Por uma educação realmente cristã e centrada no Evangelho

Educação não somente para a vida, mas para a vida eterna

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Acabei de ler o livro Você educa de acordo com o que adora”, do professor Filipe Fontes, relançado recentemente pela Editora Fiel. Essa leitura, como qualquer boa leitura deve fazer, me levou a algumas importantes reflexões.

A importância fundamental da educação

Não é necessário aqui defender a importância fundamental da educação, pois em nossa sociedade, isso é quase senso comum, principalmente para os leitores do “Voltemos ao Evangelho”. Todavia, creio que ainda cabe uma reflexão sobre o porque da educação ser importante. Na busca de qual objetivo educamos nossos filhos, investindo uma quantidade incomensurável do nosso tempo, dinheiro e energia vital?

Uma perspectiva simplista e automática diria que investimos na educação dos filhos para que possam ir para uma boa faculdade, para depois conseguir um bom trabalho, para ganhar bastante dinheiro, ter estabilidade e serem prósperos.

Uma outra perspectiva mais profunda vê a importância da educação no seu papel relacionado ao poder, como já dizia o celebre Francis Bacon[1]: “O conhecimento e o poder humano se convergem”, sendo hoje isso repetido como a máxima popular: “conhecimento é poder”. Essa disputa de poder por meio do conhecimento é travada na área da educação. Gramsci[2] já afirmava que “toda relação de hegemonia (poder cultural) é necessariamente uma relação pedagógica”. Isso, não deve estar oculto aos cristãos, como alerta Gary DeMar[3], no seu livro “Quem controla a escola governa o mundo”, “uma das ferramentas mais úteis na busca do poder é o sistema educacional”.

Se conhecimento é realmente uma manifestação de poder, controlar a transmissão do conhecimento torna-se uma batalha, uma batalha espiritual. Como afirma o apóstolo Paulo, “as armas da nossa milícia não são carnais, e sim, poderosas em Deus, para destruir fortalezas, anulando nós sofismas [argumentos enganosos e raciocínios falsos] e toda altivez que se levante contra o conhecimento de Deus, e levando cativo todo pensamento à obediência de Cristo. (2Co 10.4-5)”

Você educa de acordo com o que adora

Ao olharmos a educação com a importância de uma guerra espiritual pelas mentes dos nossos filhos, devemos dar ouvidos ao professor Filipe Fontes, o qual nos lembra de que a educação influência a religião, mas, a religião determina a educação. Filipe Fontes destaca que Deuteronômio 6.1-9 mostra claramente que o objetivo do processo educacional é “para que  temas ao Senhor, teu Deus (v.2)”. Quando tiramos o homem do centro da educação e adotamos uma perspectiva “Teorreferente”, em que Deus é a referência central da vida, a educação passa a ser o processo de preparação para um correto relacionamento de adoração a Deus em todas as esferas da vida.

Essa perspectiva do processo de educação ser a transmissão do conhecimento de um adorador para outro adorador, nos ajuda a compreender melhor Provérbios 22.6. O doutor Daniel Santo Jr.[4] nos ensina que o verbo “instruir” (hanak), que só aparece esta vez no livro de Provérbios, tem um significado que vai além de simplesmente transmitir um conhecimento teórico, tendo este verbo sido traduzido em diversas outras passagens do Antigo Testamento como “consagrar” ou “dedicar” (Dt 20.5; 1Re 8.63; Ne 12.27). Assim, uma leitura proposta pelo doutor Daniel Santos para Provérbios 22.6 é: Consagra o jovem no principio de seu caminho para que, nem quando velho, ele seja persuadido a desistir dele.[5]

Assim como Salomão consagrou o Templo que acabara de construir ao Senhor (1Re 8.63), somos encorajados a edificar a vida de nossos filhos por meio de um processo educacional centrado no próprio Deus, para que venham a ser verdadeiros templos do Senhor onde Ele habite e seja adorado.

Em outras palavras, John Piper diz: “todo aprendizado, toda educação, toda erudição, formal ou informal, simples ou sofisticada, existe para o amor a Deus e amor ao homem. Existe para nos ajudar a conhecer mais a Deus, para que o valorizemos mais. Existe para fazermos ao próximo tanto bem quanto pudermos …[6]

A necessidade de uma educação centrada no Evangelho

Quando olhamos o objetivo da educação dos nossos filhos como descrito acima, descobrimos que nenhuma filosofia e método educacional humano será suficiente por si mesmo para atingir o fim desejado por Deus. Quando consideramos o efeito noético do pecado, em que nossas capacidades cognitivas, razão, percepção e julgamento foram contaminados, podemos afirmar que embora o pecado não tenha destruído totalmente nossa racionalidade, ele nos tornou, em certa medida, irracionais. Pois como o capítulo 1 de Romanos nos afirma, Deus pode ser conhecido por meio da sua revelação nas coisas criadas, entretanto, o homem caído não o glorificou, seus pensamentos tornaram-se fúteis e seu coração se obscureceu.

