Tim Keller – Como o Evangelho Muda a Nossa Apologética (Parte 1)

PARTE 1 PARTE 2

A apologética é uma resposta à pergunta “Por quê?”, depois que você já deu às pessoas uma resposta à pergunta “O quê?”. A pergunta o que, obviamente, é “O que é o evangelho?”. Mas, quando você chama as pessoas a crerem no evangelho e elas perguntam “Por que eu deveria crer nele?”, então você precisa da apologética.

Eu tenho ouvido muitos cristãos tentarem responder à pergunta por que voltando para o que. “Você deve crer porque Jesus é o Filho de Deus”. Mas isso é responder ao porquê com mais do quê. Cada vez mais nós vivemos em um tempo no qual você não pode evitar a pergunta por que. Apenas fornecer o quê (por exemplo, uma apresentação vívida do evangelho) funcionava nos dias em que as instituições culturais criavam uma atmosfera na qual o Cristianismo comumente era reconhecido como verdadeiro ou, pelo menos, honroso. Porém, em uma sociedade pós-Cristandade, no mercado de ideias você precisa explicar por que é verdadeiro, ou as pessoas irão simplesmente deixá-lo de lado.

Apesar disso, há muitos cristãos atualmente que dizem: “Não faça apologética, simplesmente exponha a Palavra de Deus – pregue, e o poder da Palavra irá impactar as pessoas”. Outros argumentam que “pertencer vem antes de crer”. Eles dizem que a apologética é uma abordagem racional, iluminista, e não uma abordagem bíblica. As pessoas devem ser trazidas para dentro de uma comunidade onde elas podem ver o nosso amor e as nossas obras, experimentar o culto, ter as suas imaginações capturadas, e a fé se tornará confiável para elas.

Há um certo mérito nesses argumentos. Seria de fato excessivamente racionalista afirmar que nós podemos provar o Cristianismo de tal maneira que qualquer pessoa racional teria de crer nele. Na verdade, tal afirmação desonra a soberania de Deus ao reverenciar a nossa razão humana autônoma. A comunidade e o culto são importantes, porque as pessoas chegam à convicção através de uma combinação de coração e mente, um senso de necessidade, refletindo intelectualmente e observando a comunidade.  Todavia, eu também já vi muitos céticos serem trazidos a uma calorosa comunidade cristã e, ainda assim, questionarem: “Por que eu deveria crer em você e não em um ateu ou muçulmano?”. Nós precisamos ser cautelosos antes de dizer “Simplesmente creia”, porque o que nós estamos de fato afirmando é: “Creia porque eu estou dizendo”. Isso soa como um jogo de poder nietzchiano. É muito diferente de Paulo, que arrazoava, argumentava e provava no livro de Atos, e de Pedro, que nos chamou a dar razão da nossa esperança em 1Pedro 3.15. Se a nossa resposta é: “Nossas crenças podem parecer totalmente irracionais para você, mas, se você ver o quanto nós amamos uns aos outros, você desejará crer também”, então nós iremos soar como uma seita. Então nós de fato precisamos fazer apologética e responder à pergunta por quê.

Contudo, o problema com uma apologética exclusivamente racionalista (“Eu vou provar a você que Deus existe, que Jesus é o Filho de Deus, que a Bíblia é verdadeira etc.”) é que isso, em um sentido, põe Deus no banco dos réus para ser julgado por pessoas supostamente neutras, perfeitamente racionais, objetivamente sentadas no trono da Razão. Isso não se encaixa com o que a Bíblia diz acerca da realidade do pecado e do pensamento sempre prejudicado e distorcido produzido pela incredulidade. Por outro lado, uma apologética exclusivamente subjetivista (“Convide Jesus para entrar na sua vida e Ele irá resolver todos os seus problemas, mas eu não posso dar-lhe quaisquer boas razões, simplesmente creia com seu coração”) também falha em produzir convicção verdadeira do pecado e da necessidade.

Não haverá qualquer alegria na Graça de Jesus, a menos que as pessoas vejam que estão perdidas. Assim, uma apologética moldada segundo o evangelho deve não apenas apresentar o Cristianismo, mas também deve desafiar a cosmovisão dos incrédulos e mostrar onde ela (e eles) têm um problema real. Isso é o que eu geralmente tento fazer, e no próximo post eu mostrarei o que eu diria se tivesse uma hora para fazer uma defesa completa do Cristianismo.

Por Tim Keller. © 2012, Redeemer City to City. Website: www.redeemercitytocity.com. Original: How the Gospel Changes our Apologetics, Part 1

Tradução: VoltemosAoEvangelho.com. Original: Tim Keller – Como o Evangelho Muda a Nossa Apologética (Parte 1)

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14 Comentários
  1. Luis Oliveira Diz

    Muito bom! Tenho certeza que essa série será muito interessante!
    Glórias a Deus!

