Um blog do Ministério Fiel
O que a Bíblia diz sobre a cultura da autoajuda?
Trecho do livro "Não é errado se me faz feliz"
Tornar-me mãe jogou na minha cara a realidade de que eu não sou suficiente no nível mais profundo. Eu nunca tinha sido. Isso desafiou todas minhas noções de perfeição. Removeu qualquer sinal ilusório de que eu poderia, de alguma maneira, traçar o bem pela minha própria bondade e dar à minha filha tudo de que ela precisasse. Eu não conseguia e continuo não conseguindo porque não sou suficiente. Eu percebi bem cedo que mesmo que eu fosse a melhor mãe do mundo, ainda assim muitos erros seriam cometidos. Eu perderia oportunidades e causaria danos em questões parentais mais do que gostaria de admitir.
Mas essa é a razão pela qual reconhecer que eu não sou suficiente na realidade é a melhor notícia de todas. Veja, Jesus é suficiente, e isso é suficiente para mim. Vamos chegar a esse ponto em breve, mas, enquanto isso, apertem os cintos porque vamos enfrentar uma estrada turbulenta no caminho até a liberdade.
Por que isso parece tão bom?
O livro Autoajuda[i] foi publicado pela primeira vez (e assim surgiu esse termo) em 1859 pelo autor Samuel Smiles, um elegante escocês que apreciava costeletas, e rapidamente se tornou best-seller. E é bem provável que a causa desse sucesso tenha sido o fato de o livro tratar sobre o assunto preferido de todo mundo: nós mesmos. Aliás, “autoajuda” se tornou um dos gêneros literários mais vendidos, e a indústria da autoajuda é um negócio multimilionário sem sinal de desaceleração.[ii] Nas rodas do movimento de autoestima, que ganharam mais tração por meio dos pontos de venda da mídia cristã ao longo do século vinte,[iii] estamos sendo condicionados a pensar que se apenas amarmos a nós mesmos tudo vai melhorar.
É por essa razão que “você é suficiente” se baseia na pressuposição de que as pessoas são essencialmente boas. Pense sobre isso. Se fosse uma afirmação verdadeira, tudo que iriamos precisar é de um mergulho profundo para dentro de nossos corações e almas e desbloquear toda a virtude que está no aguardo de ser descoberta. Poderíamos fazer extrações do nosso ilimitado reservatório de criatividade, poder, beleza, verdade e bondade. Se isso fosse verdadeiro, nós poderíamos ser suficientes. Se alguém está de fato lutando com sua identidade, valor e até mesmo saúde mental, não faz sentido ressaltar o quão maravilhosa essa pessoa é? E quem não quer acreditar que é inerentemente bom? De acordo com pesquisas recentes, 81% de 2.000 norte-americanos entrevistados acreditam que são bons.[iv]
Isso tudo soa tão positivo e assertivo, mas, bem lá no fundo, sabemos que os seres humanos não são inerentemente bons. Todos os pais sabem disso. Por exemplo, assim que as crianças aprendem a falar, eles automaticamente aprendem a mentir. Eles sabem como ser egoísta, como trapacear, como roubar e bater. É natural para eles. Na verdade, é preciso ensiná-los a não mentir, a não colocar sua vontade em primeiro lugar, a não trapacear, a não pegar o que é de outra pessoa e a não resolver seus problemas com violência. Se você acha que estou inventando coisas, faça o teste de dar ao seu filho único um irmão ou irmã e você vai ter uma demonstração na íntegra. Sou eu a única mãe que tem filhos cem por cento desinteressados em um brinquedo específico até que o irmão queira brincar com ele? De repente, o brinquedo se torna o bem mais importante que eles já tiveram e com o poder de instaurar uma guerra doméstica.
A parte ruim
Os movimentos de autoestima e autoajuda não conseguem explicar essa questão, mas a Bíblia consegue. É um princípio teológico chamado depravação, e basicamente significa que as pessoas são naturalmente programadas para querer as coisas do jeito delas, para servir aos seus próprios desejos e resistir que Deus esteja no comando de suas vidas. Mas não foi sempre assim. Para compreender a depravação humana é preciso entender o propósito original dos seres humanos.
Seres humanos são criados de uma determinada maneira para um determinado propósito. Quando tentamos viver a vida de um jeito que não está alinhado com o nosso propósito, as coisas nunca vão funcionar como deveriam. Claro, vamos conseguir nos manter vivos, fazer algumas boas obras no mundo e, até mesmo, encontrar amor e alguma medida de felicidade. Mas não vamos atingir o estágio em que ganharemos uma certificação… que irá nos satisfazer e nos fazer sentir que estamos completos.
