo.

Segundo, restrinja o acesso às redes sociais. Tente limitar o acesso às redes sociais a um único dispositivo (de preferência um que não caiba no bolso) ou eliminá-lo completamente. Eu abandonei as redes sociais e não me arrependo.

Terceiro, faça pausas regulares dos dispositivos digitais. Considere reservar um dia da semana sem dispositivos. Você pode se surpreender com a quantidade de tempo que terá para orar e ler as Escrituras, interagir com amigos e se conectar com a família.

2. “Fuja” como Cristo.

Como homem, Jesus também experimentou a pressão do ministério e a atração de demandas relacionais concorrentes. E ele também “escapou” ocasionalmente. Mas ele não recuou imprudentemente; em vez disso, ele se retirou estrategicamente. A maneira como ele escapou nos mostra o que significa um descanso saudável. Primeiro, ele frequentemente escapava para a criação — para montanhas e lugares desolados (Marcos 1.35 ; 6.46). Segundo, ele frequentemente ia sozinho ou apenas com seus amigos mais próximos (Marcos 6.31). Terceiro, e mais significativamente, ele escapava para estar com seu Pai celestial por meio da oração (Lucas 5.16). Jesus não escapou apenas das pessoas — ele escapou para seu Pai.

Um descanso saudável pode envolver estar sozinho na natureza. Faça uma caminhada. Faça uma caminhada de oração. Acampe sozinho. Mas, às vezes, isso incluirá seus relacionamentos mais próximos. Traga sua família ou alguns dos seus melhores amigos. Tire férias com outra família. Invista em relacionamentos reais com pessoas reais. Conecte-se menos digitalmente; relacione-se mais. Esse descanso pode incluir relacionamentos à distância às vezes, mas não exclui os relacionamentos que você tem à sua frente.

Acima de tudo, passe tempo com seu Pai celestial, como Jesus fez. Seus hábitos de fuga se concentravam na oração. Onde mais poderíamos encontrar o descanso da alma que tanto almejamos — o descanso que o escapismo digital finge satisfazer? É na presença de Deus que encontramos banquete, comunhão e liberdade para servir com alegria. “Na tua presença há plenitude de alegria; na tua destra, delícias perpetuamente” (Salmo 16.11).

Quando escapamos para estar com nosso Pai, não sentimos mais a necessidade constante de nos entregarmos ao escapismo digital. E quando abraçamos nossos limites, aumentamos nossa capacidade de interagir com as pessoas que nosso Pai colocou diante de nós. Pela graça de Deus, nossos companheiros de equipe serão encorajados, nossas famílias se sentirão mais conectadas, nossos ministérios serão mais frutíferos e seremos fortalecidos para perseverar com alegria.

 

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Por: Jonathan Moe. ©️ Desiring God Foundation. Website: desiringGod.org. Traduzido com permissão. Fonte: Highly Online Missionaries? | Todos os direitos reservados. Revisão e edição: Vinicius Lima.

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