Aconselhamento Bíblico e o Legado de David Powlison

Nota do Editor: O membro do Conselho da TGC, David Powlison, morreu no dia 7 de junho, aos 69 anos de idade, depois de sofrer de câncer pancreático. Neste artigo, Tim Keller, vice-presidente da The Gospel Coalition, compartilha suas reflexões sobre Powlison. Jeremy serviu com David Powlison no conselho de diretores da Biblical Counseling Coalition.

Você conhece um homem pelo que ele ama. Isso é verdadeiro em qualquer papel que um homem assuma. Eu acho que é justo dizer que David Powlison preencheu o papel de líder primário no movimento de aconselhamento bíblico, e como influenciador sobre aqueles no evangelicalismo mais preocupado com o cuidado pastoral. Tenho certeza de que há várias razões para isso relacionadas às suas publicações e sua liderança da Christian Counseling and Education Foundation (CCEF). Mas para aqueles que estiveram mais próximos de sua liderança, a razão é clara: David encarnou o amor pelas coisas que aspiramos amar.

David amava muitas coisas, mas eu gostaria de salientar alguns amores em particular que aqueles de nós que andamos em seus passos deveríamos seguir.

David amava palavras.

Usamos palavras para dar sentido a este mundo, para capturar nossas experiências e atribuir significado a elas. David tinha fome de ler amplamente daqueles que são particularmente hábeis nisso – poetas, romancistas, ensaístas, comentaristas. Ele podia deleitar-se com aqueles momentos em que um escritor usa exatamente o texto certo. O tipo de frase tão preciso e eloquente que um leitor sente que os contornos de sua vida interior estão sendo lidos por si mesmos. Tais palavras permitem que alguém diga sim, eu experimentei o que você está falando. David tentou ser um escritor assim.

A escrita de David não é literatura. Mas é literária. Ele adorava criar palavras, não apenas escrevê-las. Ele queria a verdade expressa lindamente. Ao lê-lo, você pode dizer que ele trabalhou em muitas de suas frases por tempo suficiente para torná-las lúdicas, elegantes ou penetrantes. Mas seu amor pelas palavras também surgia em como ele falava com as pessoas. Tendo escutado por muito tempo, ele descreveria de volta a elas sua experiência com palavras de variedade mais vívida, com contornos mais limpos e linhas mais refinadas. Era magistral. David amava uma palavra apropriada – eram como maçãs de ouro em salvas de prata para ele. O amor de David pelas palavras não era incidental para quem ele era ou o que ele produzia. Aqueles de nós que desejam imitar David talvez devêssemos voltar nossos corações para uma boa escrita lendo amplamente. Leia para ver as experiências que você nunca teria por trás de mil pares de olhos diferentes. Leia para ver como é ter alguém descrevendo algo com tanta precisão que leva você a entender melhor sua própria experiência.

David amava a inter-relação do mundo de Deus.

Seja deslizando através do surf no litoral em sua prancha ou lendo um estudo do sono realizado recentemente, David estava convencido de que este mundo e tudo o que ele contém é uma grande e magistral expressão do gênio divino. Cada camada da existência relaciona-se de alguma forma a todas as outras porque todas elas se relacionam diretamente com o Deus de tudo. Ele se deliciava com a Hera que se estendia pelas paredes de tijolos numa lenta busca pela luz do sol não apenas porque era bonita, mas porque era de Deus.

Esse mesmo prazer permitiu que ele recebesse as notícias de câncer com uma alegria sóbria. Deus havia feito isso. Sim, o câncer é o crescimento descontrolado e a divisão de células que se desgarraram, multiplicando-se fora de seus limites projetados. Sim, o que causa o câncer é misteriosamente complexo – teria sido a exposição ambiental e genética a agentes cancerígenos? E sim, nossos olhos não penetram essas camadas da realidade. Mas Deus sim. E todos eles se relacionam com seus propósitos. E ele é bom. O câncer é parte da inter-relação de todas as coisas com Deus.

Esse amor pela inter-relação do mundo de Deus também fez de David um modelo de envolvimento com fontes de conhecimento fora da Palavra de Deus. Qualquer pessoa com quem ele interagisse e que viesse de uma abordagem teórica diferente – até as aproximações hostis aos princípios que ele nutria por ela – ele o fazia com uma rara combinação de humildade e convicção. O que David fez melhor que a maioria foi o engajamento crítico. Ambas as palavras são importantes para entender como ele fazia isso. Criticar é perceber divisões – discernir entre o que é agradável ou desagradável para o Senhor em uma dada porção do conteúdo. Mas envolver-se é reconhecer a legitimidade inerente à tentativa desse conteúdo de fazer uma boa pergunta e buscar uma boa resposta.