Gênesis 1.26 nos dá uma pista sobre o nosso propósito final: “Também disse Deus: Façamos o homem à nossa imagem, conforme a nossa semelhança.” Desde o início, vemos que os seres humanos foram criados de modo diferenciado das plantas, animais, pedras e água. Diferente de como foi com as outras criações, nós fomos feitos à imagem e semelhança do próprio Deus. Isso significa que toda pessoa tem uma medida de dignidade, mérito e valor. Porém (sim, existe um enorme porém), quando Adão e Eva decidiram dar as costas para Deus e seguir seus próprios desejos ao comer do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal, eles desencadearam o mal — em outras palavras, o pecado — no mundo. E então, tiveram filhos. Os filhos tiveram filhos. Assim como Adão e Eva foram feitos à imagem de Deus, seus filhos foram feitos à imagem dos pais. Portanto, a imagem de Deus não foi perdida. Ela foi repassada, mas foi desfigurada. Essa natureza pecaminosa foi repassada para os descendentes.
A parte disforme
As Escrituras não medem palavras quando se trata da nossa verdadeira condição. O apóstolo Paulo escreveu em Romanos 5.12 que o pecado e a morte humana entraram no mundo por meio de um homem, Adão. Por essa razão, “a morte passou a todos os homens, porque todos pecaram”. Gênesis 8.21 nos diz que “é mau o desígnio íntimo do homem desde a sua mocidade”. Salmos 14.2-3 diz que do céu Deus olha para os filhos dos homens para ver se há quem faça o bem, mas ele não encontra nem um sequer. Aprendemos em Jeremias 17.9 que nossos corações são “desesperadamente corruptos” e enganosos. Eclesiastes 9.3 retrata os corações dos homens como cheios de maldades e devaneios. Tudo isso demonstra que cada uma das pessoas que já viveu distorceu a imagem de Deus que estampava. É uma verdade difícil (é a parte “você não é suficiente” da conversa).
Vamos comparar
Tudo bem. Vamos fazer uma pequena pausa. Eu sei que isso tudo é depressivo, mas prometo que vamos chegar na parte boa em breve. Por ora, compare as afirmações bíblicas acima com as citações de alguns livros recém-publicados, escritos por pessoas que se autointitulam cristãs:
Eu sou completamente suficiente. Você merece bondade. Eu estudei o evangelho e finalmente agarrei o conhecimento divino de que sou amada, valorizada e suficiente… como eu sou.
Quando se trata da natureza humana, você consegue perceber a diferença entre o cenário sombrio que a Bíblia projeta em oposição ao extremamente otimista apresentado por autores modernos? Não é só um pouco diferente. É o extremo oposto. Felizmente, a Bíblia também é capaz de explicar o porquê de isso acontecer. Na verdade, o primeiro capítulo inteiro de Romanos é dedicado à demonstração desse fenômeno. Você quer saber a história da origem de literalmente toda falsa religião, filosofia errante e ideologias equivocadas?
Deus falou por meio do apóstolo Paulo para nos dar uma pista. No versículo 19, ele explica que cada pessoa que já viveu conseguia olhar para o mundo e saber que Deus existe. Mas não para por aí. Podemos, de fato, aprender determinadas características sobre Deus e como ele age no mundo. É isso mesmo. Todos têm acesso ao conhecimento sobre Deus, mesmo que alguém nunca tenha ouvido falar da Bíblia. Aliás, Paulo diz que essa revelação é na verdade bem simples. É perfeitamente clara. No versículo 20 do primeiro capítulo, ele escreve: “Porque os atributos invisíveis de Deus, assim o seu eterno poder, como também a sua própria divindade, claramente se reconhecem, desde o princípio do mundo, sendo percebidos por meio das coisas que foram criadas”. Paulo continua, explicando que esse é o motivo pelo qual nenhum ser humano pode dar qualquer desculpa quando se trata de rejeitar a Deus.
O Salmo 19 ilustra esse ponto lindamente: “Os céus proclamam a glória de Deus, e o firmamento anuncia as obras das suas mãos. Um dia discursa a outro dia, e uma noite revela conhecimento a outra noite” (vv. 1-2). Paulo parte do princípio de que as pessoas já conhecem a Deus. Então, quando elas escolhem se afastar de Deus é porque se recusam a honrá-lo como Deus. Ele, então, dá a eles o que querem: permite que louvem a criação ao invés de louvar o criador. Com frequência, eles se voltam para o interior e louvam a si mesmos. Esse é o resumo de todas as falsas religiões.
