Um blog do Ministério Fiel
Invisíveis, mas não esquecidas
Uma história de entrega, fé e oração
Pais cristãos costumam ter um versículo na ponta da língua: “Os filhos são herança do Senhor”. Mas será que, de fato, vivemos essa realidade, de que os nossos filhos não são nossos?
Vamos olhar para alguns personagens da narrativa de 1 Samuel, capítulos 1 a 3. Sugiro que você releia os capítulos 1, 2 e 3, relembrando detalhes de uma história tão conhecida sobre um filho que foi dedicado ao Senhor: Samuel.
- Ana: Uma mulher invisível aos olhos humanos, mas totalmente visível para Deus.
A história de Samuel começa com Ana (1Sm 1). Ela era uma mulher piedosa, mas enfrentava a dor da infertilidade, numa sociedade que via os filhos como sinal da bênção divina. Além disso, sofria com a provocação de sua rival, Penina, que a provocava continuamente por isso. (1Sm 1.1, 2). Seu marido, Elcana, a amava, mas não compreendia plenamente sua dor. Ana estava invisível aos olhos daqueles que estavam ao seu redor, a ponto de chorar muito e perder a apetite. Entretanto, Deus via cada lágrima que ela derramava. Ana não endureceu o coração.
- Uma mulher que ora com amargura de alma (1 Samuel 1.10-11)
Em meio à sua dor, ela orou. No templo, Ana ora, com angústia de alma, mas com intensidade. Sua oração não é articulada em voz alta, mas sai do fundo da alma. “Ela, pois, com amargura de alma, orou ao Senhor e chorou abundantemente” (v.10). Ana não reprime sua dor, mas a transforma em súplica. Ela não nega seu sofrimento, mas leva-o à única Pessoa que pode fazer algo a respeito. E mais do que pedir, ela fez um voto: se tivesse um filho, ela o consagraria ao Senhor por todos os dias da sua vida (v.11). Essa oração foi tão intensa que Eli pensou que ela estivesse embriagada. (v.12-14)
Esse é um ponto marcante na narrativa. Ana compreendeu que, mesmo antes de nascer, seu filho pertencia ao Senhor. Essa é uma verdade fundamental para todos nós, pais e mães: nossos filhos não são nossa propriedade, mas uma herança que vem do Senhor (Sl 127.3). Eles existem para glorificá-Lo.
- Eli: Um sacerdote que abençoa, mesmo antes de ver o milagre (1 Samuel 1.12-18)
Inicialmente, Eli não compreende Ana. Ele a julga erroneamente como uma mulher embriagada. Mas ao ouvir sua explicação, ele muda de postura e declara: “Vai-te em paz, e o Deus de Israel te conceda a petição que lhe fizeste” (v.17). Essa palavra foi um divisor de águas. Ana não havia recebido o filho ainda, mas sua tristeza deu lugar à esperança. O sacerdote, mesmo sem saber o conteúdo da oração, torna-se instrumento de encorajamento; um lembrete de que palavras de bênção, quando proferidas com temor, podem transformar corações abatidos. - A resposta que transforma o semblante (1 Samuel 1.18-20)
Após a oração e a bênção do sacerdote Eli, algo muda em Ana: “assim a mulher se foi seu caminho, e comeu, e o seu semblante já não era triste” (v.18). Mesmo sem ver o milagre concretizado, Ana experimenta uma mudança interior. Ela não apenas orou, mas confiou. Sua esperança estava agora firmada no Senhor, não nas circunstâncias. - A entrega depois da resposta (1 Samuel 1.24-28)
O Senhor se lembra de Ana. Ela concebe e dá à luz a Samuel. Mas ela não se apega ao filho de forma egoísta. Pelo contrário, ela o entrega de volta ao Senhor, conforme havia prometido. Sua fé não era apenas de clamor, mas também de entrega. Ana nos ensina que receber bênçãos de Deus não significa tomarmos posse absoluta, mas usarmos tudo para a glória dele. - Uma mulher que louva com entendimento (1 Samuel 2.1-10)
Ana entoa um cântico que revela profunda teologia e gratidão. Seu louvor exalta a soberania de Deus, Sua justiça, Sua fidelidade. Ana entende que Deus reverte histórias, exalta os humildes, levanta os pobres do pó. Seu coração transborda não apenas por causa da bênção recebida, mas por causa do Deus que a concedeu.
O desafio é para que nós, enquanto pais – se ainda não fizemos isso -, possamos consagrar nosso filhos ao Senhor, não apenas em palavras ou em uma cerimônia, mas em cada escolha do dia a dia. Dedicar um filho a Deus é reconhecer que ele pertence, antes de tudo, a ele. É ensinar, com a vida, que o Senhor é digno de confiança, obediência e amor. É abrir mão do controle, entregar e investir na formação de um coração que ouve a voz de Deus. Precisamos fazer este compromisso: “Este filho pertence ao Senhor.” E viver de forma coerente com essa entrega.
Que a história de Ana nos lembre que mesmo nos momentos em que parecemos invisíveis aos olhos dos outros (nas lutas silenciosas, nas lágrimas não compreendidas e nas orações feitas no segredo) somos plenamente vistas e lembradas por Deus. Ele ouve, Ele responde, Ele age. Que cada pai e mãe sejam desafiados hoje a dedicar seus filhos ao Senhor com fé, sabendo que o Deus que vê o coração também cuida das sementes plantadas com oração. Como Ana, sejamos firmes em confiar: podemos até nos sentirmos invisíveis, mas jamais seremos esquecidos por Deus.
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