A pregação como exegese pública: 5 dicas para seminaristas

Como vimos no artigo anterior, a exegese pública é uma filosofia de pregação expositiva que faz das línguas originais o centro do estudo e preparação da homilia; é uma proposta que visa unificar duas disciplinas fundamentalmente importantes para o ministério: a exegese e a homilética. Por isso, considerando os conceitos apresentados no artigo anterior, gostaria de deixar algumas sugestões para que seminaristas considerem a possibilidade de se tornarem exegetas públicos:

1. Nunca perca de vista a função devocional da exegese

É verdade que o método de aprendizado de uma língua é por vezes enfadonho e repetitivo; é verdade que as vezes somos desencorajados no aprendizado das línguas bíblicas porque não vemos resultados imediatos desse aprendizado. Entretanto, quando o aluno chega à exegese e percebe sua utilidade, ele corre o risco de fazer da mesma um estudo meramente intelectual. Esse erro pode ser fatal para a exposição. Ser capaz de identificar os marcadores de discurso, as muitas funções do genitivo, não terão valor se o aluno perder de vista a função devocional da exegese. Por isso, estude a Escritura para aprender do Senhor e conhecer mais dele; estude as Escrituras na busca da presença do Espírito Santo e encontre-se com Cristo no texto. Um aluno que não sente a presença de Deus na exegese, dificilmente poderá comunicar a verdade de Deus com paixão e poder. A exegese é iminentemente devocional.

2. Nunca ignore a função eclesiástica da exegese

O estudo da Escritura não é um exercício egocêntrico, é uma prática eclesiástica. A exegese é uma das práticas mais pastorais do ministério, pois é a partir dela que o pastor alimenta, orienta, corrige, instrui, protege e dirige suas ovelhas. A homilia é a mais importante ferramenta do discipulado pastoral, e a mais abrangente. É por isso que a exegese tem que ser feita pública na homilia. O estudo aprofundado das Escrituras deve ser feito para o bem da comunidade. A exegese é fundamentalmente eclesiástica.

3. Nunca separe a homilética da exegese

As demandas do ministério pastoral serão infindáveis, pode acreditar. O pastor sempre terá mais coisas a fazer do que tem tempo para executá-las. E normalmente é essa demanda excessiva de atividades e responsabilidade que faz o pastor abandonar a exegese. Na sua lista de prioridades, o estudo aprofundado da Escritura não tem lugar, por que para ele o mesmo não tem qualquer relação com sua prática pastoral. Nada poderia estar mais longe da verdade! É no estudo aprofundado das Escrituras que o pastor forma sua filosofia ministerial, suas convicções doutrinárias e a partir de onde ele deveria produzir suas mensagens. A vida da comunidade é importante demais para que o pastor ignore o estudo aprofundado das Escrituras. Por isso, não se permita separar a homilia dos esforços exegéticos, o preço que se paga por isso é muito alto. A exegese é finalmente homilética.

4. Aprimore suas habilidades exegéticas

Uma as maneiras para colocar em prática a exegese públicas é ter domínio sobre as línguas originais. E isso não acontece do dia pra noite, leva tempo e empenho. Por isso, faça todo esforço para aprimorar suas habilidades durante seu período de treinamento no seminário. Leia gramáticas, léxicos e comentários muito além da carga exigida pelos seus professores. Esse esforço fará diferença a longo prazo. Invista tempo e, se possível, recursos durante o seminário, pois é bem provável que no ministério você nunca mais tenha tanto tempo para estudar as Escrituras. Não despreze o estudo das línguas originais durante sua formação ministerial. Aliás, se precisar gastar mais tempo com elas do que com qualquer outra disciplina, faça isso, pois todas as outras disciplinas se podem aprender bem fora do seminário. A exegese exige dedicação.

5. Faça da exegese o fundamento de sua homilia

Uma vez que a exegese é iminentemente devocional, fundamentalmente eclesiástica e finalmente homilética, esforce-se diligentemente para fazer da exegese o ponto de partida da sua mensagem. Isso não significa que você deva usar do púlpito para destilar seus conhecimentos exegéticos, nem para ensinar sua congregação as idiossincrasias das línguas bíblicas.[i] A exegese deve ser o fundamento da homilia, e não a homilia em si. A oratória e a comunicação bem articulada exigem do pregador outras habilidades além as da exegese, mas sem ela, a mais eloquente pregação pode ser nada mais do que exposição de opinião pessoal. E no ministério pastoral, não podemos incorrer no risco de apresentarmos uma mensagem que não seja a de Deus para a comunidade. Por isso, faça da exegese o ponto de partira da mensagem a ser proclamada, sem fazer da exegese a mensagem proclamada. A exegese deve ser o ponto de partida, e não o ponto final da pregação.

A verdade é que que não se pode negar a centralidade das Escrituras na pregação, nem a fundamental importância do texto original para nossas traduções da Bíblia. Se pretendemos ser expositores das Escrituras, devemos estar preparados para manuseá-la nos seus idiomas originais com a devida competência. Por isso, esmere-se em conhecer e em se aperfeiçoar no conhecimento das línguas originais; a comunidade de Deus agradece.

[i] Conhecimento das línguas originais deve ser como usar peças íntimas: fundamentalmente necessárias, mas altamente delegantes quando em evidência pública.

Da Parte de Deus e na Presença de Deus

Um Guia Para a Pregação Expositiva

Neste livro, o experiente pregador dominicano Sugel Michelén desenvolve tanto a teologia como a prática da pregação expositiva da Palavra de Deus; um livro que traz a sensibilidade de um pregador do contexto latino-americano de língua hispânica, que tem mais de 35 anos de experiência ministerial no púlpito, e que oferece ao leitor conselhos práticos sobre como apresentar a Palavra de Deus de modo fiel, abençoador e relevante para o bem e a edificação do povo de Deus.

CONFIRA

Por: Marcelo Berti. © Voltemos ao Evangelho. Website: voltemosaoevangelho.com. Traduzido com permissão. Original: A pregação como exegese pública: 5 dicas para seminaristas.

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