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Jovens, não somos o Gandalf da teologia

Quando comecei o Voltemos Ao Evangelho, eu tinha claro que não sabia nada e por isso preferi traduzir grandes mestres. Conforme fui aprendendo mais, sempre me perguntava se havia chegado “a hora” de ensinar mais. Só que algo parecia não encaixar.

Estava estudando sobre liderança e marketing e acabei me deparando com um material de Michael Hyatt (ex-CEO da Thomas Nelson) que me levou a refletir sobre como comunico meu aprendizado teológico. Em uma postagem, ele fala que muitas vezes falhamos, pois não sabemos qual nosso papel. Segundo Hyatt:

“Ser autêntico é essencial para o seu sucesso na construção de uma plataforma. Isso significa que você deve ser fiel a si mesmo e se comunicar a partir de quem você é – não quem você gostaria que fosse.”

E é aqui que nós, jovens teólogos, nos estrepamos.

Autenticidade na comunicação

Normalmente, queremos nos comunicar como algo que ainda não somos. É isso é falta de integridade. Precisamos ser autênticos e nos comunicar de forma adequada. Hyatt, refletindo sobre vozes de liderança, lista três possibilidades:

  1. Sábio (sage): Especialista reconhecido em seu campo. Tem algo externo que lhe dá credibilidade. Fala com a voz da autoridade. Personagem: Gandalf.
  2. Xerpa (sherpa – são guias e auxiliares de montanhistas): É um guia confiável. Subiu a montanha, desceu e voltou para mostrar o caminho. Cometeu erros, mas aprendeu com eles. Pode ajudar a evitar os erros mais comuns. Fala com a voz de confiança e empatia. Personagem: Aragorn.
  3. Pelejador (struggler): É um companheiro de viagem. Não chegou, mas está em processo. Relata suas aventuras e desventuras. Leva os outros ao longo de sua jornada. Fala com a voz da transparência. Personagem: Frodo.

Jovens teólogos, nós somos o terceiro. Ponto final. Não somos o Gandalf nem o Aragorn da teologia. Estamos ainda escalando a montanha do saber teológico. Então, precisamos saber nos comunicar apropriadamente.

Humildade na comunicação

Sendo assim, em vez de escrevermos nas redes sociais e blogs com um tom de que já entendemos tudo em teologia (“Carson e Wright estão no bolso”), que já dominamos os segredos do ministério pastoral (“Baxter e Lloyd-Jones são incompletos”), que já deciframos as complexidades do aconselhamento (“Powlison e Welch são rasos demais”), precisamos reconhecer que mal lemos sequer 5 livros sobre um assunto específico.

Certa vez, Tim Keller disse que se ouvimos ou lemos somente um pensador, tornamo-nos um clone. E é muitas vezes o que acontece conosco. Lemos um livro que contrapõe outro livro e já escrevemos um textão (é… também fazemos isso) mostrando como tal teólogo é um herege (é… também usamos mal este termo).

Contudo, a realidade é que quando saímos do seminário, temos um conhecimento superficial sobre generalidades teológicas. O seminário é um ponto de partida. Mas as paixões da mocidade (e nossa soberba – mas melhor culpar a idade, né?) nos levam a pensar que já dominamos os complexos aspectos da rica produção teológica.

Isso não significa escrever sem confiança, mas comunicar com humildade.

Compartilhemos o que estamos aprendendo como de fato o é: estamos aprendendo, somos pelejadores. Portanto, Quando formos contrariar grandes teólogos, pastores e mestres, devemos tomar cuidado com o nosso tom. Talvez devamos fazer mais perguntas e acrescentar mais “em minha perspectiva” e “com o pouco estudo que tenho, parece-me” em vez de sermos tão dogmáticos.

Evangelho na comunicação

Se cremos que somos justificados somente pela fé nos méritos de Cristo, então não temos nada a provar para ninguém. Nem para nós mesmos. Podemos reconhecer que somos deveras limitados. Em grande parte, burros. Muitas vezes, preguiçosos mesmo.

Se cremos que temos paz com Deus independente da riqueza da nossa teologia, então podemos nos livrar do transtorno obsessivo compulsivo de Marta de querer opinar sobre tudo e parar e simplesmente nos sentar aos pés de Jesus e aprender. A Igreja não irá morrer; o Reino não será abalado.

Lembro-me de Jonas Madureira lecionando certa vez sobre a necessidade e importância na vida do aprendiz de fechar a boca e sentar aos pés de mestres. Recordo-me de Gilson Santos (Instituto Poimênica) falando sobre a importância de ter lastro. Recapitulo ouvir Tiago Santos me alertando sobre a importância de chão de igreja.

Sei que é frustrante. Somos jovens, queremos ação, queremos ver as coisas mudarem. Mas somos tolos em nosso pensar, imprecisos em nossa comunicação e desequilibrados em nosso tom. Talvez neste momento, precisemos de mais reflexão, lastro e chão de igreja.

Recomendação final: leia esta entrevista no qual Keller fala sobre escrever livros cedo no ministério.

Por: Vinicius Musselman Pimentel. © Voltemos ao Evangelho. Website: voltemosaoevangelho.com. Todos os direitos reservados. Original: Jovens, não somos o Gandalf da teologia.

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