Mas essas ações não ficam sem consequências. Isso provoca a ira de Deus contra eles, porque não estão agindo dessa forma por ignorância. Estão, de forma voluntária e consciente, destituindo a verdade para correr atrás de mentiras. Talvez seja por isso que o apóstolo Paulo fala de modo tão implacável em Efésios 2.1-3:
Ele vos deu vida, estando vós mortos nos vossos delitos e pecados, nos quais andastes outrora, segundo o curso deste mundo, segundo o príncipe da potestade do ar, do espírito que agora atua nos filhos da desobediência; entre os quais também todos nós andamos outrora, segundo as inclinações da nossa carne, fazendo a vontade da carne e dos pensamentos, e éramos, por natureza, filhos da ira, como também os demais.
Uau. Que diferença. A cultura diz que deveríamos pensar: eu sou suficiente. A Bíblia diz que, por natureza, eu sou um “filho da ira”.
A parte boa
Tudo bem, eu prometi que chegaríamos à parte boa e aqui estamos. Paulo nos diz que, por natureza, não estamos nem perto de sermos suficientes (filho da ira, alguém?). Mas ele nos dá boas notícias em 2 Coríntios 5.21, quando diz que embora Jesus não tenha conhecido o pecado, ele se fez pecado (com sua morte na cruz) “para que, nele, fôssemos feitos justiça de Deus”. Em outras palavras, Jesus cobriu nossa insuficiência com a suficiência dele para nos apresentar suficientes diante de Deus. É isso mesmo: Jesus é suficiente. E quando colocamos nossa fé e confiança nele, encontramos paz com Deus.
Você não precisa ser suficiente, porque Jesus já é. Ele explica isso de maneira bem simples em João 15, quando compara a si mesmo com uma videira. Aqueles que creem nele são como ramos que crescem e dependem da videira. Jesus nos diz que quando permanecemos nele e ele permanece em nós, produziremos bons frutos. Na natureza, um ramo que é cortado da videira rapidamente morre. Ele nunca produzirá frutos por si só. Ele não é suficiente. O mesmo acontece com os seres humanos. Jesus explica o motivo: “porque sem mim nada podeis fazer” (v. 5).
Lembra do Salmo 14, que descreve Deus olhando do céu e não encontrando nem sequer uma boa pessoa? Em Romanos 3.10-12, Paulo cita esse salmo e, alguns versículos depois, diz que todos são indesculpáveis: “pois todos pecaram e carecem da glória de Deus” (v. 23). Não muito depois, Paulo vem a passos largos na história trazendo ótimas notícias. Romanos 5.1 diz: “justificados, pois, mediante a fé, temos paz com Deus por meio de nosso Senhor Jesus Cristo”. Ganhando ou perdendo, encontrando felicidade ou sofrimento nesta vida, alcançando nossas metas profissionais ou ficando sem um teto, podemos atingir o propósito pelo qual fomos criados: encontrar paz com Deus, louvar a Deus e usufrui-lo eternamente. Você nunca será bom o suficiente, esperto o suficiente, ambicioso o suficiente, atlético o suficiente, disciplinado o suficiente, forte o suficiente, gracioso o suficiente, amável o suficiente, honesto o suficiente, privilegiado o suficiente, resistente o suficiente, gentil o suficiente, talentoso o suficiente ou dedicado o suficiente. Você. Não. É. Suficiente. Essas notícias humilham os poderosos e exaltam os humildes. Este é o lindo paradoxo bíblico: sendo nós ainda pecadores, Cristo morreu por nós (Rm 5.8).
Você não é suficiente, mas quando sua confiança é depositada em Jesus, a suficiência dele é transferida para você. Não é uma ótima notícia? Se você concorda, eu tenho mais para te oferecer. Equipado do conhecimento de que você não é suficiente para e por si mesmo, você tem melhores condições para priorizar quem vem primeiro em sua vida.
Este artigo é um trecho adaptado e retirado com permissão do livro Não é errado se me faz feliz: e outros enganos desta geração, de Alisa Childers, em breve pela Editora Fiel.

[i] Samuel Smiles. Autoajuda (Campinas: Editora Auster, 2020).
[ii] Kathryn Schulz, “The self in self-help”, New York, January 4, 2013, https://nymag. com/health/self-help/2013/schulz-self-searching/; Marshall Sinclair, “Why the self-help industry is dominating the U.S.”, disponível em: https://medium.com/ writing-together/help-me-no-please-help-yourself-c72663eff96f, acesso em: 13 jul. 2023.
[iii] Sinclair,“Why the self-help industry is dominating the U.S.”.
[iv] Chris Melore, “Nearly half of Americans think they’re a better person than EVERYONE they know!”, disponível em: https://studyfinds.org/half-americans- think-better-person-than-everyone/, acesso em: 13 jul. 2023.