O dr. Rousas Rushdoony em seu excelente livro Esquizofrenia Intelectual[7] afirma que “o homem foi chamado para exercer seu conhecimento e domínio sobre o universo criado como vice-regente sob a autoridade de Deus e para a glória dele.”, todavia, prevalece a contradição do homem ao rejeitar a soberania de Deus ao mesmo tempo em que busca a lei, a ordem, a justiça, a ciência e o sentido da vida. O homem sem Deus deseja por meio da educação conhecer e dominar as coisas criadas sem conhecer e se submeter ao criador.

Vale a pena lembrar que a tentação que levou o homem ao pecado envolveu o desejo pelo conhecimento. O homem desejou mais ter seu conhecimento expandido do que obedecer ao Criador. Conhecer sem obedecer é a queda do homem.

Ao considerar como o pecado torna impossível um verdadeiro conhecimento da verdade, precisamos do que o professor Solano Portela chama de pedagogia redentiva, “uma prática que apresente Deus e sua interação redentiva com a humanidade, na pessoa de Jesus Cristo, como o centro da história[8].

Colossenses 1.15-17 afirma sobre Cristo:

“Este é a imagem do Deus invisível, o primogênito de toda a criação; pois, nele, foram criadas todas as coisas, nos céus e sobre a terra, as visíveis e as invisíveis, sejam tronos, sejam soberanias, quer principados, quer potestades. Tudo foi criado por meio dele e para ele. Ele é antes de todas as coisas. Nele, tudo subsiste.”

Cristo é a fonte de toda a criação, a racionalidade, a sustentação, o centro de gravidade e o sentido último de toda a criação. É impossível conhecer verdadeiramente qualquer coisa, em seu sentido último, sem estar em Cristo. Portanto, qualquer proposta educacional precisa ser centrada no Evangelho em que o efeito do pecado na racionalidade humana é redimido pela morte sacrificial de Cristo na cruz, pelo qual somos unidos a Ele e passamos a ter a sua mente.

Sem essa perspectiva centrada no Evangelho, qualquer sistema educacional falhará em atender o propósito divino. Só é verdadeiramente uma educação cristã aquela que tem o Evangelho no centro, que reconhece a presença do pecado no raciocínio humano e na natureza como objeto de estudo. Que busca conhecer não só o Criador, mas, também o Senhor e Salvador.

Em termos práticos isso seria referenciar o estudo de toda disciplina e matéria a Cristo e sua obra, considerando:

  • O propósito criacional: como o objeto se encaixa no totum da criação e como os atributos do Deus Criador são revelados nessa matéria, como o homem como co-regente de Deus consegue dominar esse objeto de estudo e controla-lo para a glória de Deus e benefício do próximo;
  • O efeito do pecado: como essa matéria foi corrompida de seu propósito criacional, qual o problema a ser enfrentado e qual o mau existente, como o pecado humano tem feito com que o tema tenha sido mal compreendido e seu domínio utilizado de forma egoísta;
  • A redenção sobre a criação: como essa matéria pode ser redimida pelo poder do Evangelho, a fim de que Deus seja glorificado e haja benefício para o próximo. Como o conhecimento e domínio do cristão dessa matéria podem redimir, ainda que não totalmente, o efeito do pecado neste assunto. Como essa matéria pode contribuir com a expansão do Reino de Deus, seu domínio sobre todas as coisas; e
  • A consumação: quais as promessas bíblicas sobre este objeto de estudo, existe algum aspecto de esperança nesta matéria que aponta para o Novo Céu e a Nova Terra. Qual a relevância dessa matéria quando olhamos sob a perspectiva eterna.

Encerro essa reflexão com a lembrança dos meus tempos de escola. Quando o professor ensinava alguma matéria nova, perguntávamos: É para a prova ou para a vida?. A matéria para a vida era o que realmente precisávamos aprender, a matéria para a prova é o que realmente estudávamos. A educação centrada no evangelho responde essa pergunta de uma nova forma: É para a vida eterna!

 

 

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[1] Novum Organum, Aforismos sobre a interpretação da natureza e do reino do homem.

[2] Cadernos do Cárcere, Caderno 10, parágrafo 44.

[3] Quem controla as escolas governa o mundo, Ed.Monergismo.

[4] A proposta pedagógica de Provérbios 22.6, FIDES REFORMATA XIII. N.1, 2008.

[5] Idem

[6] Pense, a vida da mente e o amor a Deus, Editora FIEL.

[7] Esquizofrenia Intelectual, Ed. Monergismo.

[8] O que estão ensinando aos nossos filhos. Ed. FIEL.

Por: Alex Mello. © Voltemos Ao Evangelho. Website: voltemosaoevangelho.com. Todos os direitos reservados. Revisor e Editor: Vinicius Lima.

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