Confissões de um viciado em louvor

A cena continua viva na minha memória, embora já se tenham passados quase 20 anos.

Estou sentado no meu quarto ao lado de nossa grande e velha casa da fazenda, um adolescente, apático naquela hora da noite quando qualquer coisa é melhor que dever de casa. É uma noite quente de verão e as cigarras cantam seu coro como um exército de manifestantes com assobios. No meu pequeno toca-fitas Sanyo, coloco uma fita emprestada de um amigo. Keith Green, O mais recente cantor e compositor cristão – bem, “o mais recente” se comparado ao uísque Lismore 12 anos.

Repito uma música várias vezes. O refrão dá um acorde profundo: “Quando ouço os louvores começar, não vejo nenhuma mancha em você, porque você é meu filho e você me conhece. Para mim você é apenas santo, nada do que você tenha feito permanece apenas o que você faz por mim”.

Eu escuto atentamente. “Quando ouço os louvores começar, não vejo mancha em você”. Eu pondero como eu poderia louvar a Deus dessa maneira, para que ele olhasse para mim tão favoravelmente. O fato de que essa “salvação-pelo-louvor” seja um tanto desonesta teologicamente não entra na minha cabeça. Tudo em que estou interessado é em como começar. Talvez eu deva ir à noite de “oração e louvor” às quartas-feiras na igreja e ver como isso é feito …

Assim começou, para um cristão adolescente um pouco confuso, uma preocupação com o “louvor” como um aspecto fundamental da vida cristã. Como a maioria das preocupações adolescentes, se manteve intensa por alguns meses até que alguma outra coisa ocupasse seu lugar. Enquanto durou, eu fui obedientemente à noite de oração e louvor, onde eu descobri que a parte do “louvor” consistia em cantar refrões devocionais, geralmente com os olhos fechados e braços erguidos. Li os livros de Merlin Carruthers, Prison to Praise e The Power of Praise, que me encorajaram a repetidamente dizer “Aleluia” em relação aos problemas da minha vida, a fim de fazê-los desaparecer. Também tentei isso no meu irmãozinho com sucesso limitado.

Uma coisa que eu nunca compreendi, como um adolescente fervoroso, era o que exatamente significava “louvor”. Por muito tempo presumi que você louvava ao Senhor dizendo “Aleluia”, até que alguém me informou que “Aleluia” era apenas a palavra hebraica para “Louvado seja o Senhor”. Isso não me ajudou muito, porque significava que todos nós estávamos dizendo uns aos outros para “Louvar ao Senhor” o tempo todo (já que obviamente não estávamos pedindo a Deus para que ele  “Louvasse ao Senhor”), mas nós não estávamos, na verdade, continuando com o “louvor” – seja lá o que quer que ele fosse.

Comecei então a pensar que talvez o “louvor” fosse apenas outra maneira de dizer “cantar”, já que era o que sempre fazíamos quando o ministro ou líder nos convidava para “louvar a Deus”. Talvez louvar fosse isso – era cantar uma canção a Deus. Eu ainda não tinha certeza disso.

Embora todos parecessem concordar que o louvor era uma parte vital da vida cristã, e que isso tinha algo a ver com a oração, e que provavelmente deveria ser cantado, ninguém nunca me disse realmente como fazê-lo. Minhas experiências nos vinte anos que se sucederam também não fizeram nada para aliviar minha confusão.

E então, para o propósito deste artigo. O que exatamente é “louvor”? E como se faz isso?

Ao responder a essas perguntas, examinaremos principalmente esse livro em que mais da metade de todas as referências bíblicas a “louvor” ocorrem – os Salmos. (Em nossa próxima edição, continuaremos esta análise dos Salmos para ver como o louvor se relaciona com a oração e como os salmos podem nos ajudar em nossas orações.)

A importância da “publicidade”.

O título hebraico para os Salmos (tehillim) significa simplesmente “louvores”, e certamente não podemos ler muitos salmos sem encontrar o chamado familiar para louvar (“Louvai ao Senhor”) ou alguma outra expressão de louvor (“eu te louvarei, ó SENHOR”).

Em seu contexto original, os Salmos eram provavelmente algo como o hinário de Israel. Muitos, se não todos, eram acompanhados de música, e parece provável que o templo fosse o lugar habitual onde eram cantados.