As críticas que ele fazia às pessoas com quem discordava eram docemente devastadoras – tornadas ainda mais eficazes pelo apreço que demonstrava por qualquer bem que encontrasse em seus insights. Sua crítica era simpática, muito mais devastadora do que as destituições genéricas ou condenações arrebatadoras. Você sempre tinha o bom senso de David de que ele havia aprendido algo valioso com as pessoas com quem ele discordava veementemente. Cada perspectiva informava-o de algum fator no mundo inter-relacionado de Deus.

Aqueles que têm dado suas vidas para um campo de estudo semelhante devem imitar David aqui. Todo ser humano tem um conjunto limitado de experiências no mundo, e nós crescemos e expandimos coletando insights em uma variedade mais ampla de experiências. Se formos consistentes em nossa compreensão dos seres humanos como indivíduos limitados que precisam de comunidade, devemos nos engajar com um conteúdo mais amplo.

David amou o poder interpretativo da Palavra de Deus.

David viu o mundo com novos olhos (pisque para aqueles que estão familiarizados com sua escrita), mas talvez seja melhor dizer que viu o mundo com olhos renovados. Os olhos de um coração se aprofundando continuamente em seu amor pela Palavra de Deus.

Quando David compartilhava seus últimos pensamentos em forma escrita ou falada, você nunca tinha a sensação de que estava entusiasmado com uma nova teoria que ele havia encontrado ou uma nova metodologia que ele estava desenvolvendo. Em vez disso, você ouvia sua empolgação por ele ter sido recentemente capaz de discernir de outra forma a Palavra de Deus iluminando o mundo. Ele amava os temas das Escrituras e a perspectiva única da vida que cada um proporciona. Ele tinha um senso contínuo de descoberta no mundo das Escrituras.

Devemos imitar esse amor, de modo que estejamos sempre mais impressionados com o poder explicativo das Escrituras acima do poder explicativo de qualquer outra coisa. A Escritura, por si só, fornece acesso direto e totalmente confiável à perspectiva de Deus de tudo e, portanto, possui autoridade incontestável. Nossa primeira e mais feliz tarefa é buscar a compreensão de nossas vidas nas profundezas da sabedoria divina. Nosso amor pelas Escrituras deve transbordar aos nossos olhos, mudando a maneira como vemos tudo.

David amava ajudar as pessoas a se relacionarem com a Palavra de Deus e com o mundo dele.

O amor de David pelas pessoas e seu amor pela Palavra convergiram como duas correntes que se juntaram em um só rio. Este rio fluiu pelo centro da paisagem do ministério de David, levando vida a inúmeras pessoas.

Seu amor pelas pessoas era como uma atmosfera em que você entra quando conversa com ele. Como poucas pessoas que conheço, David se interessaria pela pessoa sentada à sua frente, feliz por explorar sua experiência única. Você se sentia à vontade em falar sobre qualquer coisa, desde a teoria do aconselhamento até o esporte na Filadélfia.

Esse amor pelas pessoas não era apenas um sentimento. Isso o levava a conduzir as conversas em direção ao que traria mais benefícios à alma. Ele fazia isso gentil e sutilmente, como se Jesus Cristo fosse o fim natural de qualquer conversa humana. Nunca era abrupto, nunca eradesconfortavelmente forçada. Era como a gravidade.

Devemos imitar a órbita das conversas de David valorizando as experiências das pessoas o suficiente para ouvir, depois relacionando essas experiências a Deus como seu maior contexto. Esse talvez seja o maior conjunto de habilidades que David mostrou, que era algo mais profundo do que um simples conjunto de habilidades. Era um jeito de ser para ele.

David amava seu Deus invisível.

Embora David nunca tivesse visto Deus, David o amava. Este é o dom da fé. Em David, essa fé forjou uma capacidade particularmente forte de reconhecer e se deliciar com a beleza de Deus. Mas David agora vê seu Deus e ainda o acha mais bonito do que ele poderia imaginar. David está vendo Deus com olhos verdadeiramente novos.

Esses são os amores que caracterizaram David. Eu oro para que esses sejam os amores que nos caracterizam enquanto continuamos seus esforços.

Por: Jeremy Pierre. © The Gospel Coalition. Website: thegospelcoalition.org. Traduzido com permissão. Fonte: Biblical Counseling and the Legacy of David Powlison.

Original: Aconselhamento Bíblico e o Legado de David Powlison. © Voltemos ao Evangelho. Website: voltemosaoevangelho.com. Todos os direitos reservados. Tradução: Paulo Reiss Junior. Revisão: Filipe Castelo Branco.

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