  2. Leyz Oliveira Diz

    Muito bom!! Essa é uma dúvida que eu sempre tive!!
    Aguardando esperançosamente a prox. parte!

  3. Maria Eduarda Oliveira Diz

    Artigo totalmente baseado nas doutrinas de Tomás de Aquino, equilibrando filosofia e teologia. Meu parabéns, a igreja necessita mesmo crescer intelectualmente a fim de alcançar o maio número de discípulos!

  4. Maria Eduarda Oliveira Diz

    Artigo totalmente baseado nas doutrinas de Tomás de Aquino, equilibrando filosofia e teologia. Meu parabéns, a igreja necessita mesmo crescer intelectualmente a fim de alcançar o maio número de discípulos!

    1. Vinícius S. Pimentel Diz

      Maria Eduarda,

      Acredito que o autor não gostaria de ser identificado como um tomista, já que a apologética do Tim Keller não pressupõe a existência de uma esfera da “natureza” em que a razão autônoma é capaz de obter o genuíno conhecimento. Isso, aliás, está no texto. Se formos compará-lo a algum filósofo medieval, é mais plausível que a apologética de Keller se aproxime à de Agostinho, para quem todo o conhecimento do mundo pressupõe o conhecimento de Deus e de nós mesmos (“Deum et anima scire”).

      Talvez a aproximação que você observou ao pensamento de Tomás de Aquino se deva ao fato de que o Tim Keller não despreza o uso da razão, como fazem muitos crentes em nossos dias. Se for esse o ponto, então você está correta :-)

      Em Cristo,
      Vinícius

  5. Jonas Guedes Diz

    Muito interessante! Creio que edificará muitas vidas e contribuirá na exposição e defesa do Evangelho por cada um de nós! Deus os continue abençoando!

  6. Augusto Men Diz

    Eu tenho 2 comentários a fazer acerca desse assunto:
    1. Eu entendo 2Co 4:4 (“o deus deste século cegou os entendimentos dos incrédulos, para que lhes não resplandeça a luz do evangelho da glória de Cristo”) como a prova bíblica de que a apologética é limitada num plano espiritual, acima da mente. Ou seja, a apologética é boa… até certo ponto.
    2. Eu já vi pessoas tentando justificar racionalmente a fé e se enroscando nos seus próprios argumentos, e assim esfriando a fé de alguns. Acho que isso deve ser feito com cuidado, caso contrário nem tente.
    Apesar disso, eu amo apologética, e estou ansioso pela continuação.

    1. Anderson Clayton Diz

      Olá, Graça e Paz.

      Concordo com o Augusto, este equilíbrio é delicado. Se partirmos do princípio que a fé é “o firme fundamento das coisas que se esperam, e a prova das coisas que se não vêem,” penso que procurar provar a existência de Deus indiferente dos meios já é algo um pouco contraditório. Se a existência de Deus pudesse ser objetivamente provada não haveria necessidade da fé. Nós precisamos crer e para isso usamos a fé, noutro tempo alguns homens creram sem a necessidade dela, pois viram e experimentaram, a exemplo de Tomé. Acredito que para nós o caminho de justificar o fundamento de nossa fé é através da defesa da veracidade da Bíblia e sua confiabilidade como Palavra de Deus, como registro histórico de pessoas que foram testemunhas oculares dos eventos narrados. Além disso temos nosso próprio testemunho de experiências espirituais. “A fé é pelo ouvir, e o ouvir pela Palavra de Deus”. Particularmente não me interesso muito por abordagem científica ou filosófica na defesa da fé além do objetivo que citei.

  7. Seja Um Reformador Diz

    Acredito que, assim como todos os demais assuntos relacionados à vida cristã, precisamos sempre do equilíbrio advindo do recebimento da plenitude do Espírito Santo. Certamente o Espírito Santo nos levará para um caminho seguro.

  8. Marina Cardoso Duarte Diz

    Já estou ansiosa pelo próximo post!

  9. Glenda Souza Diz

    Aguardando o próximo post!
    ;)

  10. Paula Lima Diz

    Ótimo artigo para refletirmos sobre os extremos. Apologética é a parte mais negligenciada na hora da evangelização. Vou acompanhar a próxima postagem. =)

  11. Carlos Oliveira Diz

    Espero ansioso pelo segundo post. O primeiro é provocador.

  12. Daniel Almeida Diz

    Muito bom…relevante e inteligente…..

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