Mas, se é claro que a música esteve frequentemente envolvida no louvor de Israel, é igualmente claro que era o acompanhamento para louvar, não o louvor em si. O canto era muitas vezes o modo de expressão, e os instrumentos musicais eram o acompanhamento (“Eu te louvarei com a lira e a harpa”), mas o que estava sendo expresso e acompanhado? Quando soou o chamado para “Louvar ao o Senhor”, o que os israelitas na congregação esperavam que acontecesse a seguir? O que era o “louvor”?

O que é louvor?

Para muitos cristãos modernos, “louvor” é um encontro pessoal com Deus, geralmente com um tom fortemente emocional, no qual falamos ou cantamos para ele e lhe dizemos o quanto o amamos e o honramos. “Nós te louvamos Senhor. Nós te honramos, te glorificamos, exaltamos o teu grande e glorioso nome; louvamos-te Jesus”, e assim por diante. O louvor é geralmente visto como uma prática religiosa especial, normalmente a ser realizada nas reuniões da igreja.

Graças, em grande parte ao movimento carismático, é aqui que “louvor” está frequentemente localizado na consciência cristã moderna. Geralmente é proferido ao mesmo tempo que “adoração” – como nos onipresentes álbuns de “louvor e adoração” que inundam livrarias cristãs e mídias de música dos carros. É uma experiência de comunhão com Deus, onde a presença de Deus é especialmente encontrada.

No entanto, como tantas vezes acontece com as palavras e ideias bíblicas, a palavra hebraica traduzida como “louvor” descreve uma atividade muito mais comum e secular. Suponhamos que vemos um amigo fazendo algo excelente ou percebemos uma boa qualidade ou atributo em seu caráter. “Louvor” acontece quando, tendo observado essa excelência, falamos a outras pessoas sobre isso. Podemos ficar de pé com nosso amigo diante de seus colegas e dizer a todos, bem na frente dele, o que ele fez e como é excelente. Nós o elogiamos. Descrevemos quão nobre é seu caráter ou quão extraordinárias são suas realizações.

Louvor é essa proclamação de quão bom alguém é. É “publicidade”. Nos Salmos, é publicidade sobre Deus. Consiste em contar o mais alto e amplamente possível as excelências do Deus de Israel, para que todos possam honrá-lo.

Assim, quando há uma exortação para louvar a Deus nos Salmos, ele é invariavelmente seguido pelo próprio louvor – a declaração de seu caráter e feitos poderosos para o indivíduo ou a nação. O salmo 96 é um exemplo clássico:

“Cantai ao SENHOR um cântico novo, cantai ao SENHOR, todas as terras. Cantai ao SENHOR, bendizei o seu nome; proclamai a sua salvação, dia após dia. Anunciai entre as nações a sua glória, entre todos os povos, as suas maravilhas. Porque grande é o SENHOR e mui digno de ser louvado, temível mais que todos os deuses. Porque todos os deuses dos povos não passam de ídolos; o SENHOR, porém, fez os céus. Glória e majestade estão diante dele, força e formosura, no seu santuário”. (Salmo 96. 1-6).

Essa proclamação pública da grandeza de Deus nos Salmos abrange toda a gama do caráter e das realizações de Deus. Ele é aclamado por ser o todo-poderoso Criador e sustentador de todas as coisas (Sl 74; 104), o Juiz da Terra (Sl 33. 6-9,13-15; 11), que governa com justiça (Sl 9. 8) e age com firme e infalível amor (Sl 136). Os Salmos ressoam com a maravilha de que esse Deus bom, justo e bom entrou em aliança com Israel, que ele baixou das alturas para amá-los em suas profundezas. Ele é o Redentor de Israel, ambos corporativamente (Sl 105; 136; 89) e individualmente (Sl 22; 30; 32).

O louvor, então, é essencialmente publicidade, por mais odiosa que essa comparação possa parecer. De fato, para provocar ainda mais a comparação, é como anunciar de três maneiras.

Louvor e música.

Como a publicidade, o louvor pode ser acompanhado pela música, embora a música não seja a essência dele. Música é louvar como o jingle é publicidade. Pode torná-lo eficaz, memorável, até mesmo grandioso, mas a menos que o produto seja realmente descrito e promovido, a música é de pouca utilidade.

No caso do louvor a Deus, é mais apropriado fazer um som – como no Salmo 150, onde uma verdadeira orquestra é montada para acompanhar o louvor. É apropriado não apenas por causa da alegria e celebração que naturalmente se desenvolvem no povo de Deus, por ele se recordar de todas as misericórdias de Deus, mas também porque torna a publicidade mais eficaz. A música não é para o benefício de Deus, como se ele gostasse de uma boa música, ou como se Baal precisasse acordar com um barulho alto. É mais para aqueles que ouvem, de modo que, no contexto do templo, a proclamação da grandeza de Deus possa ter um grande efeito.

Talvez um salmista moderno escreveria: “Louvai a Deus com um poderoso sistema de PA, e com o som regulado em 11”.

Formas diferentes.

Como publicidade, o louvor pode assumir diferentes formas. Muitas vezes, nos Salmos, é na terceira pessoa – isto é, é falado ou cantado sobre Deus, sendo dirigido àqueles que ouvem e não ao próprio Deus. Isso ocorre na presença de Deus, sem dúvidas, mas é dirigido àqueles que estão ouvindo:

“Do nascimento do sol até ao ocaso, louvado seja o nome do SENHOR. Excelso é o SENHOR, acima de todas as nações, e a sua glória, acima dos céus. Quem há semelhante ao SENHOR, nosso Deus, cujo trono está nas alturas, que se inclina para ver o que se passa no céu e sobre a terra? Ele ergue do pó o desvalido e do monturo, o necessitado, para o assentar ao lado dos príncipes, sim, com os príncipes do seu povo. Faz que a mulher estéril viva em família e seja alegre mãe de filhos. Aleluia”! (Sl 113. 3-9).

Às vezes é na forma de um testemunho pessoal:

“Esperei confiantemente pelo SENHOR; ele se inclinou para mim e me ouviu quando clamei por socorro. Tirou-me de um poço de perdição, de um tremedal de lama; colocou-me os pés sobre uma rocha e me firmou os passos. E me pôs nos lábios um novo cântico, um hino de louvor ao nosso Deus; muitos verão essas coisas, temerão e confiarão no SENHOR”. (Sl 40.1-3).

E às vezes é endereçado diretamente ao próprio Deus:

“Render-te-ei graças, SENHOR, de todo o meu coração; na presença dos poderosos te cantarei louvores. Prostrar-me-ei para o teu santo templo e louvarei o teu nome, por causa da tua misericórdia e da tua verdade, pois magnificaste acima de tudo o teu nome e a tua palavra. No dia em que eu clamei, tu me acudiste e alentaste a força de minha alma. Render-te-ão graças, ó SENHOR, todos os reis da terra, quando ouvirem as palavras da tua boca”, (Sl 138. 1-4).

No entanto, mesmo quando o louvor é dirigido a Deus, ele tem o caráter de proclamação. O salmista fala ou canta a Deus sobre todas as coisas que Deus é e fez, mas está fazendo isso na frente dos outros. Deus é “louvado” quando os outros ouvem falar das coisas maravilhosas que ele fez. O que nos leva à terceira consideração de como é como louvor é publicidade.

Louvor é público.

Assim como não se pode conduzir uma campanha publicitária em particular, ninguém pode “louvar” em particular. A natureza básica do louvor é a proclamação pública, reconhecimento e aclamação de Deus. Observe como o salmista expressa isso no Salmo 40:

“Proclamei as boas-novas de justiça na grande congregação; jamais cerrei os lábios, tu o sabes, SENHOR. Não ocultei no coração a tua justiça; proclamei a tua fidelidade e a tua salvação; não escondi da grande congregação a tua graça e a tua verdade”. (Sl 40. 9-10).

É como se o ato de resgate ou libertação não fosse apenas para o salmista. É dado a ele para que ele possa proclamá-lo para toda a comunidade. Escondê-lo ou mantê-lo para si mesmo é impensável. Ele deve testificar na grande assembleia (Sl 35.18).

Isso, é claro, não quer dizer que em nossas orações particulares não damos graças a Deus por quem ele é e pelo que ele faz. Expressamos nossa adoração por seu caráter e obras gloriosas. No entanto, se vamos usar palavras bíblicas, devemos usá-las de maneira bíblica. Essa ação de graças pessoal e privada não é “louvor” no sentido bíblico. Louvor sempre tem o caráter de proclamação pública.

Publicidade e nós.

No NT, o louvor tem a mesma forma básica que no AT. Como Hebreus 13.15 diz:

“Por meio de Jesus, pois, ofereçamos a Deus, sempre, sacrifício de louvor, que é o fruto de lábios que confessam o seu nome”.

Ou como Pedro expressa:

“Vós, porém, sois raça eleita, sacerdócio real, nação santa, povo de propriedade exclusiva de Deus, a fim de proclamardes as virtudes daquele que vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz; vós, sim, que, antes, não éreis povo, mas, agora, sois povo de Deus, que não tínheis alcançado misericórdia, mas, agora, alcançastes misericórdia”. (1Pe 2. 9-10).

O louvor é uma confissão, um testemunho, uma declaração do que Deus faz. Naturalmente, para nós, a quem chegou o fim dos séculos, o louvor não mais se concentra no templo físico de Jerusalém e em sua adoração. Através de Jesus, somos todos templos do Espírito Santo, e assim o louvor acontece não no contexto cúltico de uma reunião no templo, mas sempre e onde quer que “confessemos seu nome”. Quando declaramos sua grandeza para os outros, contando como ele nos mostrou misericórdia e nos chamou para ser seu próprio povo, então estamos louvando a Deus.

No Novo Testamento, então, o louvor é um pouco semelhante ao evangelismo. É a publicidade dos poderosos feitos salvíficos de Deus. Por causa do que Deus fez por nós, testificamos. Não é algo que só fazemos na igreja, mais do que apenas proclamamos o evangelho quando nos reunimos. Não é algo que é definido somente como música.

Essa democratização ou expansão do louvor no NT espelha a forma como muitas categorias do AT são transformadas em Cristo – “templo”, “adoração”, “sacerdote”, “sacrifício” e assim por diante. De fato, muitos dos erros e problemas que enfrentamos na vida da igreja provêm de uma falha em reconhecer essa transformação.

No caso do louvor, muitas igrejas não conseguem libertar-se de um modo de pensar do AT / templo sobre como o louvor deve acontecer. O louvor é visto como uma atividade ou experiência religiosa, cultual, preparada para a música, a ser conduzida na igreja. Assim como Deus foi visto especialmente presente no templo do AT, sua presença especial era manifestada quando canções de louvor eram cantadas e uma atmosfera particular era criada.

Mas em Cristo, o Pai vem e faz sua habitação dentro de cada um de nós através do seu Espírito. Ele está constantemente presente. Nossa adoração espiritual é o sacrifício de toda a nossa vida para ele (Rm 12. 1-2), e nosso louvor, da mesma forma, é a confissão ao longo da vida e em toda a nossa vida, diante do mundo, do que ele fez por nós.

Também deve ser dito que muitas igrejas hoje não reconhecem a natureza básica do louvor, nos Salmos e no NT. Louvor não é fazer música bonita para Deus. Não é um encontro pessoal e místico com Deus. Nem louvamos a Deus dizendo: “Nós te louvamos, Deus, obrigado Jesus, Aleluia”.

Louvor é publicidade. É lembrar e declarar quem é Deus e o que ele fez. Acontece pelo ouvir, é feito contando aos outros. É exaltar a Deus, falar bem dele, transmitindo suas virtudes e excelência. Louvor brota da salvação, do que ele fez por nós. Louvor é o testemunho dos redimidos.

E nesse sentido, suponho, Keith Green estava no caminho errado. Ele deveria ter cantado: “Porque não há mancha em você, eu quero ouvir o louvor começar”.

Por: Tony Payne. © Matthias Media. Website: matthiasmedia.com. Traduzido com permissão. Fonte: Confessions of a teenage praise junkie.

Original: Confissões de um viciado em louvor. © Voltemos ao Evangelho. Website: voltemosaoevangelho.com. Todos os direitos reservados. Tradução: Paulo Reiss Junior. Revisão: Filipe Castelo Branco.

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